Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 39 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 37

 

WALLER PÔS UM DISCO adesivo preso a um fio longo e fino na lateral do pescoço de Abdul. Depois, conectou o fio a um pequeno monitor à bateria e o ligou.

– O que é isso? – perguntou o muçulmano, nervoso.

– Não se preocupe. Serve só para medir a pulsação. Não tenho energia elétrica suficiente aqui para extrair a verdade de você com eletrochoques, meu amigo. Mas há outros métodos.

Waller pôs uma faixa em torno do braço do prisioneiro e, em seguida, conectou o fio que saía dela ao mesmo dispositivo de antes.

– E isto mede a pressão arterial.

– Por que você precisa disso?

– Porque quero ter certeza de que vou interromper a dor antes de matá-lo, é claro.

Abdul se retesou e começou a murmurar uma canção.

– Então, seu deus é poderoso? – questionou Waller, fazendo referência à letra entoada. – Vamos ver até que ponto, no seu caso.

Abdul não respondeu e continuou a cantar. Waller verificou os sinais vitais na tela.

– Sua pulsação já chegou a 98 e sua pressão está alta, e eu ainda nem comecei. Você precisa desacelerar a respiração; acalme-se, meu amigo.

– Você não vai me fazer falar! – gritou o prisioneiro com ar desafiador.

Waller tirou fita adesiva da maleta e a passou pela testa, pelo queixo e pelos ombros do muçulmano, dando várias voltas em torno da mesa. O resultado foi que Abdul não podia se afastar nem um centímetro da madeira.

– Sabe por que estou fazendo isso? – perguntou Waller. – Para que você não possa induzir sua própria inconsciência quando a dor se tornar forte demais. Conheci homens que quebraram o crânio para fugir da dor. Cometi esse erro uma vez e nunca mais o repeti. A tortura não funciona se não é possível sentir dor.

Waller tirou mais itens da maleta, pôs um deles no bolso e voltou para a mesa.

– Dizem que o suplício de um único cálculo renal passando pelo corpo é maior do que o do parto. Nunca dei à luz, é claro, mas já tive cálculos renais e a dor é de fato intensa.

Ele calçou as luvas de látex, baixou o olhar para as partes íntimas de Abdul e pegou um tubo de vidro bem fino com 20 centímetros de comprimento.

– Isto fará as vezes de cálculo renal. Respire fundo. Depois, relaxe.

A respiração do muçulmano se acelerou e o rosto se tensionou.

– Você não vai me fazer falar! – repetiu várias vezes aos berros.

Waller inseriu metodicamente a pipeta no pênis do homem, usando um martelo de borracha para finalizar a introdução. Abdul gritava de dor a cada milímetro.

– Na verdade, não é mais do que um cateter. Agora vem a parte dolorosa.

Ele tirou o alicate de pressão do bolso e olhou para o prisioneiro.

– Só preciso de nomes.

– Vá para o inferno!

– Como você é original.

Waller regulou a pressão do alicate e o colocou na posição que desejava, quebrando o tubo de vidro dentro do homem.

Dessa vez, o berro foi muito mais alto do que antes. Os seguranças de Waller, que esperavam do lado de fora, se entreolharam e se afastaram, nervosos. Só Pascal ficou perto da porta, sempre alerta.

– Você está sangrando em um lugar desagradável, Abdul – disse Waller, olhando para o resultado do trabalho.

A resposta foi uma sequência de xingamentos em árabe.

– Sim, sim, meu pai e minha mãe já estão mortos, obrigado – ironizou Waller.

As lágrimas rolavam pelo rosto contorcido de Abdul, os músculos do maxilar se intumesciam e tremiam. O pescoço amarrado se esticava em agonia, deixando todas as veias e artérias visíveis. Sua aflição era tão grande que, se Waller não lhe tivesse prendido a cabeça à mesa, ele teria batido com o crânio na madeira para rachá-lo.

Waller continuou calmamente.

– Aprendi pashto e um pouco de dari durante a desastrosa invasão dos soviéticos ao seu país. São idiomas difíceis de aprender, mas não tanto quanto o inglês, que tem tantas exceções que nem sobram regras. – Ele verificou o monitor. – Pulsação, 130. Já vi muito mais altas. De fato, quando corro, chega a 140, e tenho 63 anos. Você é jovem, isso não é nada. Mas sua pressão está 15 por 9. Um pouco precária. Bem, vamos ver.

Pôs o alicate em outra posição e a pelve do homem se deslocou para cima puxando as fitas adesivas que o atavam enquanto ele berrava de dor mais uma vez.

– Pulsação, 175. Tudo bem, agora acredito que tenho sua atenção. Estávamos falando de nomes.

– Você vai me matar mesmo se eu disser – alegou Abdul, arfando.

– Bem, isso é um progresso. Muito bem. Estamos mais próximos de uma negociação. Você quer simplesmente ir embora? Se eu o liberar, você poderia avisar as pessoas que me traíram. Não é uma proposta válida.

– Então eu morro?

– Eu não falei isso.

Waller prendeu o alicate em outro lugar, esmagando uma parte especialmente sensível da anatomia do muçulmano.

Mais uma vez, os gritos de Abdul ressoaram em cada canto do pequeno aposento, ameaçando matar Waller, decapitá-lo, estripá-lo, voltar para assombrá-lo, trucidar todas as pessoas que algum dia já tivessem sido importantes para ele.

– Entendo sua raiva, meu amigo, mas ela não nos leva a lugar algum – disse o ucraniano e olhou para baixo. – Você está sangrando mais, Abdul, mas isso não põe sua vida em risco, não se preocupe.

Waller foi novamente até a maleta e tirou um pequeno instrumento. Ergueu-o para que o muçulmano o visse.

– Um bisturi. É muito delicado e eficaz. Faço uma incisão aqui e aqui. – Ele encostou a lâmina em dois pontos do pescoço de Abdul. – E você se esvai em sangue em minutos. Mas não é o que eu quero, então faço isto.

Furou um dos olhos de Abdul, que se contorceu de agonia, aos berros.

Waller examinou o monitor.

– Pulsação, 195. Isso é insustentável, meu amigo. E sua pressão também me preocupa. Você sofrerá um derrame se não se acalmar. Temo por sua saúde.

Baixou o olhar para o homem, que soluçava.

– Quer que eu agora use a privação do sono ou toque o que eles chamam de rap? – Ele se abaixou um pouco mais. – O que foi? Está implorando? O quê, para matá-lo, meu amigo? Não, não. Não sou um homem violento. Sou um homem justo. E não mato. Em vez disso, faço o trabalho em etapas.

O bisturi entrou de novo em ação e parte da orelha esquerda do prisioneiro caiu no chão sujo.

Waller verificou o monitor.

– Mais de 200 de pulsação e a pressão arterial não está nada boa. Estou falando para se acalmar, mas você não me escuta. Você é teimoso demais. – Ele se virou para o muçulmano. – Vou deixar que você descanse um pouco. Depois, o interrogatório de verdade vai começar. Se você achou isso doloroso, Abdul, acho que vai ficar decepcionado. Foi só o começo.

Waller tirou da maleta um instrumento que parecia um grande ralador de queijo, só que as pontas cortantes eram mais longas, pareciam letais e ficavam sobre suportes giratórios, para que pudessem funcionar bem em diferentes ângulos e superfícies.

– Sei que você pode ver o que estou segurando, mas talvez não esteja entendendo do que se trata. Portanto, vou fazer uma pergunta: qual é o maior órgão do seu corpo? – Waller fingiu esperar uma resposta. – Está dizendo que não sabe? Então, vou falar: é a pele. Sim, a pele é o maior órgão do corpo. Muitas pessoas não se dão conta disso. Os adultos têm em média quase 2 metros quadrados de pele no corpo, pesando até 4 quilos. Sim, 4 quilos. Bem, com esta ferramenta, posso raspar toda a pele do seu corpo em menos de uma hora. Não costumo me vangloriar em vão. Já fiz isso antes. Mão firme e um método eficiente, é só do que você precisa. Começo pelo rosto e vou descendo. A pele sai em tiras longas, você vai ver. Sem contar o rosto e os braços, que são um pouco problemáticos e requerem mais tempo. Uma vez quase tirei um único rolo de pele do torso até os pés. Infelizmente, o procedimento foi interrompido perto dos joelhos. A mulher tinha joelhos muito ossudos. Fiquei decepcionado, é claro, mas ainda assim me orgulhei do feito.

Waller continuou após uma pausa:

– Bem, como você não pode ficar se debatendo enquanto executo essa tarefa, vou injetar isto em você – explicou, retirando da maleta um pequeno frasco de líquido e uma seringa. – Os soviéticos criaram isto na década de 1970. Paralisa o corpo, mas permite que a pessoa tenha plena consciência de tudo. Está entendendo? Você não vai sentir nada quando eu arrancar a pele, mas será capaz de ver tudo. Por isso eu deixei que você ficasse com um olho. Assim, não perde um segundo do procedimento. O efeito passa em algumas horas. Então, bem, você vai sentir muita coisa.

– Por favor, por favor – soluçou Abdul.

Waller sorriu.

– Então, não quer ser escalpelado? Sabia que um homem pode segurar os próprios intestinos durante horas se eles forem retirados do corpo da maneira certa? Seria de imaginar que a pessoa sangraria até a morte, mas não é verdade. Você vai morrer por outro motivo, mas não por causa da perda de sangue, pois eu sei o que estou fazendo. Costumo enfiar os intestinos na boca da vítima, pelo menos o que couber. Talvez eu seja sensível demais, mas acho maldade esperar que um homem moribundo segure os próprios intestinos. Você tem vinte segundos para decidir o que prefere, senão eu vou decidir por você. E, para ser sincero, tenho certa preferência por pele.

Por fim, com gemidos que só eram interrompidos por soluços, Abdul-Majeed anunciou:

– Vou revelar o que você quer saber.

Waller voltou a sorrir.

– Bom, vou lhe dizer uma coisa antes: sei quem ordenou minha morte. Essas pessoas já estão mortas, na verdade. Deixei você por último.

– Então por que está fazendo isto comigo? – gritou o prisioneiro.

– Porque eu podia. E é bom praticar. Senão, as habilidades vão diminuindo. Você disse que eu não ia fazer você falar. Mas eu consegui. – Ele abandonou o tom casual ao acrescentar: – E se alguém o ataca, meu amigo, você precisa revidar, senão vão achar que você é fraco. E eu sou muitas coisas, mas fraco não.

– Então me mate – esbravejou o homem desfigurado. – Acabe com isso.

Waller se demorou tirando a braçadeira, o monitor de pulsação e os alicates de pressão, guardando-os em seguida na caixa.

– Você não é importante o suficiente para que eu perca mais tempo. Mande lembranças de mim a Alá. E diga que fiquei me perguntando por que ele não veio socorrer você. Talvez, assim como eu, ele também tivesse algo melhor a fazer. – Ele ergueu o bisturi. – O que estou prestes a fazer agora é um ato de misericórdia, Abdul-Majeed. Você vai entender por que em breve. Waller furou o outro olho do muçulmano. – Seria o cúmulo da crueldade permitir que você visse o que acontecerá a seguir.

Os gritos de terror do homem o seguiram porta afora. Os seguranças se postaram em alerta quando viram o chefe sair do chalé. Waller acenou com a cabeça.

– Já acabei.

Pascal e outro guarda-costas correram até um utilitário que havia estacionado poucos minutos antes. Abriram a porta traseira e tiraram de lá dois pit bulls ferozes. Usando varas metálicas para controlá-los, os homens levaram com dificuldade as feras ofegantes até a entrada da casa. Depois, soltaram os mosquetões presos às varas, tiraram as focinheiras e empurraram os animais vão adentro, batendo a porta.

Enquanto Waller subia agilmente no carro, os rosnados dos cães em ataque e os berros de Abdul-Majeed se sobrepunham ao som do motor do automóvel. Ele pôs os fones de ouvidos e escolheu uma música alegre no iPod, já pensando na bela jovem com a qual jantara naquela noite. Estava ansioso para reencontrá-la.

Em breve.