O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 55 de 119

Páginas do PDF

O Conde de Monte Cristo

15. Roberto Diabo

12 Magendie e Flourens: François Magendie (1783-1855), fisiologista francês, conhecido por suas vivissecções, isto é, operações feitas em animais vivos para estudos fisiológicos; Marie-Jean-Pierre Flourens (1794-1867), fisiologista francês, pioneiro no desenvolvimento de técnicas anestésicas, cujos experimentos incluíram lesões cerebrais intencionalmente provocadas em coelhos e pombos, para observar seus efeitos na motricidade, sensibilidade e comportamento dos animais.

13 “O mandarim ... a ponta do dedo”: dilema moral bastante em voga na época, que pode ser exposto nos seguintes termos: se para herdar muito dinheiro bastasse apertar um botão e matar um mandarim que nunca se viu e que vive do outro lado do mundo, quem não apertaria?

Atribuído ora a Rousseau, ora a François-René de Chateaubriand, foi também objeto de uma novela de Eça de Queiroz.

14 Carnifex: palavra latina que significa, literalmente, “fazedor de carne” ; sendo caro, carne, e facio, fazer. No caso, significa “carrasco”, “verdugo”.

15 Após a morte de Eduardo IV, rei da Inglaterra, seu irmão Ricardo trancou os dois sobrinhos numa torre e fez o Parlamento entronizá-lo, em seguida assassinando os jovens prisioneiros.

Dumas cita aqui um trecho da peça de Shakespeare sobre o tema.

16 Duncan é o rei da Escócia assassinado por Macbeth e sua esposa na peça de Shakespeare.

17 Planche e Hoffmann: Louis-Antoine Planche (1776-1840), farmacêutico e químico francês; Friedrich Hoffmann (1660-1742), médico da corte prussiana, criador do licor antiespasmódico.

15. Roberto Diabo1

A desculpa do Opéra saiu melhor que a encomenda, pois naquela noite havia um espetáculo na Academia Real de Música.

Levasseur2, após uma longa indisposição, voltava no papel de Bertram, e, como sempre, a obra do maestro da moda atraíra a mais brilhante sociedade de Paris.

Morcerf, tal qual a maioria dos jovens endinheirados, tinha sua estala de orquestra, além de dez camarotes de conhecidos seus a quem podia solicitar um assento, afora aquele a que tinha direito no camarote dos leões.

Château-Renaud possuía a estala contígua à sua.

Beauchamp, na condição de jornalista, era o rei da sala e encontrava lugar em toda parte.

Naquela noite, Lucien Debray tinha à sua disposição o camarote do ministro e oferecera-o ao conde de Morcerf, o qual, diante da recusa de Mercedes, transmitira o convite para Danglars, mandando dizer-lhe que passaria à noite para ver a baronesa e sua filha, caso essas damas fizessem a gentileza de aceitar o camarote que ele oferecia. As damas nem pensaram em recusar. Ninguém é tão ávido por camarotes de graça quanto um milionário.

Danglars, por sua vez, declarara que seus princípios políticos e sua condição de deputado da oposição não lhe permitiam freqüentar o camarote do ministro. Assim, a baronesa escrevera a Lucien pedindo que a buscasse, visto que não podia ir ao Opéra sozinha com Eugénie.

De fato, se as duas mulheres tivessem ido desacompanhadas, certamente seriam tachadas de indecorosas; ao passo que, se a srta. Danglars fosse ao Opéra com a mãe e o amante da mãe, não haveria nada a dizer: convém enxergar o mundo como ele é.

O pano se abriu, como sempre, com a sala quase vazia. É outro hábito da fashion parisiense, chegar depois de iniciado o espetáculo; daí resulta que o primeiro ato se passa, do ponto de vista dos espectadores que chegaram na hora, não assistindo ou ouvindo a peça, mas acompanhando a chegada dos espectadores atrasados e ouvindo apenas o barulho das portas e das conversas.

— Olhe! — disse de repente Albert, ao ver abrir-se um camarote lateral de primeira fila. — Olhe! A condessa G...!

— Quem é a condessa G...? — perguntou Château-Renaud.

— Ora, barão, eis uma dúvida que não lhe perdôo; está me perguntando quem é a condessa G...?

— Ah, é verdade — disse Château-Renaud. — Seria aquela encantadora veneziana?

— Precisamente.

Nesse momento, a condessa G... avistou Albert e trocou com ele uma saudação acompanhada de um sorriso.

— Conhece-a? — perguntou Château-Renaud.

— Sim — respondeu Albert —, Franz apresentou-nos em Roma.

— Quer me prestar em Paris o mesmo favor que Franz lhe prestou em Roma?

— Com todo o prazer.

— Schhh! — fez o público.

Os dois rapazes continuaram a conversa, parecendo não se preocupar em nada com o desejo da platéia de ouvir a música.

— Ela estava nas corridas do Campo de Marte — disse Château-Renaud.

— Hoje?

— Sim.

— Puxa, é verdade! Hoje era dia de corrida. Você apostou?

— Oh, uma miséria, cinqüenta luíses.

— E quem ganhou?

— Nautilus; apostei nele.

— Mas foram três páreos?

— Sim. Era o prêmio do Jockey Club, uma taça de ouro. Aconteceu inclusive uma coisa muito estranha.

— O quê?

— Schhh! — fez o público.

— O quê? — repetiu Albert.

— Foram um cavalo e um jóquei completamente desconhecidos que ganharam o páreo.

— Como assim?

— Ora, meu Deus, é como estou lhe dizendo; ninguém havia dado atenção a um cavalo inscrito com o nome de Vampa e a um jóquei inscrito com o nome de Jó, quando vimos avançar de repente um admirável alazão e um jóquei magro feito um osso; tiveram que colocar vinte libras de chumbo em seu bolso, o que não o impediu de cruzar a linha três corpos à frente de Ariel e Barbaro, que disputavam com ele.

— E ninguém ficou sabendo quem era o dono do cavalo e do jóquei?

— Não.

— Você disse que esse cavalo estava inscrito com o nome de...

— Vampa.

— Então — disse Albert —, estou mais inteirado que você: sei a quem ele pertence.

— Silêncio, caramba! — manifestou-se pela terceira vez a platéia.

Dessa vez a revolta era tão grande que os dois rapazes acabaram percebendo que o público se dirigia a eles. Voltaram-se por um instante, procurando na multidão um homem que assumisse a responsabilidade pelo que consideravam uma impertinência; mas ninguém aceitou o desafio, e eles dirigiram os olhos para o palco.

O camarote do ministro então se abriu e a sra. Danglars, sua filha e Lucien Debray ocuparam seus lugares.

— Ah, ah! — disse Château-Renaud. — Vejo pessoas conhecidas suas, visconde. Por que diabos está olhando para a direita? Estão à sua procura.

Albert voltou-se e seus olhos encontraram efetivamente os da baronesa Danglars, que lhe dirigiu uma pequena saudação com o leque. Quanto à srta. Eugénie, seus grandes olhos negros mal se dignaram baixar até a orquestra.

— Na verdade, meu caro — disse Château-Renaud —, afora o casamento desigual, e não creio que seja isso que o preocupa desse jeito, não entendo o que você pode ter contra a srta. Danglars; é, na verdade, uma belíssima pessoa.

— Belíssima, decerto — disse Albert —, mas confesso que, em matéria de beleza, prefiro alguma coisa mais delicada, mais suave, mais feminina, enfim.

— Veja como são os moços — disse Château-Renaud, que em sua condição de homem de trinta anos assumia ares paternais com Morcerf —, nunca estão satisfeitos. Como, meu caro! Arranjam-lhe uma noiva esculpida qual Diana Caçadora e você não está contente!

— Pois, justamente, eu teria preferido alguma coisa no gênero Vênus de Milo ou de Cápua. Essa Diana Caçadora, sempre no meio de suas ninfas, me assusta um pouco; tenho medo de que ela me

julgue um Acteon3.

Com efeito, um rápido olhar dirigido à moça quase explicava a impressão que Morcerf acabara de admitir. A srta. Danglars era bonita, mas, como dissera Albert, de uma beleza um tanto contida: seus cabelos

exibiam uma bela tonalidade negra, mas em seus cachos naturais notava-se certa rebeldia à mão que desejava impor-lhes sua vontade; seus olhos, negros como os cabelos, emoldurados sob magníficas sobrancelhas, que tinham apenas um defeito, o de às vezes franzirem, destacavam-se principalmente por uma expressão de firmeza, que impressionava no olhar de uma mulher; seu nariz

tinha as proporções exatas que um escultor teria dado às de Juno4; apenas a sua boca era grande demais, mas enfeitada com belos dentes, os quais iluminavam lábios cujo carmim demasiado vivo contrastava com a palidez de sua pele; por fim, um sinal instalado no canto da boca, e maior do que em geral se apresenta essa espécie de capricho da natureza, terminava de conferir a essa fisionomia o caráter decidido que assustava um pouco Morcerf.

Aliás, todo o resto da pessoa de Eugénie combinava com essa cabeça que acabamos de tentar descrever. Era, como havia dito Château-Renaud, Diana Caçadora, mas com alguma coisa mais firme e musculosa em sua beleza.

Quanto à educação que recebera, se havia uma observação a lhe fazer, era que, assim como certos aspectos de sua fisionomia, ela parecia pertencer a outro sexo. Com efeito, falava duas ou três línguas, desenhava com facilidade, fazia versos e compunha música. Esta última arte era sua grande paixão, que praticava com uma de suas amigas de internato, menina sem fortuna, mas com todos os talentos possíveis para tornar-se, ao que asseguravam, excelente cantora. Comentava-se que um grande compositor dedicava a esta última um interesse quase paternal, e a fazia trabalhar na esperança de que um dia ela viesse a fazer fortuna com sua voz.

Essa possibilidade de a srta. Louise d’Armilly, era o nome da jovem virtuose, futuramente entrar para o teatro fazia com que a srta. Danglars, a despeito de a receber em casa, não se mostrasse em público em sua companhia. Em todo caso, sem ocupar na casa do banqueiro a posição independente de uma amiga, Louise ocupava uma posição superior à das professoras comuns.

Segundos depois que a sra. Danglars havia entrado em seu camarote, o pano caíra e, graças à chance, proporcionada pela longa duração dos entreatos, de o público passear pelo saguão ou fazer visitas de meia hora, a platéia ficara praticamente vazia.

Morcerf e Château-Renaud foram dos primeiros a sair. Por um instante a sra. Danglars pensou que aquela pressa de Albert tinha como objetivo ir cumprimentá-la, e debruçara no ouvido de sua filha para lhe anunciar essa visita; mas esta contentara-se em balançar a cabeça sorrindo; e, ao mesmo tempo, como para provar quão fundada era a desconfiança de Eugénie, Morcerf apareceu num camarote lateral à primeira fila. Esse camarote era o da condessa G...

— Ah, aqui está o senhor viajante — disse ela, estendendo-lhe a mão com toda a cordialidade de uma velha conhecida. — É muito amável terme reconhecido e, sobretudo, dado-me a primazia da primeira visita.

— Creia, senhora — respondeu Albert —, que se soubesse de sua chegada a Paris e o seu endereço, não teria esperado tanto. Mas permita-me apresentar o sr. barão de Château-Renaud, meu amigo, um dos raros fidalgos remanescentes na França, e por intermédio de quem acabo de saber que a senhora estava nas corridas do Campo de Marte.

Château-Renaud cumprimentou-a.

— Ah, assistiu às corridas, cavalheiro? — perguntou alegremente a condessa.

— Sim, senhora.

— Ótimo! — emendou com vivacidade a sra. G... — Pode me dizer a quem pertencia o cavalo que ganhou o prêmio do Jockey Club?

— Não, senhora — disse Château-Renaud —, e eu fazia a mesma pergunta a Albert.

— Faz realmente questão, sra. condessa? — perguntou Albert.

— De quê?

— De saber quem é o dono do cavalo?

— Infinitamente... Imagine só que... Por acaso saberia, senhor visconde?

— A senhora parecia querer contar uma história: “imagine só”, foram suas palavras.

— Muito bem! Imagine só que esse encantador cavalo alazão e o esbelto joqueizinho de jaqueta cor-de-rosa me haviam, à primeira vista, inspirado uma simpatia tão grande que eu torcia por ambos, exatamente como se tivesse apostado neles metade da minha fortuna; portanto, quando os vi cruzando a linha de chegada com três corpos de vantagem sobre os outros competidores, fiquei tão feliz que comecei a bater palmas como uma louca. Calcule meu espanto quando, ao chegar em casa, esbarro na escada com o joqueizinho corde-rosa! Achei que o vencedor da corrida talvez

morasse no mesmo prédio que eu, mas, ao abrir a porta do meu salão, a primeira coisa que vi foi a taça de ouro, o prêmio do cavalo e do jóquei desconhecidos. Dentro da taça havia um papelzinho com estas palavras:

“Para a condessa G..., lorde Ruthwen”!

— É justamente isso — disse Morcerf.

— Como assim “é justamente isso”?! Que está querendo dizer?

— Estou querendo dizer que é lorde Ruthwen em pessoa.

— Que lorde Ruthwen?

— O nosso, o vampiro, o do Teatro Argentina.

— Sério?! — exclamou a condessa. — Então ele está aqui?

— Exatamente.

— E o senhor encontra-se com ele? Recebe-o? Vai à casa dele?

— É meu amigo íntimo, e o próprio sr. de Château-Renaud teve a honra de conhecê-lo.

— Quem pode garantir que foi ele que ganhou?

— Seu cavalo, inscrito com o nome de Vampa.

— Muito bem, e daí?

— E daí que a senhora não se lembra do famoso bandido que me raptou?

— É verdade!

— De cujas garras o conde me arrancou tão milagrosamente?

— Claro.

— O nome dele era Vampa. Tem que admitir que é ele.

— Mas por que teria me oferecido essa taça?

— Em primeiro lugar, condessa, porque falei muito da senhora, peço-lhe que acredite; depois, porque ele deve ter ficado encantado ao encontrar uma compatriota e feliz pelo interesse que essa compatriota lhe dispensava.

— Espero do fundo do coração que nunca lhe tenha contado as loucuras que dissemos a seu respeito.

— Caramba, tal juramento não posso fazer, e essa atitude de lhe oferecer essa taça sob o nome de lorde Ruthwen...

— Mas isso é pavoroso, ele vai me odiar mortalmente.

— O procedimento dele é o de um inimigo?

— Não, devo admitir.

— Pois então!

— Quer dizer que ele está em Paris?

— Sim.

— E que impressão causou?

— Ora — disse Albert —, falou-se dele durante uma semana, depois vieram a coroação da rainha da Inglaterra e o roubo dos diamantes

de Mllears50, que ocuparam todas as conversas.

— Meu caro — interveio Château-Renaud —, vê-se bem que o conde é seu amigo e que o trata como tal. Não acredite no que Albert lhe diz, sra.

condessa, ao contrário, em Paris só se fala do conde de Monte Cristo. Para começar, ele ofereceu à sra. Danglars cavalos de trinta mil francos; em seguida, salvou a vida da sra. de Villefort; depois, ao que tudo indica, ganhou a corrida do Jockey Club. Sustento, ao contrário, a despeito do que diga Morcerf, que o conde ainda é o assunto do momento e que será o assunto daqui a um mês se continuar com suas excentricidades, o que, de resto, parece ser seu estilo normal de vida.

— É possível... — disse Morcerf. — Mas, olhem só, quem pegou o camarote do embaixador da Rússia?

— Qual? — perguntou a condessa.

— Aquele entre as colunas da primeira fila; parece totalmente remodelado.

— Realmente — disse Château-Renaud. — Será que havia alguém ali durante o primeiro ato?

— Onde?

— Nesse camarote...

— Não — respondeu a condessa —, não vi ninguém; mas quer dizer —

continuou ela, voltando à primeira conversa — que acredita ter sido o seu conde de Monte Cristo o vencedor do prêmio?

— Tenho certeza disso.

— E quem me enviou a taça?

— Sem nenhuma dúvida.

— Mas eu não o conheço, e tenho muita vontade de devolvê-la.

— Oh, não faça isso! Ele lhe mandaria outra, esculpida em alguma safira ou escavada em rubis. São métodos de ação próprios, que quer, temos que aceitá-lo como é.

Nesse momento ouviu-se a campainha anunciando o início do segundo ato. Albert levantou-se para voltar a seu lugar.

— Ainda o vejo? — perguntou a condessa.

— Nos entreatos, se permitir, virei me informar se posso ter alguma utilidade para a senhora aqui em Paris.

— Senhores — disse a condessa —, todas as noites de sábado estou em casa para os amigos, rua de Rivoli 22. Estão avisados.

Os rapazes cumprimentaram e saíram.

Ao entrarem na sala, viram a platéia de pé com os olhos fixos num único ponto; os olhares de ambos acompanharam a direção geral e se detiveram no camarote que fora do embaixador da Rússia. Um homem de preto, de trinta e cinco a quarenta anos, acabava de entrar com uma mulher vestindo um traje oriental. A mulher era de uma beleza superior, e sua roupa era tão rica que, como dissemos, todos os olhos se haviam voltado instantaneamente para ela.

— Ora! — disse Albert. — É Monte Cristo e sua grega. Com efeito, eram o conde e Haydée.

No fim de um instante, a moça era objeto da atenção não apenas da platéia, mas de todo o teatro; as mulheres debruçavam-se para fora de seus camarotes a fim de ver brilhar sob as luzes dos lustres uma cascata de diamantes.

O segundo ato desenrolou-se em meio ao rumor surdo que, entre as multidões, indica um grande acontecimento. Ninguém pensou em pedir silêncio. Aquela mulher tão jovem, tão bela e tão deslumbrante era o espetáculo mais curioso a que se podia assistir.

Dessa vez, um sinal da sra. Danglars demonstrou claramente para Albert que a baronesa desejava sua visita no entreato seguinte.

Morcerf era muito bem-educado para se fazer esperar quando demonstravam claramente que era esperado. Encerrado aquele ato, apressou-se então a subir até o balcão.

Cumprimentou as duas damas e estendeu a mão para Debray.

A baronesa recebeu-o com um sorriso encantador e Eugénie, com sua frieza habitual.

— Meu caro — disse Debray —, você está diante de um homem esgotado que lhe pede socorro para substituí-lo. Eis que madame me atormenta com perguntas sobre o conde e quer saber de onde

ele é, de onde vem, aonde vai. Por Deus, não sou Cagliostro6 e, para me safar, disse apenas: “Pergunte tudo isso a Morcerf, ele conhece seu Monte Cristo na ponta dos dedos”; então acenamos para você.

— Não é incrível — disse a baronesa — que, tendo meio milhão de fundos secretos à sua disposição, ele não saiba mais que isso?

— Senhora — disse Lucien —, peço que acredite que, se eu tivesse meio milhão à minha disposição, eu o empregaria em coisa diferente, não em desencavar informações sobre o sr. de Monte Cristo, cujo único mérito, do meu ponto de vista, é ser duas vezes mais rico que um nababo; porém passo a palavra a meu amigo Morcerf; arranjem-se com ele, isso não me diz mais respeito.

— Um nababo certamente não me teria enviado um par de cavalos de trinta mil francos, com quatro diamantes nas orelhas, de cinco mil francos cada um.

— Oh, diamantes — disse Morcerf rindo — são sua mania. Acho

que, igual a Potemkin7, ele os tem sempre nos bolsos, semeando-os em seu caminho como o Pequeno Polegar fazia com suas pedrinhas.

— Ele deve ter descoberto alguma jazida — disse a sra. Danglars. —

Sabe que ele tem um crédito ilimitado no banco do barão?

— Não, não sabia — respondeu Albert —, mas deve ser isso mesmo.

— E que anunciou ao sr. Danglars sua intenção de ficar um ano em Paris gastando aqui seis milhões?

— É o xá da Pérsia viajando incógnito.

— E essa mulher, sr. Lucien — disse Eugénie —, reparou como é bonita?

— Na verdade, só mesmo a senhorita para ser tão justa com as pessoas do seu sexo.

Lucien aproximou seu binóculo do olho.

— Encantadora! — disse ele.

— E essa mulher, sr. de Morcerf, sabe quem é?

— Senhorita — disse Albert, respondendo a essa interpelação quase direta —, sei apenas um pouco, como de tudo que diz respeito ao personagem misterioso de quem falamos. Essa mulher é grega.

— Vê-se facilmente por sua roupa, e o senhor está repetindo tão-somente o que a sala inteira já sabe.

— Lastimo — desculpou-se Morcerf — ser um cicerone tão ignorante, mas devo confessar que meus conhecimentos param nesse ponto; sei, além disso, que ela é musicista, pois um dia em que almocei na casa do conde ouvi os sons de uma guzla que só podiam provir dela.

— E essa mulher, sr. de Morcerf, sabe quem é?

— Então o seu conde recebe? — perguntou a sra. Danglars.

— E esplendidamente, eu lhe juro.

— Tenho que pressionar Danglars para lhe oferecer um jantar qualquer, um baile qualquer, a fim de que ele os retribua.

— Como? A senhora iria à casa dele? — perguntou Debray, rindo.

— Por que não? Com meu marido!

— Mas ele é solteiro, esse misterioso conde.

— Vê muito bem que não — disse a baronesa, também rindo e apontando para a bela grega.

— Essa mulher é uma escrava, pelas próprias palavras dele, lembra-se, Morcerf, em seu almoço?

— Convenha, meu caro Lucien — disse a baronesa —, que parece mais uma princesa.

— Das Mil e uma noites.

— Das Mil e uma noites, não digo; mas o que faz uma princesa, meu caro? São os diamantes, e ela está coberta deles.

— É até um pouco exagerado — disse Eugénie. — Ficaria mais bonita sem eles, pois veríamos seu pescoço e seus braços, que têm uma forma encantadora.

— Oh, a artista! Bastou vê-la para se apaixonar — disse a sra. Danglars.

— Gosto de tudo que é belo — declarou Eugénie.

— Mas que acha do conde, então? — perguntou Debray. — Tampouco ele me parece mal.

— O conde?! — exclamou Eugénie, como se ainda não tivesse cogitado olhar para ele. — O conde é muito pálido.

— Justamente — disse Morcerf —, é nessa palidez que está o segredo que investigamos. A condessa G... sugere, a senhora sabe, que é um vampiro.

— Então a condessa G... está de volta? — perguntou a baronesa.

— Naquele camarote lateral — disse Eugénie —, quase à nossa frente, mamãe; aquela mulher, com lindos cabelos louros, é ela.

— Oh, sim! — disse a sra. Danglars. — Sabe o que deveria fazer, Morcerf?

— Ordene, senhora.

— Deveria fazer uma visita ao seu conde de Monte Cristo e trazê-lo até nós.

— Para quê? — perguntou Eugénie.

— Ora, para falarmos com ele; não está curiosa em conhecê-lo?

— Nem um pouquinho.

— Criança estranha! — murmurou a baronesa.

— Bem — disse Morcerf —, pode ser que ele venha espontaneamente.

Pronto, acaba de vê-la, senhora, e a cumprimenta.

A baronesa retribuiu o cumprimento ao conde, acompanhado de um sorriso encantador.

— Que seja — disse Morcerf —, eu me sacrifico; despeço-me e vou ver se não há um jeito de lhe falar.

— Vá até o camarote dele; é muito simples.

— Mas não fui apresentado.

— A quem?

— À bela grega.

— Não diz que é uma escrava?

— Sim, mas a senhora, por sua vez, sugere que é uma princesa... Não.

Espero que, ao me ver sair, ele saia.

— É possível. Vá!

— Pois não.

Morcerf cumprimentou e saiu. Efetivamente, no momento em que passava em frente ao camarote do conde, a porta se abriu; o conde falou algumas palavras em árabe a Ali, que permanecia no corredor, e pegou o braço de Morcerf.

Ali fechou a porta e ficou de pé à sua frente; no corredor, formava-se uma aglomeração em torno do núbio.

— Na verdade — disse Monte Cristo —, a sua Paris é uma cidade estranha e seus parisienses, um povo singular. Parece até que é a primeira vez que vêem um núbio. Observe-os aglomerando-se em volta do pobre Ali, que não sabe o que isso significa. Uma coisa eu lhe digo: por exemplo, um parisiense pode ir a Túnis, a Constantinopla, a Bagdá ou ao Cairo, e não farão uma roda em volta dele.

— É porque os seus orientais são pessoas sensatas e só olham para o que vale a pena ser visto; mas, acredite, Ali só goza dessa popularidade porque lhe pertence e porque, neste momento, o senhor é o homem da moda.

— Verdade?! E a quem devo esse favor?

— Por Deus! Ao senhor mesmo. O senhor dá como presente parelhas de mil luíses; salva a vida da mulher do procurador do rei; inscreve nas corridas, sob o nome de major Black, cavalos puro-sangue e jóqueis do tamanho de um sagüi; enfim, ganha taças de ouro e as faz de presente para as mulheres bonitas.

— E quem foi o demônio que lhe contou todas essas loucuras?

— Ora! Em primeiro lugar, a sra. Danglars, que morre de vontade de o ver em seu camarote, ou melhor, de que o vejam lá; em segundo, o jornal de Beauchamp; e, finalmente, minha própria imaginação. Por que chama seu cavalo de Vampa se quer manter-se incógnito?

— Ah, é verdade — disse o conde —, foi uma imprudência. Mas digame, o conde de Morcerf às vezes não vem ao Opéra? Procurei e não o vi em lugar nenhum.

— Ele virá esta noite.

— Ficará onde?

— No camarote da baronesa, acho.

— Essa encantadora pessoa que está com ela é filha dela?

— É.

— Receba meus cumprimentos.

Morcerf sorriu.

— Voltaremos a falar nisso mais tarde e em detalhe — ele disse. — Que acha da música?

— De que música?

— Ora, da que acaba de ouvir.

— Acho que é uma música belíssima, considerando que foi escrita por um compositor humano e é cantada por aves bípedes e sem

plumas, como dizia o finado Diógenes8.

— Puxa! Mas, meu caro conde, falando assim parece que o senhor pode ouvir a seu bel-prazer os sete cânticos do Paraíso...

— Não deixa de ser verdade. Quando quero ouvir música divina, visconde, música como nunca ouvido mortal ouviu, eu durmo.

— Excelente! Pois aqui o senhor está no lugar perfeito; durma, meu caro conde, durma, o Opéra não foi inventado para outra coisa.

— Não, na verdade essa orquestra faz muito barulho. Para que eu durma o sono de que falei, preciso de calma e silêncio, e depois de um certo ingrediente...

— Ah! O famoso haxixe?

— Justamente, visconde, quando quiser ouvir música, venha cear comigo.

— Mas já ouvi naquele almoço — disse Morcerf.

— Em Roma?

— É.

— Ah, era a guzla de Haydée. Sim, a infeliz exilada às vezes entretém-se tocando para mim canções do seu país.

Morcerf não insistiu mais; por sua vez, o conde se calou. Nesse momento soou a campainha.

— O senhor me dá licença? — perguntou o conde, dirigindo-se ao seu camarote.

— Pois não!

— Transmita muitas coisas à condessa G... da parte do seu vampiro.

— E à baronesa?

— Diga-lhe que terei a honra, caso ela permita, de ir lhe apresentar minhas homenagens ao longo da noite.

O espetáculo recomeçou. Durante o terceiro ato, o conde de Morcerf foi, como prometera, juntar-se à sra. Danglars.

O conde de Morcerf não era desses homens que fazem uma revolução numa sala; dessa forma, ninguém percebeu sua chegada senão aqueles em cujo camarote ele fora ocupar um lugar.

Monte Cristo, entretanto, avistou-o, e um leve sorriso aflorou em seus lábios.

Quanto a Haydée, não via nada enquanto a cortina estava aberta; como todas as naturezas primitivas, adorava tudo que fala ao ouvido e à visão.

O terceiro ato desenrolou-se como de costume; as srtas. Noblet,

Julia e Leroux executaram os entrechats de sempre9; o príncipe de

Granada foi desafiado por Roberto Mário10; enfim, aquele majestoso rei que vocês conhecem deu a volta na sala para mostrar seu manto de veludo, segurando a moça pela mão; depois o pano caiu, e a platéia desaguou imediatamente no foyer e nos corredores.

O conde deixou o seu camarote e, após um instante, apareceu no da baronesa Danglars.

A baronesa não conseguiu conter um grito de surpresa com uma pitadinha de alegria.

— Ah, que bom, sr. conde — ela exclamou —, pois na verdade eu estava ansiosa para juntar minhas desculpas verbais aos agradecimentos escritos que já lhe fiz.

— Oh, senhora — disse o conde —, ainda se lembra dessa ninharia? Eu já esquecera completamente.

— Sim; mas o que não se esquece, sr. conde, é que no dia seguinte o senhor salvou minha boa amiga sra. de Villefort do perigo a que a expuseram aqueles mesmos cavalos.

— Ainda assim, senhora, não mereço seus agradecimentos; foi Ali, meu núbio, que teve a felicidade de prestar o eminente serviço à sra. de Villefort.

— E foi Ali também — disse o conde de Morcerf — que salvou meu filho das garras dos bandoleiros romanos?

— Não, senhor conde — disse Monte Cristo apertando a mão que o general lhe estendia —, não; dessa vez recebo os agradecimentos na minha conta; mas o senhor já me agradeceu, já os recebi e, na verdade, sinto-me envergonhado de o ver ainda tão grato. Faça-me então a honra, por favor, sra. baronesa, de me apresentar à senhorita sua filha.

— Oh, o senhor está mais que apresentado, de nome pelo menos, pois há dois ou três dias o senhor é nosso único assunto. Eugénie — continuou a

baronesa, voltando-se para a filha —, o sr. conde de Monte Cristo.

O conde inclinou-se: a srta. Danglars fez um ligeiro movimento com a cabeça.

— Está acompanhado por uma bela moça, sr. conde — disse Eugénie.

— É sua filha?

— Não, senhorita — disse Monte Cristo, perplexo com aquela extrema ingenuidade ou aquela surpreendente segurança —, é uma infeliz grega da qual sou tutor.

— E que se chama...?

— Haydée — respondeu Monte Cristo.

— Uma grega! — murmurou o conde de Morcerf.

— Sim, conde — disse a sra. Danglars. — Diga-me agora se viu na

corte de Ali Tebelin11, que o senhor tão gloriosamente serviu, traje tão admirável como o que temos diante dos olhos.

— Ah! — disse Monte Cristo. — Serviu em Janina, sr. conde?

— Fui general-inspetor das tropas do paxá — respondeu Morcerf —, e minha modesta fortuna, não escondo, é fruto das liberalidades do ilustre chefe albanês.

— Olhem! — insistiu a sra. Danglars.

— Onde? — balbuciou Danglars.

— Lá! — disse Monte Cristo.

E, envolvendo o conde de Morcerf com o braço, debruçou-se junto com ele para fora do camarote.

Nesse instante, Haydée, que procurava o conde com os olhos, avistou seu rosto pálido ao lado do de Morcerf, com quem se mantinha abraçado.

Essa visão produziu na moça o efeito de uma cabeça de Medusa; fez um movimento para frente como que para devorar ambos com o olhar, depois, quase imediatamente, recuou, soltando um gritinho, que foi entretanto percebido pelas pessoas que se achavam mais próximas dela e de Ali, que prontamente abriu a porta.

— Mas o que está acontecendo com sua pupila, sr. conde? — perguntou Eugénie. — Parece não estar passando bem.

— Com efeito — disse o conde —, mas não se assuste, senhorita.

Haydée é muito nervosa e, por conseguinte, suscetível aos cheiros: um perfume que lhe seja desagradável basta para fazê-la desmaiar; mas —

acrescentou o conde, tirando um frasco do bolso —, tenho comigo o remédio.

E, após ter cumprimentado a baronesa e a filha com uma única saudação, trocou um derradeiro aperto de mão com o conde, em seguida com Debray, e saiu do camarote da sra. Danglars.

Quando voltou ao seu, Haydée ainda estava muito pálida; assim que ele apareceu, ela agarrou sua mão.

Monte Cristo percebeu que as mãos da rapariga estavam úmidas e geladas ao mesmo tempo.

— Com quem estava conversando, senhor? — perguntou a moça.

— Ora — respondeu Monte Cristo —, com o conde de Morcerf, que esteve a serviço do seu ilustre pai e que admite dever-lhe a fortuna.

— Ah, o miserável! — exclamou Haydée. — Foi ele que o vendeu aos turcos; e essa fortuna é o preço de sua traição. Então não sabia disso, querido amo?

— De fato, já ouvi falar alguma coisa sobre essa história no Épiro —

disse Monte Cristo —, mas ignoro os detalhes. Venha, minha filha, você irá me fornecê-los, deve ser curioso.

— Oh, sim, vamos; acho que morreria se permanecesse por mais tempo diante desse homem.

— Oh, sim, vamos; acho que morreria se permanecesse por mais tempo diante desse homem.

E Haydée, levantando rapidamente, envolveu-se em seu xale de cashmere branco bordado com pérolas e coral e saiu intempestivamente no momento em que o pano se abria.

— Veja se esse homem faz alguma coisa igual a alguém! — disse a condessa G... a Albert, que voltara para perto dela. — Ele escuta religiosamente o terceiro ato de Roberto, e vai embora justamente quando o quarto ato está prestes a começar.

1 Roberto Diabo: ópera em cinco atos, estreada em 1831, de Giacomo Meyerbeer (1791-1864), famoso compositor nascido na Alemanha.

2 Levasseur: Nicolas-Prosper Levasseur (1791-1871), cantor de ópera, baixo-dramático, que estreou em 1813 e foi o primeiro a interpretar o papel de Bertram, o salvador do protagonista diabólico.

3 Acteon: filho do tebano Aristeu e caçador vaidoso, Acteon foi transformado em cervo e devorado por cachorros, como castigo por haver surpreendido Diana enquanto esta se banhava.

4 Juno: nome latino de Hera, esposa e irmã de Zeus.

5 “diamante de Mlle Mars”: referência a um caso policial famoso na época, que versava sobre o roubo das jóias da Mlle Mars, diva teatral da época e amiga do autor.