Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 17 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 15

 

 

JÁ ERA MAIS DE MEIA-NOITE quando Reggie desceu sorrateiramente para a biblioteca em Harrowsfield. A chuva martelava as janelas e um vento frio entrava pela chaminé, alimentando o fogo débil. Ela fechou a porta atrás de si, sentou-se diante da longa mesa e pegou um dossiê. Sob a luz de uma única luminária, estudou o rastro assassino de Fedir Kuchin pela centésima vez. As atrocidades, é claro, não haviam mudado, mas se fixaram ainda mais em sua mente. Ela já sabia as estatísticas de cor e podia visualizar os inúmeros rostos das vítimas. As imagens das valas, descobertas muito depois de Kuchin ter fugido, pareciam estar impressas em suas córneas.

Reggie pegou uma foto granulada – todas eram granuladas, como se a morte violenta nunca pudesse ter um fragmento colorido – e examinou o rosto ali retratado. O coronel David Huber tivera seus David Rosenberg e suas Frau Kocher, que Reggie havia selecionado em meio a incontáveis outras para mostrar ao homem no momento de sua morte. Também havia diversas evidências da crueldade insana de Fedir Kuchin.

A foto que ela estava olhando naquele momento era de um homem com um sobrenome impronunciável. Ele não havia sido rico nem bem-relacionado. Morava a quase mil quilômetros de Kiev. Era um simples fazendeiro com uma família grande e trabalhava longas horas para sustentá-la. Seu crime contra o Estado fora se recusar a entregar os amigos à KGB, mais especificamente a Fedir Kuchin. Como punição, jogaram gasolina e atearam fogo nele na frente da esposa e dos filhos. O homem queimou até virar ossos e cinzas enquanto os familiares eram forçados a assistir, ouvindo seus gritos.

Reggie pegou outro documento. Originalmente escrito em ucraniano, o texto fora traduzido em outro pedaço de papel. Tratava-se da ordem que condenava o fazendeiro à morte. A assinatura de Fedir Kuchin aparecia bem grande e vistosa no pé da página, como se ele não quisesse deixar dúvida a respeito de quem havia sido o mandante do horrível assassinato.

Por fim, Reggie pegou outra foto antiga. Era do próprio Fedir Kuchin. Ela segurou o papel pelas beiradas, como se estivesse com medo de tocar na imagem. Ele usava um uniforme com o colarinho aberto. Em uma das mãos, segurava uma pistola; na outra, uma garrafa. Era uma foto posada. Naquela época, ele tinha cabelos escuros, com um pronunciado bico de viúva, penteados para trás. Seu rosto não mudara muito ao longo do tempo. Porém, foram os olhos que chamaram a atenção de Reggie. Ela sentiu como se estivesse enveredando por um caminho sombrio, perdendo-se numa escuridão da qual não parecia possível fugir. Endireitou-se na cadeira e, lentamente, pôs a foto sobre a mesa, cobrindo-a com uma pilha de papéis.

Nos trinta minutos seguintes, ela examinou dezenas de fotos de mortos. Os documentos davam a impressão de serem apenas ordens de compra para equipamentos ou comida. No entanto, eram comandos para matar outros seres humanos, em três vias copiadas por papel carbono. Morte por tiro. Morte por fogo. Morte por gás. Morte por espada. Morte por enforcamento. Tudo muito organizado. Ainda bem que havia aquelas cópias, pensou Reggie. Sem elas, teria sido quase impossível localizar e, em seguida, punir homens como Kuchin.

– Leitura extra, minha cara?

Assustada, Reggie olhou à sua volta.

O professor Mallory estava à porta usando um velho e esfarrapado roupão quadriculado, segurando um livro.

– Não ouvi o senhor entrar – disse ela, obviamente perturbada por não ter notado a presença dele.

– Bem, tenho passos leves, apesar do meu tamanho e do meu reumatismo, e você estava muito concentrada.

Mallory se aproximou e fitou os papéis e fotos com um olhar inquisidor.

– Eu não estava conseguindo dormir. Muitas vezes, não consigo dormir – admitiu Reggie.

Ele se sentou em uma cadeira de couro gasto perto da lareira.

– Eu bem sei.

– O que o senhor está fazendo de pé? Também tem insônia?

– Não, Regina. Insônia, não. – Ele fez uma careta de dor enquanto se recostava. – A próstata aumentada, receio. Se tivesse escolha, optaria pela insônia.

– Sinto muito.

Ele olhou para o dossiê que ela segurava.

– Então, no que você está pensando? Alguma ideia brilhante?

– Ele é um homem sem remorso. Assinou milhares de ordens de execução como se assinasse uma conta de bar.

– Concordo com você, mas isso nós já sabemos.

Ele se levantou, pôs outro pequeno tronco no fogo, voltou a se sentar na poltrona e abriu um livro.

– O que o senhor está lendo? – perguntou Reggie.

– Em uma noite inóspita como esta? Agatha Christie, é claro. Ainda fico curioso para saber se as “pequenas células cinzentas” de Hercule Poirot vão dar conta do trabalho novamente. Isso muitas vezes parece me inspirar, por mais inferior que meu cérebro seja em relação ao do pequeno belga.

Reggie se levantou e ficou parado na frente do fogo. Antes de descer, vestira uma calça jeans e uma blusa de moletom, mas os pés estavam descalços e ela agora sentia frio.

– Tem uma coisa, professor.

Ele ergueu os olhos. A tempestade açoitava a janela e uma rajada do vento raivoso desceu pela chaminé. Reggie se afastou da lareira e se sentou em uma banqueta na frente do professor.

– Que coisa? – perguntou ele.

– Kuchin é um homem religioso.

Mallory fechou o livro e assentiu. Sacou o cachimbo do bolso e começou a enchê-lo com tabaco.

– Professor, se o senhor não se importa, esse cheiro me deixa enjoada.

– Por que você nunca disse isso? – indagou ele, surpreso.

– Acho que eu não queria magoá-lo. – Ela riu baixinho. – Acredito que, depois de tudo o que já fiz, isso deve parecer estranho.

Mallory permaneceu sério.

– O que é estranho? Você ter uma enorme compaixão? Imagino que essa faceta da sua personalidade seja um dos principais motivos para você fazer este trabalho.

Reggie atalhou apressadamente.

– Bem, de qualquer forma, reli as anotações do caso. Kuchin vai à igreja todos os domingos e faz grandes doações para causas religiosas.

Mallory voltou a guardar o cachimbo.

– É verdade. Já vi isso acontecer com homens como ele. Procurar redenção, alívio, até mesmo se proteger. É uma loucura que pessoas desse tipo acreditem que algum deus bondoso queira se meter com eles depois da morte.

– Assassinos, o senhor quer dizer?

Mallory logo percebeu a mensagem subliminar.

– Você não tem nada a ver com os Fedir Kuchin do mundo, Regina.

– Engraçado, em certos dias, é difícil notar a diferença.

Mallory se levantou tão depressa que deixou o livro cair. Foi andando a passos largos até a mesa, pegou uma foto e jogou-a nas mãos de Reggie.

Era a imagem dos restos mortais do fazendeiro.

– Aí está a diferença, Regina.

Tomou a mão dela, apertou-a com firmeza e olhou no fundo de seus olhos.

– Agora me fale da igreja.