O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 29 de 119

Páginas do PDF

O Conde de Monte Cristo

6. O relato

1 “o mistral ... o Durance e o Parlamento” : uma piada, obviamente. O mistral é um vento, o Durance, um rio. E o Parlamento...

2 Em fevereiro de 1815, no cap.2 da Parte I, Caderousse “era um homem de vinte e cinco a vinte e seis anos”. Em 1829, ele teria portanto entre trinta e nove e quarenta anos, embora no cap.13 o autor o tenha rejuvenecido no mínimo dois anos.

3 Tarasca: na mitologia regional, monstro anfíbio, devorador de crianças, que saiu do rio Reno na altura da localidade de Tarascão e foi domado por santa Marta. A procissão da Tarasca consiste no seguinte: no segundo dia de Pentecostes, às seis horas da manhã, trinta cavaleiros, vestindo túnicas e mantos, vêm buscar o animal por ordem do rei. Uma jovem caracterizada como santa Marta amarra no pescoço da criatura uma fita azul, e o monstro põe-se a andar sob os aplausos da multidão.

4 No cap.13 é dito que o velho Dantès morreu exatos cinco meses após a prisão do filho, ou seja, no dia 28 de julho de 1815.

6. O relato

Antes de tudo, senhor — disse Caderousse —, devo lhe pedir que me prometa uma coisa.

— O quê? — perguntou o abade.

— Que nunca, caso venha a fazer um uso qualquer dos detalhes que irei lhe dar, saibam que esses detalhes vieram de mim, pois esses de quem vou lhe falar são ricos e poderosos, e bastaria eles me tocarem com a ponta do dedo para me quebrar como vidro.

— Fique tranqüilo, meu amigo — disse o abade —, sou padre e as confissões morrem dentro de mim; lembre-se de que não temos outro objetivo a não ser executar dignamente as últimas vontades de nosso amigo; fale então sem constrangimento e sem ódio; diga a verdade, toda a verdade. Não conheço e provavelmente jamais conhecerei as pessoas de quem vai falar; aliás, sou italiano, não sou francês; pertenço a Deus, não aos homens, e voltarei para o meu mosteiro, de onde saí apenas para cumprir as últimas vontades de um moribundo.

Essa promessa afirmativa pareceu dar um pouco de segurança a Caderousse.

— Muito bem! Nesse caso — disse Caderousse —, quero, direi até mais, devo desiludi-lo quanto a essas amizades que o pobre Edmond julgava sinceras e devotadas.

— Comecemos pelo pai dele, por favor — disse o abade. — Edmond me falou muito desse velho, pelo qual sentia um amor profundo.

— A história é triste, senhor — disse Caderousse, balançando a cabeça.

— É provável que conheça seu início.

— Sim — respondeu o abade —, Edmond me contou tudo até o momento em que foi preso numa pequena taberna perto de Marselha.

— No La Réserve! Oh, meu Deus, sim! Ainda vejo a coisa como se estivesse lá.

— Não era inclusive o almoço do noivado dele?

— Sim, e o almoço, que teve um início alegre, teve um triste fim: certo comissário de polícia chegou, seguido por quatro fuzileiros, e Dantès foi preso.

— Eis até onde eu sei, senhor — disse o abade. — O próprio Dantès não sabia de nada além do que lhe dizia diretamente respeito, pois jamais reviu

alguma dessas cinco pessoas que designei, ou ouviu falar delas.

— Pois bem! Uma vez preso Edmond, o sr. Morrel correu para colher informações: estas não eram nada boas. O velho Dantès voltou sozinho para casa, dobrou seus trajes de festa chorando, passou o dia inteiro indo e vindo no quarto, à noite; não se deitou, pois eu morava embaixo e o escutei andar a noite inteira; tampouco eu, devo dizer, consegui dormir, pois a dor daquele desafortunado pai me fazia um grande mal e cada um dos seus passos moía o meu coração, como se ele realmente me tivesse pisado o peito.

“No dia seguinte, Mercedes foi a Marselha implorar pela proteção do sr.

de Villefort1: não obteve nada; para não perder a viagem, contudo, foi visitar o velho. Ao vê-lo tão melancólico e abatido, tendo passado a noite sem deitar e sem comer desde a véspera, quis levá-lo para cuidar dele, mas o velho nunca consentiu nisso.

“— Não — dizia ele —, não deixarei a casa, pois é a mim que o meu pobre filho ama acima de tudo e, se ele sair da prisão, é para mim que correrá para ver primeiro. Que diria ele se eu não estivesse aqui à sua espera?

“Escutei tudo isso do corredor do andar, pois queria que Mercedes convencesse o velho a acompanhá-la; aqueles passos ecoando todos os dias sobre a minha cabeça não me deixavam um instante de repouso.”

— Mas o senhor mesmo não subiu para junto do velho, a fim de o consolar?

— Ah, senhor! — respondeu Caderousse. — Só se consola aqueles que querem ser consolados, e o velho não queria: aliás, não sei por quê, mas eu achava que ele tinha repugnância de me ver. Uma noite, entretanto, ao ouvir seus soluços, não pude resistir e subi; porém, quando cheguei à porta, ele não soluçava mais, rezava. Eu seria incapaz de repetir suas palavras eloqüentes, suas tristes súplicas, senhor. Era mais que piedade, era mais que sofrimento; assim, eu que não sou carola e não gosto dos jesuítas, eu me disse aquele dia: Na verdade, é uma felicidade ser sozinho e o bom Deus não me haver destinado filhos, pois se eu fosse pai e sentisse uma dor semelhante à do pobre velho, sendo incapaz de encontrar na minha memória e no meu coração tudo o que ele disse ao bom Deus, iria na mesma hora me atirar no mar para não sofrer por mais tempo.

— Pobre pai! — murmurou o abade.

— A cada dia que passava ele vivia mais só e mais isolado: freqüentemente o sr. Morrel e Mercedes passavam para vê-lo, mas sua porta estava fechada; embora eu tivesse certeza de que se encontrava em casa, ele não respondia. Um dia, contrariando seus hábitos, ele recebeu Mercedes, e a pobre menina, ela própria desconsolada, tentou reconfortá-lo:

“— Acredite em mim, minha filha — ele lhe disse —, ele morreu; não somos nós que o esperamos, ele é que nos espera; estou muito feliz, pois sou o mais velho e, por conseqüência, irei revê-lo primeiro.

“Por mais bondosos que sejamos, o senhor entende, logo paramos de visitar as pessoas que nos entristecem; o velho Dantès acabou ficando totalmente sozinho: eu só via então, e de tempos em tempos, pessoas desconhecidas subirem até a casa dele, que desciam com um embrulho qualquer mal dissimulado; compreendi depois o que eram esses embrulhos: pouco a pouco ele ia vendendo o que tinha para sobreviver. Ao final, o bom homem ficou apenas com a roupa do corpo; devia três aluguéis, ameaçaram despejá-lo; ele ainda pediu uma semana, deram-lhe.

Soube desse detalhe porque o proprietário foi à minha casa ao deixá-lo.

“Durante os três primeiros dias, escutei-o andando como sempre; mas, no quarto dia, não escutei mais nada. Atrevi-me a subir, a porta estava fechada; porém, pelo buraco da fechadura vi-o tão pálido e desfigurado que, julgando-o muito doente, mandei avisar ao sr. Morrel e corri para a casa de Mercedes. Ambos apressaram-se a vir. O sr. Morrel trazia um médico; este identificou uma gastroenterite e ordenou uma dieta. Eu estava lá, senhor, e jamais esquecerei o sorriso do velho à essa ordem.

“A partir desse dia, ele se entregou: tinha uma desculpa para não comer, o médico ordenara uma dieta.”

O abade soltou uma espécie de gemido.

— Essa história o interessa, não é mesmo? — disse Caderousse.

— Sim — respondeu o abade —, é comovente.

— Mercedes chegou; encontrou-o tão mudado que, como da primeira vez, quis transportá-lo para sua casa. Esta também era a opinião do sr.

Morrel, que queria realizar o traslado à força; mas o velho gritou tanto que eles ficaram com medo. Mercedes permaneceu à sua cabeceira. O sr.

Morrel afastou-se fazendo sinal à catalã de que deixara uma bolsa na lareira. Porém, munido da receita do médico, o velho nada quis ingerir.

Finalmente, após três dias de desespero e abstinência, ele expirou, amaldiçoando os que haviam causado sua desgraça e dizendo a Mercedes:

“— Se a senhorita vier a reencontrar o meu Edmond, diga-lhe que morro abençoando-o.”

O abade se levantou, deu duas voltas pelo quarto levando a mão trêmula à sua garganta seca.

— E o senhor acha que ele morreu...

— De fome... senhor, de fome — disse Caderousse. — Afirmo que isso é tão verdadeiro quanto estarem aqui dois cristãos.

O abade, com uma mão convulsiva, pegou o copo d’água ainda pela metade, esvaziou-o de um trago e sentou novamente, com os olhos avermelhados e as faces pálidas.

— Admita que se trata de uma grande tragédia! — disse com uma voz rouca.

— Tanto maior, senhor, na medida em que Deus não tem nada a ver com ela e apenas os homens são sua causa.

— Passemos então a esses homens — disse o abade —, mas veja bem —

continuou, com uma expressão quase ameaçadora —, o senhor se comprometeu a me contar tudo: vejamos, quais foram esses homens que fizeram morrer o filho de desespero e o pai, de fome?

— Dois homens com inveja dele, senhor, um por amor, o outro por ambição: Fernand e Danglars.

— E de que maneira se manifestou essa inveja?

— Eles denunciaram Edmond como agente bonapartista.

— Mas qual dos dois o denunciou, qual dos dois foi o verdadeiro culpado?

— Ambos, senhor, um escreveu a carta, o outro a pôs no correio.

— E onde essa carta foi escrita?

— No próprio La Réserve, na véspera do casamento.

— Então foi isso mesmo, foi isso mesmo — murmurou o abade. — Oh, Faria! Faria! Como entendias os homens e as coisas!

— O que está dizendo, senhor? — perguntou Caderousse.

— Nada — disse o abade —, continue.

— Foi Danglars quem escreveu a denúncia com a mão esquerda para que sua letra não fosse reconhecida, e Fernand quem a enviou.

— Mas — exclamou o abade de repente —, o senhor também estava lá!

— Eu! — disse Caderousse pego de surpresa. — Quem lhe disse que eu estava lá?

O abade viu que fora longe demais.

— Ninguém — disse ele —, mas para estar tão bem a par de todos esses detalhes, deve ter sido testemunha deles.

— É verdade — disse Caderousse, com a voz cava —, eu estava lá.

— E não se opôs a essa infâmia? — perguntou o abade. — Então é cúmplice deles.

— Senhor — disse Caderousse —, todos os dois me haviam feito beber a ponto de quase perder a razão. Eu via tudo enevoado. Disse o que pode dizer um homem nesse estado; mas os dois me responderam que era uma peça que desejavam lhe pregar, e que essa peça não teria maiores conseqüências.

— No dia seguinte, senhor, no dia seguinte, o senhor viu muito bem que ela havia tido; entretanto, não disse nada; o senhor estava lá durante sua prisão.

— Sim, eu estava lá e quis falar, quis dizer tudo, mas Danglars me segurou. “— E se por acaso ele for culpado — ele me disse —, e se tiver realmente feito escala na ilha de Elba, e se estiver realmente encarregado de entregar uma carta ao comitê bonapartista de Paris, e se encontrarem essa carta com ele, os que o tiverem apoiado serão considerados seus cúmplices.

“Tive medo da política tal como era então praticada, admito; calei-me, foi uma covardia, concordo, mas não foi um crime.”

— Compreendo: o senhor se omitiu, só isso.

— Sim, senhor — respondeu Caderousse —, e este é o meu remorso noite e dia. Peço com muita freqüência perdão a Deus, eu juro, ainda mais que esse ato, o único que tenho a me recriminar seriamente em todo o curso da minha vida, é muito provavelmente a causa de minhas adversidades. Estou expiando um instante de egoísmo; também é o que digo sempre para a Carconte quando ela se queixa: “Cale-se, mulher, é a vontade de Deus.”

E Caderousse abaixou a cabeça com todos os sinais de um verdadeiro arrependimento.

— Bem, o senhor falou com franqueza; acusar-se assim é merecer o perdão.

— Infelizmente — disse Caderousse —, Edmond está morto e não pôde me perdoar!

— Ele ignorava... — disse o abade.

— Mas agora talvez saiba — disse Caderousse. — Dizem que os mortos sabem tudo.

Fez-se um instante de silêncio: o abade se levantara e passeava pensativo; então voltou ao lugar e sentou-se.

— O senhor mencionou um tal de sr. Morrel por duas ou três vezes.

Quem era esse homem?

— Era o proprietário do Pharaon, o patrão de Dantès.

— E que papel desempenhou tal homem nessa triste história? —

indagou o abade.

— O papel de um homem honesto, corajoso e afeiçoado, senhor. Por vinte vezes intercedeu em favor de Edmond; quando o imperador voltou, escreveu, suplicou, ameaçou, de modo que, na segunda Restauração, foi muito perseguido como bonapartista. Por dez vezes, como eu lhe disse, foi à casa do velho Dantès para levá-lo a sua casa, e na véspera ou antevéspera de sua morte, também lhe disse, tinha deixado na lareira uma bolsa com a qual as dívidas do velhote foram pagas e seu enterro, subvencionado; de maneira que o pobre velho pôde pelo menos morrer como vivera, sem prejudicar a ninguém. Eu ainda tenho essa bolsa, uma grande bolsa de seda vermelha.

— E — perguntou o abade —, esse sr. Morrel ainda vive?

— Sim — disse Caderousse.

— Nesse caso — disse o abade —, deve ser um homem abençoado por Deus, deve ser rico... feliz...?

Caderousse sorriu amargamente.

— Pois sim, feliz como eu — ele disse.

— O sr. Morrel, infeliz! — exclamou o abade.

— Está à beira da miséria, senhor, e pior ainda, à beira da desonra.

— Como pode ser?

— Pois é desse jeito — respondeu Caderousse. — Depois de vinte e cinco anos de trabalho, depois de ocupar o posto mais respeitável no comércio de Marselha, o sr. Morrel está completamente arruinado. Perdeu cinco embarcações em dois anos, sofreu três bancarrotas terríveis e sua única e última esperança está no mesmo Pharaon antes comandado pelo pobre Dantès, que deve voltar das Índias com um carregamento de

cochinilha e de índigo. Se esse paquete não se apresentar, como os outros, seu dono estará perdido.

— E ele tem mulher e filhos, o infeliz? — perguntou o abade.

— Sim; tem uma mulher que, em tudo isso, comporta-se como uma santa; tem uma filha que estava para se casar com um homem a quem amava, mas cuja família agora não quer que ele se case com uma moça arruinada; tem um filho, por fim, tenente do exército; no entanto, como pode perceber, tudo isso redobra o sofrimento desse pobre homem, em vez de suavizá-lo. Se fosse sozinho, ele estouraria os miolos e ponto final.

— Isso é terrível! — murmurou o abade.

— Eis como Deus recompensa a virtude, senhor — disse Caderousse.

— Veja, eu, que nunca cometi um deslize afora o que lhe contei, estou na miséria; eu, depois de assistir à minha pobre mulher morrer de febre, sem nada poder fazer por ela, morrerei de fome como morreu o velho Dantès, enquanto Fernand e Danglars espojam-se no ouro.

— E como isso aconteceu?

— Tudo terminou bem para eles, enquanto para as pessoas honestas tudo termina mal.

— O que aconteceu com Danglars? O mais culpado, não é, o instigador?

— Que aconteceu? Saiu de Marselha; entrou, por recomendação do sr.

Morrel, que ignorava seu crime, como amanuense num banco

espanhol; na época da guerra da Espanha2, foi o encarregado de parte do abastecimento do exército francês e fez fortuna; então, com esse primeiro dinheiro, apostou em ações e triplicou, quadruplicou seu capital; então, viúvo ele mesmo da filha do seu banqueiro, casou-se com uma viúva, a sra. de Nargonne, filha do sr. Salvieux, camareiro do atual rei e que goza do mais alto prestígio. Virou milionário, foi feito barão; de maneira que é barão Danglars agora, com um palacete na rua du Mont-Blanc, dez cavalos nas estrebarias, seis lacaios na antecâmara e não sei quantos milhões em seus cofres.

— Ah! — disse o abade num tom peculiar. — E é feliz?

— Ah, feliz, quem pode dizer uma coisa dessas? O infortúnio ou a felicidade, eis o segredo das paredes; as paredes têm ouvidos, mas não têm língua; se alguém é feliz com uma grande fortuna, Danglars é feliz.

— E Fernand?

— Fernand é coisa completamente diferente.

— Mas como pôde fazer fortuna um pobre pescador catalão, sem recursos, sem educação? Confesso que isso está além do meu alcance.

— E do alcance de todo mundo também; deve haver algum estranho segredo em sua vida que ninguém conhece.

— Mas, enfim, por que degraus visíveis ele alcançou essa elevada fortuna ou essa elevada posição?

— Ambas, senhor, ambas! Tem fortuna e posição ao mesmo tempo.

— O senhor só pode estar brincando.

— Bem que eu poderia estar! Mas escute e vai compreender. “Fernand, alguns dias antes do retorno do Pharaon, caiu no alistamento.

Os Bourbon deixaram-no bem tranqüilo entre os catalães, mas Napoleão voltou, um recrutamento extraordinário foi decretado e Fernand viu-se obrigado a partir. Eu também parti; mas como era mais velho que Fernand e acabava de me casar com a infeliz da minha mulher, fui apenas enviado ao litoral.

“Fernand, por sua vez, foi arregimentado nas tropas ativas, chegou

à fronteira com seu destacamento e participou da batalha de Ligny3.

“Na noite seguinte à batalha, ele estava de plantão na porta de um general que mantinha relações secretas com o inimigo. Nessa mesma noite o general devia juntar-se aos ingleses. Ele propôs a Fernand que o acompanhasse; Fernand aceitou, deixou seu posto e seguiu o general.

“O que teria levado Fernand à corte marcial, se Napoleão houvesse permanecido no trono, serviu-lhe como recomendação junto aos Bourbon.

Ele retornou à França com a insígnia de subtenente e, como a proteção do general, que goza de altos privilégios, não o abandonou, tornou-se capitão em 1823, por ocasião da guerra da Espanha, isto é, precisamente quando Danglars arriscava suas primeiras especulações. Fernand era espanhol, foi enviado a Madri para lá sentir o moral de seus compatriotas; lá encontrou Danglars, entrou em contato com ele, prometeu ao seu general um apoio entre os realistas da capital e das províncias, recebeu promessas, assumiu compromissos por sua vez e guiou seu regimento por trilhas que só ele conhecia entre desfiladeiros vigiados pelos realistas, acabando por prestar tamanhos serviços nessa curta campanha que, depois da tomada do Trocadéro, foi nomeado coronel e recebeu a cruz de oficial da Legião de Honra, com o título de conde.

— Destino! Destino! — murmurou o abade.

— Sim, mas ouça, isso não é tudo. Terminada a guerra da Espanha, a carreira de Fernand viu-se comprometida pela longa paz que prometia reinar na Europa. Apenas a Grécia se insurgira contra a Turquia e mal começara a guerra de sua independência; todos os olhos voltavam-se para Atenas: era moda lastimar e apoiar os gregos. O governo francês, sem protegê-los abertamente, como o senhor sabe, tolerava as migrações parciais. Fernand solicitou e obteve autorização para servir na Grécia, contudo permanecendo contudo sempre fora do controle do exército.

 

“Pouco tempo depois, soube-se que o conde de Morcerf, era o

nome que ele usava, entrara para o serviço de Ali Paxá4 com a patente de general-instrutor.

“Ali Paxá foi assassinado, como sabe; mas antes de morrer recompensou os serviços de Fernand, deixando-lhe uma soma considerável, com a qual Fernand retornou à França, onde sua patente de tenente-general foi homologada.

— De maneira que hoje...? — perguntou o abade.

— De maneira que hoje — completou Caderousse — ele possui um palacete magnífico em Paris, na rua du Helder, no27.

O abade abriu a boca, ficou por um instante como um homem que hesita, mas fazendo um esforço sobre si mesmo:

— E Mercedes — perguntou —, é verdade que desapareceu?

— Desapareceu sim — disse Caderousse —, como desaparece o sol para nascer no dia seguinte ainda mais cintilante.

— Então ela também fez fortuna? — perguntou o abade, com um sorriso irônico.

— Mercedes é neste momento uma das mais elegantes damas de Paris

— disse Caderousse.

— Continue — disse o abade —, parece que estou escutando o relato de um sonho. Mas eu mesmo vi coisas tão extraordinárias, as que o senhor me conta me espantam menos.

— Mercedes inicialmente ficou desesperada com o golpe que lhe arrebatava Edmond. Eu lhe contei de suas diligências junto ao sr. de Villefort e seu devotamento ao pai de Dantès. Em meio ao desespero, um novo sofrimento veio atingi-la, foi a partida de Fernand, de Fernand cujo crime ela ignorava e a quem considerava um irmão.

“Fernand partiu. Mercedes ficou só.

“Três meses se passaram com ela em lágrimas: nenhuma notícia de Edmond, nenhuma notícia de Fernand; nada diante dos olhos senão um velho que definhava, agonizando de desespero.

“Uma noite, depois de um dia inteiro sentada, como era seu costume, no vértice dos dois caminhos que levam de Marselha até os catalães, ela voltou para casa mais abatida que nunca: nem seu noivo nem seu amigo voltavam por aqueles dois caminhos e ela não tinha notícia de nenhum dos dois.

“De repente pareceu-lhe ouvir um passo familiar; virou-se com ansiedade, a porta se abriu e ela viu Fernand surgir com seu uniforme de subtenente.

“Não era sequer meia compensação pelo seu choro, mas era uma porção de sua vida passada que lhe voltava.

“Mercedes pegou as mãos de Fernand num êxtase que este entendeu como amor, porém não era senão alegria por não estar mais sozinha no mundo e por rever enfim um amigo, após as longas horas de tristeza solitária. Além disso, convém dizer, Fernand jamais tinha sido traído, não era amado, só isso; outro detinha todo o coração de Mercedes, esse outro estava ausente... estava desaparecido... talvez estivesse morto. A este último pensamento, Mercedes explodia em soluços e se contorcia de dor; mas esta hipótese, que antigamente ela rechaçava quando lhe era sugerida por um terceiro, voltava agora por si só ao seu espírito; aliás, de sua parte, o velho Dantès não parava de dizer: ‘Nosso Edmond está morto, pois, se não estivesse morto, voltaria para nós.’ “O velho morreu, como eu lhe disse: se tivesse vivido, talvez Mercedes jamais se tornasse mulher de outro, pois ele teria estado ali para recriminar sua infidelidade. Fernand compreendeu isso. Quando soube da morte do velho, voltou. Desta vez, era um tenente. Na primeira viagem, não dissera a Mercedes uma palavra de amor; na segunda, lembrou-lhe que a amava.

“Mercedes pediu mais seis meses para esperar e chorar Edmond.”

— Na verdade — disse o abade, com um sorriso amargo —, fazia dezoito meses ao todo. O que além disso pode pedir o amante mais adorado?

Depois murmurou as palavras do poeta inglês: Frailty, thy name is

woman! 5 — Seis meses mais tarde — continuou Caderousse —, o casamento foi realizado na igreja das Accoules.

— Era a mesma igreja em que ela devia se casar com Edmond —

murmurou o abade —, apenas o noivo mudara, só isso.

— Mercedes então se casou — continuou Caderousse —, porém, embora aos olhos de todos ela tenha parecido calma, nem por isso deixou de desmaiar ao passar em frente ao La Réserve, onde dezoito meses antes ficara noiva daquele que teria percebido que ainda amava se tivesse ousado olhar no fundo do seu coração.

“Fernand, mais feliz, porém não mais tranqüilo, pois encontrei-o nessa época e ele temia incessantemente o retorno de Edmond, cuidou logo de afastar a mulher de suas origens e se exilar ele próprio. Havia ao mesmo tempo muitos perigos e lembranças remanescentes na terra dos catalães.

“Uma semana depois das bodas, partiram.”

— E o senhor reviu Mercedes? — perguntou o abade.

— Sim, na época da guerra da Espanha, em Perpignan, onde Fernand a deixara; na oportunidade ela cuidava da educação do filho.

O abade estremeceu.

— Do filho? — perguntou.

— Sim — respondeu Caderousse —, do pequeno Albert.

— Contudo, para instruir esse filho — continuou o abade —, ela mesma não precisaria ter recebido instrução? Acho que ouvi Edmond dizer que ela era filha de um simples pescador, bela, mas inculta.

— Oh — disse Caderousse —, então ele conhecia muito mal a própria noiva! Mercedes poderia ter sido rainha, senhor, se a coroa devesse pousar apenas nas cabeças mais belas e inteligentes. Sua fortuna já se expandia, e ela se expandia com sua fortuna. Aprendia desenho, aprendia música, aprendia tudo. Acho, aliás, cá entre nós, que ela fazia tudo isso para se distrair, para esquecer, e que enfiava tantas coisas na cabeça para lutar contra o que havia em seu coração. Mas é chegada a hora da verdade —

continuou Caderousse —, a fortuna e os homens a consolaram, sem dúvida. É rica, é condessa e, no entanto...

— Seis meses mais tarde, o casamento foi realizado na igreja das Accoules.

 

Caderousse calou-se.

— No entanto, o quê? — perguntou o abade.

— No entanto, tenho certeza de que não é feliz — disse Caderousse.

— E o que o faz acreditar nisto?

— Pois bem, quando me vi eu mesmo desgraçado, pensei que meus velhos amigos me dariam alguma ajuda. Apresentei-me na casa de Danglars, que sequer me recebeu. Estive na casa de Fernand, que pelo criado de quarto fez chegar a mim cem francos. — Então não esteve com nenhum dos dois?

— Não, mas a sra. de Morcerf me viu.

— Como assim?

— Quando saí, uma bolsa caiu a meus pés; continha vinte e cinco luíses; levantei bruscamente a cabeça e vi Mercedes fechando a persiana.

— E o sr. de Villefort? — perguntou o abade.

— Oh! Este não era meu amigo; este, eu não conhecia; a este, nada tinha a pedir.

— Mas não saberia o que foi feito dele e qual foi sua participação no infortúnio de Edmond?

— Não; sei apenas que, pouco depois de mandá-lo para a prisão, casouse com a srta. de Saint-Méran e logo deixou Marselha. Decerto a felicidade lhe terá sorrido como aos outros, decerto está rico como Danglars, respeitado como Fernand; somente eu, como vê, continuei pobre, miserável e esquecido por Deus.

— Está enganado, meu amigo – disse o abade. — Às vezes Deus parece esquecer, quando sua justiça descansa, mas chega sempre o momento em que ele se lembra, e aqui está a prova disso.

A essas palavras, o abade tirou o diamante do bolso e, apresentando-o a Caderousse, disse:

— Pegue, meu amigo, tome este diamante, pois ele lhe pertence.

— Como, é todo meu?! — exclamou Caderousse. — Ah, senhor, não é uma piada?

— Este diamante era para ser dividido entre seus amigos: Edmond tinha apenas um amigo, a divisão torna-se então inútil. Pegue o diamante e vendao; vale cinqüenta mil francos, repito, e tal soma, espero, basta para tirá-lo da miséria.

— Oh, senhor — disse Caderousse, projetando timidamente uma das mãos e com a outra enxugando o suor que brilhava em sua testa. — Oh, senhor, não brinque com a felicidade ou o desespero de um homem!

— Sei o que é a felicidade e sei o que é o desespero, e nunca jogaria com tais sentimentos. Pegue então, mas em troca...

Caderousse, que já tocava o diamante, retirou a mão. O abade sorriu.

— Em troca — prosseguiu —, dê-me essa bolsa de seda vermelha que o sr. Morrel deixou na lareira do velho Dantès e que, segundo suas palavras, continua em suas mãos.

Caderousse, cada vez mais espantado, foi até um grande armário de carvalho, abriu-o e entregou ao abade uma bolsa comprida, de seda vermelha amassada, tendo nas laterais duas argolas de cobre que um dia foram douradas.

O abade pegou-a e, como prometera, entregou o diamante a Caderousse.

— Oh, o senhor é um homem de Deus! — exclamou Caderousse. —

Pois na verdade ninguém sabia que Edmond lhe dera esse diamante e o senhor poderia tê-lo.

“Bem — pensou o abade consigo mesmo —, “você teria feito isso, ao que parece.”

O abade se levantou e pegou seu chapéu e suas luvas.

— E tudo o que o senhor me disse é realmente verdade, correto? Posso acreditar em todos os pormenores?

— Veja, sr. abade — disse Caderousse —, eis no canto dessa parede um Cristo de madeira benta; eis sobre esse baú o livro dos evangelhos da minha mulher; abra-o e prestarei juramento sobre ele, com a mão estendida na direção de Cristo, vou jurar para o senhor pela salvação da minha alma, pela minha fé de cristão, que lhe contei todas as coisas como elas aconteceram e como o anjo dos homens o dirá no ouvido de Deus no dia do Juízo Final!

— Está bem — disse o abade, convencido, diante de tal ênfase, de que Caderousse dizia a verdade —, está bem; que esse dinheiro o ajude!

Adeus, volto para longe dos homens, que tanto mal fazem um ao outro.

E o abade, desvencilhando-se com grande dificuldade dos impulsos entusiásticos de Caderousse, levantou ele mesmo a barra da porta, saiu, montou o cavalo, saudou pela última vez o estalajadeiro, que se confundia em despedidas ruidosas, e partiu, fazendo o mesmo caminho que já fizera na vinda.

Quando Caderousse deu meia-volta, viu logo atrás de si a Carconte, mais pálida e trêmula que nunca.

— Será realmente verdade o que eu ouvi? — disse ela.

— O quê? Que ele deu o diamante todinho para nós? — disse Caderousse, quase louco de alegria.

— Sim.

— Nada é mais verdadeiro, pois aqui está ele.

A mulher admirou-o por um instante; depois, com uma voz surda:

— E se for falso? — disse ela. Caderousse empalideceu e vacilou.

— Falso... — murmurou — Falso... E para que esse homem teria me dado um diamante falso?

— Para arrancar seu segredo sem pagar por ele, imbecil!

Caderousse permaneceu por um instante aturdido sob o peso dessa suposição.

— Oh! — disse ele no fim de um instante. Então, pegando o chapéu, que enfiou sobre o lenço vermelho amarrado em volta da cabeça: — Vamos logo saber a verdade.

 

— Mas como?

— Há joalheiros de Paris na feira de Beaucaire. Vou lhes mostrar o diamante. Você vigia a casa, mulher; em duas horas estarei de volta.

E Caderousse precipitou-se para fora e pôs-se a correr na direção oposta à que o abade acabava de tomar.

— Cinqüenta mil francos! — murmurou a Carconte, que ficara a sós. — É dinheiro... mas não é uma fortuna.

— E se for falso?

1 Na verdade, o cap.9 nos diz que Mercedes procurou Villefort na própria noite de seu noivado e da prisão de Dantès, quando o substituto do procurador já se preparava para partir rumo a Paris.

2 Guerra da Espanha: intervenção de tropas francesas para restabelecer o poder absoluto de Fernando VII (1784-1833), rei espanhol de sangue Bourbon, mesma linhagem da monarquia francesa.

3 Batalha de Ligny: batalha vencida por Napoleão contra as tropas da Santa Aliança em 16 de junho de 1815, ou seja, durante os Cem Dias. Ela dá início à campanha de Waterloo.

4 Ali Paxá: também conhecido como Ali Paxá de Tepelene ou Tebelin (1741-1822). Militar albanês, nascido num clã poderoso da cidade de Tepelene (na moderna Albânia), que passou

grande parte da sua juventude como fora-da-lei. Após prestar serviços ao Império Otomano, voltou à cidade natal em triunfo. Ascendeu, assim, à posição de governador da província no Império Otomano. Estabelecendo-se na cidade de Janina, sua crueldade rendeu-lhe o epíteto de

“Leão de Janina”. Com o intuito de conseguir um porto marítimo na costa albanesa, Ali formou uma aliança com Napoleão. Após a derrota de Bonaparte em Waterloo, Ali rapidamente estabeleceu nova aliança com os ingleses, o que lhe valeu a posse de três cidades costeiras no mar Adriático. Desejando criar um estado autônomo, estabeleceu laços diplomáticos com os independentistas gregos, o que lhe valeu a inimizade do sultão Mahmud II. Este começou por destituí-lo dos seus cargos oficiais e chamou-o a Constantinopla. Ali não apenas recusou-se a atender ao chamado como organizou um movimento de resistência ao poder do sultão. Em janeiro de 1822, agentes turcos conseguiram assassiná-lo, enviando a sua cabeça para Constantinopla.