Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 97 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 95

 

KUCHIN CAMINHAVA SOZINHO, o rifle na mão direita, cano abaixado. Podia ouvir os latidos à sua frente. De qualquer forma, não importava se os animais conseguissem ou não encontrar um rastro. Os cheiros ali eram problemáticos por causa do terreno e da composição das rochas. Sem dúvida, um homem como Shaw tinha experiência em despistar até mesmo os cães farejadores mais treinados. Aquela era uma partida de xadrez e era necessário pensar no lance atual e nos quatro seguintes. Kuchin seguira traidores por lodo, lama, gelo e água na Ucrânia como parte de suas tarefas na KGB. Quase sempre fora bem-sucedido, auxiliado por um desejo interno de nunca admitir uma derrota. Era o mesmo atributo que havia alimentado sua rápida ascensão na agência de segurança. Os superiores adoravam homens como Kuchin porque assim eles faziam bonito para os superiores deles.

Refletira por muito tempo sobre como fazer aquilo. Uma parte de si mesmo queria amarrar cada um deles nu a uma mesa, escalpelá-los, cortar seus intestinos e aplicar torturas que Abdul-Majeed nunca poderia ter imaginado. Mas, por fim, Kuchin resolveu não fazer nada disso, em especial porque, ao contrário do muçulmano, eles haviam demonstrado coragem, confrontando-o diretamente, arriscando a própria vida. Não se esconderam e mandaram um lacaio drogado para matá-lo, como fizera Abdul. Por esse motivo, Kuchin respeitava o grupo, ainda que com relutância. Já Rice eram outros quinhentos. Ele morreria de qualquer maneira, mas Kuchin o colocara junto com os outros apenas por uma questão de conveniência. Não pretendia perder muito tempo com o homem. Seu antigo braço direito não merecia isso.

A única opção, portanto, era a caçada. Ali, no seu terreno, Kuchin lhes dera uma pequena vantagem. Ele não era tolo; sobreviveria a tudo aquilo. Já eles, não. Mas pelo menos teriam uma oportunidade de adiar um pouco a própria morte. Kuchin também não escaparia. Ele havia fechado um ciclo. Seu pequeno gabinete na cobertura fora descoberto. Deviam estar lá naquele instante reunindo todas as provas necessárias para mandá-lo a julgamento na Ucrânia, e o resultado inevitável seria a sua execução.

Meus compatriotas vão me trucidar.

Seus dias de esconderijo haviam terminado. Evan Waller estava morto. O executivo canadense era uma imitação pálida do homem que Fedir Kuchin de fato era. No final, ele não correria. Não se esconderia mais. Teriam que capturá-lo ali, no seu último posto de defesa. Eles venceriam porque eram mais numerosos, mas Kuchin levaria muita gente junto. Era uma maneira apropriada para um velho guerreiro sair de cena. Segundo as suas regras.

Ele sorriu. Talvez, daquela maneira, enfim acabasse entrando para a história. O verdadeiro Carniceiro de Kiev. Mas isso viria mais tarde. Ele tinha quatro vidas a eliminar naquela noite. Não esperava que os quatro fossem morrer facilmente, sobretudo Shaw e a mulher. Eles lutariam com vigor. Eram sobreviventes. Bem, ele também era. E pretendia deixar a mulher por último. Tinha planos especiais para ela. Sua morte seria a mais demorada.

Kuchin levantou o rifle e mirou uma rena a centenas de metros. Os soviéticos foram exímios matadores de longa distância no Afeganistão com seus franco-atiradores e helicópteros de ataque. Talvez tivessem ganhado a guerra se os americanos não tivessem equipado os mujahideens com bazucas e uma montanha de lança-granadas. Kuchin podia se consolar com o fato de que algumas daquelas mesmas armas estavam sendo usadas contra os americanos. Mas era apenas um pequeno consolo. Os simplórios afegãos haviam derrotado o poderoso Exército Vermelho e destruído uma superpotência.

Se puxasse o gatilho, poderia matar o grande animal que passeava à sua frente em busca de alimento. Porém, como antes, ele não tinha interesse algum em extinguir aquela vida. Continuou a caminhar lentamente com os olhos bem abertos e todos os sentidos em alerta.

Alan Rice havia sido uma decepção, mas, ao mesmo tempo, foi algo previsível. Kuchin assumira os negócios do seu mentor de maneira violenta, então por que deveria esperar uma atitude diferente? Pessoas ambiciosas pegam o que querem. A principal diferença era que Kuchin era o tipo de homem que podia atingir aquele objetivo. Rice não tinha habilidade nem ousadia suficientes para derrubar alguém como Kuchin. Por isso ele fora contratado. Nunca ponha ao seu lado um homem mais implacável.

Kuchin sabia que eles estavam à sua frente, correndo, tentando estabelecer um ritmo. Em certo momento, questionariam suas próprias táticas, talvez até discutissem entre si. Isso os faria perder tempo, diminuiria a vantagem que ele lhes havia concedido. Talvez mudassem de sentido, acreditando que Kuchin os encaminhava para uma direção específica. Essa possibilidade também fora incluída em seus cálculos, além de muitos outros fatores.

Kuchin consultou o relógio iluminado. Como era verão e a região ficava em uma latitude alta, a noite não duraria muito mais do que seis horas. Kuchin esperava que tudo acabasse antes. Os despojos seriam levados até o oceano, amarrados a pesos e jogados no mar para nunca mais serem vistos, exceto pelos animais marinhos que os devorariam.

Ele voltou a erguer o rifle, escorando-o no ombro, e verificou a retícula, que a maioria das pessoas conhecia apenas como “quadriculado”. Havia anos que Kuchin usava o modelo SVD Type, que era o preferido dos franco-atiradores russos. Porém, dois anos antes, conseguira uma Mira Óptica Avançada de Combate, bastante usada pelas forças armadas americanas. O atirador deveria ficar com os dois olhos abertos porque o cérebro automaticamente transplanta a imagem na retícula do olho dominante para a outra pupila. Assim, se poderia ter uma percepção normal de profundidade e um campo de visão completo. A terminologia era muito técnica, mas o importante era que Kuchin podia focar e eliminar um alvo muito mais depressa do que antes. E, como ele tinha quatro alvos, os poucos segundos poupados seriam inestimáveis no campo de batalha.

Aquela arma matava, com um único tiro, qualquer coisa. Mas Kuchin não queria que isso acontecesse. A lentidão era a tônica naquele caso. O tempo era tudo. Ele tinha todo o direito de estar furioso com pessoas que deram seu máximo para matá-lo. Mas era esperto demais para deixar que aquilo se tornasse pessoal demais. Quando as emoções dominavam a mente, o resultado costumava ser a derrota. Ele deixaria que habilidade e razão dominassem a caçada. A emoção e a alegria podiam vir mais tarde, quando tudo estivesse terminado e mais quatro pessoas tivessem morrido pelas suas mãos.