Livrai-nos do mal
Capítulo 61
– EM PRIMEIRO LUGAR, AONDE vocês querem ir?
Shaw dirigia ao lado de Whit. Reggie e Dominic estavam no banco traseiro do Range Rover. Dominic havia adormecido por causa dos analgésicos.
Reggie e Whit se entreolharam.
– Esta é uma pergunta válida, não? – indagou Shaw, tamborilando no volante. – Assim fico sabendo mais ou menos qual direção tomar.
– Norte – respondeu Reggie quando Whit a encarou.
– Norte? – perguntou Shaw. – Paris? Normandia? Calais?
– Mais ao norte.
Shaw olhou para Whit.
– Canal da Mancha? Mar do Norte? Você moram em um barco?
– Engraçadinho.
– Quer dizer que são britânicos? Puxa vida! – exclamou Shaw em tom sarcástico.
– Lembre-se: eu sou irlandês, e não britânico – retorquiu Whit. – Mas vou deixar passar. Desta vez. Você tem alguma ideia de como atravessar o Canal da Mancha? Talvez este carro seja anfíbio.
– Vocês têm passaportes?
– Ficaram para trás. Mas podemos dar uns telefonemas e logo conseguir novos. Na verdade, não sei para que precisamos de você.
– Porque eu sei o que estou fazendo. E não subestime a polícia francesa.
Whit balançou a cabeça lentamente.
– Não subestimo ninguém, muito menos você.
– Dê o telefonema. Diga que vamos nos encontrar em Reims daqui a quatro horas. Quando estivermos perto, ligamos e escolhemos o local.
– Você conhece a França? – questionou Whit.
– Até falo o idioma razoavelmente – falou Shaw.
– Sorte a sua.
Whit combinou de se encontrar com um dos agentes do grupo que tinha os documentos falsos.
– Tudo bem, resolvido. E agora?
– Recoste-se no banco e relaxe.
Whit manteve a arma empunhada.
– E depois de Reims?
– Como não podemos arriscar um aeroporto, o trem que cruza o Canal da Mancha até a estação de St. Pancras é a rota mais direta. Por isso precisamos de passaportes. Se não der certo, vamos para o leste e cruzamos o canal de barco. Talvez da Bélgica ou de Amsterdã.
– O controle de passaportes é bastante rigoroso na Gare du Nord – observou Reggie.
– É verdade, mas a segurança nos aeroportos é ainda mais. E há menos saídas em um aeroporto se algo der errado. E muitas delas têm vários seguranças armados.
– Tudo bem, o trem. E depois?
– Vamos improvisando.
– Para quem você trabalha? – indagou Reggie, inclinando-se para a frente.
– Para Frank, o sujeito que está no avião. Isso é a única coisa que vocês precisam saber.
– Então vocês são policiais – concluiu Whit.
– Eu não descreveria nosso trabalho dessa maneira.
– Espiões.
– Sem comentários.
– O que sobra?
– Eu.
Whit sorriu e olhou para Reggie.
– Estou começando a gostar do grandão, Reg. Sério mesmo. Shaw, exército de um homem só, o negócio é o seguinte: se chegarmos à Inglaterra sãos e salvos, você segue seu caminho e nós seguimos o nosso.
– Quem vai protegê-los de... qual é mesmo o nome dele? Kuchin?
– Você obviamente não sabe quem ele é – disse Reggie.
– E deveria?
– Existiu um homem chamado Mykola Shevchenko. Da KGB. Era conhecido como o Carniceiro de Kiev, mas Kuchin era seu principal assistente. Foi ele que massacrou centenas de milhares de inocentes com os métodos mais brutais possíveis. Shevchenko foi executado por um pelotão de fuzilamento após a queda do Muro, mas Kuchin fugiu.
– Acho que a história só se lembra dos chefões, e não de quem puxava o gatilho – comentou Shaw. – Então, vocês estão atrás desse sujeito por causa disso. Qual é a conexão? Algum de vocês é ucraniano?
– Sim, por parte de mãe – falou Whit com um sorriso irônico. – Ah, e respondendo a sua outra pergunta, podemos nos proteger sozinhos.
Shaw lhe lançou um olhar cético.
– Vocês fizeram um ótimo trabalho até aqui.
– Às vezes os planos dão errado, as coisas não funcionam, imprevistos acontecem.
– Sem essa! Foi um fiasco do começou ao fim – disparou Shaw.
– Bem, vocês também estavam lá para pegá-lo e desistiram sem nem tentar. Nós pelo menos tentamos – rebateu Whit.
– A decisão não foi minha.
– Onde vocês iam atacá-lo? – perguntou Reggie.
Shaw hesitou.
– Les Baux, nas cavernas.
Ela refletiu.
– Provavelmente, um lugar melhor do que o que nós escolhemos.
– Ei! – interveio Whit. – Fizemos o melhor possível. E sua aparição não melhorou as coisas – acrescentou, encarando Shaw. – Talvez não tenhamos jatinhos sofisticados, mas em geral damos conta do recado.
– Se é o que você diz... Mas, se vocês acham que podem se proteger desse cara sem ajuda, estão enganados. Perguntem a uns muçulmanos mortos.
– Isso não me importa. E quer saber? Vou atrás dele de novo. E, desta vez, vamos conseguir pegá-lo.
– Vocês vão morrer.
– Por que você não cala a boca e dirige? – resmungou Whit e se virou para a frente, mal-humorado.
Shaw olhou para Reggie pelo retrovisor.
Vai ficar tudo bem, articulou ele com os lábios.
Mas, no mesmo instante em que dizia aquelas palavras, Shaw sabia que estava mentindo.
Ele voltou a olhar para a estrada.