O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 118 de 119

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O Conde de Monte Cristo

19. O perdão

5 Che cosa: em italianao “O que é?”.

6 Danaides: na mitologia grega, as cinqüenta filhas de Dânao, cujo irmão gêmeo, Egito, tinha por sua vez cinqüenta filhos. Estes foram instruídos pelo pai a casarem-se com as Danaides, mas Dânao preferiu fugir, sendo seguido pelos filhos de Egito. Alcançado na cidade de Argos, Dânao concordou então, para evitar uma guerra, que as filhas se casassem. Porém, mandou-as matarem o respectivo noivo na noite de núpcias. Todas, menos uma, cumpriram as ordens do pai. Em

algumas versões do mito, as Danaides foram condenadas, no Hades, a encherem de água uma jarra, ou tonel, com furos, por onde a água voltava a sair.

19. O perdão

No dia seguinte, Danglars voltou a sentir fome. A atmosfera daquela caverna abrialhe o apetite. O prisioneiro julgou que não teria que gastar nada nesse dia, pois, como homem econômico, escondera metade do frango e um pedaço do pão no canto da cela.

Porém, assim que acabou de comer, sentiu sede. Não contava com essa.

Lutou contra a sede até o momento em que sentiu a língua seca grudar no palato.

Então, não conseguindo mais resistir ao fogo que o devorava, chamou.

A sentinela abriu a porta. Era uma cara nova.

Julgou ser mais fácil lidar com um conhecido. Chamou Peppino.

— Aqui estou, Excelência — disse o bandido, apresentando-se com uma solicitude que pareceu de bom augúrio a Danglars —, que deseja?

— Beber — disse o prisioneiro.

— Excelência — disse Peppino —, o senhor sabe que o preço do vinho está pela hora da morte nos arredores de Roma.

— Dê-me água então — disse Danglars, tentando aparar o golpe.

— Oh, Excelência, a água é mais rara que o vinho; está uma seca daquelas!

— Que seja — resignou-se Danglars — ao que tudo indica, iremos recomeçar!

E, ao mesmo tempo em que sorria para parecer tranqüilo, o infeliz sentia o suor irrigar suas têmporas.

— Ora, meu amigo — vendo que Peppino permanecia impassível —, estou pedindo um copo de vinho, irá negar?

— Já lhe disse, Excelência — respondeu Peppino gravemente —, que não vendemos a varejo.

— Muito bem, que seja, dê-me uma garrafa.

— De qual?

— Do menos caro.

— Todos têm o mesmo preço.

— E qual é esse preço?

— Vinte e cinco mil francos a garrafa.

— Confesse — exclamou Danglars, com uma melancolia que

apenas Harpagon1 seria capaz de detectar no diapasão da voz humana — confesse

logo que quer me depenar, será mais rápido do que me devorar assim, retalho a retalho.

— É possível — disse Peppino — que este seja o plano do patrão.

— E quem é o patrão?

— Aquele a quem o levaram anteontem.

— E onde ele está?

— Aqui.

— Traga-o até mim.

— Isso é fácil.

Um segundo depois, Luigi Vampa estava diante de Danglars.

— O senhor me chamou? — perguntou ele ao prisioneiro.

— É o senhor o chefe das pessoas que me trouxeram para cá?

— Sim, Excelência.

— Qual é o valor do meu resgate? Fale.

— Nada além dos cinco milhões que o senhor carrega. Danglars sentiu um violento espasmo triturar-lhe o coração.

— Só tenho isso no mundo, senhor, e é o resto de uma imensa fortuna.

Se me tirar isso, estará me tirando a vida.

— Estamos proibidos de derramar o seu sangue, Excelência.

— E quem os proibiu?

— Aquele a quem obedecemos.

— Então obedecem a alguém?

— Sim, a um chefe.

— Eu achava que o senhor era o chefe...

— Sou o chefe desses homens, mas outro homem é meu chefe.

— E esse chefe obedece a alguém?

— Sim.

— A quem?

— A Deus.

Danglars ficou pensativo por um instante.

— Não compreendo — disse ele.

— É possível.

— E foi esse chefe quem lhe disse para me tratar desse jeito?

— Sim.

— Qual é seu objetivo?

— Não sei.

— Mas minha bolsa vai secar.

— É provável.

— Vamos conversar — disse Danglars —, quer um milhão?

— Não.

— Dois milhões?

— Não.

— Três milhões? Quatro? Vamos, quatro? Aceito contanto que me deixe ir embora.

— Por que nos oferece quatro pelo que vale cinco? — disse Vampa. —

Isso é usura, sr. banqueiro, ou então estou maluco.

— Pegue tudo! Pegue tudo, estou dizendo! — exclamou Danglars. — E

depois me mate!

— Ora, ora, acalme-se, Excelência, vai acelerar o sangue, e ficar com apetite para comer um milhão por dia. Seja mais econômico, que diabos!

— Mas, e quando eu não tiver mais dinheiro para lhe pagar? —

exclamou Danglars, exasperado.

— Aí sentirá fome.

— Sentirei fome? — perguntou Danglars, empalidecendo.

— É provável — respondeu Vampa fleugmaticamente.

— Mas está dizendo que não quer me matar, não é?

— Não mesmo.

— E quer me deixar morrer de fome?

— Não é igual.

— Pois bem, miseráveis! — exclamou Danglars. — Frustrarei os seus planos infames. Morrer por morrer, prefiro terminar com tudo agora.

Façame sofrer, torture-me, mate-me, mas não terá mais a minha assinatura!

— Como quiser, Excelência — disse Vampa. E saiu da cela.

Danglars atirou-se rugindo sobre suas peles de bode.

Quem eram aqueles homens? Quem era aquele chefe invisível? Que planos afinal tinham para ele? E, se todo mundo podia ser resgatado, por que não ele?

— Pois bem, miseráveis! Frustrarei os seus planos infames!

Oh, decerto a morte, uma morte sumária e violenta, era um bom método para enganar seus ferrenhos inimigos, que pareciam empreender contra ele uma vingança incompreensível.

Sim, mas morrer...!

Talvez pela primeira vez em sua tão longa carreira Danglars pensasse na morte com desejo e medo simultâneos. Mas chegara para ele o momento de deter os olhos no espectro implacável, que vive dentro de toda criatura e, a cada batida do coração, diz-lhe: “Morrerás!”

Danglars parecia aqueles animais ferozes que a caçada anima, depois desespera, mas, graças a esse desespero, às vezes conseguem salvar-se.

Ele cogitou uma fuga.

Contudo, os muros eram a própria pedra, um homem lia na única saída da cela, e, atrás desse homem, viam-se ir e vir sombras armadas com fuzis.

Sua decisão de não assinar durou dois dias, depois dos quais pediu comida e ofereceu um milhão.

Serviram-lhe uma magnífica ceia, e pegaram seu milhão.

Desde então, a vida do infeliz prisioneiro foi uma divagação perpétua.

Sofrera tanto que não queria mais expor-se a sofrer, e aceitava todas as exigências. No fim de doze dias, uma tarde em que ele almoçara como em seus belos dias de fartura, fez as contas e percebeu que dera tantas promissórias que não lhe restavam mais senão cinqüenta mil francos.

Então operou-se nele uma estranha reação. Ele, que acabava de abandonar cinco milhões, tentou salvar os cinqüenta mil francos que lhe restavam. Em vez de entregar aqueles cinqüenta mil francos, resolveu tornar a uma vida de privações, teve lampejos de esperança que beiravam a loucura. Ele, que havia tanto tempo esquecera Deus, achou por bem dizer consigo mesmo que Deus às vezes operava milagres: a caverna poderia desabar; os carabinieri pontifícios poderiam descobrir aquele esconderijo maldito e vir em seu socorro; então lhe restariam cinqüenta mil francos, e cinqüenta mil francos era uma soma suficiente para impedir um homem de morrer de fome. Rezou a Deus para que lhe conservasse aqueles cinqüenta mil francos e, rezando, chorou.

Três dias assim transcorreram, durante os quais o nome de Deus esteve constantemente, se não em seu coração, pelo menos em seus lábios; tinha delírios intermitentes durante os quais julgava, através das janelas, ver num quarto humilde um ancião agonizando numa enxerga.

Esse velho também morria de fome.

No quarto dia, não era mais um homem, era um cadáver vivo. Catara no chão até as últimas migalhas de suas refeições pregressas e começou a devorar a palha que forrava o chão.

Suplicou então a Peppino, como se este fora seu anjo da guarda, que lhe desse alguma comida. Ofereceu-lhe mil francos por uma côdea de pão.

Peppino não respondeu.

No quinto dia, arrastou-se até a entrada da cela.

— Mas afinal não é cristão? — disse ele, erguendo-se em seus joelhos.

— Quer assassinar um homem que é seu irmão perante Deus? — E

murmurou, caindo com o rosto no chão: — Oh, meus amigos de antigamente, meus amigos de antigamente!”

Em seguida, levantando-se com uma espécie de desespero:

— O chefe! — gritou. — O chefe!

— Aqui estou! — disse Vampa, aparecendo de repente. — O que mais deseja?

— Pegue o meu último ouro — balbuciou Danglars, estendendo sua carteira — e deixe-me viver aqui, nesta caverna. Não peço mais a liberdade, peço apenas para viver.

— Então está sofrendo muito? — perguntou Vampa.

— Oh, sim, sofro cruelmente!

— Ainda assim, há homens que sofreram mais que o senhor.

— Não acredito.

— Claro que há! Aqueles que morreram de fome.

Danglars pensou naquele velho que, durante suas horas de alucinação, via, através das janelas do seu humilde quarto, gemer em sua enxerga.

Bateu com a cabeça no chão, soltando um gemido.

— Sim, é verdade, existe quem tenha sofrido ainda mais que eu, mas pelo menos estes eram mártires.

— Quer dizer que pelo menos se arrepende? — soou uma voz sinistra e solene, que deixou Danglars de cabelo em pé.

Seu olhar enfraquecido tentou distinguir os objetos, e viu atrás do bandido um homem envolvido num sobretudo e perdido na sombra de uma coluna de pedra.

— Do que preciso me arrepender? — balbuciou Danglars.

— Do mal que me fez — disse a mesma voz.

— Oh, sim, eu me arrependo, eu me arrependo! — exclamou Danglars.

E bateu no peito com seu pulso emagrecido.

— Então eu o perdôo — disse o homem, lançando o sobretudo ao chão e dando um passo para colocar-se na luz.

— O conde de Monte Cristo! — disse Danglars, mais pálido de terror do que estava, um instante antes, de fome e miséria.

— Está enganado. Não sou o conde de Monte Cristo.

— E quem é então?

— Sou aquele que o senhor vendeu, entregou e desonrou; sou aquele cuja noiva o senhor prostituiu; sou aquele em quem pisoteou para alçar-se à fortuna; sou aquele cujo pai o senhor fez morrer de fome, e a quem o senhor condenou a morrer de fome, mas que, apesar disso, o perdoa, porque ele mesmo precisa ser perdoado; sou Edmond Dantès!

Danglars deu um grito e caiu prosternado.

— Levante-se — disse o conde —, o senhor tem a vida salva. Essa sorte não tiveram seus outros dois cúmplices. Um está louco, o outro está morto! Guarde os cinqüenta mil francos que lhe restam, são um presente meu. Quanto aos seus cinco milhões, roubados dos hospícios, já foram devolvidos por certa mão desconhecida. E agora, coma e beba, é meu hóspede esta noite. Vampa, quando o homem estiver saciado, está livre.

Danglars continuou prosternado, enquanto o conde se afastava. Quando levantou a cabeça, não viu mais senão uma espécie de sombra que desaparecia pela galeria e diante da qual os bandidos se curvavam.

Como ordenara o conde, Danglars foi servido por Vampa, que lhe mandou levar o melhor vinho e as mais belas frutas da Itália, e que, embarcando-o em sua caleche, abandonou-o na estrada, recostado a uma árvore.

Assim ficou até o amanhecer, sem saber onde estava.

Com a luz do dia, percebeu que estava perto de um riacho. Tinha sede, arrastou-se até ali.

E, abaixando para beber, percebeu que seus cabelos haviam ficado brancos.