Livrai-nos do mal
Capítulo 74
ACORDARAM TARDE DEPOIS DE um sono profundo. Tomaram banho juntos, revezando-se para ensaboar um ao outro, e fizeram sexo sob a ducha quente. Reggie se vestiu e se sentou na cama ao lado de Shaw, que estava apenas de roupão.
– Então, onde ficamos depois de tudo isto? – perguntou ela, perscrutando-lhe o rosto.
– Não tenho certeza. Ainda não resolvemos o que fazer em relação a Kuchin. E você não me disse o suficiente para que eu possa ajudá-la.
– Na verdade, eu estava falando sobre o sexo. – E quando Shaw a encarou, um pouco perplexo, ela acrescentou: – Acho que deve ser típico das mulheres querer saber essas coisas. Suponho que vocês, homens, apenas aceitem as coisas pelo que parecem ser.
– Foi incrível, mas ainda preciso entender sua operação.
– Muito sensível da sua parte. Mas, se eu falar, você terá que contar a outras pessoas. Isso não pode acontecer.
– E a questão da confiança?
– Como eu disse, não confio facilmente em alguém.
– Nem eu. Mas acho que confio em você.
– Você acha?
– Bem, no momento, eu pareço mais confiável do que você.
– Então, você acredita que Kuchin virá atrás de nós e que talvez haja um espião na nossa organização?
– Mesmo que não haja nenhum traidor, Kuchin chegará até vocês.
– Não concordo. Nosso disfarce era excelente.
– Vocês não sabem até que ponto o disfarce era bom porque ainda não foi testado. E esse cara vai testá-lo. Além disso, vocês não deixaram a área limpa. Tiveram que sair às pressas. Algumas coisas podem ter ficado para trás. Pessoas podem ter ouvido ou visto algo. Agora, ele está planejando o tempo todo como pegar vocês.
– Como você sabe disso?
– Porque é o que eu estaria fazendo.
– É reconfortante saber que você e ele pensam da mesma maneira. Kuchin virá atrás de você também.
– Certo. Por isso, devemos trabalhar juntos. Assim, quem sabe, o pegamos antes que ele nos pegue.
– Sua organização não está mais interessada. Você deixaria seu pessoal de lado para fazer isso?
– Se necessário, sim.
– O tal Frank não me pareceu muito tolerante nem compreensivo.
– E não é mesmo.
– Então, por que fazer tudo isso?
– Porque não quero viver sempre na expectativa de que esse cara venha atrás de mim.
Reggie o olhou com ar interrogativo.
– Esse é o único motivo?
– Vamos dar um passo de cada vez.
– Mas você acha que alguém do meu lado está preparado para dar cabo de você. Não vou ajudar você a se vingar dos meus colegas.
– Mesmo que eles fossem me matar?
– Como você disse, vamos dar um passo de cada vez – respondeu ela com frieza.
– Harrowsfield.
– O que é que tem?
– Leve-me até lá.
Reggie fez uma expressão de espanto.
– O quê?
– Leve-me até lá.
– Você ficou maluco? Quer que eu chegue lépida e fagueira e diga: “Oi, pessoal, aqui está o Shaw. Não sei ao certo quem ele é, mas vamos tomar um chá e ser agradáveis?”
– Deixo a explicação por sua conta.
– Você não pode estar falando sério.
– Pelo contrário.
– E se eu me recusar?
– Darei um telefonema e a situação não será mais responsabilidade minha. Todos vocês caem.
Ela se levantou devagar e o encarou.
– Você faria isso comigo? Depois do que acabou de acontecer nesta cama? E no banho?
– Primeira regra do nosso trabalho: deixar de lado a parte pessoal. Só amadores se esquecem dela, ou talvez nem a entendam.
– Então, você só transou comigo por capricho? E agora ainda me ameaça? Seu canalha!
Reggie tentou esbofeteá-lo, mas ele lhe agarrou a mão.
– O que você parece não entender, Reggie, é que estou pondo minha vida em jogo para ajudar você. As probabilidades de ele chegar primeiro a vocês são muito maiores. Me ofereço para fazer tudo ao meu alcance para detê-lo. Mas, para que eu possa fazer isso, você precisa confiar em mim. Não encaro com leviandade o que aconteceu entre nós neste quarto. Se essa explicação não é boa o suficiente para você, vá em frente e bata em mim. Mas use toda a força que puder. Será sua única oportunidade.
Shaw soltou a mão dela e esperou.
Os dois se encararam em silêncio por um tempo.
Por fim, Reggie ordenou:
– Vista-se. Preciso passar na minha casa para trocar de roupa. E você vai pelo menos me oferecer um café da manhã à inglesa antes de eu ser crucificada em Harrowsfield.