Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 62 de 108

Páginas do PDF

Livrai-nos do mal

Capítulo 60

 

 

A MANSÃO DE FEDIR KUCHIN estava vazia. Nenhum utilitário na frente, nenhuma janela aberta, nenhum charuto aceso no quintal dos fundos. Com as malas feitas, os homens feridos foram reunidos e todos partiram. Após um telefonema, o jatinho os pegou, não no aeroporto comercial de Avignon, mas em um terminal particular. A 20 mil pés de altitude, Kuchin olhava para a paisagem francesa da janela do avião, que ia abrindo caminho pelo ar calmo até atingir um nível de estabilidade.

Ao seu lado, Alan Rice segurava uma compressa de gelo contra o rosto e mantinha outra presa ao joelho direito. Pascal e outros dois seguranças que haviam sido atacados pelos falsos muçulmanos cuidavam dos próprios ferimentos. O homem que fora atropelado tinha a perna quebrada. A boca e o maxilar de Kuchin estavam muito inchados devido ao golpe de Shaw, e ele perdera dois dentes. O magnata recusara qualquer atendimento médico, até mesmo um analgésico, e permaneceu sentado na poltrona, observando lá embaixo as terras francesas desaparecendo rapidamente.

Eles estão em algum lugar lá embaixo. E sabem quem eu de fato sou.

– Em meio a toda a agitação, você não explicou como conseguiu me resgatar, Alan – falou, movendo devagar a boca lesionada.

Rice removeu a compressa de gelo com cuidado e encarou Kuchin.

– Segui a mulher até a igreja uma noite.

– Por quê?

– Porque eu não confiava nela – respondeu ele simplesmente. – Por isso a testei.

– Você a testou?

– Quando fingi alertá-la. Menti e disse que você já se apaixonara por outras mulheres. Eu queria ver se ela agiria racionalmente e deixaria você em paz. Mas não foi o que ela fez. Além disso, esse passeio tarde da noite me deixou ainda mais desconfiado. Também não gostei da maneira como ela jogou você contra o outro homem.

– Você a seguiu? E como você foi parar nas catacumbas?

– Também vi com quem ela se encontrou naquela noite. Mandei que o seguissem.

– Fez tudo isso sem me contar?

– Eu queria ter certeza, Evan. Não queria cometer um erro. Sou um homem esperto, no sentido de que morro de medo de você.

Kuchin se recostou na poltrona.

– E depois?

– Nós os vimos entrar na igreja e descer até as catacumbas. Aproveitamos que eles saíram para pegar alguma coisa e entramos lá e ficamos à espera. Eu estava com muito medo porque eles tinham armas e eu nunca usei uma. Você viu como atirei mal hoje.

– Você salvou minha vida.

– Fico feliz por ter ajudado. Se eu soubesse do que se tratava, nunca teria deixado você ir à feira com ela. Quando percebi o que estava acontecendo, já era tarde demais. Eles foram inteligentes. Achei que dois guarda-costas seriam suficientes, mas, obviamente, eu me enganei.

– Então errei ao bater em você?

– Você tinha todo o direito. Eu parecia ter extrapolado meus limites.

– Fiquei surpreso com sua atitude.

– Imagino. Mas eu só estava tentando protegê-lo.

Kuchin se virou para a janela e ficou observando uma nuvem.

– Sinto muito, Alan. Fiz um mau julgamento. Eu salvei sua vida, assim estamos quites.

– Graças a Deus, terminou tudo bem.

– “Terminou”? Não, não terminou.

– Você vai atrás deles?

– Você tem alguma dúvida?

– Não, nenhuma – respondeu Rice, nervoso.

– O homem alto... Ele não parecia fazer parte daquele grupo.

– Mas ele estava lá.

– Acho que ele seguiu você até a igreja.

– Me seguiu?

Kuchin passou um dedo pela mandíbula ferida. Falar era doloroso, mas ele estava concentrado em outra coisa.

– Você ouviu como eles me chamaram?

– O nome?

– Fedir Kuchin.

– Sim, ouvi.

Rice pôs o saco de gelo sobre o rosto e tentou respirar normalmente.

– Você sabe quem é?

– Não, não sei.

Kuchin ficou ao mesmo tempo satisfeito e decepcionado. Inclinou-se para a frente e retirou um objeto de sua pasta. Era uma bolsa envolta em plástico. Dentro, havia uma arma.

– Esta é a pistola que a mulher deixou na igreja. Quero que tentem encontrar digitais, mas acho que não seremos bem-sucedidos. Quando a peguei, devo ter comprometido as impressões. Mas se trata de um modelo relativamente novo e podemos verificar os números no pente, no cano e na culatra.

– É provável que tenham removido os números de série com um ácido ou os raspando.

– Você sabe mais sobre armas do que parece, Alan. Sim, é verdade, mas há uma coisa chamada microimpressão. É utilizado um laser para imprimir os números microscopicamente na culatra e no percussor, dentre outros lugares. Não são tão fáceis de remover. Se pudermos rastrear a arma, talvez possamos localizar a mulher.

– Você a quer mesmo, não?

– Falhamos na verificação do histórico dela. Quero que você descubra tudo o que puder sobre quem ela é.

Kuchin parou de esfregar o maxilar e pegou o laptop encontrado nas catacumbas, que fora usado para as projeções. Ligou-o, digitou algumas teclas e começou a ver as imagens do seu trabalho na Ucrânia. Ele viu que Rice espiava por cima do seu ombro mas logo desviou o olhar. Por fim, desligou o computador e o guardou. Em seguida, pegou um pequeno caderno na bolsa e o abriu. Em uma das páginas, havia o início de um esboço. Segurando um pedaço de carvão, a mão de Kuchin se moveu pelo papel e o rosto de Janie Collins começou a surgir com mais clareza.