Livrai-nos do mal
Capítulo 93
INDEPENDENTEMENTE DO QUE ACONTECER, pensou Shaw ao olhar para Katie, vou matá-lo antes que tudo isto acabe.
– Você está bem, Katie? – perguntou ele quando a jornalista começou a se aproximar, antes que Pascal a interrompesse.
– Estou. Sinto muito.
– Como assim? Você só está envolvida nisto por causa de m...
A explosão foi tão inesperada que Rice se abaixou e até Pascal deu um salto.
A bala por pouco não acertou a orelha de Shaw. Kuchin abaixou a arma e encarou Reggie e Shaw.
– Obrigado pela atenção. A questão é simples. – Ele apontou a arma para Katie. – Ela era a isca. Agora, vocês estão aqui. – Desviou o olhar para Whit e Dominic. – Todos os quatro, inclusive o irlandês que estava tão ansioso para me colocar em uma cripta.
– Continuo ansioso – desafiou Whit, conseguindo dar um sorriso.
Kuchin virou-se para Reggie e encostou a arma em sua têmpora.
– E a beldade que me tornou imprudente e ávido para agradar. Você me transformou em duas coisas que eu achava que não fosse: velho e tolo.
– Muito prazer – disse Reggie, encarando-o, o toque frio da pistola parecendo não perturbá-la.
Kuchin encostou o cano na testa dela e Shaw se retesou, como se fosse saltar. Mas o ucraniano afastou a arma.
– Não será assim tão fácil – falou ele. – Você me fez passar por seu ritual. Pretendo ter a mesma oportunidade.
Kuchin se voltou para Dominic.
– E o sortudo. O homem que sobreviveu a um tiro à queima-roupa porque meu fiel colega Pascal me entregou uma arma descarregada.
Kuchin encostou a pistola na testa de Dominic. E puxou o gatilho. A parte posterior da cabeça do homem explodiu para fora, atirando longe sangue, tecido e osso.
– Dominic! – gritou Reggie, vendo seu companheiro cair de costas com os olhos arregalados e os lábios entreabertos.
Whit lutou bravamente para chegar até Kuchin, mas, acorrentado como estava, tudo o que conseguiu foi desabar no chão de madeira. O magnata pisou em sua cabeça como teria feito com um inseto.
Shaw ficou imóvel, fitando o cadáver de Dominic e Reggie, cujo rosto estava banhado de lágrimas. Por fim, encarou Katie.
Sinto muito, articulou ele, sem emitir som.
O olhar da jornalista dizia que ela compreendia, mas como era possível? Como alguém podia entender aquilo?
Kuchin pôs a arma em um coldre no cinto, impassível. Aparentemente, para ele não havia diferença entre estourar os miolos de um homem e falar sobre o tempo.
– Ninguém tem tanta sorte assim duas vezes.
Tirou o pé do rosto de Whit e fez sinal para os seguranças. O irlandês foi erguido, gritando obscenidades para Kuchin.
Por fim, Whit ficou em silêncio, tremendo e olhando para o cadáver do amigo.
– Vocês não podiam esperar algo diferente – comentou Kuchin. – Sabiam que, se viessem, morreriam. Não vai ser complicado. Gosto de simplicidade. Sempre gostei.
– Como o gabinete no seu apartamento? – indagou Shaw. – É bastante simples. Escrivaninha, arquivo, armário com seu velho uniforme. E o rolo de filme.
Kuchin se virou para encará-lo. Tirou a pistola do coldre e a encostou na testa de Shaw.
– Tenho um plano, um plano muito bem-arquitetado. Mas posso mudá-lo a qualquer momento – ameaçou, puxando o percussor.
Uma mão segurou seu braço.
– Por favor – implorou Katie. – Por favor, não faça isso.
– Prometi que, se você seguisse minhas instruções, ela seria libertada ilesa.
– Estou contando com a sua palavra – disse Shaw.
– Uma observação peculiar, já que estou com uma arma na sua cabeça.
– Você jurou pela sua mãe. O fato de eu ter ido ao seu apartamento não muda as coisas.
Kuchin hesitou, mas enfim guardou a arma e apontou para Katie.
– Ela ficará aqui. Vocês quatro irão lá fora. – Ele indicou a janela.
– Você fez as contas erradas – observou Shaw. – Só restaram três.
– Foi por isso que matei aquele cara. Eu queria que vocês fossem só quatro e ele estava sobrando.
Shaw encarou o ucraniano, confuso. Kuchin estalou os dedos e um de seus guarda-costas lhe entregou um agasalho amarelo e um par de tênis.
– Alan, por favor, ponha isto – pediu ele.
Rice deu um passo para trás e seu rosto ficou vermelho e, depois, empalideceu.
– Evan?
Kuchin atirou o agasalho e os tênis em cima de Rice, que conseguiu pegar a roupa, mas deixou que os calçados caíssem.
– Evan? – repetiu ele, tremendo.
– Você deveria ter mirado melhor na igreja, Alan. – Ele tocou a própria orelha. – Mesmo assim, foi por pouco. Chegou a chamuscar a minha pele.
– Mas aquilo foi um acidente. Eu estava apontando para ele. – Rice gesticulou em direção ao corpo inerte de Dominic. – Atirei nele.
– Atirar nele foi um acidente. Não acertar em mim foi um pecado imperdoável.
– Eu... eu não sei usar armas, você sabe disso.
– Você está fazendo aulas de tiro há seis meses. Pascal, sob minhas ordens, andou seguindo você. E você também demonstrou ser um conhecedor de armas. Seu único erro foi acreditar que, por ser capaz de atingir um alvo de papel a 25 metros de distância, conseguiria matar um homem a 7 metros no meio de uma confusão. Você não conseguiu. E, assim, eu sobrevivi.
– Você está enganado, Evan. Fiz as aulas para não decepcioná-lo caso acontecesse alguma coisa. Eu não queria decepcioná-lo. Você salvou minha vida.
– Eu disse que monitoraria os negócios.
Rice pareceu se recompor.
– Mas eu não fiz nada. Sua investigação não mostraria nada.
– Cada centavo foi justificado.
– Então, não entendo por que tudo isto.
– As tarifas de transporte de cargas não subiram, Alan. Na verdade, o preço do combustível caiu sessenta por cento no último ano. Os cargueiros ainda usam combustível, não é? Precisamos pesquisar um pouco, mas descobrimos a conta na qual o dinheiro foi parar.
– Não, você está enganado. Os carregamentos chegaram em dois navios. Eu disse isso a você.
– Era um navio só, mas você estava duplicando a conta de combustível. Sei disso porque seu colega nas docas confessou antes de Pascal lhe cortar a língua. Depois, você tentou me matar para assumir os negócios.
– Não, Evan, não, eu...
– Coloque a roupa e os tênis, Alan. Agora. Senão você vai levar uma bala na testa. Vou permitir que você escolha.
Soluçando, Rice obedeceu, mas Pascal precisou ajudá-lo de tanto que ele tremia.
Kuchin se virou para os outros.
– Vocês terão uma hora de vantagem. Aconselho vocês a não correrem para o oceano e mergulharem, pois a temperatura da água é de aproximadamente 10 graus mesmo no verão. – Ele apontou para a janela à sua esquerda. – Aquela é a direção a ser tomada. Mas tenham em mente que este lugar já foi uma geleira. Há muitos fiordes, sulcos profundos o bastante para que alguém fique perdido ali para sempre, água que se desloca muito depressa e declives que se transformam de repente em precipícios. Também existem animais que atacam à noite.
– Como você? – perguntou Reggie.
– Sobretudo eu.
– Então, é algo semelhante a uma caçada?
– Semelhante, não. É uma caçada.
– Nós desarmados contra você e seus empregados? Grande caçada.
– Não, todos vocês contra mim.
– Mas você terá armas.
– Claro que sim.
– E se nós sobrevivermos? Acaba tudo?
– Vocês não vão sobreviver. Estas terras são minhas por quilômetros. E as terras que não são minhas não são de ninguém. Não há nada lá fora. Nada. Exceto vocês e eu.
– E Katie?
– Contanto que vocês sigam minhas instruções, ela será libertada ilesa.
– Eu quero ir com Shaw – disse Katie.
Kuchin a ignorou e consultou o relógio.
– Agora, vocês têm 59 minutos – observou, gesticulando para os seguranças, que soltaram as correntes.
Shaw olhou para Katie pela última vez. Queria dizer algo, mas o quê? Ela também hesitava. Por fim, eles apenas trocaram um sorriso breve, mas sincero.
Reggie arrastou Whit para longe do corpo de Dominic e os dois seguiram Shaw porta afora. Os três começaram a correr.
Rice não se mexeu.
– Alan? – disse Kuchin.
– Por favor, Evan. Por favor, não faça isso – suplicou o ex-sócio.
– Foi você mesmo que disse: pago milhares de dólares, mas eles querem milhões. Você queria mais, é simples assim. E não implore. Homens não imploram.
Kuchin deu um tiro no chão perto de Rice, que deu um pulo e saiu correndo. Katie foi levada para outro cômodo e trancada lá.
Kuchin ordenou a Pascal:
– Prepare os cães.