Livrai-nos do mal
Capítulo 26
REGGIE JÁ ESPERAVA NA confeitaria quando Shaw chegou. Com o cabelo preso embaixo de um boné de beisebol dos Red Sox, ela usava shorts jeans, uma camiseta azul-clara e tênis de corrida. Ele estava de calça social, mocassins e camisa de manga comprida. Os dois se acomodaram nas pequenas cadeiras do lado de fora.
Reggie tomou um gole de café e o avaliou.
– Você ainda se veste como um lobista, mesmo estando na Provence – comentou, em um tom brincalhão.
Shaw sorriu e se recostou. Atrás deles, um homem lavava as ruas com uma mangueira. A água avançava pelas ruas de paralelepípedos, descia pelos desgastados degraus de pedra e, por fim, serpenteava pela colina em veios cada vez mais fracos.
– É difícil se livrar de hábitos antigos. – Ele deu uma mordida no croissant. – Mas deixei as gravatas e os paletós no armário.
– Onde você está hospedado? É justo que eu saiba, já que você sabe onde estou.
– Em um hotel e spa naquela direção – respondeu ele, apontando. – Estou pensando em fazer uma massagem mais tarde.
Ele tomou café, amassou o papel em que seu doce veio embalado e o jogou em uma lata de lixo próxima.
– Aqueles caras ainda estão por lá?
– O Citroën estava lá hoje de manhã, mas só com um homem dentro. Não sei se eles ficaram lá a noite toda. Parece mesmo algo misterioso – falou ela com ar inocente.
– Como estão suas costas?
– Bem. Como está seu rim esquerdo?
– Não tão bem assim, na verdade. Por isso estou pensando na massagem.
– Da próxima vez, lembre-se de telefonar antes de escalar meu muro.
– Engraçado, aquelas mansões em geral são alugadas por todo o verão. Mas a que fica ao lado da sua está vazia desde que eu cheguei.
Ela forçou um sorriso.
– Você é um bisbilhoteiro. Está obcecado com as mansões agora?
Você também foi muito bisbilhoteira.
– Não, é só curiosidade. Cogitei alugar uma, mas era cara demais para mim.
– Achei que todos os lobistas fossem ricos.
– Se não fosse pelo divórcio, eu seria um homem muito rico. Ainda estou bem financeiramente, mas perdi metade.
– Duvido que eu algum dia vá me casar.
– Por quê? Não quero parecer vulgar, mas você seria um ótimo partido para um cara jovem.
– Por que jovem?
– Bem, você é jovem. A maioria das pessoas se casa com gente da mesma faixa etária.
– Quantos anos você tem? – indagou ela sorrindo.
– Sou velho demais para você.
– Você está se enaltecendo e se menosprezando ao mesmo tempo. Estou impressionada.
– É um talento que aprimorei ao longo dos anos. Espero que sua arma esteja em um lugar seguro. Se o pessoal da limpeza aqui a encontrar, você terá que responder a algumas perguntas da polícia local.
– Está em um lugar muito seguro, obrigada pela preocupação.
– Então, vamos jantar amanhã?
– Amanhã à noite, não posso. Que tal depois de amanhã?
– Tudo bem. Aqui na cidade?
– Não, tem uma aldeia aqui perto com um pequeno restaurante que dá vista para o vale. Você anda de caiaque?
Shaw pareceu surpreso pela mudança repentina de tópico.
– Já andei. Por quê?
– Tenho uma reserva hoje com uma empresa de caiaques em Fontaine de Vaucluse. Soube que o rio lá é lindo. Gostaria de ir comigo? Temos que partir daqui a mais ou menos uma hora.
Shaw terminou o café e pensou rápido.
– Tudo bem. Só preciso pôr uma roupa mais apropriada.
– Um calção de banho seria perfeito.
– Bem, meu objetivo é ficar dentro do barco. Mesmo no verão, aposto que aquela água é fria.
– Nunca se sabe, você precisa estar preparado para o inesperado.
Depois que eles se despediram, Shaw a observou descer a rua, mas se escondeu em um beco ao ver o homem que espiara Janie na noite anterior. Não tinha certeza se ele a estava seguindo.
Shaw ainda não sabia o que pensar sobre a moça. E aquilo o incomodava. Apesar de seu plano de ação ser bem elaborado, não fazia a menor ideia de qual seria o resultado. Sua retaguarda estava exposta e ele se sentia perdido.
Naquele momento, ao que parecia, Shaw ia andar de caiaque. E achava melhor seguir o conselho de Janie e se preparar para o inesperado.