Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 75 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 73

 

– NÃO PODEMOS PELO MENOS comer antes de o momento do faz de conta terminar? – perguntou Reggie, séria.

– Isso significa tanto assim para você?

– Na verdade, sim.

Shaw lançou um olhar para o garçom que rondava a mesa.

– Tudo bem, este não é mesmo um bom lugar para conversar sobre assuntos sérios.

A comida chegou e eles falaram sobre amenidades. Outra garrafa de vinho, só que tinto, foi pedida e consumida por inteiro. Tomaram café e dividiram uma sobremesa que levava coco e pedaços de glacê branco por cima. Shaw pagou a conta com um cartão de crédito.

– A. Shaw? – indagou Reggie, espiando o nome no pedaço de plástico. – “A” de quê?

– Absolutamente nada.

Ele assinou na linha pontilhada e os dois se levantaram e foram embora. A noite ainda estava quente, pelo menos para os padrões de Londres, embora Reggie desejasse naquele momento ter trazido um suéter. Notando que ela estava com frio, Shaw tirou o paletó e o jogou sobre seus ombros. Ficou parecendo um vestido.

– Quarenta e seis extralongo? – indagou ela, segurando o tecido.

– Algo assim. Como estão seus pés?

– Depende do lugar para onde estivermos indo.

– Meu hotel fica naquela direção. Dez minutos de táxi.

Ela fez uma expressão de surpresa.

– Seu hotel?

– Ou podemos ir para a sua casa.

– Por que só essas duas opções?

– Também podemos ir a outro lugar público, conversar a respeito, com esperança de que ninguém nos ouça.

Reggie pensou no casal assanhado no apartamento de cima.

– Minha casa não é muito silenciosa.

– Meu hotel é.

– Onde fica?

– É o Savoy. Foi reaberto recentemente. Linda vista do rio. Muito bom.

– E aquele seu papo de ser “atirado”? Ir para o seu quarto a esta hora da noite parece se encaixar nessa categoria.

– Isso foi antes; agora a situação é outra. Podemos pegar um táxi. Fica na Strand.

– Sei onde fica.

– Então vamos.

Um taxista que tinha “O Conhecimento” – que é como os londrinos se referem ao mapa mental da cidade que os motoristas devem aprender ao longo dos anos – os levou depressa por Piccadilly até a Haymarket, circundou lorde Nelson e seus pombos e entrou na Strand.

– Sempre me perguntei por que o único lugar onde as pessoas dirigem na direita em toda a Grã-Bretanha é a pequena rua que leva à entrada do Savoy.

– É porque o átrio do hotel era estreito demais para que os cocheiros chegassem até a porta se permanecessem à esquerda. – Shaw a olhou, surpreso. Reggie disparou: – O que foi? Sou inglesa, afinal de contas.

Os dois entraram no saguão, subiram um lance de escadas e tomaram um elevador até o quarto de Shaw. Ele fechou a porta, largou as chaves sobre a mesa e indicou uma cadeira para Reggie enquanto se sentava na beirada da cama.

– Malditos saltos altos! – Ela tirou os sapatos e esfregou os pés doloridos. – E agora?

– Agora, falamos de sobrevivência.

– A sua ou a minha?

– Ambas, se tivermos sorte.

– Seu chefe não pareceu estar muito a fim de trabalhar conosco. Ele mais parecia querer nos prender.

– É o que ele deveria ter feito?

As feições de Reggie se endureceram.

– Não vou pensar por ele.

Shaw abriu o cofre do quarto, que ficava dentro de um armário, puxou uma pasta e folheou algumas páginas.

– Fedir Kuchin. Andei lendo sobre ele.

– Eu poderia ter lhe poupado esse trabalho. Temos montanhas de documentos sobre o monstro.

– As pessoas achavam que ele estava morto, que tivesse sido assassinado em um levante na Ucrânia anos antes da queda do Muro.

– Estratégia de fuga cuidadosamente orquestrada. Vários deles fizeram isso.

Shaw olhou para ela por cima da pasta.

– “Vários deles”? O que exatamente você e seus camaradas fazem em Harrowsfield?

– Algo que eu não posso revelar a você. Jamais.

– Você vai ter que revelar a alguém.

– Por quê? Você já contou ao seu chefe sobre o lugar?

– Não contei nada a ele sobre coisa alguma. O que estou dizendo é que você talvez vá precisar de um amigo neste caso.

– E você é esse amigo? – ironizou ela.

– Eu não disse isso. Não conheço o suficiente dessa história para saber se quero ser seu amigo ou não.

– Você quer dizer que pode acabar se voltando contra nós?

– Apenas me conte.

Reggie se levantou e começou a andar descalça de um lado para o outro, contraindo e alongando os dedos do pé sobre o carpete macio, tentando se livrar da cãibra.

– Não é tão simples assim. Nada neste caso é simples, Shaw.

– Cabe a você simplificar ou não.

– Ah, pare com isso, você sabe que isso é papo furado.

– Talvez seja, mas estou achando difícil encontrar palavras para convencê-la a confiar em mim. Pensei que tinha conquistado um pouco da sua confiança em Gordes.

– Isso foi antes; agora a situação é outra – falou ela, repetindo os dizeres anteriores de Shaw.

– Acho que arriscar a vida não tem mais o mesmo peso de antigamente.

Reggie parou de andar e se sentou ao lado dele na cama. Olhou para o chão e suspirou.

– Não é verdade.

– Então, qual é o problema? Sei que Kuchin é um vilão.

– Mas você sabe o que íamos fazer com ele.

– Parece bastante óbvio.

– Presumo que você não siga essas regras.

– Não, a menos que seja uma questão de vida ou morte.

– É uma filosofia muito diferente.

– Como eu já disse, não tenho autoridade para prender ninguém.

– Certo, claro.

Ela se levantou, foi até a janela e abriu a cortina.

– A vista mais bonita de Londres – opinou Shaw, se juntando a Reggie.

Feliz pela mudança momentânea de assunto, Reggie apontou para uma estrutura iluminada ao longe.

– Você já foi à London Eye?

– Uma vez, mas só porque um sujeito que eu estava seguindo resolveu dar uma volta.

Reggie apontou para outra construção.

– Você sabia que Claude Monet pintou um retrato da ponte de Waterloo de uma das sacadas aqui do Savoy? E que Fred Astaire dançou no terraço?

– Não, eu não sabia.

Reggie fechou a cortina e se virou para ele.

– Mas a história mais estranha que já ouvi sobre o Savoy tem a ver com um gato chamado Kaspar. É o morador mais antigo daqui. Toda vez que realizam um jantar no Savoy com 13 convidados, Kaspar ocupa o 14o lugar.

– Isso porque, segundo a superstição, a primeira pessoa que se levanta em um grupo de treze pessoas morre?

– Exato. Acho que Agatha Christie até escreveu um livro a respeito.

– Mas comer com um gato?

– Kaspar é uma escultura de madeira, o que o torna uma companhia inestimável, nem que seja por sua discrição e silêncio.

– Bela história – elogiou Shaw.

– Não é?

– Quantos outros Kuchins vieram antes?

– Você está perguntando isso só porque falei “vários deles”? Ótimo raciocínio.

– Não exatamente.

– Por quê, então?

– Ninguém age tão bem assim de primeira.

– Não sei até que ponto somos bons. Gordes foi uma grande sucessão de erros, como você disse.

– Sempre há imprevistos em campo, por melhor que tenha sido o planejamento. Mas, a meu ver, vocês têm dois grandes problemas, que talvez estejam ligados.

Ela voltou a se sentar na cama e encarou Shaw.

– Muito bem. Quais?

– Primeiro, vocês caem em emboscadas. Isso significa que vocês permitem que alguém os espione ou que existe um agente infiltrado.

– E o segundo?

– Kuchin ainda está à solta. E, a menos que o sujeito destas páginas – ele deu uma batidinha no dossiê – tenha amolecido, ele não vai esquecer essa história. Se ele matou os terroristas muçulmanos, é porque ainda tem um ímpeto assassino. Se ele também tem um espião no meio de vocês, as coisas se tornam ainda mais problemáticas.

– Mas, se ele tivesse um espião, como poderíamos tê-lo levado até as catacumbas?

– Não tenho certeza. Seja como for, a questão é: o que vocês vão fazer?

– Para dizer a verdade, esse é um território novo para nós.

– Eu gostaria de ajudá-los.

– Você não sabe no que estaria se metendo, confie em mim.

– Isso é tudo o que estou pedindo: que você confie em mim.

– Nunca confiei em ninguém. Às vezes, não confio nem em mim mesma – falou ela, perturbada.

Shaw se sentou ao lado de Reggie na cama.

– Como você acabou envolvida nisso tudo?

– E como você acabou trabalhando nesse ramo? – rebateu ela, com raiva.

– Foi algo contra a minha vontade.

– Pois é, eu escolhi meu caminho.

– Então, também escolho seguir o mesmo caminho com você.

– Por quê? Por que me ajudar?

– Não tenho muitas oportunidades de ajudar os outros. Quando surge uma chance, tento não perdê-la.

A raiva de Reggie esmoreceu e ela tocou no rosto de Shaw.

– Quem foi Anna?

– Uma mulher com a qual eu me importava, como eu já disse.

– Sinto muito.

– Eu também.

– Eu não sou a Anna, Shaw.

Os olhos dele brilharam.

– Eu sei disso. Ninguém pode substituir Anna.

Shaw fez menção de falar algo mais, porém Reggie cobriu sua boca com a mão.

– Por favor. Não.

Reggie deslizou a mão até a bochecha dele.

– Reggie?

Ela balançou a cabeça, ficou de pé, abriu o zíper do vestido e o tirou, ficando à frente dele apenas de calcinha e sutiã. Era como se estivesse esperando que Shaw a mandasse parar. Ele a ficou olhando. Por fim, pôs a mão em seu quadril e o apertou de leve. Reggie o deitou na cama com um empurrão e montou por cima.

Ela atacou-lhe a boca, mordendo seu lábio inferior, beijou seu pescoço e seu rosto antes de voltar faminta para a boca enquanto ambos tiravam a roupa. Havia energia, raiva, desespero e até violência contida no embate entre os dois.

Reggie e Shaw estavam ensopados de suor, pois o novo sistema de climatização do Savoy não conseguia dar conta de todo o fogo daquele encontro sôfrego. No final, os dois se jogaram emaranhados na cama, o cabelo dela nos olhos de Shaw, o joelho dele entre as pernas de Reggie, cujo braço arqueado circundava a cabeça do amante. Ela acariciou seu rosto e o beijou.

Shaw estava de olhos fechados, a respiração voltando lentamente ao normal.

– Parece que você também não fazia isto havia muito tempo – disse ela, ainda ofegante.

Shaw se desvencilhou dela e se recostou na cabeceira da cama.

– Eu disse algo errado?

– Não foi nada do que você fez, Reggie.

Ela o envolveu com o próprio corpo e ficou enrolando com o dedo um dos pelos do seu peito.

– Não seria legal se pudéssemos ficar assim um pouco? Talvez por alguns anos?

– Acho que enjoaríamos, não?

– Na verdade, gostaria de experimentar.

Não consigo imaginar isso, pensou Shaw.