O Conde de Monte Cristo
6. Maximilien
1 “Graças de Germain de Pilon”: o grupo estatuário das Três Graças, de Germain de Pilon (1537-90), destinado a amparar a urna onde seria guardado o coração do rei francês Henrique II (1519-59), integra atualmente o acervo do museu do Louvre.
6. Maximilien
Villefort levantou-se, quase vexado por ter sido surpreendido no acesso daquela dor. A terrível profissão que exercera havia vinte e cinco anos tinha conseguido diminuir nele a dose natural de humanidade.
Seu olhar, por um instante desvairado, fixou-se em Morrel.
— Quem é o senhor? — perguntou. — E não sabe que não se entra assim numa casa habitada pela morte? Saia, cavalheiro, saia!
Mas Morrel permanecia imóvel. Não conseguia desprender seus olhos do espetáculo aterrorizante daquele leito em desordem e da pálida figura nele estendida.
— Saia, está surdo? — gritou Villefort, enquanto d’Avrigny avançava para fazer Morrel sair.
Este olhava com uma expressão desnorteada para o cadáver, para os dois homens, para todo aquele quarto. Pareceu hesitar um instante, abriu a boca. Em seguida, não encontrando uma palavra para responder, a despeito do volumoso enxame de idéias fatais que lhe invadiam o cérebro, fez meia-volta arrancando os cabelos, de tal maneira que Villefort e d’Avrigny, por um instante distraídos de suas preocupações, trocaram, depois de o seguirem com os olhos, um olhar que queria dizer:
— É louco!
Mas não se passaram cinco minutos e ouviu-se a escada gemer sob um peso considerável, e viu-se Morrel, que, com uma força sobrehumana, erguendo a cadeira de Noirtier entre os braços, carregava o velho para o primeiro andar da casa.
Ao chegar ao topo da escada, Morrel depositou a cadeira no chão e empurrou-a velozmente até o quarto de Valentine.
Toda essa manobra foi executada com uma força decuplicada pela exaltação frenética do rapaz.
Mas uma coisa assustava mais que tudo, era a fisionomia de Noirtier avançando para o leito de Valentine, empurrado por Morrel; a fisionomia de Noirtier, cuja inteligência desdobrava todos os seus recursos e cujos olhos reuniam todas as suas forças para compensar as outras faculdades.
Da mesma forma, aquele rosto pálido, de olhar flamejante, foi uma aparição aterrorizante para Villefort.
Todas as vezes que este se via em contato com seu pai acontecia alguma coisa terrível.
— Veja o que eles fizeram! — gritou Morrel, com uma das mãos ainda apoiada no encosto da poltrona, que ele acabava de empurrar até a cama, e a outra estendida para Valentine. — Veja, meu avô, veja!
Villefort recuou um passo e olhou com espanto aquele rapaz que lhe era praticamente desconhecido e que chamava Noirtier de avô.
Nesse momento toda a alma do velho pareceu atravessar seus olhos, que se injetaram de sangue. Em seguida, as veias do seu pescoço saltaram, uma cor azulada, como a que invade a pele do epilético, cobriu seu pescoço, suas faces e suas têmporas. Só faltava um grito a essa explosão interior de todo o seu ser.
Esse grito saiu, por assim dizer, de todos os poros, apavorando por seu mutismo, dilacerando por seu silêncio.
D’Avrigny precipitou-se para o velho e fez-lhe respirar um violento revulsivo.
— Senhor — exclamou então Morrel, agarrando a mão inerte do paralítico —, estão me perguntando quem sou e que direito tenho de estar aqui. Oh, o senhor, que sabe, diga-lhes, diga-lhes!
E a voz do rapaz extinguiu-se nos soluços.
Quanto ao velho, sua respiração arfante sacudia-lhe o peito, e ele parecia às voltas com as agitações que precedem a agonia.
Finalmente, lágrimas irromperam nos olhos de Noirtier, mais afortunado que o rapaz, que soluçava sem chorar. Como sua cabeça não conseguia inclinar-se, ele cerrou os olhos.
— Diga — continuou Morrel, com uma voz estrangulada —, diga que sou seu noivo! Diga que ela era minha digníssima noiva, meu único amor na terra! Diga, diga, diga que esse cadáver me pertence!
E o rapaz, com o terrível espetáculo de uma grande força que se despedaça, tombou pesadamente de joelhos diante daquela cama, que seus dedos crispados agarraram com violência.
Essa dor era tão pungente que d’Avrigny afastou-se para esconder a emoção, e Villefort, sem pedir outra explicação, atraído por esse magnetismo que nos impele para aqueles que amaram os que choramos, estendeu a mão para o rapaz.
Mas Morrel não via nada. Agarrara a mão gelada de Valentine e, incapaz de chorar, mordia os lençóis, rugindo.
Durante certo tempo não se ouviu naquele quarto senão o conflito dos soluços, das imprecações e da oração. E no entanto um barulho
predominava sobre todos estes, era o arfar rouco e dilacerante que parecia, a cada absorção de ar, romper uma das molas da vida no peito de Noirtier.
Enfim, Villefort, o mais controlado de todos, após haver, digamos assim, cedido seu lugar a Maximilien, tomou a palavra.
— Cavalheiro — disse ele a Maximilien —, o senhor amou Valentine.
Pelo que diz, o senhor era seu noivo. Eu ignorava esse amor, ignorava esse noivado. Entretanto, eu, pai dela, o perdôo por isso, pois vejo que seu sofrimento é grande, real e verdadeiro.
“A propósito, na minha casa também o sofrimento é grande demais para que sobre espaço ao ódio em meu coração.
“Porém, como vê, o anjo que o cavalheiro esperava deixou a terra. Não tem mais o que fazer com a adoração dos homens, ela que, a essa hora, adora o Senhor. Faça então suas despedidas, aos tristes despojos que ela esqueceu em meio a nós. Pegue pela última vez a mão que o senhor esperava, separando-se dela para sempre. A única coisa de que Valentine precisa agora é de um padre para abençoá-la.”
— Está enganado, cavalheiro — exclamou Morrel, levantando-se num joelho, o coração atravessado por uma dor mais aguda que todas as que já sentira —, está enganado. Valentine, morta como está, não precisa apenas de um padre, precisa também de um vingador. Sr. de Villefort, mande chamar o padre, serei eu o vingador.
— Que quer dizer com isso? — murmurou Villefort, estremecendo diante dessa nova inspiração do delírio em Morrel.
— Quero dizer — continuou o rapaz — que há dois homens no senhor, cavalheiro. O pai já chorou o suficiente; que o procurador do rei comece seu trabalho.
Os olhos de Noirtier faiscaram, d’Avrigny aproximou-se.
— Senhor — continuou Morrel, recolhendo com os olhos todos os sentimentos que transpareciam nos semblantes dos presentes —, sei o que digo, e todos os senhores sabem tão bem quanto eu o que irei dizer: Valentine morreu assassinada!
Villefort abaixou a cabeça, d’Avrigny deu outro passo, Noirtier fez sim com os olhos.
— Ora, senhor — continuou, Morrel —, na época em que vivemos, uma criatura, ainda mais jovem, bela e adorável como era Valentine, não desaparece violentamente do mundo sem que isso exija uma explicação.
“Por favor, senhor procurador do rei — acrescentou Morrel com uma veemência crescente —, nada de piedade! Estou lhe denunciando o crime, procure o assassino!”
E seu olho implacável interrogava Villefort, que por sua vez solicitava com o olhar ora Noirtier, ora d’Avrigny.
No entanto, em vez de encontrar socorro em seu pai e no médico, Villefort encontrou neles um olhar tão inflexível quanto o de Morrel.
— Sim! — fez o velho.
— Ele tem razão! — disse d’Avrigny.
— Cavalheiro — replicou Villefort, tentando lutar contra aquela tripla vontade e contra sua própria emoção —, está enganado. Na minha casa não se cometem crimes, a fatalidade é que me golpeia, é uma provação de Deus. É difícil acreditar, mas não se trata de assassinato!
Os olhos de Noirtier flamejaram, d’Avrigny abriu a boca para falar.
Morrel estendeu o braço, ordenando silêncio.
— E eu lhe afirmo que há um assassino aqui! — exclamou Morrel, cujo tom de voz diminuiu sem nada perder de sua terrível vibração. “Afirmo que esta é a quarta vítima em quatro meses.
“Afirmo que em uma ocasião, há quatro dias, já haviam tentado envenenar Valentine, fracassando graças às precauções tomadas pelo sr.
Noirtier!
“Afirmo que dobraram a dose ou mudaram a natureza do veneno, e que desta vez tiveram sucesso!
“Enfim, afirmo que o senhor sabe de tudo isso tão bem quanto eu, uma vez que esse cavalheiro o havia prevenido, como médico e amigo!”
— Oh, está delirando, cavalheiro! — disfarçou Villefort, tentando em vão debater-se no círculo em que se achava prisioneiro.
— Delirando! — exclamou Morrel. — Pois bem! Recorro ao próprio sr.
d’Avrigny.
“Pergunte-lhe, cavalheiro, se ele ainda se lembra das palavras que pronunciou no seu jardim, no jardim desta casa, na noite da morte da sra.
de Saint-Méran, quando ambos, o senhor e ele, julgando-se a sós, conversavam sobre essa morte trágica, em relação à qual a fatalidade, pelo senhor alegada, e Deus, a quem acusa tão injustamente, não podem ser censurados a não ser por uma coisa, que é por terem criado o assassino de Valentine!
Villefort e d’Avrigny entreolharam-se.
— Sim, sim, vejo que se lembram — disse Morrel —, pois essas palavras, que os senhores julgavam ditas ao silêncio e à solidão, caíram nos meus ouvidos. Naturalmente, desde aquela noite, vendo a complacência culpada do sr. de Villefort para com sua família, eu deveria ter revelado tudo às autoridades; assim não seria cúmplice, como sou neste momento, de sua morte, Valentine! Minha adorada Valentine! Mas o cúmplice irá transformar-se no vingador. Esse quarto assassinato é flagrante e visível aos olhos de todos. Se o pai a abandona, Valentine, serei eu, juro, que perseguirei o assassino.
Dessa vez, como se a natureza finalmente tivesse tido piedade daquela vigorosa organização prestes a se despedaçar pela sua própria força, as últimas palavras de Morrel morreram em sua garganta. Seu peito explodiu em soluços, as lágrimas, por tanto tempo rebeldes, irromperam de seus olhos, e ele se prostrou e voltou a cair de joelhos, chorando junto ao leito de Valentine.
Então foi a vez de d’Avrigny.
— E eu também — disse ele com uma voz tonitruante —, da mesma forma junto-me ao sr. Morrel para pedir justiça contra esse crime, pois meu coração revolta-se diante da idéia de que minha covarde complacência encorajou o assassino!
— Oh, meu Deus, meu Deus! — murmurou Villefort, aniquilado. Morrel levantou a cabeça e leu nos olhos do velho, que expeliam uma labareda sobrenatural.
— Vejam — disse ele —, o sr. Noirtier quer falar.
— Sim — fez Noirtier, com uma expressão ainda mais terrível, visto que todas as faculdades do desafortunado velho impotente estavam concentradas em seu olhar.
— Sabe quem é o assassino? — perguntou Morrel.
— Sim — replicou Noirtier.
— E vai nos orientar? — exclamou o rapaz. — Escutemos, sr. d’Avrigny, escutemos!
Noirtier dirigiu ao infeliz Morrel um sorriso melancólico, um daqueles meigos sorrisos dos olhos que tantas vezes fizera a felicidade de Valentine, e ganhou sua atenção.
Em seguida, tendo incrustado, por assim dizer, os olhos de seu interlocutor nos seus, dirigiu-os para a porta.
— Quer que eu saia, senhor? — exclamou dolorosamente Morrel.
— Sim — fez Noirtier.
— Ai! Ai de mim! Oh, senhor, tenha piedade!
Os olhos do velho permaneceram impiedosamente fixados na direção da porta.
— Posso voltar, pelo menos? — perguntou Morrel.
— Sim.
— Devo sair sozinho?
— Não.
— Devo levar alguém comigo? O sr. procurador do rei?
— Não.
— O doutor?
— Sim.
— Quer ficar sozinho com o sr. de Villefort?
— Sim.
— Mas ele irá compreendê-lo?
— Sim.
— Oh! — disse Villefort, quase alegre porque o inquérito iria dar-se em particular. — Oh, fique tranqüilo, compreendo meu pai muito bem.
E, ao mesmo tempo em que dizia isso, com a expressão de alegria que assinalamos, os dentes do procurador do rei batiam com violência.
D’Avrigny pegou o braço de Morrel e levou o rapaz para o quarto contíguo.
Fez-se então naquela casa um silêncio mais profundo que o da morte.
Finalmente, quinze minutos depois, um passo vacilante fez-se ouvir e Villefort apareceu no umbral do salão onde se encontravam d’Avrigny e Morrel, um absorto, o outro sem ar.
— Venham — disse ele.
E conduziu-os até a cadeira de rodas de Noirtier.
Foi quando Morrel observou atentamente Villefort.
O semblante do procurador do rei estava lívido. Grandes manchas cor de ferrugem sulcavam sua testa; entre seus dedos, rangia uma pena torcida de mil maneiras, já toda esfiapada.
— Senhores — disse ele, com uma voz estrangulada a d’Avrigny e Morrel —, sua palavra de honra de que o horrível segredo permanecerá enterrado entre nós!
Os dois homens esboçaram um gesto.
— Intimo-os...! — continuou Villefort.
— Mas — disse Morrel —, e o culpado...? O matador...? O assassino...?
— Fique tranqüilo, cavalheiro, a justiça será feita — disse Villefort. —
Meu pai acaba de me revelar o nome do culpado. Meu pai tem sede de vingança como o senhor, e, ainda assim, meu pai intima-o, como eu, a guardar segredo do crime. Não é, meu pai?
— Sim — fez Noirtier resolutamente.
Morrel deixou escapar um gesto de horror e incredulidade.
— Oh — exclamou Villefort, segurando Maximilien pelo braço —, se o meu pai, o homem inflexível que o senhor conhece, lhe faz esse pedido, é porque sabe que Valentine será terrivelmente vingada. Não é, meu pai?
O velho fez sinal de que sim. Villefort continuou:
— Ele me conhece e foi a ele que empenhei minha palavra. Não se preocupem portanto, senhores. Três dias, peço-lhes três dias, é menos do que lhes pediria a justiça. Dentro de três dias, a vingança que terei aplicado no assassino de minha filha provocará calafrios no âmago do coração do mais indiferente dos homens. Não é verdade, meu pai?
E, dizendo essas palavras, rangia os dentes e sacudia a mão hirta do velho.
— Tudo que está prometido será cumprido, sr. Noirtier? — perguntou Morrel, enquanto d’Avrigny interrogava com o olhar.
— Sim — fez Noirtier, com um olhar de sinistra alegria.
— Jurem então, senhores — disse Villefort, juntando as mãos de d’Avrigny e Morrel —, jurem que terão piedade da honra da minha casa e que irão confiar-me a missão de vingá-la.
D’Avrigny voltou-se e murmurou um sim bem fraco, mas Morrel arrancou sua mão da do magistrado, precipitou-se em direção à cama, imprimiu seus lábios nos lábios gelados de Valentine e evadiu-se com o longo gemido da alma que afunda no desespero.
Dissemos que todos os criados haviam debandado.
O sr. de Villefort viu-se então obrigado a pedir a d’Avrigny que se encarregasse das formalidades, tão numerosas e delicadas, que acarreta a morte em nossas cidades grandes, em especial a morte acompanhada de circunstâncias tão suspeitas.
Quanto a Noirtier, era uma experiência terrível ver aquela dor sem movimento, aquele desespero sem palavras, aquelas lágrimas sem voz.
... e evadiu-se com o longo gemido da alma que afunda no desespero.
Villefort retornou ao seu gabinete. D’Avrigny foi chamar o médico da sub-prefeitura que exercia as funções de inspetor em casos de óbitos e que carregam o enfático apelido de “médicos dos mortos”.
Noirtier recusou-se a abandonar a neta.
Meia hora depois, o sr. d’Avrigny retornou com o colega. Haviam fechado o portão da rua e, como o porteiro desaparecera com os outros serviçais, o próprio Villefort foi abri-lo.
Porém, ao retornar, deteve-se no corredor. Faltava-lhe coragem para entrar na câmara mortuária.
Sendo assim, os dois médicos penetraram sozinhos no quarto de Valentine. Noirtier estava junto à cama, pálido como a defunta, imóvel e mudo como ela.
O médico dos mortos aproximou-se com a indiferença do homem que passou metade da vida entre cadáveres, levantou a mortalha que cobria a jovem e apenas entreabriu seus lábios.
— Oh — suspirou d’Avrigny —, pobre moça, está realmente morta, faça o seu trabalho.
— Sim — respondeu laconicamente o médico, deixando cair a mortalha que cobria o rosto de Valentine.
Noirtier emitiu um pigarro seco.
D’Avrigny voltou-se, os olhos do velho faiscavam. O bondoso médico compreendeu que Noirtier pedia para ver a neta. Aproximou-o da cama e, enquanto o médico dos mortos mergulhava na água clorada os dedos que haviam tocado os lábios da defunta, ele contemplou o semblante calmo e pálido qual o de um anjo adormecido.
Uma lágrima que renasceu no canto do olho de Noirtier foi o agradecimento que o bondoso médico recebeu.
O médico dos mortos cuidou da burocracia no canto de uma mesa, no próprio quarto de Valentine; realizada essa formalidade suprema, saiu acompanhado pelo médico.
Villefort ouviu-os descer e reapareceu na porta de seu gabinete.
Agradeceu ao médico em poucas palavras e, voltando-se para d’Avrigny, perguntou:
— E agora, o padre?
— Há algum eclesiástico que o senhor deseje mais particularmente encarregar de orar junto a Valentine? — perguntou d’Avrigny.
— Não — disse Villefort —, chame o mais próximo.
— O mais próximo — disse o médico dos mortos — é um bondoso abade italiano que veio morar na casa vizinha à sua. Deseja que eu o avise ao passar?
— D’Avrigny — disse Villefort —, faça a gentileza de acompanhar o cavalheiro. Aqui está a chave para que possa entrar e sair à vontade. O
senhor trará o padre e se encarregará de instalá-lo no quarto de minha pobre filha.
— Deseja falar com ele, meu amigo?
— Desculpe, quero ficar sozinho. Um sacerdote deve compreender todos os sofrimentos, inclusive o sofrimento de um pai.
E o sr. de Villefort, entregando uma credencial a d’Avrigny, cumprimentou pela última vez o médico desconhecido e voltou para o seu gabinete, onde se pôs a trabalhar.
Para determinados temperamentos, o trabalho é um remédio que cura todos os males.
Quando saíam à rua, perceberam um homem vestindo uma sotaina e parado na soleira da porta vizinha.
— Era dele que eu lhe falava — disse o médico dos mortos a d’Avrigny.
D’Avrigny abordou o eclesiástico.
— Senhor — disse-lhe —, estaria disposto a prestar um grande favor a um infeliz pai que acaba de perder a filha, ao sr. procurador do rei Villefort?
— Ah, cavalheiro — respondeu o sacerdote com um sotaque italiano dos mais pronunciados —, estou ciente, a morte ronda essa casa.
— Então não preciso dizer o gênero de favor que ele se atreve a esperar do senhor.
— Eu estava a caminho, cavalheiro — respondeu o padre. — É nossa missão nos anteciparmos aos nossos deveres.
— É uma jovem.
— Sim, sei disso, soube pelos criados, que vi fugindo. Soube que ela se chamava Valentine, e já orei por ela.
— Obrigado, obrigado, senhor — disse d’Avrigny —, e, uma vez que já começou a exercer seu sagrado ministério, consinta em dar-lhe seqüência.
Venha sentar-se junto à morta, e toda uma família mergulhada em luto serlhe-á grata.
— Vou, senhor — respondeu o abade —, e ouso dizer que nenhuma prece será mais fervorosa que a minha.
D’Avrigny pegou o abade pela mão e, sem encontrar Villefort, trancado em seu gabinete, levou-o até o quarto de Valentine, de quem os agentes funerários só iriam cuidar na noite seguinte.