Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 72 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 70

 

 

REGGIE AMAVA TRAFALGAR SQUARE. Para ela, aquela praça parecia definir tudo o que era britânico em um único e belo ponto geográfico. Lá estava, sobre sua coluna de granito com 46 metros de altura, lorde Nelson, salvador do império britânico sempre exaltado por sua morte heroica na batalha de Trafalgar. E, embora nenhuma criança em idade escolar soubesse mais quem era Nelson ou o que ele fizera, a estátua ainda era um testemunho da natureza indomável dos ingleses.

Porém, também havia os grandes e desagradáveis pombos. Embora Nelson sempre fosse limpo e a cidade tivesse tomado providências para livrar a área daquelas criaturas aladas e de seus arrulhos, as aves eram uma força inexorável, portanto o pobre almirante costumava estar coberto por cocô. Na praça, seres humanos de todos os tipos caminhavam, se sentavam, dançavam, gritavam, comiam, bebiam, faziam performances, tiravam fotos, liam, flertavam com os outros e, de vez em quando, tarde da noite, transavam. Ao redor, passavam táxis coloridos cobertos de publicidade e ônibus articulados vermelhos. Era a mistura perfeita de serenidade histórica e novidade radical, e Reggie ficou ali, absorvendo tudo, esquecendo por um momento que ia se encontrar com um homem perigoso.

Embora parecesse um pouco absurdo, levando-se em conta que havia outras preocupações bem mais importantes, Reggie ficou muito nervosa por não saber o que vestir. Lavou todas as roupas e selecionou um vestido verde-claro simples apertado na cintura, que mostrava seu bronzeado e parava muitos centímetros acima dos joelhos. Era decotado na frente, mas não muito. Pensou em usar um sutiã que aumentava seus seios, mas acabou se decidindo por um modelo mais modesto. Preferiu não usar também um suéter porque o tempo em Londres não estava como em Leavesden. O céu estava claro, a temperatura havia atingido 20 graus, alegrando toda a cidade, e a leve brisa do sul aquecia. Reggie escolhera sapatos de salto alto, que a deixariam apenas 20 centímetros mais baixa que Shaw. Ela prendera os cabelos para cima, deixando que alguns fios caíssem em torno do seu longo pescoço. Um conjunto de grandes brincos e colar de água-marinha comprado anos antes na Tailândia completavam seu visual.

Ao percorrer a ruela onde Shaw havia marcado o encontro, Reggie verificou furtivamente sua maquiagem no retrovisor de uma moto, fingindo admirá-la. Como Shaw era alto, seria fácil encontrá-lo mesmo com tantas pessoas ao redor. Mas a rua também tinha muitos pontos de observação escondidos. Era provável que ele a estivesse espiando naquele exato momento.

Depois de um momento de indecisão, pensou: Ah, que se dane, é o jeito. Deu uma pirueta, com um salto firmemente plantado na calçada enquanto acenava em todas as direções como uma miss. Aquele ato a fez esquecer por um tempo dos problemas. Afinal, era uma linda noite de verão e ela estava na sua cidade favorita.

O toque no ombro a fez dar um pulo. Reggie se virou para Shaw e notou que ele também havia se vestido com capricho: calças cinza com um vinco bem marcado, camisa polo branca e um blazer azul-marinho. Seus cabelos curtos estavam brilhantes e ele fizera a barba. O cheiro de Shaw a fez se lembrar da praia exuberante na Tailândia onde comprara o colar e os brincos. Ela sentiu tão forte o aroma de bálsamo, areia, oceano, árvores que até ficou um pouco tonta.

– Você está linda.

– Chega de enjoo, prometo. – Ela bateu no chão com os saltos pontiagudos. – Estou em terra firme.

Shaw olhou ao redor antes de encará-la mais uma vez. Reggie pôde perceber naquele único movimento que ele havia avaliado e arquivado todas as ameaças em potencial no banco de dados do cérebro.

– Você gosta de frutos do mar? – perguntou ele.

– É minha comida preferida.

– Conheço um restaurante em Mayfair.

– Parece ótimo.

Shaw hesitou por um momento e, depois, estendeu o braço. Reggie rapidamente o enlaçou antes que ele mudasse de ideia, contente com sua indecisão. A incerteza humanizava uma pessoa, pensou. Ela aumentou um pouco a pressão no braço de Shaw para mostrar que ele havia agido bem.

– Não fica muito longe daqui. A noite está bonita, podemos ir andando. – Ele olhou para os sapatos dela. – Você consegue? Podemos pegar um táxi se você quiser.

– Consigo. Na volta, talvez não.

– Posso carregá-la.

Desceram a Haymarket Street, atravessaram Piccadilly Circus e rumaram para Mayfair.

– São apenas mais algumas quadras – informou Shaw enquanto eles caminhavam devagar. – Fica na altura da Grosvenor.

– Estou bem.

Ele olhou para Reggie.

– Parece estar bem mesmo.

Ela interpretou a observação enquanto olhava para os outros casais à sua volta fazendo exatamente a mesma coisa que eles.

– É legal fingir ser normal. É uma situação meio estranha.

– Nas nossas profissões, estes momentos são raros e devemos aproveitar.

O restaurante ficava no meio da quadra e um toldo verde escondia parcialmente sua linda porta de mogno. Dentro, o teto era alto, os assentos das cabines tinham espaldares de couro, as toalhas de mesa estavam engomadas e os guardanapos sobressaíam de dentro das taças de cristal. Sobre armários de madeira que se erguiam até a altura do peito, havia bandejas de lagostas, camarões, mexilhões de conchas pretas e pernas de caranguejos dispostas em círculos concêntricos. Shaw fizera uma reserva e uma jovem indiana curvilínea – em um vestido justo que revelava sua calcinha fio dental – os levou até uma mesa nos fundos.

Reggie percebeu que Shaw quis se sentar de frente para a porta de mogno.

– Linhas de tiro bem estabelecidas? – perguntou, brincalhona.

– Sim. A menos que aquela bandeja de lulas cozidas atrapalhe o tiro.

– Tenho a impressão de que você não está brincando.

Os dois pegaram os cardápios.

– Alguma sugestão? – indagou ela.

– Qualquer coisa que tenha barbatanas, guelras e/ou uma concha é afrodisíaca.

Ela largou o menu.

– Por que você não escolhe para mim?

Shaw olhou por cima do seu cardápio.

– Indecisa?

– Na verdade, cautelosa. Prefiro me submeter à opinião de alguém mais experiente.

– Essa observação pode ser interpretada de várias maneiras – observou ele, com franqueza.

– É verdade. Mas, por enquanto, vamos limitá-la à comida.

Shaw pôs o menu de lado.

– Então, serão dois Primavera Frutti di Mare.

Pediram a comida e um vinho branco. O garçom sacou a rolha e serviu um pouco para degustação. Shaw aprovou com um gesto com a cabeça. O homem encheu as taças, pôs uma cesta de pães e o azeite entre eles, colocou a garrafa em um invólucro térmico e os deixou sozinhos.

Shaw levantou sua taça e Reggie brindou.

– Será que o faz de conta de um momento normal já está acabando? – perguntou ela, resignada.

– Quase, mas ainda resta um pouco.

– Amo Londres – comentou Reggie, olhando à sua volta.

– Há muito o que se amar aqui – concordou Shaw.

– Posso fazer uma pergunta?

Ele ficou em silêncio, mas a encarou, na expectativa.

– Lá no cemitério em Harrowsfield, você falou que costuma observar túmulos. Por quê?

– Não túmulos, mas túmulo, no singular.

– De quem?

– Fica na Alemanha, em um vilarejo a uma hora de carro de Frankfurt.

– Mas eu perguntei de quem é o túmulo, não onde fica.

– É de uma mulher. – Shaw estava visivelmente tenso.

– Presumo que vocês dois fossem íntimos.

– Bastante.

– Pode me dizer o nome dela?

– Anna. Agora acho que o faz de conta de fato acabou.