Livrai-nos do mal
Capítulo 35
EVAN WALLER SUBIU NO utilitário preto e os três carros partiram, jogando pó da estrada em um casal de idosos que subia devagar a colina para Gordes. Ele se recostou e fitou a tela do telefone. O e-mail era breve e direto, o que lhe agradava.
– Quanto tempo? – perguntou ao motorista.
– O GPS diz cinquenta minutos, Sr. Waller. Estradas ruins.
– Faça em quarenta.
O homem pisou no acelerador e falou ao microfone:
– Andem mais rápido.
Os outros dois automóveis aceleraram de imediato.
Trinta e nove minutos mais tarde, os três veículos passaram de uma estrada de duas pistas para outra de pista única e, por fim, seguiram um longo caminho até uma pequena casa de pedra em meio a árvores frondosas. O quintal estava sujo, o telhado, em mau estado, as paredes, meio desmoronadas. Era evidente que ninguém morava ali havia muito tempo. E não existiam mais construções em um raio de quilômetros.
Waller abriu a porta do utilitário e saltou, esperando apenas alguns segundos para que os guarda-costas liberassem a área após uma verificação visual, embora já estivesse postado no local um homem, que saiu da casa quando os carros chegaram. Waller entrou seguido de dois seguranças; os outros dois ficaram do lado de fora para vigiar o perímetro.
O cômodo era pequeno, escuro e cheirava a fezes e mofo, mas Waller não se incomodou. Ele já passara por coisa muito pior. No meio do aposento, havia uma mesa estreita com cerca de 2 metros de comprimento que, por estar em pé, quase tocava o teto baixo. As duas pernas de cima encostavam-se na parede, funcionando como apoio; as demais tinham sido serradas. Um homem nu com cabelos escuros e barba comprida se encontrava amarrado com os braços e as pernas abertos sobre a mesa. Waller olhou para Pascal, que estava em um canto escuro, fitando o prisioneiro.
– Bom trabalho, Pascal.
– Ele tentou fugir, Sr. Waller, mas não sabia como.
Waller andou até o homem nu. Sob a luz de duas lanternas, não conseguiu distinguir sua expressão. Aquilo enraiveceu Waller. Sinta medo ou ódio, mas sinta algo. Deu-lhe um tapa no rosto ensanguentado.
– Está acordado, Abdul-Majeed? Parece que você não está aqui de verdade.
– Estou acordado. Estou vendo você. E daí?
Waller sabia que, com aquela atitude indiferente, o muçulmano quis tomar coragem e frustrar a expectativa do seu captor, como se Waller fosse o prisioneiro e não o contrário. Na verdade, não surtiu efeito algum. Anwar, o contador, fora ocidentalizado. Abdul ainda era rude, um homem do deserto para o qual privações extremas eram a norma. Waller respeitava pessoas assim, mas só até certo ponto.
– Está com saudade de Kandahar, Abdul-Majeed? Ou prefere a beleza da Provence?
O homem deu de ombros.
– Gosto desta sala. É melhor do que a que tenho em Kandahar. Mas, de novo, e daí?
Waller recuou um passo e sorriu. Ele tinha que admirar pelo menos aquela coragem.
– Não gosto de ser traído.
– Você não entende os métodos muçulmanos, então. Não foi traição. Foi negociação. Precaução. E o Islã como um todo foi traído pelo Ocidente muitas vezes. Então, por que você seria diferente?
– Estou aqui de férias, mas preciso me afastar dos prazeres porque você tentou me tirar do trato.
– São apenas negócios. Não leve para o lado pessoal.
– Desculpe, mas sempre levo para o lado pessoal quando alguém tenta me explodir.
– Então, você é sensível demais.
– Por que você fez aquilo?
– Você mentiu para nós.
– Não minto quando o assunto são negócios.
– Um canadense? Você tem urânio enriquecido? – questionou, com escárnio. – Não mesmo. Você é um espião. Foi por isso que tentamos matá-lo.
– Na verdade, tenho urânio altamente enriquecido. É uma diferença crucial. E, se você não acreditava, por que se deu o trabalho de negociar comigo?
– Eu não acreditava, mas outras pessoas do meu grupo acreditavam. Eles cometeram o erro e coube a mim limpar a sujeira.
– Mas eles tinham razão e você estava enganado.
– Mais uma vez, isso é o que você diz. Os americanos são donos do seu país. Todo mundo sabe disso. O Canadá é um satélite do grande Satã. Um cão não sai do lado do dono.
Waller se virou para os seguranças e indicou com um gesto rápido a porta. Eles saíram, Pascal por último. Antes de sumir, apontou para uma maleta de metal apoiada no chão em um canto escuro da sala, trocando um olhar de cumplicidade com o patrão.
Waller se voltou para o prisioneiro e puxou os cabelos imundos do homem.
– Isso tudo é só porque você acha que sou canadense? Você é tão burro assim?
Os olhos de Abdul lampejaram com interesse pela primeira vez.
– Porque eu acho que você é canadense? Quer dizer que você não é?
– Não, não sou.
Waller tirou o blazer e arregaçou a manga da camisa, revelando uma marca na parte interna do braço que não podia ser vista facilmente quando ele estava vestido. Ergueu-a em frente ao rosto do muçulmano.
– Está vendo isto? Sabe o que significa?
Abdul balançou a cabeça.
– Não conheço essas marcas.
Waller apontou para cada uma delas.
– São letras do alfabeto.
– Isso não é inglês. Meu inglês é bom. Não sei o que é isso.
– É ucraniano. É uma variação do alfabeto cirílico. Faz referência ao Quinto Diretório Supremo. A tarefa dele era fornecer segurança interna contra os inimigos da União Soviética. Eu adorava meu trabalho. Tanto que o marquei a fogo em minha pele.
Abdul arregalou os olhos.
– Você é ucraniano?
Waller abaixou a manga da camisa e voltou a vestir o blazer.
– Na verdade, sempre me considerei acima de tudo um cidadão soviético. Mas talvez isso seja apenas uma distinção desnecessária. E a Ucrânia era o repositório de boa parte do arsenal nuclear da antiga União Soviética. Está entendendo agora? Ainda tenho muitos contatos lá.
– Por que não nos disse isso? – chiou Abdul.
Waller puxou uma cadeira e se sentou.
– Não é responsabilidade minha fornecer meu histórico pessoal, mas apenas urânio altamente enriquecido para explodir boa parte de uma grande cidade americana. Você sabe mesmo o que é UAE, Abdul-Majeed?
– É a arma de Alá.
– Não, não tem nada a ver com Alá – retrucou Waller com desprezo. – Urânio é um mineral encontrado em todo o mundo em quantidades mínimas. Foram os alemães, durante o governo de Hitler, que perceberam seu potencial peculiar, por meio da fissão precisa, para destruir pessoas e propriedades. Você sabia que é possível pegar com a mão urânio altamente enriquecido e só sentir efeitos adversos anos mais tarde? Eu já fiz isso. Burrice minha, é claro, mas, quando eu era jovem e tolo, era uma tentação ter tanto poder nas mãos, embora os efeitos tóxicos talvez acabem me matando antes da hora.
Fez uma pausa e prosseguiu:
– São necessários 50 quilos da substância para criar uma detonação nuclear. Mas seria preciso quase uma tonelada, ou vinte vezes a mesma quantidade, de urânio levemente enriquecido para produzir uma única bomba. E muito menos plutônio, cerca de 10 quilos, para fazer o mesmo. Mas, ao contrário do UAE, ele tem que vir do reprocessamento de material nuclear de reatores. E nenhum país permitiria que terroristas o obtivessem porque é como uma impressão digital: o dispositivo explosivo levaria a assinatura química do país.
– Você prometeu material suficiente para uma bomba nuclear do tamanho de uma mala – alegou Abdul.
Waller balançou a cabeça, desapontado.
– Sabe, se você quer entrar para o ramo do terrorismo nuclear, deveria gastar algum tempo estudando ciência de verdade. Bombas nucleares que cabem em uma mala são papo furado, coisa de filmes de Hollywood e políticos paranoicos. Na verdade, a bomba é do tamanho de um utilitário. Talvez possa ser menor, mas, quanto menor o dispositivo, maiores os custos de manutenção, por mais ilógico que isso possa parecer. Seria necessário um homem muito forte para carregar uma mala que pesa centenas de quilos, e o núcleo atômico não duraria muito. O que eu prometi foi uma quantidade suficiente de urânio altamente enriquecido processado por técnicas de centrifugação a gás para criar o núcleo de um dispositivo atômico. Urânio físsil contendo mais do que 85 por cento de urânio 235. Ou seja, próprio para armamentos. Também posso oferecer, por um preço reduzido, urânio usável em armamentos, que só tem vinte por cento de U-235. A explosão será muito menor, porém, ainda assim, grande, causando precipitação radioativa.
Waller se deslocou pela sala, mas ainda olhando para o muçulmano.
– Também posso oferecer assistência técnica. Por exemplo, embrulhar o núcleo físsil da arma em um refletor de nêutrons para reduzir bastante a massa crítica, o que é bom quando se quer o maior poder explosivo possível. É um equilíbrio delicado. Uma quantidade excessiva de isótopos de U-238 e a reação em cadeia que proporciona à substância sua capacidade de fissão da massa se torna inviável. Então, nada de explosão nem de radioatividade.
Pela primeira vez, Abdul pareceu impressionado:
– Você sabe muito sobre o assunto.
– Sim, eu sei muito sobre o assunto – zombou Waller. – Vivi na Ucrânia quando o país era uma grande arma atômica esperando para ser utilizada. Trabalhei em instalações nucleares. – Acrescentou em tom ameaçador: – E torturei cientistas suspeitos de vender os segredos do próprio país aos americanos e seus aliados. Foi uma escola muito valiosa para mim.
– Então estávamos enganados a seu respeito. Podemos seguir adiante com nosso trato.
Waller fez uma expressão de divertimento.
– Ah, você acha mesmo? Depois de ter tentado me matar?
– Por que não? Você não morreu. Está tudo explicado. Você vai ganhar muito dinheiro.
– Bem, nem sempre o mais importante é o dinheiro. E nem tudo está explicado. Por exemplo, sei que não foi você que tomou a decisão de me matar porque não é importante o suficiente para isso. Quero os nomes dos mandantes.
Abdul sorriu.
– Isso você nunca vai saber.
– Você alguma vez já foi torturado? Perdoe-me por me recusar a usar o ridículo termo “interrogatório reforçado”. Prefiro ir direto ao ponto.
O afegão se mostrou entediado.
– Privação do sono, afogamento simulado, choque com aguilhões, música alta.
– Não, você não está me entendendo. Perguntei se você já foi torturado, e não afagado pelo que hoje em dia é chamado de tortura.
Waller abriu a maleta de metal e pegou vários instrumentos.
– Dizem que os alemães sabiam como torturar as pessoas e, de fato, eles eram bons nisso. Hoje, os israelenses têm a reputação de ser os melhores interrogadores e afirmam que não torturam, mas usam recursos psicológicos. Quanto a mim, acredito que os soviéticos eram únicos nesse ramo. Tínhamos os melhores franco-atiradores e também os melhores interrogadores. E eu sou antiquado. Não tenho paciência para os últimos apetrechos tecnológicos. Uso métodos testados e comprovados para extrair o que quero com base em um fato.
– Que fato? – perguntou o muçulmano em voz baixa.
Waller virou-se para ele.
– O fato de que as pessoas são merdas. Você é um merda, Abdul-Majeed? Acho que vamos descobrir hoje à noite.