O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 52 de 119

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O Conde de Monte Cristo

12. A família Morrel

— Receio que se entedie.

— Não creio, pois de manhã pensarei que você virá e à noite recordarei que você veio; aliás, quando estou sozinha, tenho grandes lembranças, revejo quadros imensos, vastos horizontes com o Pindo e o Olimpo ao longe; e depois, tenho no coração três sentimentos com os quais nunca nos entediamos: tristeza, amor e gratidão.

— Você é uma digna filha do Épiro, Haydée, graciosa e poética, e vê-se que descende dessa família de deusas que nasceu em seu país. Sendo assim, fique tranqüila, minha menina, farei com que sua juventude não se perca, pois, se me ama como a seu pai, amo-a como a minha filha.

— Está enganado, senhor; eu não amava meu pai como o amo; meu amor por você é um amor diferente. Meu pai está morto e eu não estou morta; ao passo que, se você morrer, morrerei.

O conde, com um sorriso de profunda tristeza, estendeu para a moça a sua mão, na qual, como de costume, ela imprimiu o toque de seus lábios.

E o conde, bem-disposto para a conversa que teria com Morrel e

sua família, partiu murmurando estes versos de Píndaro1: “A mocidade é uma flor cujo fruto é o amor... Feliz o vinhateiro que o colhe após tê-lo visto lentamente amadurecer.”

Conforme suas ordens, o coche estava pronto. Ele entrou e o coche, como sempre, partiu a galope.

1 Píndaro: poeta lírico greco (518-440 a.C.)

 

12. A família Morrel

Minutos depois, o coche estava na rua Meslay no14.

A casa era branca, risonha e precedida de um quintal no qual dois pequenos canteiros exibiam lindas flores.

No empregado que lhe abriu aquela porta o conde reconheceu o velho Coclès. Mas como este, lembramos, tinha apenas um olho e esse olho debilitara-se consideravelmente naqueles nove anos, Coclès não reconheceu o conde.

Os coches, para estacionar em frente à entrada, precisavam contornar um pequeno repuxo que esguichava de um laguinho de pedra, enfeite de luxo que despertara grande inveja no bairro e originara o apelido da casa:

“Pequeno Versalhes”.

Desnecessário dizer que no lago agitava-se uma profusão de peixes vermelhos e amarelos.

A casa, erguida sobre um andar de cozinhas e porões, tinha, além do térreo, dois andares completos e mansardas; os moços haviam-na comprado com dependências, que consistiam num imenso ateliê, dois pavilhões ao fundo de um jardim e o próprio jardim. Emmanuel, na primeira visita, vira naquela disposição um pequeno negócio a ser feito; reservara para si a casa, metade do jardim, e traçara uma linha, isto é, construíra um muro entre ele e os ateliês, que arrendara com os pavilhões e a área do jardim a eles contígua; de maneira que se via alojado por uma soma bastante módica e tão bem instalado em sua casa quanto o mais minucioso proprietário de um palacete do faubourg Saint-Germain.

A sala de jantar era de carvalho; o salão, todo em acaju e veludo azul; o quarto, em tons de limão e damasco verde; havia, além disso, um gabinete de trabalho para Emmanuel, que não trabalhava, e uma sala de música para Julie, que não tocava nenhum instrumento.

O segundo andar inteiro pertencia a Maximilien, que ali dispunha de uma reprodução exata dos aposentos da irmã, embora a sala de jantar estivesse convertida numa sala de bilhar, na qual se reunia com os amigos.

Ele mesmo supervisionava um curativo em seu cavalo, fumando seu charuto na entrada do jardim, quando o coche do conde parou em frente à casa.

Coclès abriu a porta, como dissemos, e Baptistin, lançando-se do assento, perguntou se o sr. e sra. Herbault e o sr. Maximilien Morrel

podiam receber o conde de Monte Cristo.

— O conde de Monte Cristo! — exclamou Morrel, jogando fora o charuto e lançando-se na direção do visitante. — Claro que podemos recebê-lo! Ah! Obrigado, cem vezes obrigado, senhor conde, por não ter esquecido a promessa.

E o jovem oficial apertou tão cordialmente a mão do conde que este pôde confirmar a franqueza do gesto, vendo claramente que havia sido aguardado com impaciência e recebido com entusiasmo.

— Venha, venha — disse Maximilien —, quero ser o seu arauto; um homem como o senhor não deve ser anunciado por um criado; minha irmã está no jardim, despetalando suas rosas murchas; meu irmão lê seus dois jornais, La Presse e Les Débats, a seis passos dela, pois, em qualquer lugar onde esteja a sra. Herbault, basta olhar num raio de quatro metros e o sr.

Emmanuel lá está; isto vale “reciprocamente”, como dizem na Escola Politécnica.

O barulho de passos fez se erguer a cabeça de uma moça de vinte a vinte cinco anos, vestindo um robe de chambre de seda e despetalando com um cuidado muito particular uma rosa-chá.

Essa mulher era a nossa pequena Julie, que se tornara, como previra o emissário da Thomson & French, sra. Emmanuel Herbault. Ao ver um estranho, ela soltou um grito. Maximilien pôs-se a rir.

— Não se faça de rogada, minha irmã — disse ele —, embora esteja em Paris há apenas dois ou três dias, o sr. conde já sabe o que é uma dona-de-casa do Marais e, se não sabe, você vai lhe ensinar.

— Ah, senhor! — disse Julie. — Trazê-lo dessa forma é uma traição do meu irmão, que não tem a menor consideração pela pobre da irmã...

Penelon! Penelon!

Um velho que capinava um canteiro de roseiras-de-bengala largou o ancinho na terra e se aproximou, boné nas mãos, dissimulando o máximo que podia um chícharo enfiado momentaneamente nas profundezas de suas bochechas. Algumas mechas brancas prateavam sua cabeleira ainda vasta, ao passo que sua pele bronzeada e seu olho atrevido e vivo revelavam o velho marujo, queimado pelo sol do equador e calejado pelo vento das tempestades.

— Pensei tê-la ouvido me chamar, srta. Julie — disse ele. — Estou aqui.

A sra. Emmanuel Herbault.

Penelon conservara o hábito de chamar a filha de seu patrão de senhorita Julie e nunca adquirira o hábito de chamá-la de sra. Herbault.

— Penelon — disse Julie —, vá avisar o sr. Emmanuel da maravilhosa visita que temos aqui, enquanto Maximilien conduzirá o cavalheiro ao salão.

Depois, voltando-se para Monte Cristo:

— O senhor permite que eu me ausente um minuto, não é mesmo?

E sem esperar pelo assentimento do conde, correu para trás de uma folhagem e dirigiu-se até a casa por uma aléia lateral.

— E essa agora, meu caro sr. Morrel — disse Monte Cristo —, aflige-me perceber que provoco uma revolução em sua família!

— Calma, calma — disse Maximilien rindo —, ainda não viu o marido, que deve estar trocando o casaco por um redingote! Oh, isso é porque o senhor é conhecido na rua Meslay, estava anunciado, peço-lhe que acredite.

— O senhor parece ter aqui uma família feliz — disse o conde, refletindo o próprio pensamento.

— Oh, sim! Respondo por isso, sr. conde; como pode ser de outra forma? Não lhes falta nada para ser felizes; são jovens, são alegres, amam-se e, com vinte e cinco mil libras de renda, eles imaginam, logo eles, que já conviveram com imensas fortunas, imaginam possuir a riqueza dos Rothschild.

— Mas isso é pouco, vinte e cinco mil libras de renda — disse Monte Cristo, com uma delicadeza tão sutil que penetrou no coração de Maximilien como se fosse a voz de um pai carinhoso. — Mas não vão parar por aí os nossos moços, vão ser milionários quando chegar a hora.

Seu cunhado é advogado... médico...?

— Era negociante, sr. conde, e havia assumido a empresa de meu desafortunado pai. O sr. Morrel morreu deixando uma fortuna de quinhentos mil francos; eu fiquei com metade, minha irmã com a outra, pois éramos apenas duas crianças. Seu marido, que a desposara sem possuir outro patrimônio a não ser sua nobre honestidade, sua inteligência de primeira linha e sua reputação imaculada, quis possuir o mesmo que sua mulher. Trabalhou até juntar duzentos e cinqüenta mil francos; seis anos foram suficientes. Era, juro, sr. conde, um espetáculo tocante o dessas duas crianças tão laboriosas, tão unidas, por sua capacidade destinadas à mais elevada fortuna e que, não querendo mudar nada na rotina da empresa paterna, levaram seis anos para fazer o que inovadores teriam feito em dois ou três; dessa forma, Marselha ainda ecoa os elogios que não puderam deixar de negar a tão corajosa abnegação. Finalmente, um dia, Emmanuel veio conversar com sua mulher, que terminava de pagar a hipoteca.

“— Julie — disse ele — eis o último maço de cem francos que Coclès acaba de me entregar, completando os duzentos e cinqüenta mil francos que fixamos como limite para os nossos ganhos. Esse pouco com que precisaremos nos contentar daqui para frente será satisfatório para você?

Escute, a empresa faz cerca de um milhão em negócios por ano e pode render quarenta mil francos de lucro. Se quisermos, dentro de uma hora podemos vender a clientela por trezentos mil francos, pois eis uma carta do sr. Delaunay, que nos oferece essa quantia em troca do nosso capital, que ele pretende juntar ao seu. Pense bem no que quer fazer.

“— Meu amigo — disse minha irmã —, a Casa Morrel não pode ser dirigida senão por um Morrel. Salvar o nome do nosso pai para todo o sempre das vicissitudes do destino, isso não vale por si só trezentos mil francos?

“— Era o que eu pensava — respondeu Emmanuel. — Mesmo assim, queria saber sua opinião.

“— Pois bem, meu amigo, ei-la. Todas as nossas receitas estão realizadas, todas as nossas promissórias, pagas; podemos colocar um ponto final embaixo da contabilidade desses últimos quinze dias e fechar nossos guichês; coloquemos esse ponto final e fechemos.

“O que foi feito no mesmo instante. Eram três horas. Às três e quinze, um cliente apresentou-se para fazer o seguro de dois navios; era um lucro líquido de quinze mil francos.

“— Senhor — disse Emmanuel —, para tal seguro queira dirigir-se ao nosso colega, o sr. Delaunay. Quanto a nós, deixamos os negócios.

“— E desde quando? — perguntou o cliente, espantado. “— Quinze minutos atrás.

“Aí está — continuou Maximilien, sorrindo — como minha irmã e meu cunhado dispõem apenas de vinte e cinco mil libras de renda.”

Maximilien mal terminava seu relato, durante o qual o coração do conde dilatara-se cada vez mais, quando Emmanuel reapareceu, restaurado por um chapéu e um redingote. Fez o cumprimento de quem conhece a qualidade do visitante; em seguida, depois de guiar o conde em torno do pequeno canteiro florido, levou-o de volta à casa.

O salão já estava perfumado com flores que mal cabiam num imenso vaso japonês de alças naturais. Julie, adequadamente vestida e graciosamente penteada (realizara essa façanha em dez minutos), apresentou-se para receber o conde à sua entrada.

Ouvia-se o cacarejo de aves num viveiro próximo; os galhos dos falsosébanos e das acácias cor-de-rosa vinham bordar com seus cachos as cortinas de veludo azul; tudo naquele refúgio pequeno e encantador respirava calma, desde o canto do passarinho até o sorriso dos donos da casa.

O conde absorvera essa felicidade logo que entrara; por isso estava mudo, sonhador, esquecendo-se de que o aguardavam para continuar a conversa interrompida após os primeiros cumprimentos.

Percebeu esse silêncio, agora quase inconveniente, e, desvencilhando-se de seu devaneio, disse finalmente:

— Senhora, perdoe-me por uma emoção que deve surpreendê-la, pois está acostumada com essa paz e felicidade que encontrei aqui; mas, para mim, é coisa tão inédita ver a satisfação num rosto humano, que não me canso de olhar para a senhora e seu marido.

— Somos realmente muito felizes, senhor — replicou Julie. — Mas sofremos durante muito tempo, e poucas pessoas pagaram tão caro pela felicidade como nós.

A curiosidade desenhou-se nos traços do conde.

— Oh, é uma história comprida de família, como lhe dizia outro dia Château-Renaud — interveio Maximilien. — Para o senhor, conde, habituado a ver ilustres infortúnios e alegrias esplêndidas, haveria pouco interesse nessa cena íntima. No entanto, como Julie acaba de dizer, sofremos dores crudelíssimas, embora restritas a esse âmbito modesto...

— E Deus dispensou-lhes, como o faz para todos, consolo para o sofrimento? — perguntou Monte Cristo.

— Sim, sr. conde — disse Julie. — De certa maneira, pois fez por nós o que não faz senão para seus eleitos: enviou-nos um de seus anjos.

O rubor subiu às faces do conde, e ele tossiu para dissimular sua emoção levando o lenço à boca.

— Os que nasceram num berço de ouro e nunca desejaram nada — disse Emmanuel — não sabem o que é a felicidade de viver; assim como os que não conhecem o valor de um céu aberto, pois nunca tiveram sua vida à mercê de quatro tábuas lançadas num mar furioso.

Monte Cristo levantou-se e, sem nada dizer, pois o tremor de sua voz poderia deixar transparecer a emoção que o agitava, começou a percorrer o salão passo a passo.

— Nossa magnificência o faz sorrir, sr. conde — disse Maximilien, que seguia Monte Cristo com os olhos.

— Não, não — respondeu Monte Cristo, bastante pálido e comprimindo com uma das mãos as batidas do seu coração, enquanto com a outra mostrava ao rapaz uma redoma de cristal sob a qual uma bolsa de seda repousava preciosamente deitada sobre uma almofada de veludo negro. —

Eu apenas me perguntava para que serve essa bolsa, que, de um lado, contém um papel, me parece, e do outro, um belíssimo diamante.

Maximilien assumiu um ar grave e respondeu:

— Isso, sr. conde, é o nosso tesouro de família mais precioso.

— Realmente, é um diamante belíssimo — replicou Monte Cristo.

— Oh, meu irmão, não se refere ao preço da pedra, embora esteja avaliada em cem mil francos; ele quer apenas dizer que os objetos guardados nessa bolsa são as relíquias do anjo de que lhe falávamos.

— Aí está algo que não compreendo e que, ainda assim, não devo perguntar, senhora — disse Monte Cristo, inclinando-se. — Perdoe-me, não quis ser indiscreto.

— Indiscreto, foi o que disse? Oh, ao contrário, sr. conde, o senhor nos deixa felizes ao criar uma oportunidade para que falemos sobre o assunto!

Se escondêssemos como um segredo a bela ação evocada por essa bolsa, não a exporíamos assim aos olhos de todos. Oh, gostaríamos de poder difundi-la por todo o universo, para que um frêmito do nosso desconhecido benfeitor nos revelasse sua presença.

— É verdade? — perguntou Monte Cristo, com uma voz abafada.

— Senhor — disse Maximilien, levantando a redoma de cristal e beijando religiosamente a bolsa de seda —, isso foi tocado pela mão de um homem que salvou o meu pai da morte, a nós, da ruína, e nosso nome, da vergonha; de um homem graças a quem, hoje, nós, pobres crianças fadadas à miséria e às lágrimas, podemos ouvir pessoas extasiarem-se diante da nossa felicidade. Essa carta — e Maximilien tirou um papel da bolsa e apresentou-o ao conde —, essa carta foi escrita por ele no dia em que meu pai tomara uma resolução desesperada, e esse diamante foi dado como dote à minha irmã por esse generoso desconhecido.

Monte Cristo abriu o papel e a leu com uma indefinível expressão de felicidade; era o bilhete que nossos leitores conhecem, dirigido a Julie e assinado Simbad, o marujo.

— Desconhecido? Quer dizer que o homem que lhes prestou esse serviço permaneceu desconhecido?

— Sim, senhor, nunca tivemos a felicidade de apertar sua mão; entretanto, não foi por falta de pedir a Deus esse favor — disse Maximilien. — Porém, houve em toda essa aventura uma misteriosa supervisão que continuamos sem entender; tudo foi conduzido por uma mão invisível, poderosa como a de um feiticeiro.

— Oh — disse Julie —, ainda não perdi completamente a esperança de um dia beijar essa mão como beijo a bolsa que ela tocou. Há quatro anos, Penelon estava em Trieste: Penelon, sr. conde, é esse bravo marujo que o

senhor viu com um ancinho na mão, e que, de contramestre, passou a jardineiro. Penelon, portanto, estando em Trieste, viu no cais um inglês que ia embarcar num iate e reconheceu aquele que veio à casa de meu pai em 5 de junho de 1829 e me escreveu esse bilhete em 5 de setembro. Era efetivamente o mesmo, ele assegura, mas não ousou dirigir-lhe a palavra.

— Um inglês! — disse Monte Cristo, sonhador e que se inquietava com cada olhar de Julie. — Um inglês, foi o que ouvi?

— Sim — respondeu Maximilien —, um inglês que se apresentou em nossa casa como emissário da financeira Thomson & French de Roma. Eis porque, quando o senhor disse outro dia na casa do sr. de Morcerf que os srs. Thomson & French eram seus banqueiros, o senhor me viu estremecer.

Pelo amor de Deus, senhor, isso aconteceu, como dissemos, em 1829; conheceu esse inglês?

— Mas não me disse também que a Thomson & French havia negado reiteradamente ter-lhes prestado esse serviço?

— Sim.

— Por acaso esse inglês não seria um homem que, grato ao seu pai por alguma boa ação que ele próprio esquecera, teria aproveitado o pretexto para lhe prestar um serviço?

— Tudo é possível nessas circunstâncias, senhor, até mesmo um milagre.

— Qual era o nome dele?

— Não nos deixou outro nome — respondeu Julie, olhando para o conde mais detidamente — a não ser aquele com que assinou o bilhete: Simbad, o marujo.

— O que, sem dúvida, não é um nome, mas um pseudônimo.

Então, enquanto Julie observava-o ainda mais detidamente e tentava captar e reunir algumas notas de sua voz:

— Vejamos — continuou ele —, não seria um homem mais ou menos da minha altura, um pouco mais alto talvez, um pouco mais magro, aprisionado numa gravata alta, abotoado, forte, cintado e sempre de lápis na mão?

— Oh, mas então o conhece? — exclamou Julie, os olhos faiscando de alegria.

— Não — disse Monte Cristo —, apenas suponho. Conheci um lorde Wilmore que era pródigo em generosidades.

— Sem se revelar...

— Era um homem extravagante que não acreditava na gratidão.

— Oh! — exclamou Julie num tom sublime, juntando as mãos. — Em que acredita então o infeliz?

— Não acreditava, pelo menos na época em que o conheci — disse Monte Cristo, tocado até a última fibra por aquela voz emanada do fundo da alma —, mas pode ser que depois disso tenha tido alguma prova da existência da gratidão.

— E conhece esse homem, senhor? — perguntou Emmanuel.

— Oh, se o conhece, senhor — exclamou Julie —, fale, fale, pode nos levar até ele, mostrá-lo, dizer onde está? Insista, Maximilien, insista Emmanuel; se um dia viéssemos a encontrá-lo, ele seria obrigado a acreditar na memória do coração.

Monte Cristo sentiu duas lágrimas rolarem de seus olhos; deu mais alguns passos pelo salão.

— Pelo amor de Deus, senhor — disse Maximilien —, se sabe alguma coisa sobre esse homem, conte-nos o que sabe!

— Que pena! — disse Monte Cristo, represando a emoção de sua voz.

— Se for lorde Wilmore o seu benfeitor, temo de fato que nunca mais o vejam. Despedi-me dele há dois ou três anos em Palermo; e estava de partida para os países mais fabulosos do mundo, de modo que duvido muito que volte um dia.

— Ah, como o senhor é cruel! — exclamou Julie com pavor. E as lágrimas vieram aos olhos da jovem.

— Senhora — disse gravemente Monte Cristo, devorando com o olhar as duas pérolas líquidas que rolavam sobre as faces de Julie —, se lorde Wilmore tivesse visto o que acabo de ver aqui, ele ainda amaria a vida, pois as lágrimas que a senhora derrama iriam reconciliá-lo com o gênero humano.

E estendeu a mão para Julie, que lhe deu a sua, arrastada que se via pelo olhar e pela inflexão do conde.

— Mas esse lorde Wilmore — disse ela, agarrando-se a uma última esperança — tinha um país, uma família, pais, era conhecido, enfim? Será que não poderíamos...?

— Oh, não procure, senhora — disse o conde —, não alimente doces quimeras acerca disso que deixei escapar. Não, provavelmente lorde Wilmore não é o homem a quem procura: era meu amigo, eu conhecia todos os seus segredos, ele teria me contado este.

— E ele não lhe disse nada? — exclamou Julie.

— Nada.

— Nunca nenhuma palavra que o tivesse feito supor...?

— Nunca.

— Entretanto, o senhor disse o nome dele sem piscar.

— Ah, é possível... nesses casos, a gente supõe.

— Minha irmã, minha irmã — disse Maximilien, vindo em socorro do conde —, o cavalheiro tem razão. Lembre-se do que o nosso bondoso pai nos dizia freqüentemente: “Não foi um inglês que nos proporcionou essa felicidade.”

Monte Cristo estremeceu.

— O seu pai lhes dizia... o sr. Morrel...? — perguntou, agitado.

— Meu pai, senhor, considerava esse episódio um milagre. Meu pai acreditava num benfeitor que teria saído do túmulo por nós. Oh, era uma superstição comovente, senhor, e eu mesmo, a despeito de não acreditar nela, estava longe de querer destruir tal crença em seu nobre coração! Por exemplo, quantas vezes ele não sonhou, pronunciando baixinho o nome de um amigo querido, o nome de um amigo perdido? E, quando estava prestes a morrer, quando a aproximação da eternidade imprimiu em seu espírito algo da iluminação do túmulo, esse pensamento, que até então não passara de uma desconfiança, tornou-se uma convicção, e as últimas palavras que ele pronunciou agonizante foram estas: “Maximilien, era Edmond Dantès!”