Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 27 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 25

 

EVAN WALLER FECHOU OS olhos e deixou que seus pensamentos voltassem vinte, trinta anos no tempo. Em sua mente, a imagem do legítimo empresário canadense com empreendimentos criminosos ocultos desapareceu e a alma do ucraniano Fedir Kuchin veio à tona como uma serpente descartando uma pele desbotada por outra nova. Seu olhar correu pelo braço nu, procurando um ponto adequado. Tensionou o bíceps, apertando ainda mais o elástico em torno do músculo. As veias do antebraço incharam e ele escolheu uma para espetar a agulha. Pressionou o êmbolo e o coquetel personalizado fluiu para dentro do seu corpo: alguns esteroides, alguns medicamentos, um pouco do seu próprio elixir obtido a alto preço no Extremo Oriente. Algo absolutamente único. Como deveria ser, pensou. O que era bom para o resto das pessoas não era bom o suficiente para ele.

Waller respirou fundo e sentiu o corpo se inflamar. Sorriu, se recostou e, então, a adrenalina entrou em ação. Ele pulou, fez polichinelos, flexões, mais alguns polichinelos e, em seguida, fez um exercício de barra por dez vezes, sorrindo a cada repetição.

Depois, se deixou cair no chão coberto por esteiras, sem fôlego, e se olhou no espelho. Para um homem de 63 anos, estava em excelente forma. Aliás, mesmo para um homem de 53 ou até mesmo 33 anos, segundo os fracos padrões ocidentais. Ele tinha pequenos pneus que se insinuavam na cintura e o abdômen não era mais sólido como uma rocha, porém a barriga era seca e, quando a tensionava, os músculos ficavam duros. As coxas estavam um pouco mais finas, mas os braços e ombros ainda eram robustos. Ele esfregou a cabeça calva e observou os pelos grisalhos que recobriam o peito. Independentemente do que ele tomasse, de quanto exercício fizesse, da distância que corresse, seu corpo continuava a envelhecer. Em parte, Waller ficava satisfeito, pois ninguém ainda conseguira matá-lo. Por outro lado... bem, ele estava envelhecendo. E isso não era bom.

Tomou banho, esfregando o braço para eliminar a marca da picada no braço. Envolto em um roupão, percorreu sua cobertura em Montreal. A vista era fabulosa através das janelas com materiais à prova de bala de última geração. O presidente dos Estados Unidos usava uma tecnologia semelhante em sua limusine e na Casa Branca. Inserida no espesso vidro, também havia uma membrana que distorcia a imagem vista de fora. Quem olhasse do exterior avistaria Waller quase 20 centímetros à direita de sua localização real. Cinco minutos mais tarde, já seriam mais de 30 centímetros à esquerda. A deturpação era dinâmica, para que ninguém pudesse mirá-lo com perfeição. Pelo menos em tese.

Diante da noite fresca de verão, ele olhou para o peito à procura do revelador ponto vermelho da mira do franco-atirador. Poderia haver alguém lá fora capaz de calibrar a imagem ilusória e estilhaçar a excepcional barreira que Waller erguera entre si próprio e seus inimigos. Mas ele não recuou para a sombra. Se o queriam tanto assim, podiam tentar. Porém, era melhor que o derrubassem com o primeiro tiro, pois não teriam uma segunda oportunidade. Em seu mundo, sobrevivia quem tinha mais ímpeto para matar.

Era o que os muçulmanos logo descobririam. O homem que eles haviam capturado não durou muito. Depois de trinta minutos sozinho com Waller e sua pequena caixa de ferramentas, o sujeito contou tudo o que era necessário saber. Bem, quase tudo. Ele sabia os nomes das pessoas que tinham ordenado sua morte e onde estavam. E havia mais um sujeito, Abdul-Majeed, o ponto de contato inicial que guiou Waller pelo caminho que quase resultara na sua morte. Waller não era facilmente enganado, mas Abdul conseguira.

O que o muçulmano capturado não foi capaz de dizer era por que haviam tentado matar Waller. Ele não sabia, ou pelo menos foi o que jurou em seu último grito antes de morrer. Aquela era a pergunta mais intrigante de todas. Será que ele era o alvo de alguma outra força?

Waller vestiu calças escuras e uma camisa de seda branca e desceu pelo elevador particular até a garagem onde sua equipe o esperava. Ele não permitia que ninguém entrasse em seu apartamento, nem mesmo o pessoal da limpeza. Nem mesmo o confiável Pascal. Aquele era seu santuário particular. Eles se acomodaram nos utilitários e partiram.

Rumaram para o norte e a metrópole logo deu lugar a espaços mais abertos. Waller tamborilava no vidro, observando as grandes árvores que passavam na escuridão. Pensou ter visto um alce perto da estrada, mas o vulto sumiu na mesma hora. Seu pai caçava animais para comer na zona rural da Ucrânia, onde havia crescido. Agora, o filho caçava seres humanos por prazer e lucro. Aquela era uma excursão desse tipo.

Havia muitas correntes de ar frio no interior do edifício. Por causa do isolamento térmico ruim, as janelas estavam embaçadas. Waller pôs um casaco pesado e entrou pela porta aberta por um de seus seguranças. O espaço era grande, do tamanho de um armazém, com vigas no teto que desapareciam na escuridão. Seis pessoas estavam alinhadas no centro, com agasalhos pretos e capuzes nas cabeças, os pés acorrentados, as mãos atadas nas costas. A mais alta mal chegava ao peito de Waller.

– Como está a perna? – perguntou ao homem esbelto que surgiu das sombras.

Aparentemente, Alan Rice havia se recuperado da explosão, mas, mesmo no escuro, sua pele parecia mais pálida do que o normal e ele mancava um pouco.

– Nada que um analgésico não resolva.

– Quantas temos hoje?

Rice abriu o pequeno laptop e a luz da tela brilhou como uma pequena fogueira em meio às trevas.

– Neste carregamento, 98. Sessenta por cento da China, vinte por cento da Malásia, dez do Vietnã, quatro da Coreia do Sul e o resto é uma mistura de Mianmar, Turcomenistão, Cazaquistão e Cingapura.

– Quanto estamos conseguindo atualmente por unidade?

Rice digitou no teclado.

– Vinte mil dólares americanos. Um aumento de cinco por cento em relação ao ano passado, embora a crise econômica tenha afetado alguns dos nossos compradores. Essa é uma média. Conseguimos mais pelas malaias e coreanas e menos pelas centro-asiáticas.

– Gostos internacionais? – indagou Waller enquanto caminhava em torno das figuras encapuzadas. Estalou os dedos e um foco iluminou o pequeno grupo. – Preconceito com as mulheres da antiga União Soviética? – questionou em tom de desaprovação.

– Bem, as mulheres que estamos recebendo de lá são muito esqueléticas – explicou Rice. – E ainda há o fator de exotismo ligado às asiáticas do Extremo Oriente.

– Na verdade, sempre achei as mulheres do Leste Europeu as mais bonitas do mundo.

Waller olhou para Pascal, que estava com as mãos entrelaçadas à frente do corpo, e não atrás, de maneira que a arma pudesse ser sacada do coldre com mais rapidez se necessário. Só de ver Pascal já sentia uma espécie de conforto, não apenas por causa de sua habilidade em protegê-lo.

Pascal era seu filho.

Seu filho bastardo concebido com uma grega que Waller conhecera durante uma viagem. Obviamente, Pascal não sabia disso. Waller não tinha nenhum apego emocional ao rapaz, nada que se assemelhasse a amor ou devoção. No entanto, se sentira obrigado a ajudar o garoto, em especial porque não fizera nada pela mãe. Ela morrera na miséria, deixando apenas o filho órfão. Waller permitiu que isso acontecesse apenas por ter perdido o interesse pela mulher, que era bonita, mas não passava de uma camponesa simplória e sem instrução. Então, pegou Pascal, na época com 10 anos, treinou-o e o transformou no guerreiro feroz que trabalhava para ele e o protegia de qualquer mal. Sim, Pascal conquistara sua posição no pequeno exército de Waller.

– Pascal, de que tipo de mulher você gosta? As do Leste Europeu ou as asiáticas?

O guarda-costas não hesitou:

– As mulheres gregas são as coisas mais sensuais que Deus criou. Para mim, as gregas são as melhores de todas.

Waller sorriu, levantou um dos capuzes, revelando uma garota chinesa. Ela mal tinha 14 anos e tremia de frio e medo. Estava com uma venda nos olhos e uma fita adesiva tapava sua boca, abafando os gemidos, embora não houvesse ninguém por perto que fosse se importar caso ela gritasse.

– Então, 1,96 milhão pelo presente carregamento? – perguntou Waller.

– Correto. Menos as despesas. O ganho líquido ainda ultrapassa 1,6 milhão. Tudo em dólares americanos, que, até o momento, ainda é a moeda de base. Porém, tenho protegido o câmbio das reservas do nosso fluxo de caixa com iuanes e rupias indianas como medida de segurança.

Waller se virou para Rice.

– As margens diminuíram. Por quê?

– Principalmente por causa do custo do combustível dos navios. Elas não viajam no Queen Elizabeth II. Optamos pela embarcação barata e as transportamos em contêineres de carga, mas, ainda assim, sai caro. E temos que usar dois barcos para um carregamento por causa da logística e para evitar detecção. Só isso dobra o custo do combustível. Precisamos fornecer coisas básicas como comida e água e subornar tripulantes para que deixem entrar oxigênio nos contêineres de vez em quando. Mas não há outra maneira. O transporte aéreo é problemático demais e ainda está para ser inventado um carro capaz de atravessar o Pacífico. Mesmo assim, é um lucro líquido invejável.

Waller assentiu enquanto continuava a caminhar em volta das mulheres.

– Quantos carregamentos estamos recebendo?

– Quatro por mês, com mais ou menos o mesmo número de unidades em cada um deles. Descobrimos que essa quantidade preenche bem os contêineres e só perdemos de dois a três por cento da carga na viagem devido a inanição, desidratação e doenças, entre outros fatores. Está bem abaixo do padrão de tráfico humano, que apresenta uma perda média de doze por cento.

– Por que selecionou estas seis?

Rice deu de ombros.

– As melhores em termos de aparência e saúde. Mas é claro que você tem a última palavra. De qualquer forma, fizemos uma triagem preliminar meticulosa.

– Respeito seus esforços.

Rice se aproximou.

– É melhor do que negociar com maníacos de turbante.

– Você acha? – indagou Waller em tom jocoso. – Eu achei divertidíssimo. E me deu outro objetivo de vida: exterminar até o último deles.

Rice falou tão baixo que só Waller pôde ouvir:

– Você acha isso sensato, Evan? Aquelas pessoas são mesmo loucas. Elas nos matam, se matam, matam qualquer pessoa.

– Mas é aí que está o desafio. Quero Abdul-Majeed em particular. Ele era o encarregado e não estava lá. Isso significa que é o traidor. E sua traição custou dois dos meus melhores homens, que Deus proteja as almas deles.

Como Rice vira Dimitri e Tanner matarem seis pessoas, duvidava que estivessem com Deus.

– Mas por que eles fariam isso? Você tinha o que eles queriam.

– Pretendo fazer essa mesma pergunta quando encontrar o caro Abdul.

O BlackBerry de Pascal emitiu um bipe e ele leu a mensagem, chamando a atenção de Waller.

– Sim, Pascal?

O homem avançou e sussurrou no ouvido de Waller, que sorriu.

– Os muçulmanos voltaram para ficar.

– Algum progresso? – indagou Rice.

– É o que parece – respondeu Waller brevemente.

Ele encarou cada um dos seguranças, que estavam em pé no escuro com as mãos entrelaçadas na frente do corpo. Haviam sido recrutados nas Forças Armadas de vários países, conservando a mesma disciplina. Aquilo agradava a Waller, pois ele também já usara uma farda. Seu olhar se deteve em Rice.

– Seria decepcionante saber que tenho um traidor entre meus homens.

Rice conseguiu reunir um pouco de coragem sob aquele olhar fulminante e retrucou:

– Não olhe para mim. Por que eu o trairia se também acabaria indo pelos ares?

– Uma reação adequada. Por enquanto.

Waller levantou os capuzes do resto das moças, examinou-as como se estivesse em um leilão de gado e, por fim, escolheu a menor. Agarrou seu braço magro e a puxou. Os pés da garota tropeçaram nos grilhões.

– Isolamos acusticamente um cômodo lá em cima – informou Rice. – Carpete e móveis novos também. Quer que as algemas e correntes sejam retiradas?

– Não. Me dê duas horas e, depois, mande alguém fazer uma faxina.

Assim que Waller se afastou o bastante para não ouvir, um dos guardas se aproximou de Rice.

– O Sr. Waller não se preocupa?

– Com o quê? – perguntou Rice em tom seco.

O homenzarrão parecia constrangido.

– Você sabe, aids, doenças sexualmente transmissíveis, coisas assim.

– Todas essas mulheres são virgens. Esse é um dos motivos, Manuel.

– Mesmo assim, ralé do Terceiro Mundo. Nunca se sabe.

Rice olhou para a escada que seu chefe percorrera com a garota.

– Não acredito que ele realmente faça sexo com elas.

– O que ele faz, então?

– Para falar a verdade, nem quero saber.