Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 20 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 18

 

A MANSÃO EM QUE EVAN Waller se hospedaria custava mais de 20 mil euros por semana e ele a alugara por um mês, pagando adiantado, ou pelo menos foi isso que a imobiliária disse a Shaw. A casa de seis quartos ficava perto das colinas de Gordes e tinha cinco andares, aos quais só se podia ter acesso por uma única escada interna de pedra, em caracol. Nos fundos, havia uma piscina de água salgada, uma área para refeições ao ar livre sob uma pérgula de madeira, uma espaçosa cozinha externa e uma churrasqueira a gás. O dono reformara a mansão recentemente e todos os eletrodomésticos, inclusive o fogão industrial, eram novos.

Shaw sabia tudo isso porque vinha se encontrando com a agente imobiliária em seu escritório de Gordes, passando-se por um inquilino em potencial para o ano seguinte. A mulher era educada e dava todas as informações necessárias.

– Não perca tempo – avisou. Apesar de ser britânica, ela falava muito bem francês. – Ontem mesmo, outra pessoa também esteve aqui querendo alugar a casa no ano que vem.

– É mesmo? – perguntou Shaw. – Quem?

A mulher arqueou as sobrancelhas.

– Isso é confidencial. Mas trata-se de uma jovem americana muito bonita e, obviamente, rica. Essas mansões são as melhores da região e seu preço está fora do alcance da maioria. O mesmo construtor reformou a mansão ao lado. Não são idênticas por dentro, mas há muitas semelhanças, inclusive a escada de pedra em caracol que interliga todos os andares.

Isso é que é confidencialidade, pensou Shaw.

– Mas, se a casa está alugada, como você disse, onde está o inquilino? A mansão está vazia.

A mulher hesitou.

– Sim, ele alugou pelo mês inteiro. Pagou adiantado.

– Então, é um homem?

A mulher parecia aborrecida consigo mesma.

– Sim, mas seu nome é confidencial.

– Claro.

– De qualquer maneira, ele ainda não chegou. Muito estranho. Quer dizer, pagar milhares de euros por algo que você nem está usando? Bem, acho que não devo me intrometer. Os ricos são esquisitos, não é mesmo? Mas você mesmo deve ser rico, se está pensando em alugar uma mansão daquelas.

– Eu prosperei na vida – disse Shaw com modéstia. – Podemos falar em inglês, se você preferir, embora seu francês seja muito melhor do que o meu.

Ela se mostrou satisfeita e aliviada. Seu comportamento e tom mudaram instantaneamente e seu sotaque britânico logo se tornou evidente.

– Bem, é gentileza sua dizer isso. Estou tendo aulas há um mês para conseguir fazer aquele som arrastado do “r”, mas ainda não posso afirmar que peguei o jeito. Os franceses falam de maneira tão bonita, não é? Mas isso está acabando com minha garganta.

– Com a minha também.

– De todo modo, como a casa está vazia, eu poderia levá-lo para dar uma olhada, mas não queremos invadir o lugar e encontrar o Sr. Waller de cuecas, não é mesmo? – Ela deu um risinho.

– Então é o Sr. Waller.

A mulher pareceu chateada.

– Não acredito que eu falei isso. Tudo bem, esse é o nome do homem, mas não saia espalhando por aí. Nosso trabalho é confidencial.

– Claro. Pode deixar. Obrigado.

Shaw a deixou e foi andando até o lugar onde estava hospedado, um pequeno hotel que também tinha um spa. Gordes ficava situado no precipício do platô de Vaucluse, com as colinas do Luberon à frente, e se podia ir das mansões do vale até lá por uma escadaria escavada na rocha, um percurso que demorava quase o mesmo que a viagem de carro por uma estrada bem sinuosa. O vilarejo de estruturas de pedra branca e cinza se agarrava aos flancos da rocha como abelhas a uma colmeia. Duas construções mais altas o coroavam: a igreja católica com seu longo campanário e um castelo medieval que abrigava parte do governo municipal.

Shaw ligou para Frank e o inteirou das novidades. Desde a sua chegada, fizera um reconhecimento metódico de cada edifício digno de nota na cidade. Agora, provavelmente conhecia Gordes melhor do que muitos dos seus habitantes mais antigos. Ele e May Crawford deveriam se encontrar no dia seguinte, mas os dois estavam em contato desde a chegada à Provence.

Havia várias opções de lugar para se almoçar no vilarejo, portanto ele leu com calma os cardápios impressos em folhas brancas e afixados na fachada dos estabelecimentos. Acabou escolhendo o L’Estaminet Café, perto do centro da cidade, e complementou a refeição com uma taça de Rhône, que era muito popular naquela região. Por outro lado, era quase impossível encontrar vinho italiano, pensou. Seu sorriso desapareceu quando ela surgiu. Embora o local estivesse repleto de turistas, por algum motivo Shaw sentiu que aquela devia ser a americana que a agente imobiliária havia mencionado: jovem, bonita e rica.

Ela tinha pouco menos de 30 anos e cabelos com mechas louras. A pele estava bronzeada, com um tom amendoado, e grandes sardas cor de café se destacavam nos ombros. Usava um vestido leve de verão com a frente bordada, permitindo que se visse um pouco do decote; sandálias de couro cobriam seus pés longos e finos. Shaw só conseguiu vê-la de perfil enquanto ela era acompanhada até seu lugar. Mas, ao pôr a bolsa na cadeira ao lado, a moça se virou por um instante na direção dele.

O que viu não correspondia a suas expectativas e seu cérebro demorou a registrar os dados. O rosto da mulher não era perfeito: o nariz comprido e fino demais, e também arrebitado; os olhos um pouquinho grandes em relação ao rosto; as bochechas levemente chatas. Porém, de alguma maneira, todos esses elementos juntos a tornavam muito mais memorável do que se suas feições fossem perfeitas. Mulheres bonitas, em especial no sul da França, não eram uma raridade, mas alguém que não se encaixasse à perfeição em uma categoria costumava ser inesquecível.

O corpo era atlético: os ombros, bem desenvolvidos, as pernas, longas e torneadas. Shaw calculou que a moça tivesse 1,70 metro, ainda que parecesse mais alta, devido ao porte esguio. De qualquer forma, diante dos quase 2 metros de Shaw, ela ainda era miúda, como praticamente qualquer pessoa.

Enquanto continuava a pensar a respeito, ele se deu conta do que havia chamado sua atenção: ela parecia séria demais para alguém tão jovem.

Apesar de já ter terminado a refeição, Shaw, curioso, decidiu ficar e tomar um café e uma taça de sorvete de morango. Teve a impressão de que a mulher olhara em sua direção uma ou duas vezes, mas talvez fosse sua imaginação. Por fim, pagou a conta e foi embora. Caso tivesse se virado, teria se certificado de que ela o notara: seu olhar o seguiu por muito tempo após ele ter fechado a porta.

Shaw saiu caminhando pelas ruas com calçamento de pedras irregulares, mas sem perder de vista a fachada do restaurante. Vinte minutos depois, a moça saiu pela porta, olhou ao redor e tomou o caminho que a levaria para as mansões. Essa rota incluía um atalho de degraus de pedra curtos e gastos que economizava um minuto, eliminando uma descida em zigue-zague.

Ele a seguiu, imaginando onde a mulher estava hospedada. Ficou surpreso ao vê-la abrir a porta da casa ao lado da que abrigaria Waller. Isso se somava ao fato de que ela também fizera perguntas sobre a outra mansão. Embora Frank não tivesse descoberto nada de suspeito, era melhor ficar de olho naquela moça. Surpresas nunca eram boas, especialmente se prejudicavam Shaw.