Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 24 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 22

 

A CASA ERA GRANDE, EM estilo contemporâneo e ficava a quilômetros de qualquer outra moradia. Foram recebidos no portão de entrada por um homem trajando um terno escuro de alfaiataria inglesa e um turbante. Ele revistou os dois e a arma de Waller foi confiscada.

– É uma Heckler and Koch 9 milímetros personalizada – disse ao árabe. – Espero recebê-la de volta nas mesmas condições, ou seja, perfeita.

Se o homem compreendeu, não deu sinal algum disso.

– E meus homens? – Waller indicou os seis sujeitos parrudos atrás dele que haviam continuado com suas armas.

Em um inglês entrecortado, o árabe respondeu que eles podiam entrar e também ficar com as armas. Waller estranhou, mas não falou nada.

Rice ergueu a cabeça e olhou para a fachada escura.

– Não parece ser a casa de alguém – comentou esperançoso.

Enquanto caminhavam em direção à construção, Waller replicou:

– Ah, eles estão em casa. Tenho certeza de que seremos muito bem-acolhidos.

– Como você pode ter tanta certeza?

– Apenas tenho. Seus nervos é que não devem estar deixando você pensar direito.

– Por que será, não é? – sussurrou Rice.

A iluminação interna era tão fraca que Rice precisou apertar os olhos para enxergar os cantos mais distantes dos grandes cômodos. Com os guarda-costas atrás, Waller e Rice seguiram o homem de turbante pela casa.

O anfitrião parou na frente de uma grande porta dupla que parecia ser feita de aço inoxidável. Depois, abriu-a e gesticulou para que os outros passassem adiante. Ao entrarem, viram um homem sentado atrás de uma mesa redonda no meio do cômodo, vestindo uma túnica larga conhecida como thobe. Apenas uma luminária de mesa rompia a escuridão. Seu corpo era meio atarracado, embora o rosto fosse fino. A barba estava bem aparada e ele não usava nada na cabeça.

– Sentem-se – pediu, apontando as cadeiras em volta da mesa.

Waller se demorou examinando a sala, avaliou posições táticas e, em seguida, gesticulou para que os guarda-costas se postassem em vários pontos. Acomodou-se em uma cadeira e estudou o homem.

– Eu esperava mais gente – comentou.

– Tenho autorização – disse o homem em um inglês claro.

Waller notou o brilho do suor em seu rosto, o modo como seu olhar vagueava pela sala. O árabe voltou a prestar atenção nos visitantes.

– UAE – falou ele.

– Urânio altamente enriquecido – completou Waller.

– Como você pode obtê-lo?

Waller pareceu confuso.

– Isso já foi explicado.

– Explique de novo.

– O Acordo de Compra de UAE entre a Rússia e os Estados Unidos, firmado em 1993 – começou Waller em tom monótono, como se estivesse dando uma aula. – É uma maneira de os russos desmantelarem seu estoque de armas nucleares e reduzirem o urânio a uma forma que será usada em reatores nucleares e outros processos não armamentistas. Posso entediá-lo com termos como hexafluoreto de urânio, resíduos de urânio empobrecido, componentes de mistura e coisas do gênero, porém o mais importante é que os russos têm 500 toneladas de UAE e concordaram em vendê-las aos americanos. Até agora, os ianques receberam cerca de 400 toneladas, perfazendo uma média de 30 toneladas por ano. Todo o processo é monitorado por ambos os lados, exceto o desmantelamento inicial e a separação do UAE das armas de metal do resto das armas nucleares. Os russos executam esse procedimento sozinhos. Assim, é possível que certas pessoas com contatos tenham acesso a um pouco de ouro nuclear.

– E você tem esses contatos? – perguntou o homem.

Mais uma vez, Waller pareceu perplexo.

– Se eu não tivesse, não estaria aqui negociando com você. – Ele ergueu o celular. – Você pode verificar com um telefonema.

– De quanto estamos falando?

– Em relação às armas ou ao UAE?

– Ao UAE.

Waller notou que o árabe esfregava os dedos excessivamente. O homem percebeu o olhar e escondeu a mão embaixo da mesa.

– Quinhentas toneladas do material podem ser usadas para armar cerca de trinta mil ogivas nucleares, ou seja, mais ou menos a quantidade que os soviéticos possuíam no auge da Guerra Fria. Meus contatos podem contrabandear cerca de 90 quilos de UAE. É o suficiente para duas ogivas capazes de devastar uma cidade grande ou para armar vários dispositivos menores improvisados que podem ser usados contra vários alvos.

– Então é muito valioso?

– Digamos que o Irã está gastando bilhões de dólares para construir as instalações e dominar a tecnologia e os processos para, no final, alcançar o que estou oferecendo a você esta noite. A única coisa mais valiosa na Terra talvez seja o plutônio, que é impossível de se conseguir.

Em um movimento brusco, o muçulmano se inclinou para a frente.

– Qual o preço?

Waller olhou para Rice mais uma vez, depois voltou a encarar o árabe.

– Você diz que tem autorização para fechar negócios?

– Parafraseando-o, não estaria aqui se não tivesse.

– E qual é seu nome?

– Isso não é importante. O preço?

– Duzentos milhões de libras esterlinas transferidas para a minha conta.

Waller estava prestes a dizer algo mais quando o homem falou:

– Fechado.

Waller olhou para o tronco do muçulmano e, em seguida, farejou o ar. Deixou o celular cair e se abaixou para pegá-lo. No momento seguinte, Rice caiu de costas enquanto Waller levantava a mesa e a empurrava para cima do árabe. Depois, pegou o braço de Rice e gritou para os seus seguranças:

– Corram!

Rice foi jogado por uma janela e um estilhaço de vidro rasgou sua calça e penetrou na coxa. Algo caiu em cima dele, tirando-lhe o fôlego. Em seguida, ele foi puxado e arrastado enquanto ofegava e a perna ferida jorrava sangue.

A onda de impacto da explosão da casa o atirou para longe. Destroços começaram a cair do céu, mas Waller o protegia com o próprio corpo, respirando com dificuldade. Depois que acabou a chuva de tábuas, tijolos, cacos de vidro e pedaços de móveis, Waller e Rice lentamente se sentaram.

– Que diabos foi isso? – perguntou Rice enquanto agarrava a perna ferida.

Waller se levantou e tirou o pó da roupa.

– O idiota era um homem-bomba.

– Como você sabia?

– O thobe é sempre largo, mas o dele era justo demais, porque bananas de dinamite são volumosas. Seu olhar estava meio turvo, apesar de fixo em nós, pois ele não prestava atenção na conversa. Ele escondia algo e é uma reação humana comum achar que, se você não olhar de verdade para alguém, aquela pessoa não vai enxergar o que se passa com você. O mesmo instinto pode ser observado em cachorros.

– Olhar meio turvo?

– Ele deve ter sido drogado para levar a cabo a missão, afinal, quem de fato quer se explodir, mesmo que seja para encontrar virgens no paraíso? E também tinha o cheiro.

– Que cheiro?

– A dinamite é colocada em pedaços de madeira banhados em água. Tem um aroma peculiar. Também senti um leve cheiro de metal. Provavelmente estilhaços dentro do invólucro amarrado em volta da sua barriga, cujo objetivo é causar o máximo de danos no ponto de origem. Deixei meu telefone cair para poder olhar embaixo da mesa. Havia uma bolsa ao lado dele com uma bateria e fios ligados ao explosivo que detonaria a bomba costurada em volta do seu corpo. Costurada para que ele não pudesse removê-la com facilidade. É por isso que ele pôs a mão embaixo da mesa, para segurar o detonador. E o cara não se levantou para nos cumprimentar. Muito incomum para um muçulmano. Mas bananas de dinamite são pesadas e ele deve ter ficado com medo de que víssemos algo suspeito. – Ele encolheu os ombros resignado. – Eu deveria ter percebido muito antes. Agora, vamos dar uma olhada nessa perna.

Waller se agachou, rasgou a calça de Rice e examinou a ferida mais de perto.

– Desculpe por ter sido obrigado a empurrar você para fora da janela.

– Meu Deus, Evan, você salvou minha vida.

– Está sangrando, mas o corte não foi tão profundo a ponto de atingir uma artéria.

– Tem certeza?

– Já vi ferimentos como este. Se tivesse atingido uma artéria, você não estaria consciente porque teria perdido quase todo o sangue a esta altura. – Ele usou tiras das calças de Rice para fazer um curativo improvisado. – Vamos levá-lo a um médico assim que possível.

Waller olhou para a casa e viu um dos seus seguranças cambaleando em sua direção. Foi correndo até o homem e pegou-o no braço.

– Pascal, você está ferido?

– Não, só um pouco atordoado.

Pascal era grego, magro, com quase 1,80 metro, pele morena e cabelos escuros e encaracolados. Tinha nervos de aço e parecia estar sempre ligado. Capaz de correr o dia inteiro e atirar com precisão, nunca se movia depressa quando a cautela era necessária e ninguém corria mais rápido do que ele se a situação exigisse alta velocidade. Era o menor dos homens de Waller e também o mais durão. Como Pascal fora morar com Waller quando tinha apenas 10 anos, o patrão o treinara para ser o chefe dos seguranças. Não tão inteligente quanto Rice para administrar os negócios, mas, ainda assim, uma peça inestimável.

– E os outros?

– Tanner e Dimitri morreram. A cabeça de Dimitri foi arrancada, indo parar em um canteiro de flores. O resto dos homens está bem, só com hematomas. Mas a explosão destruiu um dos caminhões.

Waller olhou para a massa enfumaçada perto da porta principal. O Escalade havia sofrido o impacto da explosão, felizmente evitando que os outros veículos fossem danificados. Gritos ecoaram à esquerda e Waller e Pascal correram nessa direção. Da escuridão, surgiram três pessoas. Duas lutavam contra uma e, por fim, a venceram. O prisioneiro era o homem com o belo terno que os havia levado para dentro da casa.

– O filho da puta estava tentando fugir, Sr. Waller – disse um dos seguranças, que segurava o braço do árabe atrás das costas.

Waller esticou o braço e agarrou o pescoço do homem.

– Quer que eu o mate a tiros, Sr. Waller? – perguntou Pascal.

– Não, não, Pascal. Quero conversar com ele antes.

Waller encarou o homem.

– Você é peixe pequeno. O homem que se explodiu também era um peixe pequeno, que pode ser descartado porque não é valioso. Mas você é valioso. Quero saber quem autorizou isto. Entendeu?

O árabe balançou a cabeça e começou a falar rapidamente em seu idioma nativo e Waller respondeu na mesma língua, divertindo-se com o choque nos olhos do homem antes de ordenar que os seguranças recolhessem os restos mortais de Tanner e Dimitri.

– Mais uma coisa. – Waller enfiou a mão no bolso do prisioneiro e sacou a 9 milímetros confiscada. – Gosto muito desta arma. Gosto tanto que vou usá-la para matar você depois que descobrir tudo o que preciso saber.

 

– Um médico vai nos encontrar na pista de decolagem para dar um jeito na sua perna – informou Waller, sentado ao lado de Rice no carro.

– Por que eles tentaram nos explodir?

– Ainda não sei. Mas vou descobrir e, depois, revidar com muito mais força.

Rice balançou a cabeça e deu um riso silencioso. Waller olhou para ele.

– O que foi?

– Estava pensando que, depois de tudo isso, você de fato precisa dessas férias na Provence.