Livrai-nos do mal
Capítulo 96
APÓS DAREM MEIA-VOLTA E margearem a rota que tinham percorrido antes, Shaw e os outros conseguiram chegar à casa, que estava totalmente às escuras. Eles ouviram os latidos pela primeira vez havia quase uma hora, mas, depois, os sons se distanciaram. Reggie caíra em uma fenda de uma antiga geleira, mas conseguiram resgatá-la. Rice estava exausto e Shaw teve que ajudá-lo durante quase 2 quilômetros.
Os quatro olharam para as trevas. Não havia picapes estacionadas na frente da casa.
– Você acha que todos estão fora, ajudando Kuchin a nos procurar? – sussurrou Reggie.
– O cara era da KGB. Seria loucura não deixar uma retaguarda – respondeu Shaw.
– Então, como vamos fazer isto?
– Com o elemento-surpresa. É tudo o que temos. Precisamos de armas.
– Só isso? E a sua amiga?
– Se ela estiver aí, nós a pegamos. – Shaw se virou para Whit. – Você cuida dos fundos. Vou tentar chegar até a frente. Se vir alguém, assobie baixo.
– Isso vai nos entregar – replicou Reggie.
– Bem, qual é a outra opção? Deixei o walkie-talkie junto da minha metralhadora.
– Vai ter que ser um assobio mesmo – concordou Whit.
– E nós? – perguntou Reggie, apontando para si mesma e Rice.
– Se as coisas derem errado, saiam daqui. Sigam na direção da água e tentem fazer sinal para um navio.
Reggie não pareceu satisfeita, mas ficou em silêncio. Não gostava que Shaw desse as ordens, mas ele tinha mais experiência em situações daquele tipo. E Whit também estava se submetendo a seus comandos.
Alguns minutos mais tarde, Shaw chegou à porta dos fundos e espiou pelo vidro. Ficou tenso quando viu Katie sentada em uma cadeira, amarrada. Parecia estar dormindo. Ele tentou usar a maçaneta. A porta estava trancada. Surpreendeu-se ao ver Whit se arrastando para dentro da sala. Ao avistar Shaw na janela, atravessou o cômodo agachado e abriu a porta.
– Entrei por uma janela – explicou ele. – A casa parece vazia.
Eles rapidamente acordaram e desamarraram Katie.
– Onde diabos está todo mundo? – indagou Shaw, abraçando-a depressa.
– Acho que estão todos lá fora, procurando vocês. Eles também tinham cachorros.
– Nós ouvimos.
Whit passou os olhos pelo aposento e seu rosto se contorceu.
– Onde está o corpo de Dominic?
– Eles o levaram. Não sei para onde. Sinto muito.
– É... – murmurou Whit.
– Acho que Kuchin não previu que vocês fossem voltar e passar despercebidos – comentou ela.
– Aparentemente, não.
– E agora? – indagou Whit.
– O cofre com as armas.
Eles o encontraram e gastaram vinte preciosos minutos tentando arrombá-lo, mas sem sucesso. Shaw desistiu, largando o pé de cabra encontrado na garagem. Do outro lado daquela porta de 7,5 centímetros de espessura, provavelmente havia poder de fogo suficiente para tirá-los dali a salvo, mas ele não tinha como pegar nada.
– Bem, acho que eles previram a possibilidade de voltarmos.
– Você acha que é uma armadilha? – perguntou Whit. – Dar a impressão de que todos foram embora, deixar-nos entrar, pegar Katie e, depois, nos apanhar na saída?
– Nada me surpreenderia a esta altura do campeonato. Mas eles poderiam ter nos matado com muita facilidade quando chegamos aqui.
Vasculharam o resto da casa, mas Shaw só conseguiu duas facas serrilhadas na cozinha. Entregou uma delas a Whit.
– Faca contra armas de fogo?
– É o melhor que temos. Agora, vamos ver se encontramos um telefone ou algo que nos permita pedir ajuda.
Nada. Nenhuma linha fixa ou móvel, nem mesmo um walkie-talkie ou computador.
– Shaw!
Era Reggie, perto da porta de entrada; Rice estava ao lado.
– Estão chegando carros – avisou ela. – Precisamos dar o fora daqui.
Eles correram para os fundos da casa e saíram. Faróis cortavam a escuridão. Era uma picape, mas não havia como saber quantos homens estavam dentro. Shaw pensou rápido.
– Precisamos de um carro.
Reggie perscrutou o entorno e apontou para a esquerda.
– Whit pode levar Rice e Katie por ali e se esconder na margem daquele canal. Nós dois podemos voltar, pegar o carro e as armas que eles tiverem. Depois, chamamos os outros e vamos embora.
– Tudo bem – concordou Shaw.
Whit levou Katie e Rice para o monte atrás da casa. Shaw deu a volta por um lado do chalé e Reggie, pelo outro. Quatro homens saltaram do carro e se dirigiram para a casa. Shaw sabia que eles tinham no máximo trinta segundos antes que os guardas descobrissem que Katie não estava mais lá.
Os dois correram para o automóvel.
– Merda – murmurou Shaw.
Os seguranças tinham trancado as portas. Ele olhou pela janela. As chaves não estavam convenientemente penduradas na ignição. E também não havia nenhuma arma à vista. Reggie se juntou a ele.
– Mesmo que eu conseguisse quebrar o vidro, não é fácil fazer ligação direta nos carros hoje em dia. E...
Os dois ouviram gritos dentro da casa. Eles haviam descoberto que Katie não estava mais lá.
– Vamos, Shaw! – exclamou Reggie. – Precisamos correr.
– Vá, vá – disse ele, impulsionando-a.
Ela olhou para trás uma vez e sumiu ao lado do chalé.
– Se nós não temos um carro, vocês também não vão ter – falou Shaw.
Ele usou a faca para rasgar os dois pneus do lado direito antes de sair correndo. Logo depois, a porta da frente foi escancarada e os homens saíram em disparada com as armas em riste. Alguns foram para as laterais do chalé e atiraram com as submetralhadoras. Balas zuniram acima da cabeça de Shaw, mas ele continuou correndo. Duvidava que os seguranças pudessem enxergá-lo. E havia pouca chance de que suas armas MP5 pudessem atingi-lo daquela distância, mas eles poderiam ter sorte. Shaw alcançou os outros e os quatro correram tão rápido quanto possível para longe da casa, ouvindo os xingamentos de frustração dos homens quando a picape avançou aos solavancos por causa dos pneus cortados.
Com Shaw à frente, eles traçaram um círculo amplo em torno da propriedade e voltaram a se encaminhar para oeste. Cinco minutos depois, as luzes do chalé haviam desaparecido do campo de visão.
– Por pouco – comentou Shaw; enfim eles haviam parado de correr. – Por muito pouco e nosso esforço não resultou em nada.
– Para onde agora? – perguntou Rice.
– Agora, estamos atrás deles. Eles não devem estar esperando isso.
– Devem estar, sim. Eles sabem que estivemos lá porque ela desapareceu – retrucou Reggie, indicando Katie.
Shaw encarou Reggie.
– Você quer levá-la de volta?
Reggie empalideceu.
– É claro que não!
– Então, vamos ter que seguir em frente da melhor maneira possível.
– E como vamos fazer isso? – atalhou Whit. – Ficando à espreita e os atacando de surpresa com facas?
– Nosso objetivo não é enfrentá-los, mas nos afastar e conseguir ajuda. Não pegamos o carro, logo precisamos procurar uma alternativa. Se eu tiver acertado nossa localização e o litoral ficar naquela direção, chegaremos ao estreito indo para o sul. Nesta época do ano, haverá navios passando por aquele canal, indo e vindo da Europa. Se sobrevivermos até o raiar do dia, talvez consigamos atrair a atenção da tripulação. Eles podem mandar um barco para nós.
– Parece razoável – comentou Reggie.
– Espero que, em algum momento, você me diga o que significa tudo isto – falou Katie.
– Vou explicar, mas não agora. Em outro momento, sem dúvida. Devo isso a você.
Katie pôs a mão sobre a de Shaw. Reggie desviou o olhar.
Eles haviam percorrido quase 1,5 quilômetro quando um som rompeu o silêncio e todos os seus planos foram por água abaixo.