Livrai-nos do mal
Capítulo 34
REGGIE HAVIA INSISTIDO PARA que eles comessem em um dos restaurantes em Gordes, e não na mansão dele, e Waller por fim aceitara.
– Você é tenaz – comentou ele com um leve tom de bronca.
– Não, só estou fazendo algo sensato. Não conheço você de verdade. E meus pais não iam querer que eu fosse desacompanhada à sua casa, mesmo que apenas para jantar.
– Seus pais são sábios.
– Eles eram mesmo.
– Entendo. Sinto muito.
– Eu também – replicou Reggie com firmeza.
Os dois haviam subido juntos até o vilarejo e escolhido uma mesa do lado de fora de um restaurante, circundada por uma grade de ferro de um metro de altura. Como de costume, os seguranças de Waller ocuparam uma mesa próxima, mas Pascal não estava ali naquela noite.
– Eles sempre vão aonde você vai? – perguntou Reggie ao observar os homens armados.
– É um dos preços a serem pagos pelo sucesso – respondeu Waller, abrindo os braços, como se nada pudesse fazer.
Ele usava um blazer azul com um lenço branco no bolso, calças cáqui, camisa de seda branca e mocassins azulões que deixavam à mostra os pálidos tornozelos. O ar ainda não refrescara e havia uma linha de suor em sua testa. Reggie optara por uma saia azul-clara, sandálias brancas, blusa amarela e um lenço do mesmo tom em volta dos cabelos. Assim, ela não transpirava.
– Seria difícil imaginar alguém tentando machucar outra pessoa aqui – falou Reggie enquanto terminava seu último pedaço de carne.
Waller tomou um gole de vinho e a avaliou com o olhar.
– Este lugar é sereno, bucólico. Lindo. – Ele sorriu. – Como você.
A um aceno de Waller, o garçom trouxe uma segunda garrafa do mesmo vinho e o serviu. Reggie pegou a taça cheia e começou a girar o líquido, observando como a bebida refletia a luz da vela acesa em um recipiente no centro da mesa.
– Você mencionou que poderia ter filhos da minha idade. Você tem filhos?
Ele fez um gesto despreocupado.
– Não, eu só estava falando hipoteticamente. Acho que sempre estive ocupado demais para ter filhos.
– Esposa?
– Se eu tivesse uma agora, ela estaria viajando comigo.
– Agora? Então, você já foi casado?
– Já.
– Ela faleceu ou vocês se divorciaram?
– Perguntas, perguntas – disse ele em tom casual, mas seu olhar era sério.
– Sinto muito. Só estava curiosa.
– Ambas as coisas.
– O quê?
– A primeira morreu e a segunda se separou de mim. – Ele lhe deu um tapinha na mão. – Você me lembra minha primeira esposa. Ela também era linda. E teimosa.
– Como ela se chamava?
Waller fez menção de dizer algo, mas ficou calado.
– Isso é passado. Não gosto de viver no passado. Vivo o presente e olho para o futuro. Vamos terminar este maravilhoso bordeaux e, depois, passear e admirar tudo o que é francês.
Mais tarde, de braços dados, ele a acompanhou até a rua da qual haviam partido. Reggie voltou a olhar para os guarda-costas e Waller percebeu.
– Suponho que, para você, seja necessário, mas eu não gostaria de ser obrigada a viver assim.
– Mas você é rica. Viaja para ótimos lugares, aluga mansões luxuosas em um dos locais mais bonitos do planeta. Não tem medo de ser sequestrada? Ou até mesmo assassinada por causa do seu dinheiro?
– Não carrego dinheiro, a menos que você leve em conta uns poucos euros. Se quiserem meus cartões de crédito, não precisam me matar por causa disso. E, se me sequestrarem, não haverá ninguém para pagar o resgate. Está vendo, eu seria um alvo muito impróprio.
– Talvez você tenha razão. O homem com quem você tem saído seria um competente guarda-costas.
– Bill parece que sabe se cuidar.
– Ah, então ele se chama Bill. Sobrenome?
– Ele não me disse – respondeu Reggie com sinceridade, pois fora Whit que descobrira.
Isso pareceu animar Waller.
– Então você não é tão amiga assim dele. Eu estou aqui há pouco tempo e você já conhece o meu sobrenome.
– Não é uma competição, Evan.
– Claro que não – observou ele, sem convicção.
– E você tem idade para ser meu pai, como você mesmo disse.
– Na verdade, tenho idade para ser seu avô, ou quase isso. Ele soltou o braço de Reggie e apontou para a igreja. – Há uma em cada vilarejo que você visitar aqui.
– Uma igreja? É, acho que sim.
– As pessoas usam a religião para muitas coisas, sobretudo para explicar suas próprias deficiências.
– Essa é uma teoria incomum.
– Livros escritos por pessoas tolas que não querem assumir o controle da própria vida e buscam a providência divina para explicar seus desejos.
– Para guiá-las, você quer dizer?
– Não, para dar desculpas. Quando as pessoas de fato fazem algo com sua própria vida, o impulso vem daqui. – Waller bateu no próprio peito. – Elas não precisam de homens de batina para saber o que pensar e para quem rezar. E, acima de tudo, para quem dar dinheiro.
– Presumo que você não vá muito à igreja.
Ele sorriu.
– Pelo contrário. Estou lá toda semana. E dou muito dinheiro à igreja.
– Por que você faz isso se acha que é tudo besteira?
Waller deu o braço a ela mais uma vez.
– Porque vem do meu coração. Eu acredito. E há muita coisa boa na fé. Muita. Minha mãe teria ido para um convento se sua vontade tivesse sido respeitada. Ainda bem que não foi o que aconteceu, senão eu não estaria aqui. Eu a amava muito.
Reggie se virou e o viu olhando diretamente para ela.
– Vou fazer um tour particular à mostra de Les Baux esta semana. Você já ouviu falar a respeito?
– Sim, li alguma coisa sobre.
– Goya é o artista selecionado este ano.
– Goya? Não é uma escolha muito alegre.
– É verdade que muitas das suas obras-primas são soturnas, mas não deixam de ser visões magníficas da alma humana.
– Elas retratam o mal – afirmou Reggie, e desviou o olhar do homem que, na sua opinião, era um dos mais maléficos que ela já havia perseguido.
– Mas o mal é um grande componente da alma. O potencial para o mal está à espreita dentro de todos nós.
– Não acredito nisso – rebateu Reggie, nervosa. – Recuso-me a acreditar nisso.
– Você pode se recusar, mas isso não significa que tenha razão. – Ele fez uma pausa. – Gostaria que você me acompanhasse nesse tour. Poderemos discutir mais sobre esse tópico.
– Vou pensar e aviso – disse ela depois de um tempo.
Waller sorriu daquela suave reprimenda, inclinou-se e lhe beijou o dorso da mão.
– Gostei do nosso jantar, Janie. Agora, como tenho assuntos a resolver, desejo-lhe boa noite.
Ele foi embora com os seguranças atrás.
Reggie ficou parada no meio da rua, tentando desesperadamente decifrar o último olhar de Waller.
– Perturbada?
Ela se virou.
Shaw estava encostado em uma pilastra na frente da igreja.