Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 9 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 7

 

A LONGA REUNIÃO SÓ TERMINOU ao entardecer, mas Reggie ainda tinha trabalho a fazer. Ela saiu da mansão dilapidada e ficou observando o terreno por alguns instantes enquanto escurecia. Desde que o quartel-general da organização de Miles Mallory se estabelecera ali, Reggie começara a ler sobre aquele lugar. Originalmente, um castelo feudal se erguia no local onde ficava a casa. As terras vizinhas haviam sido o feudo do rico dono da propriedade, que governava seu povo sempre de armadura, preparado para, a qualquer momento, fender um ou dois crânios com seu machado.

Mais tarde, o castelo ruiu e, em seu lugar, ergueu-se a mansão. Os feudos tinham se dissolvido e os nobres substituíram a armadura e o machado pela ameaça de prisão aos agricultores que arrendavam as terras e não pagavam as contas. A propriedade permanecera na mesma família por várias gerações, sendo herdada por primos distantes dos donos originais, cuja renda nunca chegou perto do nível necessário para manter o terreno. Durante as duas guerras mundiais, Harrowsfield – Reggie nunca descobriu uma explicação definitiva sobre a origem do nome – foi usada como hospital para soldados feridos. Depois, ficou abandonada por décadas até que o governo foi obrigado a assumi-la e realizar consertos mínimos. Mallory descobriu o lugar e trapaceou para poder usá-lo. Para o resto do mundo, tratava-se meramente de um ponto de encontro informal para acadêmicos excêntricos cujo trabalho era tão esotérico quanto inócuo.

Reggie passou pelas colunas de madeira de buxo, que cheiravam a urina. Embora já fosse o fim da primavera, sentia uma brisa gelada às suas costas à medida que avançava. Fechou o zíper da grande e surrada jaqueta de couro, que havia pertencido ao irmão mais velho, morto aos 12 anos já com 1,85 metro. Reggie se sentia frágil, como uma vidraça rachada que se desintegraria com qualquer impacto.

Depois de caminhar cerca de 500 metros, ela abriu a porta daquilo que, um dia, fora a estufa. Nenhum jardineiro entrava ali havia décadas e o ambiente estava tomado pelo cheiro de turfa, húmus e plantas apodrecendo. Reggie passou por vidro estilhaçado e tábuas soltas que tinham caído do teto. Sombras se estendiam em todas as direções à medida que o sol ia se pondo nos campos ingleses. A brisa estava cada vez mais fria, penetrando pelas pequenas fissuras nas janelas e paredes, fazendo com que ondulassem as teias de aranha e farfalhassem os resquícios em decomposição daquele paraíso dos horticultores.

Reggie foi até a porta dupla em um dos cantos da estufa e abriu o pesado cadeado que a trancava. Dentro, puxou a corrente que acendia a lâmpada e uma luz fraca iluminou a passagem à sua frente; o cheiro forte de terra úmida deixou-a um pouco enjoada. Por um bom tempo, Reggie caminhou por um declive de 20 graus antes de o túnel se nivelar. Não tinha a menor ideia de quem o escavara, e por quê, mas, naquele momento, aquele era um lugar útil.

Ela chegou ao fim da passagem, onde vários colchões tinham sido colocados em pé, um atrás do outro. Sobre uma pequena mesa posicionada contra uma parede lateral de terra, havia uma pilha de papéis, um pequeno ventilador a pilha e diversos abafadores de ouvido e óculos de proteção. Reggie pegou a folha superior e, usando um clipe, prendeu-a a uma corda suspensa entre duas paredes. Pôs um par de abafadores em torno do pescoço e colocou os óculos.

Na folha de papel, estava a imagem enegrecida de um homem com círculos negros à sua volta. Reggie se afastou 10 metros, sacou a pistola do coldre preso ao cinto, verificou o carregador, pôs os abafadores, ficou na sua posição preferida para atirar, mirou e disparou toda a munição. Havia pouquíssima ventilação ali e o odor acre da artilharia logo foi absorvido por suas narinas. Partículas de terra deslocadas pela descarga da arma caíram pelas rachaduras das tábuas gastas do teto. Ela tossiu, sacudiu a mão para dissipar a fumaça e a poeira e seguiu em frente para examinar sua pontaria, parando por um instante para ligar o ventilador, que começou a se mover preguiçosamente, demorando a levar embora a névoa. Aquilo que era um estande de tiro de primeira classe!

Sete dos onze projéteis se cravaram onde ela queria, no torso. Todos teriam atingido órgãos vitais se o alvo fosse real. Dois acertaram a cabeça, que ela também havia mirado. Um tinha ido parar a apenas um milímetro da zona vital. O último errara o alvo por uma margem inaceitável.

Ela substituiu o alvo por um novo, recarregou a arma e repetiu a operação. Dez em onze. Outra vez. Todos os onze. Mais uma vez. Nove em onze. Apesar dos esforços do ventilador, uma fumaça espessa tomara conta do túnel e os pulmões de Reggie estavam congestionados.

– Merda! – grunhiu ela enquanto tentava dispersar a névoa escura com a mão.

Reggie calculou que errara os últimos tiros porque não havia sido capaz de respirar nem enxergar o maldito alvo. Percorreu lentamente o caminho de volta até a estufa, esperando que algum dia pudesse utilizar um estande de tiro apropriado. Mas o túnel era o único lugar no qual o som dos disparos não chegava aos ouvidos de quem poderia contatar a delegacia de polícia local. Acadêmicos esotéricos não costumavam ter uma queda por armas de fogo. Ela ficou surpresa ao ver Whit em pé ao lado da saída.

– Achei que você estaria aqui embaixo. Como está sua pontaria? – perguntou ele.

– Terrível – respondeu, fechando e trancando as portas.

Ele se apoiou em uma bancada com tampo de vidro que antigamente era usada para mudas. O frio estava aumentando e sua respiração saiu como vapor.

– Bem, não se preocupe com isso. Em geral, sua arma não é um revólver. Você faz mais o tipo “garota que usa faca e travesseiro”. Já eu sou o homem da 9 milímetros.

Ela franziu a testa diante daquela grosseria.

– Whit, você sabe mesmo como ser um idiota às vezes.

– Não estou fazendo pouco de ninguém. É que você é a pessoa mais tensa que já conheci.

– Então, você precisa sair mais. Na verdade, sou bem relaxada.

– O que você acha do tal Fedir Kuchin?

– Acho que logo iremos ao seu encontro na Provence.

– Planejamento meio curto. Eu preferiria mais tempo.

Ela deu de ombros.

– Segundo o que o professor disse, a víbora não costuma sair da toca com muita frequência. Essa talvez seja nossa única oportunidade.

– Seu disfarce precisa ser de primeira. Esse sujeito tem os meios para fazer investigações pormenorizadas.

– Nosso pessoal sempre foi bem-sucedido – retrucou ela, e esperou, sentindo que ele tinha algo mais a dizer.

– Quero entrar em campo – explicou ele. Fez uma pausa, provavelmente para observar a reação dela. – Talvez você possa se aproximar do professor e falar com ele.

Reggie pôs a pistola dentro do coldre e limpou a mão em um pano que havia pegado de cima de uma bancada.

– O plano ainda se encontra no estágio preliminar. Temos tempo para isso.

– Você sabe como Mallory pensa. Para ele, você é sempre a primeira opção.

– Você já liderou missões, Whit – replicou ela com firmeza.

– Sim, antes que você chegasse. Não me interprete mal, não estou pondo a culpa em você. Você é excelente, brilhante. E, como em geral vamos atrás de velhos, faz sentido termos uma mulher na liderança para que eles baixem a guarda. Mas eu também não sou ruim. Não escolhi este trabalho para ficar carregando malas o tempo todo. Quero estar dentro.

Ela pensou a respeito por alguns instantes.

– Vou falar com o professor. Kuchin não é um nazista de 90 anos que vai ser enganado por um rostinho bonito e um pedaço de coxa, não é?

Whit sorriu e se aproximou, olhando-a de cima a baixo.

– Não se menospreze, Reg. Essas coisas funcionam para a maioria dos homens. Jovens e velhos.

Ela sorriu e deu um tapinha de leve em sua bochecha.

– Obrigada pela oferta, mas pode cair fora.

Antes que Whit pudesse dar outro passo em sua direção, Reggie passou por ele e tomou o caminho de volta para a mansão. Resolveu parar no cemitério da propriedade, que ficava a uma distância respeitável da casa principal, após um grupo de bétulas, cercado por uma sebe de teixo. As lápides estavam escurecidas e o frio parecia mais intenso naquele lugar, como se os cadáveres ali embaixo pudessem de alguma maneira estender sua influência gélida até a superfície.

Ela se postou em frente a um túmulo e, como de costume, leu em voz alta os dizeres na lápide: – “Laura R. Campion, nascida em 1779, falecida em 1804. Um anjo que voltou para o céu.”

Reggie não sabia se tinha algum parentesco com Laura R. Campion ou se o segundo nome da mulher era Regina. Ela estava com 25 anos apenas quando morreu, o que não era incomum naquela época. Talvez tivesse morrido ao dar à luz, como acontecia com muitas mulheres. Ao descobrir aquela lápide enquanto caminhava pela propriedade uma manhã, Reggie começou a procurar avidamente outros Campions enterrados ali. Não havia mais ninguém da família, embora outros sobrenomes se repetissem. Ela pesquisou Laura R. Campion na internet e na biblioteca, mas não encontrou nada. Thomas Campion fora um poeta nascido no século XVI e uma de suas obras mais conhecidas se referia a uma mulher chamada Laura, mas Reggie não conseguia ver nenhuma ligação.

Enquanto retornava para a casa, ela pensou em sua família, pelo menos na que ela teve. Pelo que sabia, ela era a única sobrevivente. Sua árvore genealógica era um pouco complicada. Por esse motivo, havia um buraco em seu peito, uma zona totalmente morta. Toda vez que ela tentava entender o que a motivava a viajar pelo mundo para perseguir o mal, aquela zona a repelia, nunca permitindo ser fechada, nunca permitindo que ela respirasse livre.

Reggie pegou suas coisas na mansão e tomou a estrada de volta para Londres. Haveria mais reuniões em Harrowsfield. Relatórios da inteligência e históricos mastigados ao máximo. Um plano enfim surgiria e eles o refinariam, tentando eliminar todos os possíveis erros. Quando os preparativos estivessem completos, ela viajaria à Provence e tentaria matar outro monstro. Nessa equação simples, Regina Campion teria que encontrar todo o consolo que a vida lhe reservava.