Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 86 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 84

 

– AS COISAS PARECIAM BASTANTE claras para mim – falou Frank. – Bem, fora o fato de eu ter levado um tiro. Pus fotos suas e da moça na estação de trem, como combinamos. Isso fez com que vocês quatro se separassem como desejávamos, já que o irlandês era um perigo. Você colocou o chip de GPS no celular que pegara, fez a viagem de barco, tentou obter mais informações da moça e devolveu o telefone. Deixamos que ela se acomodasse, você a seguiu até o quartel-general e se infiltrou na organização. Simples.

– Fiz tudo isso e passei todas as informações para você.

– Eu sei. E está lá dentro há alguns dias agora. Faça um novo relatório.

Shaw o informou sobre o que tinha visto e ouvido nas últimas 48 horas.

– De fato eles fazem isso há algum tempo. – Frank tirou um fiapo do paletó amassado. – Sabe, suspeitávamos de algo assim.

– Como?

Frank abriu o frigobar escondido em um armário e pegou um refrigerante, abrindo a garrafa e tomando um gole.

– Nazistas mortos – explicou.

– O quê?

– O fato de eles serem nazistas nunca foi confirmado por nós, mas uma série de homens com 90 anos morreram de maneira estranha em vários lugares do mundo nos últimos cinco ou seis anos. Alguns na América do Sul, para onde os mandachuvas do Terceiro Reich migraram depois que Hitler se suicidou.

– Por que isso aparecia no nosso radar?

– Porque alguns deles se envolveram com coisas que se aproximavam muito da nossa jurisdição. Em duas ocasiões, descobrimos seus passados em Berlim. Mas os caras já haviam morrido e não fazia muito sentido prosseguirmos. Parabéns aos seus amigos por eliminarem esses babacas.

– Por eles serem justiceiros?

– Por levarem a justiça até onde ela não existia antes. É mais ou menos o que fazemos aqui, Shaw.

– Nunca recebemos ordens para matar ninguém.

– Não, mas você acha que todos os sujeitos que encontramos e entregamos à Justiça são submetidos a um júri?

– Sei que isso não acontece.

– Então, vamos voltar ao que interessa. Qual é o problema agora?

Shaw falou do ultimato de Mallory:

– Ou Reggie me acompanha na caça a Kuchin ou eles também vão nos desmascarar.

Frank terminou o refrigerante.

– Só isso? Nenhum problema. Leve-a com você.

Shaw não acreditou.

– Não quero ir atrás daquele canalha com ela ao meu lado. É perigoso demais.

– Mas a vantagem é que, se você a deixar sozinha, talvez Kuchin a localize enquanto você o está procurando. E, dessa vez, ele vai terminar o trabalho.

Frank jogou a garrafa vazia no lixo, tirou um pacote de amêndoas do bolso e começou a comê-las ruidosamente.

Shaw parecia estar pouco à vontade.

– Você discorda? – perguntou Frank.

– Não, mas qual é o objetivo principal disto tudo?

– Diga qual você acha que é e eu confirmo ou não.

– Pegar Kuchin? Mas achei que os chefões não estivessem mais ligando para isso. Ele apenas voltou a transformar garotas em prostitutas para ganhar dinheiro. Nada mais de cogumelos nucleares. Foi o que você falou.

Frank terminou as amêndoas antes de responder.

– Bem, a atitude deles não mudou com relação a esse assunto. Mas eles estão interessados nesse novo desdobramento aqui na Inglaterra.

– Por quê?

– Por quê? – indagou Frank, incrédulo. – Outra organização fazendo coisas que podem ter repercussões globais? Hummm, pense um pouco a respeito.

– Na verdade, não tem nada a ver conosco – retrucou Shaw, de maneira pouco convincente.

– Você acha mesmo, Shaw? Então, deixe-me esclarecer a situação: esse pessoal está atrás não apenas de “monstros” do passado, mas também do presente. Você disse que eles fazem pesquisas na África, Ásia e América do Sul, embora não tenham revelado sobre quem.

– E daí?

Frank jogou o pacote vazio de amêndoas na lixeira e limpou as mãos nas calças.

– Vou explicar: canalhas depostos às vezes voltam ao poder. Se esses britânicos matarem um ditador recentemente deposto, as coisas logo poderão ficar cabeludas.

– Quem se importa se eles perseguem pessoas assim? Você não considera isso bom?

– Eu estava falando dos nazistas. Eles não vão voltar ao poder.

– Não entendo a diferença.

– Não seja ingênuo. Se esse pessoal matar um monstro no Oriente Médio ou na América do Sul, poderemos ter revoluções indesejáveis. Está entendendo?

– Na verdade, não. Se eles já foram depostos...

– Como eu falei, eles às vezes voltam. E, dependendo de quem os depôs, talvez seja do nosso interesse garantir que eles voltem porque os idiotas que o puseram para fora podem ser piores ainda. Posso citar dezenas de exemplos históricos, se você quiser. Mas não teremos essa opção se eles estiverem mortos.

– Meu Deus, isso é loucura.

Frank se levantou.

– Não discordo de você, mas o que nós pensamos não importa. Somos apenas soldados rasos. Vá atrás de Kuchin e leve a garota com você. Assim, você poderá trabalhar com eles e descobrir ainda mais a respeito das operações dessa organização. Daremos apoio primário, tudo o que você precisar.

– E quando o pegarmos, se é que isso vai acontecer? – perguntou Shaw.

– Ele vai receber o que merece.

– E Reggie e o pessoal dela?

Frank pôs o chapéu e foi até a porta.

– Eles vão receber o que merecem.

– Frank, deve haver uma alternativa.

Frank o observou.

– Me diga uma coisa.

– O quê?

– Você já dormiu com ela, não é?

– O quê? – perguntou Shaw, surpreso.

– Estávamos vigiando este lugar, gênio. Uma noite, vocês chegaram meigos e carinhosos e só apareceram de novo no café da manhã. – Frank acrescentou amargamente: – Você não merecia Anna. Nem Katie James, seu filho da puta.

– Frank...

– Já facilitei muito a sua vida. Agora, faça o seu trabalho, Shaw.

Frank bateu a porta ao sair.