Livrai-nos do mal
Capítulo 58
MÃOS FORTES AGARRARAM KUCHIN, o puxaram e amarraram sobre uma cripta. Ele olhou lentamente ao redor. Whit, Dom e Reggie o rodearam.
– Quem são vocês? – indagou ele com calma.
– Estou um pouco decepcionado por ele não estar mais impressionado – observou Whit.
– Somos pessoas que sabem quem você de fato é – respondeu Reggie, encarando o ucraniano.
Ela já não interpretava mais o papel da ingênua americana Janie Collins: voltara a ser Reggie Campion, disposta a dar fim naquele homem.
– Fedir Kuchin – acrescentou Dominic. – O verdadeiro carniceiro da Ucrânia.
– E trouxemos de volta algumas das suas vítimas – prosseguiu Reggie.
– Antes de fazer com você o que você fazia com elas – completou Whit. – Embora em geral sejamos pessoas muito agradáveis, estamos nos esforçando muito para ser cruéis com você.
Whit abriu os braços. Kuchin fitou o teto e as paredes, que estavam cobertos pelas projeções. Nada que Goya pudesse ter concebido teria igualado o horror capturado naquelas fotografias de homens, mulheres e crianças moribundos. Em uma rocha, havia a imagem de uma vala comum com os ossinhos das crianças enterradas ali.
– Uma atrocidade atrás da outra – comentou Reggie. – Não se afobe. Queremos que você volte a vivenciar o passado.
– Quem são vocês? – insistiu Kuchin.
– Que importância tem isso? – rebateu Whit.
– Porque quero saber quem vou matar no futuro. Em um futuro próximo.
– Não acho que isso vai acontecer – replicou Whit.
– Então você está cego.
Reggie apontou para uma parede onde estavam projetados corpos empilhados.
– O massacre de Sebastopol.
Ela indicou uma fotografia no teto, de rostos descarnados por trás de uma cerca de arame farpado.
– O campo de torturas em Ivano-Frankivsk Oblast, no oeste da Ucrânia.
Uma terceira imagem mostrava semblantes esqueléticos de mulheres e crianças deitadas na terra.
– Kotsuri em Volyn Oblast – apresentou Dominic. – Você se baseou no Holodomor nesse caso, não foi? Matando fazendeiros de fome.
Kuchin permaneceu olhando as projeções. Quando os encarou, não demonstrava sinal algum de remorso.
– Não há necessidade de me mostrar nada disso. Lembro-me muito bem de tudo. – Ele sorriu. – Até o último esqueleto, para dizer a verdade.
– Muito bem, danem-se as fotos – disparou Whit. – Vamos acabar logo com isto e jogar os ossos dele na caixa.
Ele apontou para uma cripta junto à parede com a tampa aberta.
– É ali que seu esqueleto vai ficar, Fed. Espero que você goste de apodrecer na velha Gordes para toda a eternidade.
Fedir o ignorou e continuou a fitar Reggie.
– Eu deveria ter sido mais cauteloso. Nunca confie em uma mulher bonita quando ela... como se diz mesmo?... dá uma de difícil.
– Veja as imagens – falou Reggie. – E, se você for mesmo tão religioso quanto alega, faça as pazes com Deus.
– E como será o golpe final? Arma de fogo, faca? – Ele inclinou a cabeça. – Vai me estrangular com as próprias mãos? Mas você ousa se aproximar tanto assim de mim agora? Posso sentir o cheiro do medo que você tem de mim. Não, acho que você vai se manter distante.
– Você não é o primeiro monstro e sem dúvida não será o último.
– Nunca me misture com outros – rosnou Kuchin. – Sou único.
– Bem, você não será o único ali dentro – afirmou, fazendo um gesto em direção à cripta. – Há outra ossada. Fico triste por esse coitado ter que dividir o espaço com alguém da sua laia.
O clique de várias armas fez com que Whit congelasse e murmurasse um palavrão.
Reggie se virou aos poucos e viu os homens em pé, mirando-os. Reconheceu dois deles: eram guarda-costas de Kuchin.
A testa dela estava na linha de tiro de Pascal.
– Abaixe a arma. Agora.
Reggie se agachou e a pôs no chão.
– Chute-a para longe.
Ela obedeceu.
Alan Rice saiu do seu esconderijo e lançou um olhar impenetrável para Reggie.
– Desamarre-o. Agora – ordenou.
Ela começou a andar, mas Whit interveio:
– Não, eu desamarro.
Quando ele terminou o serviço, Kuchin se endireitou, esfregando pulsos e tornozelos, fez um sinal de agradecimento com a cabeça e, em seguida, deu um soco na barriga de Whit, fazendo-o se curvar. Um chute em sua cabeça o jogou contra a cripta, onde o sangue se misturou com a poeira secular. Dominic e Reggie se lançaram na direção de Whit, mas Pascal disparou um tiro na frente deles e os dois estacaram.
Kuchin estendeu a mão e recebeu de Pascal uma pistola. Voltou-se para Reggie e comentou:
– Você parece saber muito a meu respeito. O suficiente para mandar dois terroristas muçulmanos atrás de mim. Suponho que fossem impostores cujo único objetivo era me fazer vir para cá.
Reggie ficou em silêncio, com a respiração acelerada.
– Não quer responder? – Ele indicou as imagens na parede. – Você me traz até aqui com um pretexto falso para me mostrar tudo isso? E, depois, para me matar? E não quer se explicar?
O sorriso de Kuchin sumiu no momento em que ele agarrou o pescoço dela e o apertou em um ponto próximo à jugular. Reggie mordeu o lábio, mas não emitiu som algum. Ele aumentou a pressão e ela sentiu o sangue e o oxigênio se esvaindo do cérebro. Por fim, Reggie segurou-lhe o braço e tocou em um ponto nevrálgico que fez sua mão afrouxar. Assim que Kuchin a soltou, ela arquejou e caiu para trás. Apoiou uma das mãos na parede e se reergueu, sempre o encarando.
– Impressionante – falou ele. – Mas se você não conseguisse aguentar tão pouca dor, acho que não estaria fazendo esse trabalho. – Kuchin encarou Dominic. – Você usou o termo “carniceiro”. Acha que sou perigoso? A segunda onda do Holodomor? Na verdade, gosto dessa descrição.
Kuchin encostou o cano da pistola na testa de Dominic e puxou o gatilho. Reggie gritou e seu companheiro se encolheu, mas logo abriu os olhos. Não havia ferimento. Ele pareceu confuso.
Kuchin estava furioso.
– Nunca me entregue uma pistola sem uma bala, Pascal.
Carregou a arma e a posicionou na mira, sem pressa, se sentindo no controle da situação. E esse foi um erro de cálculo crucial.
Um movimento à sua direita o fez desviar a atenção de Dominic por um segundo vital. Shaw pulou do seu esconderijo com os dois cotovelos levantados horizontalmente na altura do peito. Um dos seguranças foi atingido com tanta força contra a parede de pedra que caiu, inconsciente. Com o elemento-surpresa a seu favor, Shaw continuou a avançar e golpeou Pascal no pescoço, fazendo-o se estatelar de cara no chão, ofegando, e sua arma foi para longe. Shaw chutou a parte de trás de sua cabeça, que ricocheteou contra a rocha, e o nocauteou.
Desnorteado, Alan Rice gritou e disparou sua arma, quase acertando a cabeça de Kuchin. A bala se alojou no antebraço de Dominic, que gemeu e foi ao chão.
Whit se jogou, acertando o esterno de Kuchin e derrubando-o. A arma do ucraniano deslizou pelo chão.
Shaw atacou Rice e o atirou contra uma cripta. O homem deslizou inconsciente, com sangue escorrendo pelo nariz quebrado.
Kuchin se levantou enquanto todos tentavam pegar armas ou se esconder em meio às imagens que tremeluziam nas paredes. Com toda aquela movimentação humana, o espetáculo assumiu o aspecto de uma bizarra performance artística. Reggie abaixou-se para alcançar sua pistola, mas Kuchin lhe deu um chute no rosto, cortando a bochecha com o salto do sapato. Whit se lançou contra o magnata pela segunda vez, mas desta vez ele estava preparado: se esquivou e atingiu o adversário com uma cotovelada.
Kuchin se apoderou da Beretta de Reggie e só não baleou a cabeça dela porque Shaw acertou um soco direto no queixo do ucraniano de 110 quilos, arremessando-o para longe. Ele desabou de costas, cuspiu um dente e tentou ficar de pé, mas estava atordoado demais pelo golpe.
Shaw pôs uma arma no cinto, pegou outra pistola do chão e a jogou para Whit, que havia se levantado, segurando o rosto. O agente se inclinou, agarrou o braço de Reggie e a puxou para cima. Com a outra mão, ergueu Dominic.
– Precisamos sair daqui. Agora!
– Não antes de matar aquele canalha! – gritou Whit.
Kuchin conseguiu se endireitar e saiu correndo das catacumbas.
– Ei! – berrou Whit e seguiu o ucraniano, acompanhado pelos outros.
– Pare! – esbravejou Shaw, segurando Whit, que já se preparava para atirar. – Ele tem outros seguranças e eles provavelmente estão vindo para cá.
Assim que Shaw acabou de falar, outros três homens armados apareceram na escada e abriram fogo. O sonolento vilarejo de Gordes não devia ver tanta violência desde os tempos dos romanos, dois milênios antes.
– Por aqui! – orientou Reggie.
Ela os guiou até a passagem que dava na porta perto da mansão.
Kuchin correu na direção dos guarda-costas e berrou:
– Peguem-nos, mas não matem a mulher!
Shaw se virou e atirou nos homens. A bala ricocheteou nas paredes de pedra, retardando o avanço deles. Whit pegou um estreito tubo metálico no bolso, retirou a tampa e o jogou para trás. Uma fumaça densa obstruiu a visão de seus perseguidores.
O grupo fugiu sob uma chuva de balas.
Como convém ao ambiente de uma igreja, todos eles rezavam em silêncio.