O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 76 de 119

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O Conde de Monte Cristo

17. O jazigo da família Villefort

2 Errare humanum est: “errar é humano” , conceito extraído de uma frase do filósofo grego Sêneca (4 a.C.-65 d.C.), em suas Questões naturais, livro IV, 2.

3 Correggio: Antônio Allegri (1489-1534), conhecido como Correggio, pintor da Renascença italiana.

17. O jazigo da família Villefort

Dois dias depois, uma multidão considerável achava-se reunida, por volta das dez horas da manhã, à porta do sr. de Villefort, e viu-se avançar uma longa fila de coches fúnebres e de coches particulares ao longo do faubourg Saint-Honoré e da rua de la Pépinière.

Dentre esses coches, havia um de formato singular, que parecia ter feito longa viagem. Era uma espécie de furgão pintado de preto, e fora um dos primeiros a chegar ao lúgubre encontro.

Houve quem se informasse a seu respeito, apurando que, por uma estranha coincidência, aquele coche encerrava o corpo do sr. marquês de Saint-Méran e que os ali chegados para um único cortejo seguiam agora dois cadáveres.

Era muita gente; o sr. marquês de Saint-Méran, um dos dignitários mais zelosos e fiéis do rei Luís XVIII e do rei Carlos X, conservara inúmeros amigos, os quais, somados às pessoas cujas obrigações sociais punham em contato com Villefort, formavam um grupo considerável.

Mandaram avisar imediatamente às autoridades e conseguiram que os dois cortejos se realizassem ao mesmo tempo. Um segundo coche, paramentado com a mesma pompa mortuária, foi trazido até a porta do sr.

de Villefort, e o caixão foi transportado do furgão do correio para o carro fúnebre.

Os dois corpos deviam ser sepultados no cemitério Père-Lachaise, onde havia muito tempo o sr. de Villefort mandara erguer o jazigo destinado à sepultura de toda a sua família.

No jazigo já descansava o corpo da infeliz Renée, a quem seu pai e sua mãe vinham se juntar após dez anos de separação.

Paris, sempre curiosa, sempre comovida com as pompas da morte, assistiu, num religioso silêncio, à passagem do esplêndido cortejo que acompanhava à última morada dois nomes da velha aristocracia, entre os mais célebres pelo espírito tradicionalista, pela firmeza no trato e pelo devotamento obstinado aos princípios.

No mesmo coche fúnebre, Beauchamp, Albert e Château-Renaud comentavam essa morte quase súbita.

— Vi a sra. de Saint-Méran ano passado, ainda em Marselha — dizia Château-Renaud. — Eu voltava da Argélia; era uma mulher destinada a

viver cem anos, graças à sua saúde perfeita, à sua inteligência sempre presente e à sua atividade sempre prodigiosa. Quanto anos ela tinha?

— Setenta — respondeu Albert —, pelo menos foi o que Franz me disse.

Mas não foi em absoluto a idade que a matou, foi o sofrimento que sentiu pela morte do marquês. Parece que depois de sua morte, violentamente abalada, ela não recobrou de todo a razão.

O cortejo fúnebre.

— Mas, afinal, ela morreu do quê? — perguntou Beauchamp.

— De um derrame cerebral, ao que parece, ou de uma apoplexia fulminante. Não é a mesma coisa?

— Mais ou menos, — De uma apoplexia? — disse Beauchamp. —

Difícil acreditar. A sra. de Saint-Méran, que também vi uma ou duas vezes na vida, era pequena, franzina, de uma constituição muito mais nervosa que sanguínea. São raras as apoplexias provocadas pelo sofrimento num corpo de constituição tal como o da sra. de Saint-Méran.

— Em todo caso — disse Albert —, seja qual for a doença ou o médico que a matou, eis o sr. de Villefort, ou melhor, a srta. Valentine, ou melhor ainda, nosso amigo Franz, de posse de uma herança magnífica: oitenta mil libras de renda, creio.

— Herança que será praticamente duplicada com a morte do velho jacobino Noirtier.

— Aí está um avô tenaz — disse Beauchamp. — Tenacem propositi

virum1. Apostou com a morte que enterraria todos os seus herdeiros, eu acho. Vai conseguir, caramba. É o típico velho convencional de 93, que dizia a Napoleão em 1814: “O sr. está caindo porque seu império é um caule jovem, exaurido pelo crescimento; use a República como apoio, voltemos com uma boa constituição aos campos de batalha, e prometo-lhe quinhentos mil soldados, uma outra Marengo e uma segunda Austerlitz.

As idéias não morrem, sire, às vezes adormecem, mas despertam mais fortes que antes.”

— É como se, para ele — disse Albert —, os homens fossem idéias.

Apenas uma coisa me preocupa, é saber como Franz d’Épinay lidará com um sogro que não prescinde um instante de sua esposa. Mas onde Franz se meteu?

— Ora, está no primeiro coche, com o sr. de Villefort, que já o considera da família.

Em cada um dos coches que seguiam o cortejo, a conversa era praticamente a mesma. A surpresa era geral com aquelas duas mortes tão próximas e tão rápidas. No entanto, em nenhum deles suspeitava-se do terrível segredo revelado, em seu passeio noturno, pelo sr. d’Avrigny ao sr.

de Villefort.

Meia hora depois, chegaram à porta do cemitério. O dia estava ameno, mas o céu, escuro, por conseguinte em grande harmonia com a fúnebre cerimônia que se realizaria com a presença de todos. Dentre os grupos que se dirigiram ao jazigo da família, Château-Renaud reconheceu Morrel, que viera sozinho e de cabriolé. Caminhava só, muito pálido e silencioso, na pequena trilha ladeada por teixos.

— Você por aqui! — saudou Château-Renaud, passando seu braço sob o do jovem capitão. — Então conhece o sr. de Villefort? Nesse caso, como nunca o vi na casa dele?

— Não é o sr. de Villefort que conheço — respondeu Morrel. — Era a sra. de Saint-Méran que eu conhecia.

Nesse momento, Albert juntou-se a eles com Franz.

— O lugar é mal escolhido para uma apresentação — disse Albert —, mas não importa, não somos supersticiosos. Sr. Morrel, permita-me apresentar-lhe o sr. Franz d’Epinay, um excelente companheiro de viagem, com quem fiz a volta da Itália. Meu caro Franz, o sr. Maximilien Morrel, um excelente amigo que fiz durante sua ausência e cujo nome você ouvirá da minha boca sempre que eu falar de coração, inteligência e delicadeza.

Morrel hesitou por um instante. Ficou se perguntando se não era uma condenável hipocrisia aquele cumprimento quase amistoso dirigido ao homem que ele, no fundo, combatia; mas seu juramento e a gravidade das circunstâncias voltaram-lhe à lembrança. Esforçou-se em nada transparecer em sua fisionomia, contendo-se e, cumprimentou Franz.

— A srta. de Villefort está muito triste, não é? — perguntou Debray a Franz.

— Oh, senhor — respondeu Franz —, uma tristeza inexplicável. Hoje de manhã estava tão desfeita que mal a reconheci.

Essas palavras aparentemente simples despedaçaram o coração de Morrel. Aquele homem então vira Valentine, falara com ela?

Foi quando o jovem e apaixonado oficial precisou de todas as forças para resistir ao desejo de quebrar seu juramento.

Ele tomou o braço de Château-Renaud e arrastou-o rapidamente para o jazigo, diante do qual os encarregados das pompas fúnebres acabavam de depositar os dois caixões.

— Magnífica morada — comentou Beauchamp, lançando os olhos para o mausoléu —, palácio de verão, palácio de inverno. Também vai morar aí, meu caro d’Epinay, pois daqui a pouco será da família. Quanto a mim, na minha condição de filósofo, quero uma casinha de campo, um chalé distante debaixo das árvores, e não tantas pedras sobre o coitado do meu corpo. Ao morrer, direi àqueles que

estiverem ao meu redor o que Voltaire escrevia a Pirron: Eo rus2, e tudo terá terminado... Vamos, caramba!

Coragem, Franz, sua mulher é herdeira.

— Na verdade, Beauchamp — disse Franz —, você está insuportável. Os escândalos políticos o acostumaram a rir de tudo, e os homens que causam esses escândalos não estão acostumados a crer em nada. Mas, enfim, Beauchamp, quando tiver a honra de se achar entre homens comuns, e a felicidade de esquecer um pouquinho a política, tente recuperar o seu coração, que você deixa no bengaleiro da Câmara dos Deputados ou da Câmara dos Pares.

— Ora, meu Deus — disse Beauchamp —, o que é a vida? Uma pausa na antecâmara da morte.

— Declaro meu protesto a Beauchamp — pontuou Albert. E recuou quatro passos com Franz, deixando Beauchamp prosseguir sua dissertação filosófica com Debray.

O jazigo da família de Villefort formava um quadrado de pedras brancas com cerca de seis metros de altura. Uma separação interna dividia em dois compartimentos a família Saint-Méran e a família Villefort, e cada compartimento tinha sua porta de entrada.

Não se viam, como nos outros túmulos, essas ignóbeis gavetas superpostas, nas quais uma distribuição econômica encerra os mortos com uma inscrição que lembra um rótulo. Tudo que se percebia à primeira vista pela porta de bronze era uma antecâmara severa e escura, separada do túmulo por uma das paredes.

Era no meio dessa parede que se abriam as duas portas que acabamos de mencionar, as quais se comunicavam com as sepulturas dos Villefort e Saint-Méran.

Ali os sofrimentos podiam expressar-se livremente, sem que os visitantes estouvados, que fazem de uma visita ao Père-Lachaise um programa no campo ou um encontro amoroso, viessem perturbar, com seus cantos, gritos ou correrias, a muda contemplação ou a prece banhada de lágrimas em memória ao morador do jazigo.

Os dois caixões entraram no jazigo da direita, que era o da família de Saint-Méran. Foram depositados sobre plataformas especialmente preparadas, que esperavam antecipadamente seus despojos mortais.

Apenas Villefort, Franz e alguns parentes próximos penetraram no santuário.

Como as cerimônias religiosas haviam sido realizadas na porta e não haveria discursos a fazer, os presentes logo se despediram. ChâteauRenaud, Albert e Morrel retiraram-se para o seu lado; Debray e Beauchamp, para o seu.

Franz permaneceu, com o sr. de Villefort, na porta do cemitério. Morrel parou assim que arranjou um pretexto. Viu Franz e o sr. de Villefort num coche de luto, tendo um mau presságio diante daquela confabulação.

Voltou então para Paris e, embora estivesse no mesmo coche que ChâteauRenaud e Albert, não ouviu uma palavra do que os dois disseram.

Com efeito, quando Franz foi se despedir do sr. de Villefort, este havia perguntado:

— Meu caro barão, quando o vejo de novo?

— Quando quiser, senhor — respondera Franz.

— O mais cedo possível.

— Estou às suas ordens, senhor; gostaria que voltássemos juntos?

— Se não for um incômodo...

— De forma alguma.

Foi assim que o futuro sogro e o futuro genro entraram no mesmo coche e que Morrel, ao vê-los passar, com razão concebeu graves inquietudes.

Villefort e Franz voltaram ao faubourg Saint-Honoré.

O procurador do rei, sem entrar nos aposentos de ninguém, sem falar nem à mulher nem à filha, introduziu o rapaz em seu gabinete e, apontandolhe uma cadeira, disse:

— Sr. d’Épinay, devo lembrá-lo, e o momento talvez não seja tão mal escolhido quanto pensamos a princípio, pois o respeito aos mortos é a primeira oferenda a ser depositada no caixão; como eu dizia, devo lembrá-lo do anseio exprimido anteontem pela sra. de Saint-Méran em seu leito de agonia: o casamento de Valentine não deve sofrer adiamentos. O senhor sabe que os negócios da falecida estão perfeitamente em ordem; que seu testamento lega a Valentine toda a fortuna dos Saint-Méran. O tabelião me mostrou ontem as certidões que permitem redigir de forma definitiva o contrato de casamento. Tem minha autorização para chamar o tabelião e consultar essas certidões. O tabelião é o sr. Deschamps, praça Beauvau, fauborg Saint-Honoré.

— Senhor — respondeu d’Épinay —, este talvez não seja o momento para a srta. Valentine, mergulhada como está no sofrimento, pensar num esposo. Na verdade, eu recearia...

— Valentine — interrompeu o sr. de Villefort — não sentirá satisfação mais viva do que a de cumprir as últimas vontades da avó. Logo, os obstáculos não virão desse lado, respondo por isso.

— Nesse caso, senhor — respondeu Franz —, como também não virão do meu, faça como lhe for conveniente. Minha palavra está dada e a cumprirei, não apenas com prazer, mas também com alegria.

— Sendo assim — disse Villefort —, nada mais nos detém; o contrato deveria ter sido assinado há dois dias, ou seja, está pronto: podemos assiná-lo hoje mesmo.

— Mas e o luto? — indagou Franz, hesitante.

— Fique tranqüilo, senhor. — respondeu Villefort. — Uma coisa que a minha casa não negligencia é o decoro. A srta. de Villefort poderá recolherse, durante os três meses de praxe, em seu domínio de Saint-Méran; digo seu domínio, pois este lhe pertence. Lá, dentro de uma semana, se o senhor se dispuser, sem ruídos, sem estardalhaço, sem pompa, o casamento civil será realizado. Era um desejo da sra. de Saint-Méran, que ela se casasse nessa propriedade. Concluído o casamento, o senhor poderá voltar a Paris, enquanto sua mulher passará o tempo do luto com a madrasta.

— Como lhe aprouver, cavalheiro — assentiu Franz.

— Nesse caso — disse o sr. de Villefort—, faça a gentileza de esperar meia hora. Valentine descerá até o salão. Mandarei chamar o sr.

Deschamps, leremos e assinaremos o contrato sem delongas e, esta noite mesmo, a sra. de Villefort acompanhará Valentine até o seu domínio, onde daqui a uma semana iremos encontrá-las.

— Senhor — disse Franz —, tenho apenas um pedido a lhe fazer.

— E qual é?

— Desejo que Albert de Morcerf e Raoul de Château-Renaud estejam presentes a essa assinatura. O senhor sabe que eles são minhas testemunhas.

— Meia hora é o suficiente para avisá-los. Quer ir chamá-los pessoalmente? Quer que eu mande alguém chamá-los?

— Prefiro ir pessoalmente, senhor.

— Estarei à sua espera daqui a meia hora, barão, e daqui a meia hora Valentine estará pronta.

Franz cumprimentou o sr. de Villefort e saiu.

Mal a porta da rua se fechou atrás do rapaz, Villefort mandou avisar Valentine para que descesse ao salão dentro de meia hora, pois estavam à espera do tabelião e do sr. d’Épinay.

Essa notícia inesperada produziu um grande alvoroço na casa. A sra. de Villefort não queria acreditar naquilo, e Valentine sentiu-se esmagada por um raio.

Ela olhou à sua volta como para procurar a quem pedir socorro.

Quis descer ao quarto do avô, mas encontrou o sr. de Villefort na escada, o qual pegou-a pelo braço e a levou para o salão.

Na antecâmara, Valentine encontrou Barrois e lançou ao velho servidor um olhar desesperado.

Logo depois de Valentine, foi a sra. de Villefort quem entrou no salão com o pequeno Édouard. Era visível que a jovem mulher também tivera sua cota dos sofrimentos da família; estava pálida e parecia terrivelmente cansada.

Sentou-se, pôs Édouard no colo e, de tempos em tempos, apertava contra o peito, com movimentos quase convulsivos, aquela criança na qual sua vida parecia estar concentrada.

Logo se ouviu o barulho de dois coches entrando no pátio. Um era o do tabelião, o outro, o de Franz e seus amigos. Num instante estavam todos reunidos no salão.

Valentine estava tão pálida que era possível enxergar as veias azuis de suas têmporas desenhando-se em torno de seus olhos e correndo ao longo de suas faces.

Franz não conseguia esquivar-se de uma violenta emoção.

Château-Renaud e Albert olhavam-se com espanto: a cerimônia que acabava de terminar não lhes parecia mais triste do que essa que estava prestes a começar.

Sentou-se, pôs Édouard no colo e apertava-o contra o peito, com movimentos quase convulsivos.

A sra. de Villefort instalara-se na penumbra, atrás de uma cortina de veludo, e, como estava constantemente debruçada sobre o filho, era difícil ler em seu rosto o que se passava em seu coração.

O sr. de Villefort mantinha-se, como sempre, impassível.

O tabelião, após ter arrumado, com o rigor característico das pessoas da lei, os papéis sobre a mesa, e ter sentado na poltrona e endireitado os óculos, voltou-se para Franz:

— É o sr. Franz de Quesnel, barão d’Épinay? — perguntou, embora o soubesse perfeitamente.

— Sim, cavalheiro — respondeu Franz. O tabelião assentiu.

— Devo então avisá-lo, senhor — disse ele —, e isso da parte do sr. de Villefort, que seu casamento planejado com a srta. de Villefort mudou as disposições do sr. de Noirtier em relação à neta, e que ele aliena inteiramente a fortuna que devia transmitir-lhe. Apressemo-nos a acrescentar — continuou o tabelião — que, uma vez que o testador, mesmo tendo o direito de alienar apenas parte de sua fortuna, alienou tudo,

o testamento não só não resistirá à contestação, como será declarado nulo e não realizado.

— Sim — disse Villefort. — Não obstante, declaro antecipadamente ao sr. d’Épinay que, enquanto eu for vivo, o testamento de meu pai nunca será contestado, visto que ocupo uma posição que proíbe até mesmo a sombra de um escândalo.

— Senhor — disse Franz —, lamento que essa questão tenha sido levantada na presença da srta. Valentine. Nunca procurei saber o montante de sua fortuna, pois, por mais reduzida que seja, continuará mais respeitável que a minha. O que a minha família buscou na aliança com o sr. de Villefort foi a consideração; o que eu procuro é a felicidade.

Valentine fez um sinal imperceptível de agradecimento, enquanto duas lágrimas silenciosas escorriam ao longo de suas faces.

— A propósito, senhor — disse Villefort, dirigindo-se a seu futuro genro

—, salvo frustrar parte de suas expectativas, esse testamento inesperado não tem nada que deva atingi-lo pessoalmente. Ele se deve à senilidade mental do sr. de Noirtier. O que desagrada a meu pai não é que a srta. de Villefort case com o senhor, é que Valentine se case. Uma união com qualquer outro lhe teria inspirado o mesmo desgosto. A velhice é egoísta, senhor, e a srta. de Villefort era para ele uma fiel companhia, que a baronesa d’Épinay não mais lhe poderá proporcionar. O estado lamentável em que se acha meu pai faz com que raramente o ponhamos a par dos assuntos sérios, os quais sua cabeça avariada não permite acompanhar.

Estou plenamente convencido de que, a essa hora, embora conserve a lembrança de que sua neta está casando, o sr. Noirtier esqueceu-se até mesmo do nome daquele que irá se tornar seu neto.

Mal o sr. de Villefort terminava esse comentário, ao qual Franz respondeu com uma saudação, a porta do salão se abriu e Barrois apareceu.

— Senhores — disse ele, com uma voz estranhamente firme para um criado dirigindo-se aos patrões em circunstância tão solene —, o sr.

Noirtier de Villefort deseja falar imediatamente com o sr. Franz de Quesnel, barão d’Épinay.

Ele também, como o tabelião, e a fim de que não pudesse haver erro de pessoa, dava todos os seus títulos ao noivo.

Villefort estremeceu, a sra. de Villefort deixou o filho escorregar de seu colo, Valentine ergueu-se pálida e muda como uma estátua.

Albert e Château-Renaud trocaram um segundo olhar mais perplexo que o primeiro.

O tabelião olhou para Villefort.

— Isso é impossível — disse o procurador do rei. — Aliás, o sr.

d’Épinay não pode ausentar-se do salão neste momento.

— É justamente neste momento — replicou Barrois, com a mesma firmeza — que o sr. Noirtier, meu patrão, deseja tratar de assuntos importantes com o sr. Franz d’Épinay.

— E desde quando o vovô Noirtier consegue falar? — perguntou Édouard, com sua habitual impertinência.

Mas essa piada não fez sorrir nem mesmo a sra. de Villefort, tanto estavam todos preocupados, tanto a situação parecia solene.

— Diga ao sr. Noirtier — retrucou Villefort — que ele pede algo impossível.

— Neste caso, o sr. Noirtier avisa aos cavalheiros — replicou Barrois —

que se fará transportado até o salão.

A perplexidade atingiu o clímax.

Uma espécie de sorriso desenhou-se no rosto da sra. de Villefort.

Valentine, a despeito de si mesma, ergueu os olhos para o teto, em agradecimento aos céus.

— Valentine — disse o sr. de Villefort —, vá se informar, por favor, do que se trata esse novo capricho de seu avô.

Valentine deu prontamente uns passos para sair, mas o sr. de Villefort voltou atrás.

— Espere — disse ele —, vou acompanhá-la.

— Perdão, senhor — disse Franz por sua vez —, porém me parece que, tendo sido eu a quem o sr. Noirtier mandou chamar, é a mim que compete aquiescer a seus desejos; aliás, ficarei feliz em lhe apresentar os meus respeitos, não tendo tido ainda a oportunidade de solicitar esta honra.

— Oh, meu Deus! — disse Villefort, com uma visível preocupação. —

Não se incomode por isso.