Livrai-nos do mal
Capítulo 73
– NÃO PODEMOS PELO MENOS comer antes de o momento do faz de conta terminar? – perguntou Reggie, séria.
– Isso significa tanto assim para você?
– Na verdade, sim.
Shaw lançou um olhar para o garçom que rondava a mesa.
– Tudo bem, este não é mesmo um bom lugar para conversar sobre assuntos sérios.
A comida chegou e eles falaram sobre amenidades. Outra garrafa de vinho, só que tinto, foi pedida e consumida por inteiro. Tomaram café e dividiram uma sobremesa que levava coco e pedaços de glacê branco por cima. Shaw pagou a conta com um cartão de crédito.
– A. Shaw? – indagou Reggie, espiando o nome no pedaço de plástico. – “A” de quê?
– Absolutamente nada.
Ele assinou na linha pontilhada e os dois se levantaram e foram embora. A noite ainda estava quente, pelo menos para os padrões de Londres, embora Reggie desejasse naquele momento ter trazido um suéter. Notando que ela estava com frio, Shaw tirou o paletó e o jogou sobre seus ombros. Ficou parecendo um vestido.
– Quarenta e seis extralongo? – indagou ela, segurando o tecido.
– Algo assim. Como estão seus pés?
– Depende do lugar para onde estivermos indo.
– Meu hotel fica naquela direção. Dez minutos de táxi.
Ela fez uma expressão de surpresa.
– Seu hotel?
– Ou podemos ir para a sua casa.
– Por que só essas duas opções?
– Também podemos ir a outro lugar público, conversar a respeito, com esperança de que ninguém nos ouça.
Reggie pensou no casal assanhado no apartamento de cima.
– Minha casa não é muito silenciosa.
– Meu hotel é.
– Onde fica?
– É o Savoy. Foi reaberto recentemente. Linda vista do rio. Muito bom.
– E aquele seu papo de ser “atirado”? Ir para o seu quarto a esta hora da noite parece se encaixar nessa categoria.
– Isso foi antes; agora a situação é outra. Podemos pegar um táxi. Fica na Strand.
– Sei onde fica.
– Então vamos.
Um taxista que tinha “O Conhecimento” – que é como os londrinos se referem ao mapa mental da cidade que os motoristas devem aprender ao longo dos anos – os levou depressa por Piccadilly até a Haymarket, circundou lorde Nelson e seus pombos e entrou na Strand.
– Sempre me perguntei por que o único lugar onde as pessoas dirigem na direita em toda a Grã-Bretanha é a pequena rua que leva à entrada do Savoy.
– É porque o átrio do hotel era estreito demais para que os cocheiros chegassem até a porta se permanecessem à esquerda. – Shaw a olhou, surpreso. Reggie disparou: – O que foi? Sou inglesa, afinal de contas.
Os dois entraram no saguão, subiram um lance de escadas e tomaram um elevador até o quarto de Shaw. Ele fechou a porta, largou as chaves sobre a mesa e indicou uma cadeira para Reggie enquanto se sentava na beirada da cama.
– Malditos saltos altos! – Ela tirou os sapatos e esfregou os pés doloridos. – E agora?
– Agora, falamos de sobrevivência.
– A sua ou a minha?
– Ambas, se tivermos sorte.
– Seu chefe não pareceu estar muito a fim de trabalhar conosco. Ele mais parecia querer nos prender.
– É o que ele deveria ter feito?
As feições de Reggie se endureceram.
– Não vou pensar por ele.
Shaw abriu o cofre do quarto, que ficava dentro de um armário, puxou uma pasta e folheou algumas páginas.
– Fedir Kuchin. Andei lendo sobre ele.
– Eu poderia ter lhe poupado esse trabalho. Temos montanhas de documentos sobre o monstro.
– As pessoas achavam que ele estava morto, que tivesse sido assassinado em um levante na Ucrânia anos antes da queda do Muro.
– Estratégia de fuga cuidadosamente orquestrada. Vários deles fizeram isso.
Shaw olhou para ela por cima da pasta.
– “Vários deles”? O que exatamente você e seus camaradas fazem em Harrowsfield?
– Algo que eu não posso revelar a você. Jamais.
– Você vai ter que revelar a alguém.
– Por quê? Você já contou ao seu chefe sobre o lugar?
– Não contei nada a ele sobre coisa alguma. O que estou dizendo é que você talvez vá precisar de um amigo neste caso.
– E você é esse amigo? – ironizou ela.
– Eu não disse isso. Não conheço o suficiente dessa história para saber se quero ser seu amigo ou não.
– Você quer dizer que pode acabar se voltando contra nós?
– Apenas me conte.
Reggie se levantou e começou a andar descalça de um lado para o outro, contraindo e alongando os dedos do pé sobre o carpete macio, tentando se livrar da cãibra.
– Não é tão simples assim. Nada neste caso é simples, Shaw.
– Cabe a você simplificar ou não.
– Ah, pare com isso, você sabe que isso é papo furado.
– Talvez seja, mas estou achando difícil encontrar palavras para convencê-la a confiar em mim. Pensei que tinha conquistado um pouco da sua confiança em Gordes.
– Isso foi antes; agora a situação é outra – falou ela, repetindo os dizeres anteriores de Shaw.
– Acho que arriscar a vida não tem mais o mesmo peso de antigamente.
Reggie parou de andar e se sentou ao lado dele na cama. Olhou para o chão e suspirou.
– Não é verdade.
– Então, qual é o problema? Sei que Kuchin é um vilão.
– Mas você sabe o que íamos fazer com ele.
– Parece bastante óbvio.
– Presumo que você não siga essas regras.
– Não, a menos que seja uma questão de vida ou morte.
– É uma filosofia muito diferente.
– Como eu já disse, não tenho autoridade para prender ninguém.
– Certo, claro.
Ela se levantou, foi até a janela e abriu a cortina.
– A vista mais bonita de Londres – opinou Shaw, se juntando a Reggie.
Feliz pela mudança momentânea de assunto, Reggie apontou para uma estrutura iluminada ao longe.
– Você já foi à London Eye?
– Uma vez, mas só porque um sujeito que eu estava seguindo resolveu dar uma volta.
Reggie apontou para outra construção.
– Você sabia que Claude Monet pintou um retrato da ponte de Waterloo de uma das sacadas aqui do Savoy? E que Fred Astaire dançou no terraço?
– Não, eu não sabia.
Reggie fechou a cortina e se virou para ele.
– Mas a história mais estranha que já ouvi sobre o Savoy tem a ver com um gato chamado Kaspar. É o morador mais antigo daqui. Toda vez que realizam um jantar no Savoy com 13 convidados, Kaspar ocupa o 14o lugar.
– Isso porque, segundo a superstição, a primeira pessoa que se levanta em um grupo de treze pessoas morre?
– Exato. Acho que Agatha Christie até escreveu um livro a respeito.
– Mas comer com um gato?
– Kaspar é uma escultura de madeira, o que o torna uma companhia inestimável, nem que seja por sua discrição e silêncio.
– Bela história – elogiou Shaw.
– Não é?
– Quantos outros Kuchins vieram antes?
– Você está perguntando isso só porque falei “vários deles”? Ótimo raciocínio.
– Não exatamente.
– Por quê, então?
– Ninguém age tão bem assim de primeira.
– Não sei até que ponto somos bons. Gordes foi uma grande sucessão de erros, como você disse.
– Sempre há imprevistos em campo, por melhor que tenha sido o planejamento. Mas, a meu ver, vocês têm dois grandes problemas, que talvez estejam ligados.
Ela voltou a se sentar na cama e encarou Shaw.
– Muito bem. Quais?
– Primeiro, vocês caem em emboscadas. Isso significa que vocês permitem que alguém os espione ou que existe um agente infiltrado.
– E o segundo?
– Kuchin ainda está à solta. E, a menos que o sujeito destas páginas – ele deu uma batidinha no dossiê – tenha amolecido, ele não vai esquecer essa história. Se ele matou os terroristas muçulmanos, é porque ainda tem um ímpeto assassino. Se ele também tem um espião no meio de vocês, as coisas se tornam ainda mais problemáticas.
– Mas, se ele tivesse um espião, como poderíamos tê-lo levado até as catacumbas?
– Não tenho certeza. Seja como for, a questão é: o que vocês vão fazer?
– Para dizer a verdade, esse é um território novo para nós.
– Eu gostaria de ajudá-los.
– Você não sabe no que estaria se metendo, confie em mim.
– Isso é tudo o que estou pedindo: que você confie em mim.
– Nunca confiei em ninguém. Às vezes, não confio nem em mim mesma – falou ela, perturbada.
Shaw se sentou ao lado de Reggie na cama.
– Como você acabou envolvida nisso tudo?
– E como você acabou trabalhando nesse ramo? – rebateu ela, com raiva.
– Foi algo contra a minha vontade.
– Pois é, eu escolhi meu caminho.
– Então, também escolho seguir o mesmo caminho com você.
– Por quê? Por que me ajudar?
– Não tenho muitas oportunidades de ajudar os outros. Quando surge uma chance, tento não perdê-la.
A raiva de Reggie esmoreceu e ela tocou no rosto de Shaw.
– Quem foi Anna?
– Uma mulher com a qual eu me importava, como eu já disse.
– Sinto muito.
– Eu também.
– Eu não sou a Anna, Shaw.
Os olhos dele brilharam.
– Eu sei disso. Ninguém pode substituir Anna.
Shaw fez menção de falar algo mais, porém Reggie cobriu sua boca com a mão.
– Por favor. Não.
Reggie deslizou a mão até a bochecha dele.
– Reggie?
Ela balançou a cabeça, ficou de pé, abriu o zíper do vestido e o tirou, ficando à frente dele apenas de calcinha e sutiã. Era como se estivesse esperando que Shaw a mandasse parar. Ele a ficou olhando. Por fim, pôs a mão em seu quadril e o apertou de leve. Reggie o deitou na cama com um empurrão e montou por cima.
Ela atacou-lhe a boca, mordendo seu lábio inferior, beijou seu pescoço e seu rosto antes de voltar faminta para a boca enquanto ambos tiravam a roupa. Havia energia, raiva, desespero e até violência contida no embate entre os dois.
Reggie e Shaw estavam ensopados de suor, pois o novo sistema de climatização do Savoy não conseguia dar conta de todo o fogo daquele encontro sôfrego. No final, os dois se jogaram emaranhados na cama, o cabelo dela nos olhos de Shaw, o joelho dele entre as pernas de Reggie, cujo braço arqueado circundava a cabeça do amante. Ela acariciou seu rosto e o beijou.
Shaw estava de olhos fechados, a respiração voltando lentamente ao normal.
– Parece que você também não fazia isto havia muito tempo – disse ela, ainda ofegante.
Shaw se desvencilhou dela e se recostou na cabeceira da cama.
– Eu disse algo errado?
– Não foi nada do que você fez, Reggie.
Ela o envolveu com o próprio corpo e ficou enrolando com o dedo um dos pelos do seu peito.
– Não seria legal se pudéssemos ficar assim um pouco? Talvez por alguns anos?
– Acho que enjoaríamos, não?
– Na verdade, gostaria de experimentar.
Não consigo imaginar isso, pensou Shaw.