O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 110 de 119

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O Conde de Monte Cristo

11. O juiz

2 Quos egos: citação de Virgílio, Eneida, canto I, v.135: “O assenso foi geral: cada um tolera/

Que a sorte que temia em mim recaia./ Negreja o dia infausto: o rito encetam,/ Cingem-me a venda, o salso farro aprestam./ Rompo as cordas, confesso, a morte evito.” (tradução de Odorico Mendes)

3 “chutar não com pantufas, mas com sapatos chumbados”: originalmente, a savata era um tipo de chinelo usado na Turquia.

4 “é o senhor que está dizendo”: alusão à tragédia Fedra, ato I, cena 3.

5 Pixérécourt: René-Charles Guilbert de Pixérécourt (1773-1844), dramaturgo, chamado o “pai do melodrama”. Em trinta anos escreveu mais de cem peças, em sua maioria contendo um episódio de reconhecimento de alguém numa situação extrema, graças a alguma marca física ou a algum objeto conservado.

11. O juiz

Todos recordam que o abade Busoni ficara a sós com Noirtier na câmara fúnebre, onde o velho e o sacerdote se haviam constituído em guardiões do corpo da jovem.

É possível que as exortações cristãs do abade, sua meiga caridade, sua palavra persuasiva hajam devolvido coragem ao velho, pois, desde o momento em que este pudera conferenciar com o sacerdote, em vez do desespero que a princípio se apoderara dele, tudo em Noirtier anunciava uma grande resignação, uma calma mais do que surpreendente para todos que lembravam da profunda afeição por ele dedicada a Valentine.

O sr. de Villefort não voltara a estar com o velho desde a manhã daquela morte. Toda a criadagem fora renovada. Ele contratara um novo criado de quarto para si próprio, outro servidor para Noirtier; duas mulheres entraram para o serviço da sra. de Villefort. Todos, até o porteiro e o cocheiro, ofereciam novos rostos, cujo perfil havia sido modelado, por assim dizer, de acordo com os diferentes senhores daquela casa maldita, já compreendidas as relações bastante frias entre eles. A propósito, o tribunal iria reunir-se dali a três dias, e Villefort, enclausurado em seu gabinete, trabalhava febrilmente no processo movido contra o assassino de Caderousse. Esse caso, como todos aqueles em que o conde de Monte Cristo via-se envolvido, causara sensação na sociedade parisiense. As provas não eram convincentes, uma vez que repousavam em algumas palavras escritas por um foragido moribundo, ex-companheiro de cela daquele a quem acusava, e que podia estar acusando seu companheiro por ódio ou por vingança. Apenas o veredito do magistrado ganhara corpo, pois o procurador do rei havia chegado à terrível conclusão de que Benedetto era culpado, e pretendia extrair do difícil triunfo jurídico um desses afagos de amor-próprio que eram os únicos a despertar um pouco as fibras de seu coração gelado.

O processo corria, portanto, graças ao trabalho incessante de Villefort, que pretendia transformá-lo na estréia da próxima magistratura. Assim, fora obrigado a recolher-se mais que nunca de modo a evitar ter de responder à prodigiosa quantidade de pedidos que recebia no sentido de obter credenciais para a audiência.

É bom lembrar que, se pouco tempo transcorrera desde que a infeliz Valentine fora depositada no túmulo, a dor da casa ainda era tão recente

que ninguém se espantava ao ver o pai tão severamente absorto em seu trabalho, isto é, na única distração que encontrava para seu tormento.

Apenas uma vez, era o dia seguinte àquele em que Benedetto recebera a segunda visita de Bertuccio, quando este ficara de revelar o nome de seu pai, no dia seguinte àquele, que foi um domingo, apenas uma vez, nós dizíamos, Villefort estivera com seu pai. Foi num momento em que o magistrado, esgotado de cansaço, descera até o jardim de seu palacete e, taciturno, vergado por um

pensamento implacável, como Tarquínio1 enquanto decepava com sua chibata as cabeças das papoulas mais altas, o sr. de Villefort decepava com sua bengala os longos e agonizantes caules das rosas que se erguiam ao longo das aléias, como espectros dessas flores tão brilhantes na estação que acabava de terminar.

Por mais de uma vez alcançara o fundo do jardim, isto é, aquele famoso portão de tábuas que dá para o cercado abandonado, voltando sempre pela mesma aléia, retomando seu passeio com o mesmo passo e o mesmo gesto. Então seus olhos dirigiram-se mecanicamente para a casa, na qual ouviu as brincadeiras ruidosas do filho, que viera do internato passar o domingo e a segunda-feira junto à mãe.

Nesse momento, viu em uma das janelas abertas o sr. Noirtier, que pedira para empurrarem sua cadeira de rodas até ali a fim de aproveitar os últimos raios de um sol ainda quente, os quais acabavam de saudar as flores agonizantes das ipoméias e as folhas avermelhadas das parreiras virgens que cobriam a sacada.

O olho do velho estava apontado, por assim dizer, para um ponto que Villefort só avistava de maneira imperfeita. Esse olhar de Noirtier era tão raivoso, tão selvagem, tão aflito de impaciência, que o procurador do rei, calejado em captar todas as impressões daquele rosto que conhecia tão bem, desviou-se da linha que percorria para ver sobre que pessoa recaía o olhar acachapante.

Viu então, sob um arbusto de tílias com galhos já quase secos, a sra. de Villefort, que, sentada com um livro nas mãos, interrompia de vez em quando a leitura sorrindo para o filho ou devolvendo-lhe sua bola de borracha, que ele lançava obstinadamente do salão para o jardim.

Villefort empalideceu, pois compreendia as intenções do velho.

Noirtier continuava a olhar para o mesmo objeto, porém, de repente seu olhar transferiu-se da mulher para o marido, e foi o próprio Villefort quem sofreu o assédio daqueles olhos fulminantes, os quais, ao mudarem de

objeto, mudaram também de linguagem, sem todavia nada perder de sua ameaçadora expressão.

A sra. de Villefort, alheia a todas as paixões, cujos fogos cruzados passavam acima de sua cabeça, segurava naquele momento a bola do filho, fazendo-lhe sinal com um beijo para que fosse pegá-la. Mas Édouard fez-se de rogado. Provavelmente a carícia materna não lhe parecia recompensa suficiente para o incômodo que teria. Finalmente decidiu-se: pulou pela janela no meio de um canteiro de girassóis e margaridas e correu para a sra. de Villefort com a testa encharcada de suor. A mãe enxugou sua testa, pousou os lábios naquele marfim macilento e despachou a criança com sua bola em uma das mãos e um punhado de caramelos na outra.

Villefort, hipnotizado por uma atração irresistível, assim como o pássaro é hipnotizado pela serpente, aproximou-se da casa. À medida que se aproximava, o olhar de Noirtier descia, seguindo-o, e o fogo de suas pupilas parecia ganhar tamanho grau de incandescência que Villefort sentia-se devorado por ele até o fundo do coração. Com efeito, liam-se naquele olhar uma censura cruel e uma terrível ameaça. Então as pálpebras e os olhos de Noirtier ergueram-se para os céus como se ele lembrasse ao filho um juramento esquecido.

— Está bem, senhor! — replicou Villefort, do pátio. — Está bem! Mais um dia de paciência; o que eu lhe disse está dito.

Noirtier pareceu sossegar com essas palavras, e seus olhos voltaram-se com indiferença para o outro lado.

Villefort desabotoou violentamente seu redingote, que o abafava, passou a mão lívida na testa e voltou para o seu gabinete.

A noite transcorreu fria e tranqüila. Como sempre, naquela casa, foram todos para cama e dormiram. Sozinho também, como sempre, Villefort absolutamente não se deitou junto com os demais e trabalhou até as cinco da manhã, revendo os últimos interrogatórios feitos na véspera pelos promotores, compilando os depoimentos das testemunhas e imprimindo clareza à sua acusação, uma das mais enérgicas e habilmente concebidas que já tecera.

Era no dia seguinte, segunda-feira, que deveria se realizar a primeira sessão do ano. Villefort viu esse dia nascer lívido e sinistro, e seu fulgor azulado veio fazer refletir no papel as linhas traçadas a tinta vermelha. O

magistrado dera um cochilo enquanto sua lamparina dava os últimos

suspiros. Acordou com suas crepitações, os dedos úmidos e avermelhados como se os tivesse mergulhado em sangue.

Abriu a janela: uma grande faixa alaranjada atravessava o céu ao longe e recortava ao meio os álamos esguios que se perfilavam em silhueta no horizonte. Na plantação de alfafa, do outro lado do pomar das amendoeiras, uma cotovia subia pelos ares emitindo seu trinado claro e matinal.

O ar úmido da aurora irrigou a cabeça de Villefort e refrescou sua memória.

— É hoje — disse ele com esforço. — Hoje o homem que empunhará o gládio da justiça tem o dever de castigar todos os culpados, sejam eles forem.

Seu olhar então, fugindo ao controle, procurou a janela de Noirtier, que se projetava defronte, a mesma onde vira o velho um dia antes.

A cortina estava fechada.

A imagem de seu pai, entretanto, estava tão impregnada nele que o procurador se dirigiu à janela fechada como se estivesse aberta e como se, por aquele vão, ainda enxergasse o velho ameaçador.

— Sim — murmurou —, sim, fique tranqüilo!

Sua cabeça recaiu sobre o peito e, com ela assim inclinada, Villefort deu algumas voltas pelo gabinete, terminando por atirar-se todo vestido num sofá, menos para dormir que para relaxar seus membros enrijecidos pelo cansaço e pela frieza de seu trabalho, a qual penetra até a medula dos ossos.

Pouco a pouco, todo mundo acordou. Villefort, de seu gabinete, ouviu os ruídos sucessivos que constituem, por assim dizer, a vida da casa: portas movendo-se, o tilintar da sineta da sra. de Villefort chamando a camareira, os primeiros gritos da criança, que acordava alegre como em geral acorda-se nessa idade.

Villefort tocou, por sua vez. Seu novo criado de quarto entrou em seus aposentos e trouxe-lhe os jornais.

Junto com os jornais, trouxe uma xícara de chocolate.

— O que está me servindo? — perguntou Villefort.

— Uma xícara de chocolate.

— Não pedi absolutamente nada. Quem se atreve a cuidar de mim?

— A patroa. Ela me informou que hoje provavelmente o senhor iria falar muito nesse caso de assassinato e que precisava recuperar as forças.

E o criado depositou na mesa perto do sofá, como todas as outras abarrotada de papéis, a xícara de estanho.

O criado saiu.

Villefort, por um instante, olhou a xícara com uma expressão sombria, depois, de repente, agarrou-a com um gesto nervoso e engoliu de uma vez só o líquido nela contido. Era como se esperasse que aquela beberagem fosse mortal e ele recorresse à morte para livrar-se de um dever imposto por alguma coisa bem mais difícil que morrer. Em seguida, levantou-se e deambulou pelo gabinete, com uma espécie de sorriso que teria sido terrível de ver se alguém o estivesse observando.

O chocolate era inofensivo, e o sr. de Villefort não sentiu nada.

Chegada a hora do almoço, ele não apareceu na mesa. O criado voltou ao gabinete.

— A patroa manda avisá-lo — disse — que acaba de dar onze horas e a audiência está marcada para o meio-dia.

— Muito bem! — reagiu Villefort. — E daí?

— A patroa fez sua toalete. Está pronta e pergunta se ela o acompanhará.

— Aonde?

— Ao Tribunal.

— Por que o faria?

— A patroa diz que deseja muito assistir a esse julgamento.

— Ah! — exclamou Villefort, num tom quase tenebroso. — Ela deseja!

O criado recuou um passo e disse:

— Se deseja ir sozinho, direi à patroa.

Villefort permaneceu mudo por um instante. Escavava com as unhas sua face pálida, com a qual contrastava a barba negra como ébano.

— Diga à patroa — respondeu finalmente — que desejo falar com ela e peço que ela me espere em seu quarto.

— Sim, senhor.

— Depois volte para me barbear e vestir.

— Agora mesmo.

O criado efetivamente foi e voltou, fez a barba em Villefort e o vestiu solenemente de preto.

Depois que terminou, disse:

— A patroa mandou avisar que o esperaria assim que tivesse terminado sua toalete.

— Estou a caminho.

E Villefort, sobraçando os autos, chapéu na mão, dirigiu-se aos aposentos da mulher.

Na porta, parou um instante e enxugou com o lenço o suor que escorria em sua testa lívida.

Em seguida, empurrou a porta.

A sra. de Villefort estava sentada numa otomana, folheando impacientemente jornais e brochuras que o menino Édouard divertia-se a rasgar antes mesmo que sua mãe tivesse tempo de terminar a leitura.

Estava inteiramente pronta para sair: seu chapéu esperava-a numa poltrona, ela usava luvas.

— Ah, cá está o senhor — disse a sra. de Villefort, com sua voz calma e natural. — Meu Deus, como está pálido! Passou a noite inteira trabalhando?

Por que não veio almoçar conosco? Enfim! Vai me levar ou irei sozinha com Édouard?

Como se vê, a sra. de Villefort multiplicou as tentativas de obter uma resposta, mas diante de todas aquelas perguntas o sr. de Villefort permanecera mudo como uma estátua.

— Édouard — disse Villefort, fixando na criança um olhar imperioso

—, vá brincar no salão, meu querido, preciso conversar com sua mãe.

A sra. de Villefort, ao se deparar com aquele aspecto frio, aquele tom resoluto, aquelas preliminares insólitas, estremeceu.

Édouard levantou a cabeça e olhou para a mãe. Depois, ao ver que ela não confirmava a ordem do sr. de Villefort, tornou a decepar a cabeça dos seus soldadinhos de chumbo.

— Édouard! — gritou o sr. de Villefort, tão rudemente que a criança pulou no tapete. — Está me ouvindo! Suma daqui!

A criança, para quem esse tratamento era inusitado, pôs-se de pé e empalideceu. Teria sido difícil dizer se era de raiva ou de medo.

Seu pai foi até ele, agarrou-o pelo braço e o beijou na testa.

— Saia — disse ele —, saia, meu filho! Édouard saiu.

O sr. de Villefort foi até a porta e passou o trinco depois que ele saiu.

— Oh, meu Deus! — fez a jovem mulher, olhando para o marido até o fundo da alma e esboçando um sorriso que congelou a impassibilidade de Villefort. — O que houve, afinal?

— Senhora, onde guarda o veneno que utiliza com tanta freqüência?

— articulou nitidamente e sem preâmbulo o magistrado, em pé entre a mulher e a porta.

A sra. de Villefort sentiu o que deve sentir a cotovia ao avistar acima de sua cabeça o milhafre, diminuindo seus círculos assassinos.

Um som rouco, aflito, que não era nem um grito nem um suspiro, escapou do peito da sra. de Villefort, que empalideceu até a lividez.

— Senhor — disse ela —, não... não compreendo.

E como que sobressaltada por um paroxismo de terror, num segundo paroxismo decerto mais violento que o primeiro, deixou-se cair novamente nas almofadas do sofá.

— Eu lhe perguntava — continuou Villefort, com uma voz perfeitamente calma — em que lugar a senhora escondia o veneno com a ajuda do qual matou meu sogro, o sr. de Saint-Méran, minha sogra, Barrois e minha filha Valentine.

— Ah, senhor! — exclamou a sra. de Villefort, juntando as mãos num gesto de reza. — O que está dizendo?

— Não lhe cabe interrogar-me, mas responder-me.

— Ao marido ou ao juiz? — balbuciou a sra. de Villefort.

— Ao juiz, senhora! Ao juiz!

— Senhora, onde guarda o veneno que utiliza com tanta freqüência?

Era um espetáculo horrível a palidez daquela mulher, a angústia de seu olhar, o tremor de todo o seu corpo.

— Ah, senhor — murmurou ela —, ah, senhor...! — e foi tudo.

— Não responde, senhora? — exclamou o terrível inquisidor.

Acrescentou então, com um sorriso ainda mais aterrador que seu ódio:

— Ao mesmo tempo, não nega! Ela esboçou um gesto.

— E não poderia negar — acrescentou Villefort, esticando a mão para ela como que para agarrá-la em nome da justiça. — A senhora perpetrou esses diferentes crimes com uma impudência habilidosa, a qual entretanto só era capaz de lograr pessoas propensas, por afeição à senhora, a fecharem os olhos em seu benefício. Desde a morte da sra. de Saint-Méran, sei que há um envenenador dentro da minha casa, o sr. d’Avrigny já me advertira. Depois da morte de Barrois, Deus meu perdoe, minhas suspeitas voltaram-se contra alguém, contra um anjo! Suspeitas que, mesmo onde não existe crime, velam incessantemente acesas no fundo do meu coração. Porém, após a morte de Valentine, não me restaram mais

dúvidas, senhora, e não apenas a mim, a outros também. Portanto, seu crime, agora do conhecimento de duas pessoas, suspeitado por muitas mais, irá tornar-se público, e, como eu lhe dizia há pouco, senhora, não é mais um marido que lhe dirige a palavra, mas um juiz!

A jovem mulher escondeu o rosto entre as mãos.

— Oh, senhor! — balbuciou. — Eu lhe suplico, não acredite nas aparências!

— Por acaso é covarde? — berrou Villefort, com uma voz desdenhosa.

— Com efeito, sempre notei que os envenenadores eram covardes. Seria por acaso covarde, a senhora, que teve a hedionda coragem de ver expirar à sua frente dois anciãos e uma jovem assassinados por suas mãos?

— Senhor, senhor!

— Seria a senhora covarde — continuou Villefort com uma exaltação crescente —, que contou um a um os minutos de quatro agonias, a senhora, que tramou seus planos infernais e fabricou suas infames beberagens com habilidade e precisão tão milagrosas? Teria a senhora, que tramou tudo tão bem, se esquecido de calcular um único detalhe, isto é, aonde poderia levá-la a revelação de seus crimes? Oh, isso é impossível, e a senhora reservou algum veneno mais suave, mais sutil e mais mortífero que os outros para escapar ao castigo que merece... Fez isso? É o mínimo que espero!

A sra. de Villefort contorceu as mãos e caiu de joelhos.

— Sei muito bem... sei muito bem — disse ele —, está confessando.

Mas a confissão feita a juízes, a confissão feita no último instante, a confissão feita quando não se pode mais negar, essa confissão não diminui em nada o castigo infligido ao culpado!

— O castigo! — exclamou a sra. de Villefort. — O castigo, senhor? É a segunda vez que pronuncia essa palavra.

— Sem dúvida. Será que acreditava escapar pelo fato de ser quatro vezes culpada? Será por ser mulher de quem exige o castigo que acreditou livrarse desse castigo? Não, senhora, não! Seja quem for ela, o cadafalso espera a envenenadora, principalmente, como ainda há pouco eu lhe dizia, quando a envenenadora não teve a precaução de guardar para si algumas gotas do seu veneno mais infalível.

A sra. de Villefort deixou escapar um grito selvagem, e o terror hediondo e indomável invadiu seu semblante desfigurado.

— Oh, não receie o cadafalso, senhora — disse o magistrado —, não quero desonrá-la, pois isso seria desonrar a mim mesmo. Não, ao contrário, se me ouviu bem, deve compreender que não pode morrer no cadafalso.

— Não, não compreendi. O que está querendo dizer? — balbuciou a infeliz, completamente aterrada.

— Que a esposa do primeiro magistrado da capital não irá conspurcar com sua infâmia um nome sem mancha, assim como não desonrará marido e filho ao mesmo tempo.

— Não, oh, não!

— Ora, madame! Será uma boa ação da sua parte, e, por essa boa ação, eu lhe agradeço.

— Agradece-me! E por quê?

— Pelo que acaba de me dizer.

— O que foi que eu disse? Estou meio perdida, não compreendo mais nada, meu Deus, meu Deus!

E levantou-se com os cabelos desgrenhados e os lábios espumantes.

— A senhora respondeu à pergunta que lhe fiz ao entrar aqui: “Onde guarda o veneno que utiliza com tanta freqüência?”

A sra. de Villefort ergueu os braços para os céus e apertou convulsivamente as mãos uma na outra.

— Não, não — vociferou ela. — Não, o senhor não quer isso!

— O que eu não quero, senhora, é que morra num cadafalso, afinal entender? — respondeu Villefort.

— Oh, senhor, misericórdia!

— O que eu quero é que a justiça seja feita. Estou na terra para punir, senhora — acrescentou ele com um olhar flamejante. — Para outra mulher qualquer, ainda que fosse uma rainha, eu destinaria o carrasco. Com a senhora, serei misericordioso. À senhora, digo: “Não é verdade que guardou algumas gotas do seu veneno mais suave, mais instantâneo e mais mortífero?”

— Oh, perdão, senhor, deixe-me viver!

— Covarde! — gritou Villefort.

— Pense que sou sua mulher!

— É uma envenenadora!

— Em nome dos céus...!

— Não!

 

— Em nome do amor que sentiu por mim...!

— Não! Não!

— Em nome do nosso filho! Ah, pelo nosso filho, deixe-me viver!

— Não, não e não, repito! Se a deixasse viver, talvez um dia a senhora viesse a matá-lo como aos outros.

— Eu! Matar meu filho! — exclamou aquela mãe selvagem, arrojandose na direção de Villefort. — Eu! Matar meu Édouard...! Ha! Ha!

E uma risada pavorosa, uma risada de demônio, uma risada de louca terminou a frase e perdeu-se num estertor feroz.

A sra. de Villefort estava caída aos pés do marido.

— Em nome do nosso filho!

Villefort aproximou-se dela.

— Preste atenção, senhora — disse ele —, se, ao meu retorno, a justiça não estiver feita, denuncio-a pessoalmente e prendo-a com minhas próprias mãos.

Ela escutava, cambaleante, prostrada, esmagada. Apenas seu olho vivia, alimentado por um fogo terrível.

— A senhora me ouviu — disse Villefort —, irei até lá pedir a pena de morte para um assassino... Se na volta encontrá-la viva, a senhora dormirá esta noite na delegacia.

A sra. de Villefort deu um suspiro, seus nervos relaxaram e ela prostrouse devastada no tapete.

O procurador do rei pareceu sentir um rasgo de piedade, olhou-a menos severamente e, inclinando-se levemente à sua frente, disse, numa voz pausada:

— Adeus, senhora, adeus!

Esse adeus caiu como a lâmina mortal sobre a sra. de Villefort. Ela desmaiou.

O procurador do rei saiu e, ao sair, deu duas voltas na fechadura.

1 Tarquínio: Lúcio Tarquínio (656-578 a.C.), também chamado o Soberbo, foi o último rei de Roma e o terceiro dos reis Tarquínios, o qual decepou a cabeça das papoulas para mostrar a seu filho como deceparia seus inimigos. Citado numa passagem da História romana, I, 54, de Tito Lívio.