Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 6 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 4

 

O GULFSTREAM LEVANTOU VOO embalado por ventos suaves. Após o avião ter se estabilizado, Frank pegou o arquivo com os itens de sempre: fotos, históricos, análises e recomendações de ação.

– Evan Waller – começou Frank. – Canadense, 63 anos.

Shaw pegou a xícara de café preto com uma das mãos e a foto com a outra. A imagem mostrava um homem com a cabeça totalmente raspada. Parecia forte e em forma, e suas feições eram incisivas e bem angulosas. Os olhos irradiavam uma espécie de brilho assassino. O nariz comprido começava praticamente no meio da testa e descia reto como uma flecha até a parte superior da boca. Era uma boca cruel, se é que isso existia. Sem dúvida, aquele homem era cruel, perigoso. Caso contrário, Shaw não estaria olhando para a sua foto. Ele nunca ia atrás de santos, apenas de pecadores violentos.

– Ele está bem para a idade – comentou Shaw, deixando que a foto caísse sobre a mesinha.

– Há duas décadas, pelo menos, ele está envolvido em qualquer coisa que possa gerar muito dinheiro. Na superfície, ele é impecável. Negócios legítimos, discrição, doações a obras de caridade, ajuda a países do Terceiro Mundo na área de infraestrutura.

– Mas...?

– Mas descobrimos que, por trás da sua fortuna, está o tráfico de pessoas, em especial de jovens asiáticas e africanas sequestradas aos montes por seu pessoal e, em seguida, vendidas para a prostituição no Ocidente. É por isso que ele se interessa tanto pelo desenvolvimento do Terceiro Mundo. É a sua fonte. E seus negócios legítimos lavam o dinheiro dessas atividades.

– Tudo bem, isso o qualifica a receber uma merecida visita minha.

Frank se levantou, preparou um bloody mary no pequeno bar da aeronave e colocou um talo de aipo no copo. Voltou a se sentar enquanto mexia o coquetel com uma colher comprida.

– Waller escondeu bem os detalhes. Demoramos a descobrir seus podres, que, ainda assim, não podem ser usados contra ele em um tribunal. Com certeza o cara é corrupto, mas conseguir provar isso é outra história.

– Então por que estamos nos dando o trabalho de ir atrás dele se não podemos prendê-lo? Isso só vai servir para alertá-lo.

Frank balançou a cabeça.

– Não se trata de capturar e processar. Trata-se de capturar e delatar. Nós o pegamos e o convencemos de que é do interesse dele nos informar sobre seu novo ramo de atividade, que acabamos de descobrir.

– Qual?

– Comércio de material nuclear com fundamentalistas islâmicos que estão entre os criminosos mais procurados do mundo. Ele os dedura e obtém um acordo.

– Que tipo de acordo?

– Basicamente, ele se safa.

– Para continuar a escravizar garotinhas?

– Estamos falando de evitar um holocausto nuclear, Shaw. É uma barganha que o alto escalão se dispõe a fazer. Pelo menos, vamos interromper suas operações por um tempo. Mas ele mantém a liberdade e o dinheiro que escondeu pelo mundo todo.

– Portanto, ele volta a operar normalmente. Sabe, às vezes não sei direito com qual demônio estamos de fato lidando.

– Nós lidamos com todos eles, só que de maneiras diferentes.

– Tudo bem. Então, qual é o plano?

– Descobrimos que ele vai tirar férias no sul da França no intervalo entre o planejamento dos holocaustos nucleares. Alugou uma mansão em Gordes. Conhece? – Shaw negou e Frank completou: – É um lugar lindo, pelo que dizem.

– Viena também é, pelo menos é o que ouvi dizer. E tudo o que vejo são os esgotos, os pronto-socorros e o necrotério.

– Ele viaja com segurança pesada.

– Costuma ser assim. Como seria a extração?

– Rápida e limpa, é claro. Mas os franceses estão totalmente às escuras neste caso. Não podemos esperar ajuda alguma deles. Se você pisar na bola, está ferrado.

– Nenhuma surpresa.

– O cronograma é apertado.

– O cronograma é sempre apertado.

– É verdade – admitiu Frank.

– Então, nós o raptamos e pressionamos, depois esperamos que ele fale?

– Nossa tarefa é apenas capturá-lo. Outros se encarregarão de fazê-lo falar.

– Certo. E eles vão deixá-lo ir embora? – questionou Shaw com nojo.

– Os caras de terno é que estabelecem as regras.

– Você está de terno.

– Corrigindo: os caras que usam ternos caros estabelecem as regras.

– Tudo bem, mas, como você deve se lembrar, na última vez que estive na França, as coisas não correram muito bem.

Frank deu de ombros.

– Então, vamos analisar os detalhes.

Shaw terminou de beber seu café.

– Tudo depende dos detalhes, Frank. E de bastante sorte.