Livrai-nos do mal
Capítulo 67
ASSIM QUE REGGIE PASSOU pelo vilarejo de Leavesden e enveredou pelas estradas sinuosas que levavam até Harrowsfield, o sol desapareceu atrás de nuvens escuras. Pelo menos as condições meteorológicas correspondiam ao seu humor. Atravessou o portão da propriedade, estacionou o carro, respirou fundo e entrou na casa.
Ela telefonara e informara o horário previsto para chegar, assim o professor, Whit, Liza e Dominic a esperavam na biblioteca. Ao cruzar o hall, viu Niles Jansen, o colega que Shaw havia nocauteado no chalé na Provence, e lhe atirou o telefone que o agente tinha pegado.
– Como está? – perguntou ela, indicando o grande hematoma em seu rosto.
– Parece que fui atingido por um tanque.
– Na verdade, acho que foi isso mesmo que aconteceu.
Reggie respirou fundo para se acalmar e abriu a porta da biblioteca. Sentada de um lado da mesa, de frente para todos os outros, relatou minuciosamente tudo o que lembrava do tempo passado em Gordes e dos dias passados com Shaw.
– E você não descobriu nada mais a respeito dele? – perguntou Mallory, sem se dar o trabalho de esconder sua incredulidade.
– É difícil fazer um interrogatório decente quando você está botando os bofes para fora. E ele não é do tipo que fornece muitas informações. É alguém muito experiente. Fora isso, qualquer coisa é especulação.
– Mas a organização dele é oficial, ao contrário da nossa – ressaltou Mallory.
– O que significa que todos nós podemos ser acusados de tentativa de homicídio, apesar de todo o bem que fizemos – complementou Whit. – Kuchin poderia nos processar e provavelmente ganharia a causa. Talvez seja o caso de procurarmos advogados.
– Isso não tem graça, Whit – disparou Liza. – Toda a nossa operação pode estar em perigo.
– Shaw não sabe onde estamos – afirmou Reggie. – É claro que nunca pensei em trazê-lo aqui.
– Foi o que imaginei – comentou Whit, e acrescentou, encarando Reggie: – E Dom disse que devíamos confiar em você.
Reggie lançou um olhar de gratidão para Dominic antes de se virar para Mallory.
– Mas, com os recursos de que dispõem, eles podem nos localizar, pois nos conhecem muito bem.
– Sugiro que todos vocês fiquem em Harrowsfield até segunda ordem – falou Mallory.
Whit e Dominic anuíram.
– Tenho algumas coisas a resolver – declarou Reggie –, mas, depois, voltarei para ficar.
Mallory assentiu.
– Muito bem, resolvido. Agora, passemos a questões mais importantes: Fedir Kuchin e sua lastimável sobrevivência.
– Iremos atrás dele, como conversamos ontem – falou Whit.
– Após muita deliberação, concordo com o Sr. Shaw – comentou Mallory, causando surpresa.
– Concorda com ele em que sentido? – perguntou Reggie, que não participara da conversa do dia anterior.
Whit se pronunciou:
– Seu amigo afirmou que Kuchin virá atrás de nós. Portanto, ao invés de irmos atrás dele, devemos nos proteger.
– Também conversamos sobre isso pouco antes de nos separarmos – lembrou Reggie.
Mallory se levantou, foi até a lareira vazia, onde, com algumas pancadas, tirou os restos de fumo do cachimbo.
– Tenho certeza de que conversaram. De fato, parece que essa outra organização é capaz de dar cabo do Sr. Kuchin melhor do que nós.
– Mas eles não vão fazer isso – rebateu Whit. – Eu já disse ao senhor. Eles estão pulando fora. Aparentemente, não se importam com o fato de Kuchin vender garotas como prostitutas. Depois que o homem abandonou as negociações de material nuclear, ficou tudo bem para esses caras.
– Isso foi antes de eles descobrirem a identidade de Waller. – O professor olhou para Reggie. – Você contou a Shaw que Waller é Fedir Kuchin, certo?
– Contei. Mas ele não conhece Fedir Kuchin.
Mallory acendeu o cachimbo.
– Não importa. Ele vai pesquisar. Quando souber que o Carniceiro de Kiev está à solta, sua organização irá atrás do monstro ou notificará outra agência mais apropriada para essa tarefa.
– Então, simplesmente entregamos de bandeja para eles todo o nosso trabalho? – perguntou Reggie. – Por que eles deveriam enfrentar Kuchin?
Mallory a encarou com interesse.
– Você quer saber por que Shaw precisa enfrentar Kuchin?
Reggie corou.
– Não foi isso que eu disse, professor.
– E não há garantia alguma de que eles irão atrás dele – protestou Whit. – Talvez eles tenham outras prioridades.
– Não há garantia em nada do que fazemos, Whit. E acho que isso é o melhor que podemos fazer. Pelo menos por enquanto.
– Bem, eu discordo.
– Discordâncias não me incomodam, desde que não se transformem em ações unilaterais.
– Bem, e se Kuchin ficar livre?
– Há muitos homens como ele por aí. Não vou pôr em risco a possibilidade de abater todos eles para pegar apenas um.
– Mas já mostramos a ele toda a merda do passado. Agora, só precisamos matar o canalha. Um tiro de espingarda de longe. Veneno no café da manhã. Furar o babaca na rua com um guarda-chuva de ponta envenenada, como fizeram com aquele búlgaro.
Mallory balançou a cabeça.
– Mas sua morte e seu passado serão investigados e o mundo saberá que ele é o Carniceiro de Kiev. E os outros ficarão em estado de alerta.
– Os outros? – zombou Whit. – O senhor acha que esses babacas trocam correspondência entre si? “Escute, colega, os caras do bem estão caçando você a tiros.” Nunca aceitei essa lógica, professor, e não é agora que vou aceitá-la. O senhor está falando para deixá-lo livre para sempre?
– Não, eu falei que podemos deixar que outros cuidem disso por enquanto.
Reggie interveio:
– Concordo com Whit. O problema é que agora Kuchin vai se esconder em um lugar tão remoto que nunca seremos capazes de encontrá-lo. Ele provavelmente tem esconderijos por todo o mundo.
– Temos recursos limitados, e esse é mais um motivo para passarmos a outra pessoa. Mas, por agora, acho que vocês deveriam relaxar e se reorganizar. Dominic precisa se curar fisicamente. – Mallory se voltou para Reggie e, depois, para Whit. – E você precisa se curar de outra maneira.
– Minha mente está lúcida como sempre – murmurou Whit.
– Eu não estava necessariamente falando de você – replicou Mallory.
– Ah, o problema é comigo? – exclamou Reggie, irritada.
– Todos precisam descansar – disse Mallory, demonstrando cansaço.
– Mesmo estando na mira do psicopata ucraniano? – indagou Whit.
– Sim, mesmo assim – concluiu o professor, levantando-se e saindo da sala.
– Ele está sob muita pressão – defendeu-o Liza.
– Todos nós estamos sob muita pressão – retrucou Reggie.
– A operação na Provence custou muito caro – Liza continuou. – E está cada vez mais difícil conseguir verba. Miles passa boa parte do tempo à procura de benfeitores.
Whit franziu a testa.
– Tudo bem, vou reduzir meu salário. Ah, esqueci que não ganho um tostão para arriscar minha vida.
– Eu não estava falando nesse sentido, Whit – falou Liza.
– Acho que nenhum de nós está conseguindo se expressar direito – interveio Dominic.
Whit ficou de pé.
– Isso é o que você pensa, Dom. Eu disse exatamente o que queria.
Antes que alguém pudesse falar algo, ele saiu da biblioteca, batendo a porta.