O Conde de Monte Cristo
14. O pão e o sal
Atrás deles, e por outra escada, precipitaram-se para o jardim, com ruidosas exclamações de alegria, umas vinte pessoas.
1 “Elssler dançava em O diabo coxo”: Fanny Elssler (1810-84), famosa bailarina austríaca da época; O diabo coxo, balé-pantomima em três atos, escrito por Jean Coralli Peracini (1779-1854), e Burat de Gurgy (??-1840), baseado no livro de Le Sage.
2 David: Jacques-Louis David (1748-1825), o mais famoso pintor neoclássico francês, também desenhou o fardão dos membros da Academia Francesa.
3 Le Siècle: jornal diário francês do séc.XIX, no qual Balzac publicou diversos romances.
4 Monarquia de Julho: governo monárquico, de linha liberal, instalado na França de 1830 a 1848, após uma revolução derrubar o último Bourbon, que entregou o poder a Luís Felipe de Orléans (1773-1850). Ver também Parte III, cap.3, nota 69.
5 “Vamos para a Síria”: canção cujos versos são atribuídos à rainha da Holanda Hortênsia de Beauharnais (1783-1837), mas que pertenciam à família real francesa, ou ao escritor e conde Alexandre de Labourde (1773-1842). Foram, entretanto, musicados por Louis-François-Philippe Drouet (1792-1855). A canção era uma das preferidas dos bonapartistas durante o Segundo Império, a ponto de se tornar conhecida como um hino nacional.
14. O pão e o sal
A sra. de Morcerf penetrou na abóbada de folhagem com seu companheiro: essa abóbada era uma aléia de tílias que levava a uma estufa.
— Não acha que estava muito calor no salão, sr. conde? — perguntou ela.
— Sim, senhora; e sua idéia de abrir as portas e persianas foi excelente.
Terminando estas palavras, o conde percebeu que a mão de Mercedes tremia.
— Mas a senhora, com esse vestido leve e sem outra proteção para o pescoço além desse lenço de gaze, não estaria com frio? — indagou ele.
— Sabe para onde o estou levando? — perguntou a condessa, sem responder à pergunta de Monte Cristo.
— Não, senhora — este respondeu —, mas, como vê, não oponho resistência.
— Para a estufa lá embaixo, no fim da aléia que percorremos.
O conde olhou para Mercedes como para interrogá-la; mas ela seguiu adiante sem nada dizer; da sua parte, Monte Cristo permaneceu em silêncio.
Chegaram è estrutura, coberta de frutas magníficas que, no começo de julho, atingiam a maturação sob aquela temperatura sempre calculada para substituir o calor do sol, com tanta freqüência ausente em nossa terra.
A condessa largou o braço de Monte Cristo e foi colher um cacho de uvas moscatel numa parreira.
— Veja, sr. conde — disse ela, com um sorriso tão triste que era possível ver lágrimas nascendo no canto dos olhos —, nossas uvas na França não são comparáveis, sei disso, às suas uvas da Sicília e de Chipre, mas o senhor será indulgente com nosso débil sol do norte.
O conde inclinou-se e deu um passo atrás.
— Vai recusar? — disse Mercedes, com uma voz trêmula.
— Senhora — respondeu Monte Cristo —, peço que me desculpe humildemente, porém jamais como moscatel.
Mercedes, suspirando, deixou o cacho cair. Um pêssego magnífico pendia de uma espaldeira vizinha, aquecido, como o cepo de uvas, pelo calor artificial da estufa. Mercedes aproximou-se da fruta aveludada e a colheu.
— Tome esse pêssego, então — ela disse. Mas o conde fez o mesmo gesto de recusa.
— Oh, de novo! — exclamou ela, num tom tão aflito que parecia represar uma lágrima. — De fato, não estou com sorte.
Um longo silêncio seguiu-se a essa cena; o pêssego, como o cacho de uvas, rolara sobre a areia.
— Sr. conde — disse finalmente Mercedes, olhando para Monte Cristo com um olhar suplicante —, há um comovente costume árabe que torna eternos amigos aqueles que dividiram o pão e o sal sob o mesmo teto.
— Conheço-o, minha senhora — respondeu o conde —, mas estamos na França, e não na Arábia, e na França não existem mais amizades eternas, apenas a divisão do pão e do sal.
— Mas, enfim — disse a condessa, palpitante e com os olhos pregados nos olhos de Monte Cristo, cujo braço ela agarrou quase convulsivamente com as duas mãos —, somos amigos, não é mesmo?
O sangue afluiu ao coração do conde, que ficou pálido como a morte, e depois, subindo do coração para o rosto, invadiu suas faces, e seus olhos hesitaram no vazio durante alguns segundos, como os de um homem paralisado pela vertigem.
— Claro que somos amigos, senhora — ele replicou. — Aliás, por que não o seríamos?
Esse tom era tão distante do que desejava a sra. de Morcerf que ela se voltou para soltar um suspiro mais parecido com um gemido, disse:
— Obrigada.
E seguiu adiante. Deram assim a volta no jardim sem pronunciar uma única palavra.
— Senhor — retomou a condessa, após dez minutos de passeio silencioso —, é verdade que viu muito, viajou muito, sofreu muito?
— Sofri muito, sim, senhora — respondeu Monte Cristo.
— Mas é feliz agora?
— Sem dúvida — respondeu o conde —, pois ninguém ouve queixas de minha parte.
— Oh, de novo! De fato, não estou com sorte.
— E sua felicidade presente dá mais serenidade à sua alma?
— Minha felicidade presente iguala-se a meu infortúnio passado —
disse o conde.
— Não é casado? — perguntou a condessa.
— Eu, casado! — respondeu Monte Cristo, estremecendo. — Quem pôde dizer-lhe uma coisa dessas?
— Ninguém me disse, mas o senhor foi visto várias vezes no Opéra na companhia de uma jovem e bela pessoa.
— É uma escrava que comprei em Constantinopla, senhora, filha de príncipe que adotei, não tendo outra afeição no mundo.
— Vive então sozinho?
— Vivo sozinho.
— Não tem irmã... filho... pai...?
— Não tenho ninguém.
— Como pode viver assim, sem nada que o prenda à vida?
— Não é culpa minha, senhora. Em Malta amei uma mulher e ia me casar com ela, quando a guerra chegou e me carregou para longe dela como um turbilhão. Eu julgara que ela me amava suficientemente para me esperar, para permanecer fiel até mesmo diante do meu túmulo. Quando voltei, estava casada. É a história de todo homem que passou pelos vinte anos. Talvez eu tivesse o coração mais fraco que os outros, pois sofri mais do que eles o teriam feito no meu lugar, só isso.
A condessa deteve-se por um momento, como se precisasse daquela pausa para respirar.
— Sim — ela disse —, e esse amor permaneceu no seu coração... Só se ama de verdade uma vez... E nunca voltou a ver essa mulher?
— Nunca.
— Nunca!
— Não voltei mais ao país onde ela vivia.
— Em Malta!
— Sim, em Malta.
— Então ela está em Malta?
— Acho que sim.
— E o senhor a perdoou pelo quanto o fez sofrer?
— A ela, sim.
— Mas apenas a ela; continua a odiar os que o separaram dela?
A condessa estacou diante de Monte Cristo; ainda tinha nas mãos um fragmento do cacho perfumado.
— Pegue.
— Eu jamais como moscatel, senhora — respondeu Monte Cristo, como se o assunto entre os dois fosse aquele.
A condessa jogou o cacho na moita mais próxima com um gesto de desespero.
— Inflexível! — ela murmurou.
Monte Cristo permaneceu sem expressão, como se a censura não fosse a ele dirigida.
Albert então apareceu.
— Oh, mãe, uma grande tragédia!
— O que aconteceu? — assustou-se a condessa, reerguendo-se como se, depois do sonho, tivesse sido trazida à realidade. — Uma tragédia, foi o que disse? Com efeito, tragédias acontecem.
— O sr. de Villefort está aqui.
— E daí?
— Veio buscar a mulher e a filha.
— E por que isso?
— Porque a sra. marquesa de Saint-Méran chegou a Paris trazendo a notícia de que o sr. de Saint-Méran morreu ao deixar Marselha, na primeira parada para a troca dos cavalos. A sra. de Villefort, que estava eufórica, não queria nem compreender nem acreditar nessa desgraça; mas a srta. Valentine, às primeiras palavras e por algumas precauções tomadas pelo pai, adivinhou tudo: esse golpe abateu-a como um raio, e ela desmaiou.
— E o que o sr. de Saint-Méran é da srta. de Villefort? — perguntou o conde.
— Seu avô materno. Vinha para apressar o casamento de Franz e sua neta.
— Ah! É verdade!
— E essa agora! Franz será obrigado a adiar. Por que o sr. de Saint-Méran não é também avô da srta. Danglars?
— Albert! Albert! — disse a sra. de Morcerf num tom de censura. — O
que está dizendo? Ah, sr. conde, o senhor, por quem ele tem tão grande consideração, diga-lhe que foi grosseiro!
Ela deu alguns passos.
Monte Cristo fitou-a de um modo tão estranho e com uma expressão ao mesmo tempo tão pensativa e marcada por afetuosa admiração que ela voltou sobre seus passos.
Então pegou a mão dele ao mesmo tempo em que apertava a de seu filho, e, juntando-as, disse:
— Somos amigos, não somos?