Livrai-nos do mal
Capítulo 4
O GULFSTREAM LEVANTOU VOO embalado por ventos suaves. Após o avião ter se estabilizado, Frank pegou o arquivo com os itens de sempre: fotos, históricos, análises e recomendações de ação.
– Evan Waller – começou Frank. – Canadense, 63 anos.
Shaw pegou a xícara de café preto com uma das mãos e a foto com a outra. A imagem mostrava um homem com a cabeça totalmente raspada. Parecia forte e em forma, e suas feições eram incisivas e bem angulosas. Os olhos irradiavam uma espécie de brilho assassino. O nariz comprido começava praticamente no meio da testa e descia reto como uma flecha até a parte superior da boca. Era uma boca cruel, se é que isso existia. Sem dúvida, aquele homem era cruel, perigoso. Caso contrário, Shaw não estaria olhando para a sua foto. Ele nunca ia atrás de santos, apenas de pecadores violentos.
– Ele está bem para a idade – comentou Shaw, deixando que a foto caísse sobre a mesinha.
– Há duas décadas, pelo menos, ele está envolvido em qualquer coisa que possa gerar muito dinheiro. Na superfície, ele é impecável. Negócios legítimos, discrição, doações a obras de caridade, ajuda a países do Terceiro Mundo na área de infraestrutura.
– Mas...?
– Mas descobrimos que, por trás da sua fortuna, está o tráfico de pessoas, em especial de jovens asiáticas e africanas sequestradas aos montes por seu pessoal e, em seguida, vendidas para a prostituição no Ocidente. É por isso que ele se interessa tanto pelo desenvolvimento do Terceiro Mundo. É a sua fonte. E seus negócios legítimos lavam o dinheiro dessas atividades.
– Tudo bem, isso o qualifica a receber uma merecida visita minha.
Frank se levantou, preparou um bloody mary no pequeno bar da aeronave e colocou um talo de aipo no copo. Voltou a se sentar enquanto mexia o coquetel com uma colher comprida.
– Waller escondeu bem os detalhes. Demoramos a descobrir seus podres, que, ainda assim, não podem ser usados contra ele em um tribunal. Com certeza o cara é corrupto, mas conseguir provar isso é outra história.
– Então por que estamos nos dando o trabalho de ir atrás dele se não podemos prendê-lo? Isso só vai servir para alertá-lo.
Frank balançou a cabeça.
– Não se trata de capturar e processar. Trata-se de capturar e delatar. Nós o pegamos e o convencemos de que é do interesse dele nos informar sobre seu novo ramo de atividade, que acabamos de descobrir.
– Qual?
– Comércio de material nuclear com fundamentalistas islâmicos que estão entre os criminosos mais procurados do mundo. Ele os dedura e obtém um acordo.
– Que tipo de acordo?
– Basicamente, ele se safa.
– Para continuar a escravizar garotinhas?
– Estamos falando de evitar um holocausto nuclear, Shaw. É uma barganha que o alto escalão se dispõe a fazer. Pelo menos, vamos interromper suas operações por um tempo. Mas ele mantém a liberdade e o dinheiro que escondeu pelo mundo todo.
– Portanto, ele volta a operar normalmente. Sabe, às vezes não sei direito com qual demônio estamos de fato lidando.
– Nós lidamos com todos eles, só que de maneiras diferentes.
– Tudo bem. Então, qual é o plano?
– Descobrimos que ele vai tirar férias no sul da França no intervalo entre o planejamento dos holocaustos nucleares. Alugou uma mansão em Gordes. Conhece? – Shaw negou e Frank completou: – É um lugar lindo, pelo que dizem.
– Viena também é, pelo menos é o que ouvi dizer. E tudo o que vejo são os esgotos, os pronto-socorros e o necrotério.
– Ele viaja com segurança pesada.
– Costuma ser assim. Como seria a extração?
– Rápida e limpa, é claro. Mas os franceses estão totalmente às escuras neste caso. Não podemos esperar ajuda alguma deles. Se você pisar na bola, está ferrado.
– Nenhuma surpresa.
– O cronograma é apertado.
– O cronograma é sempre apertado.
– É verdade – admitiu Frank.
– Então, nós o raptamos e pressionamos, depois esperamos que ele fale?
– Nossa tarefa é apenas capturá-lo. Outros se encarregarão de fazê-lo falar.
– Certo. E eles vão deixá-lo ir embora? – questionou Shaw com nojo.
– Os caras de terno é que estabelecem as regras.
– Você está de terno.
– Corrigindo: os caras que usam ternos caros estabelecem as regras.
– Tudo bem, mas, como você deve se lembrar, na última vez que estive na França, as coisas não correram muito bem.
Frank deu de ombros.
– Então, vamos analisar os detalhes.
Shaw terminou de beber seu café.
– Tudo depende dos detalhes, Frank. E de bastante sorte.