Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 85 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 83

 

KATIE JAMES DEU ALGUMAS garfadas na comida chinesa, mas logo perdeu o apetite. Um desperdício dos 20 dólares que sacara. Jogou os recipientes no lixo, pôs o talher na lava-louça, lavou as mãos e ficou vagando pela sala de estar. A casa estava escura; nos últimos dias, era assim que ela preferia.

Nos últimos dias? Na verdade, nos últimos meses.

Sentou-se em uma cadeira e observou as fotos da sua amiga com a família na parede à frente. Levantou-se, foi até os retratos e tocou em cada um deles, passando os dedos na cabeça de cada criança. As imagens evoluíam de bebês para bochechudos alunos do jardim de infância, tornavam-se secundaristas altos e chegavam à idade adulta, já com filhos, a julgar pelas fotos recentes de crianças pequenas.

Katie nunca se casara, a não ser com a própria carreira. Nunca tivera filhos; nem chegara perto disso, para dizer a verdade. Ela tinha dois Pulitzers e um ferimento a bala no antebraço. Vira o mundo à custa dos outros. Talvez fosse lembrada por muito tempo por suas reportagens. Profissionalmente, se destacara; na vida pessoal, fora um fracasso. Aquela era uma história antiga, da qual ela não era a única vítima, se é que podia ser considerada uma vítima. Quando tinha 13 anos, a única coisa que ela queria era ser mãe e ter uma casinha com um gramado e uma árvore, de preferência uma macieira, porque sempre gostara de maçãs.

Em certo momento, ela optara por documentar uma crise mundial atrás da outra e acumular milhões de milhas de companhias aéreas nessa busca obstinada. De repente, Katie sentiu frio, embora fosse uma noite de verão, ou seja, quente e úmida o bastante para que uma simples caminhada em ritmo acelerado fizesse uma pessoa suar. Jogou um suéter sobre os ombros e ficou parada em meio à escuridão.

Pelo menos, ela tinha parado de beber. Nem uma gota sequer havia meses. Nem mesmo na manhã em que Shaw a deixou em Zurique sem dizer uma palavra. Ela se surpreendeu. Aquela era a situação propícia para ter uma recaída. Ela ficou mais dois dias na cidade, ligou repetidamente para Shaw e, em seguida, telefonou para Frank uma dezena de vezes até ele enfim atender.

– Ele está sofrendo – explicou Frank. – Dê um tempo a ele.

E foi o que Katie fez. Por semanas. E, depois, dois meses. Tentou ligar de novo, mas o número havia mudado.

Mais um telefonema para Frank, que lhe passou informações sobre Shaw. Katie soube que ele voltara a trabalhar, isto é, a arriscar a vida em situações perigosas mundo afora. Toda vez que o telefone tocava, achava que era Frank ligando para comunicar a morte de Shaw. Isso porque ela não acreditava mais que ele algum dia retornaria suas ligações.

Frank voltou a ajudá-la, dando a Shaw o número de um celular especial. Na primeira vez, Shaw desligou ao ouvir sua voz. Ela não chegou a ficar surpresa, apenas um pouco decepcionada. Na segunda vez, a conversa foi breve, mas ao menos eles se falaram.

Katie viajou para Paris. Dica de Frank. Ao ver Shaw sentado sozinho, ela permaneceu imóvel, observando-o; ele ainda não a tinha visto. Viu como Shaw dividia a sala em partes, procurando possíveis riscos. Era a única forma de ele viver. Eles nunca haviam transado, embora tivessem dividido um quarto uma vez. Nem tinham se beijado. Nunca se aproximaram de verdade, pelo menos não por iniciativa dele, pensou. Ela não tinha certeza quanto a si mesma. Bem, talvez tivesse. Era tudo muito confuso.

Katie não sabia ao certo quando se apaixonara por Shaw. Fora antes de ele abandoná-la em Zurique. Talvez tivesse sido naquela noite em Wisbach, na Alemanha, perto do cemitério onde Anna estava enterrada. Ele não fora capaz de retribuir seu amor, não naquele momento. Talvez nunca fosse.

Ela olhou as fotos na parede mais uma vez. E se não tivesse ido embora do restaurante tão abruptamente? Mas Shaw não tentara detê-la. Se ele a tivesse seguido até lá fora, ela teria voltado, desesperada para que conversassem. Mas não foi o que aconteceu.

Katie se aproximou da janela e olhou para fora. Havia alguns transeuntes, casais em sua maioria, passeando de mãos dadas. O som de risos chegava até seus ouvidos. Um carro passou fazendo barulho, em uma velocidade alta demais para as estreitas ruas daquela área residencial. Katie não fazia ideia de quanto tempo ficaria ali. Ou de qual seria seu próximo destino.

Ela tirou o celular do bolso, pensou em ligar de novo para Frank, à cata de notícias sobre Shaw. Hesitou, com o dedo sobre o teclado, mas não o tocou.

De que adiantaria?, pensou.

Foi para a cama com a impressão de que o dia seguinte não seria melhor.