O Conde de Monte Cristo
7. O interrogatório
16 Duque d’Enghien: Louis-Antoine-Henri de Bourbon-Condé (1772-1804), exilado na Alemanha pela revolução, era neto do criador do Exército de Condé e um de seus principais líderes. A despeito das normas do direito internacional, foi raptado por ordem de Napoleão em 15 de março de 1804, levado de volta à França, sumariamente julgado como conspirador e fuzilado.
17 Cedant arma toga: “Que as armas cedam à toga”. Citação de Cícero que exorta os militares a respeitar o poder civil, é extraída da obra Dos deveres, I, 22, 77. A frase se completa com
“concedat laurea linguae”, isto é, “que o louro ceda à língua”.
18 Esculápio: nome romano do deus grego Asclépio, divindade associada à medicina e às propriedades curativas em geral.
7. O interrogatório
Assim que Villefort viu-se fora da sala de jantar, desfez-se de sua máscara alegre para assumir a expressão grave de um homem chamado à suprema função que é pronunciar-se sobre a vida de seu semelhante. Ora, apesar da mobilidade de sua fisionomia, mobilidade que o substituto havia, como deve fazer um hábil ator, mais de uma vez estudado no espelho, dessa vez foi difícil para ele franzir o cenho e anuviar o rosto.
Com efeito, salvo a lembrança da linha política seguida pelo seu pai, e que podia, se dele não se afastasse completamente, comprometer seu futuro, Gérard de Villefort estava tão feliz naquele momento quanto é dado a um homem sê-lo; já com fortuna própria, ocupava aos vinte e sete anos um posto elevado na magistratura, ia casar-se com uma jovem e bela pessoa a quem amava, não apaixonadamente, mas com razão, como um substituto do rei pode amar, e sua noiva, a srta. de Saint-Méran, afora sua beleza, que era notável, pertencia a uma das famílias mais consideradas da corte na época; e além da influência de seus pais, que, não tendo outros filhos, podiam conservá-la inteirinha para o seu genro, trazia ainda para o marido um dote de cinqüenta milhões de escudos, os quais,
graças às esperanças1,
essa atroz palavra criada pelos alcoviteiros de casamento, poderia no futuro vir a ser acrescida de uma herança de meio milhão.
Todos esses elementos reunidos formavam então para Villefort um montante de felicidade radiosa, a tal ponto que lhe parecia ver manchas no sol depois de contemplar por muito tempo sua vida íntima com a visão da alma.
Na porta, ele encontrou o comissário de polícia, que o aguardava. A visão do homem de preto logo o fez cair das alturas do terceiro céu sobre a terra material em que caminhamos; compôs seu rosto como dissemos e, ao aproximar-se do oficial de justiça, disse-lhe:
— Aqui estou, cavalheiro, li a carta, e o senhor fez bem em prender este homem; agora dê-me, sobre ele e sobre a conspiração, todos os detalhes que recolheu.
— Sobre a conspiração, senhor, nada sabemos ainda; todos os papéis confiscados com ele foram reunidos num maço único e depositados lacrados no seu gabinete. Quanto ao detento, o senhor viu na própria carta que o denuncia, é um tal de Edmond Dantès, imediato a bordo do três-
mastros Pharaon, que fazia o comércio de algodão com Alexandria e Esmirna, pertencente à Casa Morrel & Filho, de Marselha.
— Ele serviu na marinha de guerra antes de servir na marinha mercante?
— Oh, não, senhor! É um rapaz muito jovem.
— Que idade?
— Dezenove ou vinte anos, no máximo.
Nesse momento, quando Villefort, seguindo a Grande-Rue, chegara à esquina da rua dos Conseils, um homem que parecia esperá-lo na passagem o abordou; era o sr. Morrel.
— Ah, sr. de Villefort! — exclamou o bom homem ao avistar o substituto. Fico muito feliz de encontrá-lo. Imagine que acabam de cometer o mal-entendido mais estranho, mais insólito: acabam de prender o imediato da minha embarcação, Edmond Dantès.
— Sei disso, cavalheiro — disse Villefort —, e vim para interrogá-lo.
— Oh, senhor — continuou o sr. Morrel, exaltado por sua amizade pelo rapaz —, o senhor não conhece o acusado, mas eu sim: imagine o homem mais delicado, o homem mais probo, eu quase ousaria dizer o homem mais cônscio de sua classe de toda a marinha mercante. Oh, sr. de Villerfort! Eu o recomendo muito sinceramente e de todo o meu coração.
Villefort, como pudemos ver, pertencia ao partido nobre da cidade, e Morrel, ao partido plebeu; o primeiro era ultra-realista, o segundo, suspeito de bonapartismo dissimulado. Villefort olhou desdenhosamente para o sr. Morrel e respondeu com frieza:
— Saiba, cavalheiro, que alguém pode muito bem ser delicado na vida privada, probo nas relações comerciais e bem-comportado em sua classe e nem assim deixar de ser um grande culpado, politicamente falando; sabia disso, não é mesmo, cavalheiro?
E o magistrado marcou estas últimas palavras como se quisesse aplicá-las ao próprio armador, enquanto seu olhar perscrutador parecia querer invadir o fundo do coração daquele homem, impertinente a ponto de interceder por um semelhante, quando devia saber que ele próprio precisava de indulgência.
Morrel corou, pois não sentia a consciência muito limpa no que se referia a opiniões políticas; além disso, a confidência que Dantès lhe fizera a respeito de sua entrevista com o grão-marechal e algumas palavras a ele dirigidas pelo imperador perturbavam um pouco seu espírito.
Acrescentou, todavia, com o tom do mais profundo interesse:
— Eu lhe suplico, sr. de Villefort, seja justo como deve sê-lo, bondoso como sempre o é, e devolva-nos bem rápido esse pobre Dantès.
O devolva-nos soou revolucionário aos ouvidos do substituto do procurador do rei.
— He, he! — sussurrou ele consigo mesmo — devolva-nos... Seria
esse Dantès filiado a alguma seita de carbonários2, para que seu protetor empregue assim, sem pensar, a fórmula coletiva? Foi detido num bar, me disse, creio, o comissário; em numerosa companhia, acrescentou: deve ser alguma reunião clandestina.
Depois, bem alto:
— Cavalheiro — respondeu —, pode ficar absolutamente tranqüilo, e não terá feito um apelo inútil à minha justiça se o indiciado for inocente; mas se, ao contrário, for culpado, vivemos numa época difícil, cavalheiro, em que a impunidade seria um exemplo fatal. Serei então obrigado a cumprir o meu dever.
E com isso, como chegara à porta de sua casa, encostada no Palácio de Justiça, entrou majestosamente, após ter cumprimentado com uma polidez de gelo o infeliz armador, que ficou como petrificado no lugar em que Villefort o deixara.
O vestíbulo encontrava-se abarrotado de policiais e agentes; no meio deles, escondido da vista, envolvido por olhares flamejantes de ódio, estava, de pé, calmo e imóvel, o prisioneiro.
Villefort atravessou o vestíbulo, lançou um olhar oblíquo para Dantès, e, após ter pego um maço de papéis estendido por um agente, desapareceu dizendo:
— Tragam o prisioneiro.
Por mais rápido que tivesse sido aquele olhar, ele bastara para Villefort formar uma idéia do homem que ia interrogar: reconhecera inteligência na fronte larga e aberta, coragem no olhar fixo, na sobrancelha franzida, e sinceridade nos lábios grossos e entreabertos, que revelavam uma dupla fileira de dentes brancos de marfim.
A primeira impressão fora favorável a Dantès; mas Villefort ouvira tantas vezes, como um conselho profundamente político, que convinha desconfiar dos primeiros impulsos na medida em que estes procedessem, que aplicou esta máxima à sua impressão, sem levar em conta a diferença que havia entre impulso e impressão.
Sufocou então os bons instintos que desejavam penetrar seu coração para dali ganharem seu espírito, arrumou diante do espelho sua fisionomia dos grandes dias e sentou-se, soturno e ameaçador, à sua escrivaninha.
Um instante depois, Dantès entrou.
O rapaz continuava pálido, mas também calmo e sorridente.
Cumprimentou seu juiz com uma polidez desenvolta, depois procurou com os olhos um assento, como se estivesse no salão do armador Morrel.
Foi somente então que deparou com o olho opaco de Villefort, o olho característico dos homens de palácio, que não querem que seus pensamentos sejam lidos e que fazem de seu olhar um vidro embaçado.
Aquele olhar o informou que estava diante da justiça, uma personagem de traços sombrios.
— Quem é o senhor e como se chama? — perguntou Villefort, folheando os papéis que recebera do agente ao entrar e que, depois de uma hora, já se avolumavam, tanto a corrupção das espionagens pespega-se rapidamente a esse corpo desgraçado que chamamos de réus.
— Meu nome é Edmond Dantès, senhor — respondeu o rapaz com uma voz calma e sonora. — Sou imediato a bordo do paquete Pharaon, que pertence aos srs. Morrel e filho.
— Sua idade? — continuou Villefort.
— Dezenove anos — respondeu Dantès.
— Que fazia no momento em que foi preso?
— Achava-me no almoço do meu próprio noivado, senhor — disse Dantès, com uma voz ligeiramente emocionada, tão doloroso era o contraste entre aqueles momentos de alegria e a lúgubre cerimônia que se consumava, entre a taciturna fisionomia do sr. de Villefort e a radiosa luz no rosto de Mercedes.
— Em seu almoço de noivado? — perguntou o substituto, estremecendo à sua revelia.
— Sim, senhor, estou prestes a me casar com uma mulher que amo há três anos.
Villefort, impassível como de costume, ficou entretanto abalado com a coincidência, e aquela voz emocionada de Dantès, surpreendido no meio de sua felicidade, ia tanger uma corda simpática no fundo de sua alma. Ele também estava feliz, e acabavam de perturbar sua felicidade para que contribuísse na destruição da alegria de um homem que, como ele, já quase tocava a felicidade. “Essa abordagem filosófica”, pensou, “causará
grande efeito na minha volta ao salão do sr. de Saint-Méran”, e articulou antecipadamente em seu espírito, enquanto Dantès aguardava novas perguntas, as palavras antitéticas com a ajuda das quais os oradores constroem frases ávidas por aplausos, que por vezes parecem uma verdadeira eloqüência.
— Meu nome é Edmond Dantès, senhor.
Articulado seu pequeno speech interior, Villefort sorriu para deleite próprio e, voltando a Dantès, disse:
— Continue, cavalheiro.
— Continuar o quê?
— A esclarecer a justiça.
— Que a justiça me diga sobre que ponto quer ser esclarecida, e lhe direi tudo que sei; entretanto — acrescentou por sua vez com um sorriso
—, avisolhe que não sei muita coisa.
— O senhor serviu sob o usurpador?
— Estava para ser incorporado à marinha de guerra, quando ele caiu.
— Ouvi dizer que tem opiniões políticas exacerbadas — disse Villefort, a quem não haviam dito palavra sobre o assunto, mas que não se
constrangia de fazer a pergunta como quem faz uma acusação.
— Minhas opiniões políticas, senhor? Ai de mim! É quase vergonhoso dizer, mas nunca tive o que chamam de uma opinião. Tenho apenas dezenove anos, como tive a honra de lhe dizer; não sei nada, não estou destinado a desempenhar papel nenhum; o pouco que sou e serei, se me concederem o posto que ambiciono, é ao sr. Morrel que deverei. Assim, todas as minhas opiniões, não direi políticas, mas privadas, limitam-se a três sentimentos: amo meu pai, respeito o sr. Morrel e adoro Mercedes.
Eis, senhor, tudo que posso dizer à justiça; como vê, é de pouco interesse para ela.
À medida que Dantès falava, Villefort observava seu rosto ao mesmo tempo delicado e franco e sentia voltar à memória as palavras de Renée, que, sem o conhecer, pedira-lhe indulgência para o réu. Com a prática que o substituto já tinha do crime e dos criminosos, via, a cada palavra de Dantès, surgir a prova de sua inocência. Com efeito, aquele rapaz, poderíamos até dizer aquela criança, simples, espontânea, eloqüente daquela eloqüência do coração que nunca encontramos quando procuramos, cheio de afeição por todos, porque estava feliz e porque que a felicidade torna bons até os maus, contagiava seu juiz com a doce afabilidade que transbordava de seu coração. Edmond demonstrava no olhar, na voz e no gesto, por mais rude e severo que Villefort tivesse sido com ele, apenas carícias e bondade para aquele que o interrogava. — Que sorte — disse consigo Villefort —, eis um rapaz encantador, acho que não terei muita dificuldade para satisfazer Renée e obedecer à primeira recomendação que ela me fez: isso me valerá um bom aperto de mão diante de todos e um beijo delicioso num canto qualquer.
E a essa doce esperança o semblante de Villefort clareou; de maneira que, quando transmitiu os olhares de seu pensamento para Dantès, este, que acompanhara todas as evoluções de sua fisionomia, sorria como seu pensamento.
— Tem inimigos, senhor? — perguntou Villefort.
— Inimigos pessoais? — disse Dantès. — Para minha felicidade, sou muito pouca coisa para que minha posição os instigue. Quanto ao meu caráter, talvez um pouco veemente, tento sempre suavizá-lo para os meus subordinados. Tenho dez ou doze marujos sob minhas ordens: interrogue-os, senhor, e eles lhe dirão que gostam de mim e me respeitam não como um pai, sou muito jovem para isso, mas como um irmão mais velho.
— Mas, já que não há inimigos, talvez haja invejosos; o senhor ia ser nomeado capitão aos dezenove anos, o que é um posto elevado para alguém de sua condição; ia casar com uma bonita mulher que o ama, o que é uma felicidade rara em todas as castas da terra; são duas preferências do destino suscetíveis de provocar inveja.
— Sim, tem razão. O senhor deve conhecer os homens melhor que eu, é possível; mas, se esses invejosos estão entre os meus amigos, confesso que prefiro não os conhecer para não ser obrigado a odiá-los.
— O senhor está errado. É preciso sempre, tanto quanto possível, ver com clareza o que o cerca; na verdade, o senhor me parece um moço tão digno que, para ajudá-lo a se situar, violarei as regras de praxe da justiça e lhe mostrarei a denúncia que o traz perante mim: eis o papel incriminador.
Reconhece a letra?
E Villefort tirou a carta do bolso e a apresentou a Dantès. Dantès olhou e leu. Sua fronte anuviou-se; ele disse:
— Não, senhor, não reconheço a letra; está disfarçada, e no entanto apresenta uma forma bem espontânea. Em todo caso, foi uma mão hábil que a traçou. Fico bem feliz — acrescentou, olhando para Villefort com gratidão — de estar lidando com um homem como o senhor, pois, com efeito, meu invejoso é um autêntico inimigo.
E no brilho que se irradiou dos olhos do rapaz ao pronunciar estas palavras, Villefort pôde discernir tudo que havia de violenta energia por trás daquela primeira mansuetude.
— E agora, vejamos — disse o substituto —, responda-me francamente, cavalheiro, não como um réu a seu juiz, mas como um homem numa posição equívoca responde a outro que se interessa por ele: que há de verdade nessa acusação anônima?
E Villefort lançou com asco na escrivaninha a carta que Dantès acabava de lhe devolver.
— Tudo e nada, senhor, e esta é a pura verdade, pela minha honra de marinheiro, pelo meu amor por Mercedes e pela vida do meu pai.
— Fale, cavalheiro — ordenou bem alto Villefort.
Depois acrescentou num sussurro: “Se Renée pudesse me ver, acho que ficaria contente comigo e não me chamaria mais de cortador de cabeças!”
— Pois bem! Quando partimos de Nápoles, o capitão Leclère foi vítima de uma febre cerebral; como não tínhamos médico a bordo e ele não queria parar em nenhum ponto do litoral, apressado que estava para chegar à ilha de Elba, sua doença piorou tanto que, perto do terceiro dia, percebendo que ia morrer, ele me chamou junto a si.
“— Caro Dantès” — ele me disse — “jure pela sua honra que vai fazer o que vou lhe dizer; há os mais elevados interesses nisto.
“— Juro, capitão” — respondi.
“— Ótimo! Quando, após a minha morte, assumir o comando desta embarcação na condição de imediato, o senhor irá fundear na ilha de Elba, desembarcar em Porto Ferraio, perguntar pelo grão-marechal e lhe entregar esta carta; é possível que ele lhe dê outra carta e o encarregue de uma missão. Essa missão, reservada para mim, o senhor a realizará no meu lugar e toda a honra por isso lhe caberá.
“— Farei como ordena, capitão, mas talvez não seja tão fácil quanto imagina chegar perto do grão-marechal.
“— Aqui está um anel que o senhor pedirá para lhe entregarem” — disse o capitão — “e que vencerá todos os obstáculos.”
E a estas palavras me entregou um anel.
Bem a tempo: duas horas depois o delírio tomou conta dele; no dia seguinte estava morto.
— E que fez o senhor, então?
— O que devia fazer, senhor, o que qualquer um teria feito em meu lugar. Se os desejos de um moribundo são sagrados, entre os marujos os de um superior são ordens a serem cumpridas. Fiz vela rumo à ilha de Elba, onde cheguei no dia seguinte; ordenei que todos permanecessem a bordo e desci à terra sozinho. Como eu previra, criaram alguns empecilhos para me introduzirem junto ao grão-marechal; mas fiz com que lhe entregassem o anel que devia servir como sinal de reconhecimento e todas as portas abriram-se à minha passagem. Ele me recebeu, me interrogou sobre as últimas circunstâncias da morte do desventurado Leclère e, como este previra, entregou-me uma carta, a qual fui incumbido de levar pessoalmente a Paris. Prometi que o faria, pois isso significava realizar as últimas vontades do meu capitão. Aportei de volta, acertei rapidamente todos os negócios do navio; depois corri para ver minha noiva, que encontrei mais bela e amorosa do que nunca. Graças ao sr. Morrel, passamos por cima de todas as dificuldades eclesiásticas; enfim, senhor, eu estava, como lhe disse, no almoço do meu noivado, ia me casar dentro de uma hora e contava partir amanhã para Paris quando, por essa denúncia que agora o senhor parece desprezar tanto quanto eu, fui preso.
— Sim, sim — murmurou Villefort —, tudo isso me parece verdade; e, se o senhor for culpado, é pela imprudência; ainda que tal imprudência estivesse legitimada pelas ordens do seu capitão. Entregue-nos essa carta que lhe deram na ilha de Elba, dê-me sua palavra que vai se apresentar na primeira audiência e vá se juntar a seus amigos.
— Quer dizer que estou livre, senhor! — exclamou Dantès, no auge da alegria.
— Sim, tem apenas que me entregar essa carta.
— Ela deve estar consigo, senhor, pois estava junto com meus outros papéis e reconheci alguns deles nesse maço.
— Espere — disse o substituto a Dantès, que pegava suas luvas e seu chapéu —, espere; a quem a carta estava destinada?
— Ao sr. Noirtier, rua Coq-Héron, em Paris.
Um raio que se abatesse sobre Villefort não o teria atingido com golpe mais fulminante e imprevisto. Desmoronando novamente em sua poltrona, da qual se soerguera para alcançar o maço de papéis confiscados de Dantès, e folheando-o precipitadamente, dele retirou a carta fatal, sobre a qual lançou um olhar marcado por indescritível terror.
— Sr. Noirtier, rua Coq-Héron no13 — murmurou, empalidecendo cada vez mais.
— Sim, senhor — respondeu Dantès, perplexo —, conhece-o?
— Não — respondeu Villefort afobadamente —, um fiel do servidor do rei não conhece conspiradores.
— Trata-se então de uma conspiração? — perguntou Dantès, que, após julgar-se livre, voltava a ser invadido por um terror mais intenso que o primeiro. — Em todo caso, senhor, como já lhe disse, eu ignorava completamente o teor da correspondência de que era o portador.
— Sim — respondeu Villefort, com uma voz surda —, mas sabe o nome daquele a quem era destinada.
— Para entregá-la eu mesmo, senhor, era preciso que o soubesse.
— E não mostrou essa carta a ninguém? — perguntou Villefort, ao mesmo tempo que a lia e empalidecia à medida que lia.
— A ninguém, senhor, palavra de honra!
— Ninguém sabe que o senhor era portador de uma carta proveniente da ilha de Elba e destinada ao sr. Noirtier?
— Ninguém, senhor, exceto quem me entregou a carta.
— É muito, ainda é muito! — murmurou Villefort.
A fronte de Villefort ia escurecendo mais e mais à medida que ele avançava para o fim; seus lábios brancos, suas mãos trêmulas, seus olhos ardentes incutiam as mais dolorosas apreensões no espírito de Dantès.
Após essa leitura, Villefort deixou a cabeça cair em suas mãos e permaneceu por um instante abatido.
— Oh, meu Deus! O que houve, senhor? — perguntou timidamente Dantès.
Villefort não respondeu, mas, ao cabo de alguns instantes, ergueu o semblante pálido e desfigurado, relendo a carta uma segunda vez.
— E diz que não sabia o que continha esta carta? — interpelou-o Villefort.
— Pela minha honra, repito, senhor — repetiu Dantès —, ignoro-o. Mas o que está sentindo, senhor? Meu Deus! Está passando mal; quer que eu toque a campainha, quer que chame alguém?
— Não, cavalheiro — disse Villefort, levantando-se de um pulo —, não se mexa, não diga uma palavra; sou em quem dou as ordens aqui, não o senhor.
— Senhor, era apenas para ajudá-lo — desculpou-se Dantès, magoado.
— Não preciso de nada; uma exaltação passageira, só isso; preocupe-se consigo, não comigo, e responda.
Dantès aguardou o interrogatório anunciado por essa injunção, mas foi inútil: Villefort afundou de novo na poltrona, passou a mão gelada na testa reluzente de suor e, pela terceira vez, pôs-se a reler a carta.
— Oh! Se ele souber o que esta carta contém — murmurou — e vier a saber que Noirtier é pai de Villefort, estou perdido, perdido para sempre!
E de tempos em tempos observava Edmond, como se o seu olhar fosse capaz de romper aquela barreira invisível que represa no coração os segredos vigiados pela boca.
— Oh! Não resta mais nenhuma dúvida! — exclamou subitamente.
— Mas, em nome do céu, senhor! — exclamou por sua vez o infeliz rapaz. — Se duvida de mim, se suspeita de mim, interrogue-me, estou pronto a lhe responder.
Villefort fez um esforço supremo e, num tom que se pretendia firme, disse:
— Cavalheiro, do seu interrogatório resultam as mais graves acusações; logo, não sou soberano, como a princípio esperara, para lhe conceder a
liberdade imediata; devo, antes de tomar essa medida, consultar o juiz de instrução. Em todo caso, o senhor pôde ver a maneira como o tratei.
— Oh, sim — exclamou Dantès —, e lhe agradeço, pois o senhor foi para mim mais um amigo que um juiz.
— Pois muito bem, cavalheiro! Terei de mantê-lo prisioneiro ainda por um certo tempo, o mais curto possível; a principal acusação contra o senhor é esta carta e, como pode ver...
Villefort aproximou-se da lareira, atirou a carta ao fogo e ali ficou até que esta se visse reduzida a cinzas.
— Como pode ver — continuou —, eu a destruí.
— Oh! — exclamou Dantès. — O senhor é mais que a justiça, o senhor é a bondade!
— Mas preste atenção — prosseguiu Villefort —, compreende que depois de um ato como este pode confiar em mim?
— Oh, senhor! Ordene e será obedecido.
— Não — disse Villefort, aproximando-se do rapaz —, não, não são ordens que quero lhe dar; veja bem, são conselhos.
— Fale, e me submeterei a eles como se fossem ordens.
— Vou mantê-lo até a noite aqui, no Palácio de Justiça; talvez outra pessoa venha interrogá-lo; repita o que o senhor me disse, mas nenhuma palavra acerca dessa carta.
— Juro, senhor.
Era Villefort quem parecia suplicar, era o réu que tranqüilizava o juiz.
— Como vê — disse ele, lançando um olhar para as cinzas, que ainda conservavam a forma do papel e esvoaçavam acima das chamas —, agora essa carta está destruída, apenas o senhor e eu sabemos que ela existiu; portanto, ela não será apresentada ao senhor; por conseguinte, se a mencionarem, negue-a com veemência e estará salvo.
— Negarei, senhor, fique tranqüilo — disse Dantès.
— Bem, bem! — disse Villefort, levando a mão ao cordão de uma campainha e logo detendo-se no momento de tocar:
— Era a única carta que trazia? — perguntou ele.
— A única.
— Jure.
Dantès estendeu a mão.
— Juro — disse ele.
Villefort tocou a campainha.
O comissário de polícia entrou.
Villefort aproximou-se do oficial público e disse-lhe algumas palavras ao ouvido; o comissário respondeu com um simples aceno da cabeça.
— Siga o cavalheiro — disse Villefort a Dantès.
Dantès inclinou-se, lançou um último olhar de gratidão a Villefort e saiu.
Mal a porta se fechou atrás dele, faltaram forças a Villefort, que caiu quase desmaiado na poltrona.
Então, no fim de um instante:
— Oh, meu Deus — murmurou —, de que dependem a vida e a fortuna...! Se o procurador do rei estivesse em Marselha, se o juiz de instrução tivesse sido chamado em meu lugar, eu estaria perdido; e esse papel, esse maldito papel me empurraria para o abismo. Ah, meu pai, meu pai, o senhor nunca deixará de ser um obstáculo à minha felicidade neste mundo, serei sempre obrigado a lutar contra o seu passado!
Em seguida, um fulgor inesperado e repentino pareceu atravessar o seu espírito e iluminou seu rosto; um sorriso desenhou-se na boca ainda crispada, os olhos esgazeados tornaram-se fixos e pareceram deter-se num pensamento.
— É isto — disse ele —, sim, a carta que devia causar minha perdição talvez venha a se constituir na minha fortuna. Em frente, Villefort, mãos à obra!
E, certificando-se de que o réu já deixara o vestíbulo, o substituto do procurador do rei saiu por sua vez e encaminhou-se celeremente para a casa de sua noiva.
1 Esperanças: termo que, em francês (espérances), refere-se à herança a ser recebida por um casal; no caso, a fortuna dos pais da noiva.
2 Carbonários: do italiano carbonaro, “carvoeiro”. Assim eram chamados os membros de uma sociedade secreta e revolucionária fundada na Itália, por volta de 1810, mas que atuou também na França e na Espanha. Sua ideologia assentava-se em princípios libertários, fazendo-se notar por um marcado anticlericalismo, pelo combate à intolerância religiosa, ao absolutismo e pela defesa de ideais liberais. Era, portanto, pelo menos em tese, afinada com as regras gerais do Estado napoleônico.