Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 82 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 80

 

 

FEDIR KUCHIN CONTEMPLOU O mar de luzes na rua pela janela do quarto do hotel. Ele dissecava mentalmente a cidade. Washington era dividida em quatro partes. O setor mais popular entre os turistas era o quadrante noroeste, onde ficavam a maioria dos monumentos e a Casa Branca. Era uma área relativamente segura. Porém, havia áreas violentas menores pelo restante da cidade. Ele ficara sabendo que três por cento dos endereços correspondiam a setenta por cento dos crimes. Boa parte deles estava relacionada a drogas e gangues, obrigando o chefe de polícia a utilizar cada vez mais recursos nessas regiões.

Kuchin voltou a se sentar e estudou o mapa da cidade, seccionando-o como já havia feito em outras batalhas. Washington ocupava uma área razoavelmente extensa, porém não era a metrópole mais populosa do país. Mesmo assim, quase seiscentas mil pessoas moravam lá e um número muito maior ia e vinha todo dia dos subúrbios para trabalhar. Ele não achava que Katie James estivesse em uma das áreas de alta criminalidade, logo sua busca se restringia. No distrito comercial ficava a maioria dos hotéis. Para permanecer lá, ela precisaria usar um cartão de crédito, portanto essa área podia ser eliminada. Em volta do Capitólio, para o qual os quadrantes convergiam, havia bairros residenciais: um possível esconderijo para Katie. Também existiam áreas nobres em Georgetown, a oeste, ao longo da Massachusetts Avenue, ou Embassy Row como era conhecida, bem como na região da Connecticut Avenue e da Rua 16, rumo à fronteira com o estado de Maryland. Kuchin dispunha de uma quantidade limitada de homens e não pretendia usá-los com eficiência.

Ele estava hospedado no Hay-Adams Hotel, atrás do Lafayette Park, que ficava em frente à Casa Branca, junto com seis homens, dentre os quais Pascal. Em sua opinião, o mais importante era a profissão da mulher: jornalista. O que faziam os jornalistas? Viajavam, escreviam matérias, faziam entrevistas e conversavam com os seus patrões de vez em quando. O problema é que Katie não parecia estar empregada naquele momento.

Kuchin analisou a lista. De qualquer maneira, ela talvez trabalhasse. Se assim fosse, havia algumas possibilidades.

O The Washington Post era o jornal mais famoso da cidade. Katie trabalhara lá anos antes e, desde então, fizera algumas colaborações como freelancer. Mas já fazia algum tempo que isso não acontecia. A sede do periódico ficava na Rua 15. Kuchin pôs um homem lá com uma foto da jornalista. Outro homem vigiava o escritório do The New York Tribune, que ficava a duas quadras do Post. Katie tinha ganhado dois Pulitzers pelo jornal, mas Kuchin soube que a repórter se desentendera com os chefes. Mesmo assim, era uma base que precisava cobrir.

Os prédios do The New York Times e da CNN ficavam na Rua 1, um no quadrante noroeste, o outro no nordeste. Ambos podiam ser vistos do Capitólio. De acordo com o dossiê, Katie também trabalhara para o Times e fizera reportagens para a CNN durante os primeiros anos da guerra do Afeganistão. Havia muitas outras organizações jornalísticas na cidade, mas, para Kuchin, aquelas eram as que mais provavelmente atrairiam a atenção de uma jornalista com a reputação de Katie.

Kuchin andava de um lado para o outro, pensativo. Esperaria alguns dias para ver se aquela estratégia daria algum resultado. Também torcia para que a mulher usasse um cartão ou habilitasse o chip de GPS do celular. Nesse caso, seu contato o alertaria. Ele também tinha outra lista dessa mesma fonte, contendo quatro nomes de amigos de Katie que trabalhavam no mesmo ramo e moravam na região de Washington. Duas dessas pessoas, Roberta McCormick e Erin Rhodes, estavam no país, logo dificilmente Katie se esconderia na casa delas. As outras duas se encontravam no exterior e Kuchin enviara os homens remanescentes para as residências delas.

Ele pensou mais uma vez em tudo. As peças estavam na melhor posição possível. Agora, tratava-se de esperar. Apesar da sua experiência em combate, nunca teve paciência para isso. Foi dar uma volta. Passou pela Casa Branca, parou e a contemplou através da grade de ferro batido. Trinta anos antes, Kuchin e seus companheiros soviéticos fizeram tudo o que puderam para depor o presidente americano. O capitalismo era maléfico; as liberdades pessoais eram ainda mais contraproducentes. Marx tinha razão, Lenin ainda mais e Stalin e sua prole haviam aperfeiçoado o sistema. Porém, todos eles se enganaram, é claro. O muro do comunismo ruiu, Kuchin fugiu e, naquele momento, vivia como um rei na terra do seu ex-inimigo, usando as mesmas ferramentas do livre mercado contra as quais lutara. Bem, ou você se adapta ou morre, pensou.

Kuchin olhou para um agente uniformizado do Serviço Secreto que parecia interessado demais nele. Afastou-se da grade e caminhou rumo à Rua 15, inspirando o ar quente e observando grupos barulhentos de turistas com suas estúpidas câmeras.

Seu celular vibrou.

– Sim?

– Ela acabou de usar um cartão de débito – informou seu contato. – Esquina das Ruas M e 30, em Georgetown. Estou esperando a confirmação fotográfica da câmera do caixa eletrônico.

Kuchin telefonou imediatamente para o homem mais próximo àquele local e, em seguida, correu de volta para o hotel. Em cinco minutos, dirigia um utilitário alugado, rumo a Georgetown. O trânsito estava ruim, com cruzamentos congestionados. Kuchin tamborilou no vidro, ansioso. O telefone tocou. Ele ainda se achava a pelo menos dez minutos de distância.

– Sim?

– Nenhum sinal dela, senhor – informou Manuel.

– Chame o resto das equipes. Estabeleça um perímetro de dez quarteirões a partir do caixa eletrônico. Quatro homens vasculham cada centímetro quadrado a partir desse ponto. Dois homens de carro percorrem um circuito fora do perímetro, um em sentido horário e o outro na direção inversa. Chegarei assim que possível. Ela acabou de sacar dinheiro, portanto é provável que vá gastá-lo com alguma coisa. Verifiquem todas as lojas ou restaurantes que acharem apropriados.

Kuchin pôs o telefone de volta no paletó. Não acreditava que a encontrariam naquela primeira busca. Seria fácil demais, sorte demais. Coisas assim só acontecem em filmes. Mas eles pelo menos tinham um perímetro. E, como poucas pessoas no mundo, Kuchin sabia vasculhar uma área delimitada.