O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 77 de 119

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O Conde de Monte Cristo

18. A ata

— Desculpe, senhor — respondeu Franz, no tom de um homem que tomou sua decisão. — Não posso perder esta oportunidade de provar ao sr.

Noirtier que ele estava errado em nutrir antipatias contra mim. Estou decidido a vencê-las, sejam elas quais forem, com meu profundo devotamento.

E, sem mais se deixar reter por Villefort, Franz levantou-se e foi atrás de Valentine, que já descia a escada com a alegria de um náufrago prestes a tocar a um rochedo.

O sr. de Villefort seguiu os dois.

Château-Renaud e Morcerf trocaram um terceiro olhar ainda mais perplexo que os dois primeiros.

1 Tenacem propositi virum: citação das Odes, III, 3, de Horácio, que significa “O homem firme em seus desígnios” .

2 Eo rus: “Vou ao campo.” Alexis Pirron (1689-1773) foi um autor dramático, desafeto de Voltaire. Preterido ao postular uma vaga na Academia, fez questão de gravar em sua lápide:

“Aqui jaz Pirron, que não foi nada, sequer acadêmico.”

18. A ata

Noirtier esperava, vestido de preto e instalado em sua poltrona.

Quando as três pessoas que ele pretendia ver entraram, ele olhou para a porta, que seu criado de quarto fechou imediatamente.

— Preste atenção — disse Villefort baixinho a Valentine, que não conseguia esconder a alegria —, se o sr. Noirtier quiser comunicar coisas que impeçam seu casamento, proíbo-a de compreendê-las.

Valentine corou, mas não respondeu. Villefort aproximou-se de Noirtier.

— Aqui está o sr. Franz d’Épinay — disse-lhe. — O senhor o convocou e ele submete-se aos seus desejos. Há muito tempo ansiamos por essa entrevista, sem dúvida, e ficarei feliz se ela lhe provar o quanto é infundada sua oposição ao casamento de Valentine.

Noirtier respondeu apenas com um olhar, que fez um arrepio percorrer as veias de Villefort.

Ele fez um sinal para que Valentine se aproximasse.

Num segundo, graças aos recursos que costumava utilizar nas conversas com o avô, ela encontrou a palavra chave.

Então ela consultou o olhar do paralítico, que se fixou na gaveta de um movelzinho instalado entre as duas janelas.

Ela abriu a gaveta e encontrou efetivamente uma chave.

Quando pegou essa chave e o velho confirmou ser de fato a que pedia, os olhos do paralítico dirigiram-se para uma antiga escrivaninha há muitos anos esquecida, que supostamente guardava apenas uma papelada inútil.

— Devo abrir a escrivaninha? — perguntou Valentine.

— Sim — fez o velho.

— Devo abrir as gavetas?

— Sim.

— As laterais?

— Não.

— A do meio?

— Sim.

Valentine abriu e retirou um maço de papéis.

— É isso que deseja, vovô? — perguntou.

— Não.

Ela retirou sucessivamente todos os outros papéis, até que não restasse absolutamente mais nada na gaveta.

— Mas agora a gaveta está vazia — disse ela.

Os olhos de Noirtier estavam fixados no dicionário.

— Sim, vovô, compreendo — disse a moça.

E repetiu, uma depois da outra, cada letra do alfabeto; no S, Noirtier a interrompeu:

Ela abriu o dicionário e procurou até a palavra segredo.

— Ah, existe um segredo? — perguntou Valentine.

— Sim — fez Noirtier.

— E quem conhece esse segredo?

Noirtier olhou para a porta pela qual o criado havia saído.

— Barrois? — perguntou Valentine.

— Sim — fez Noirtier.

— Devo chamá-lo?

— Sim.

Valentine foi até a porta e chamou Barrois.

Enquanto isso, o suor da impaciência brilhava na testa de Villefort, e Franz permanecia estupefato.

O velho criado apareceu.

— Barrois — disse Valentine —, meu avô me pediu que pegasse a chave nesse console, abrisse essa escrivaninha e puxasse essa gaveta. Ela tem um segredo, e parece que você o conhece. Abra-a.

Barrois olhou para o velho.

— Obedeça — disse o olho inteligente de Noirtier.

Barrois obedeceu. Um fundo falso se abriu e exibiu um maço de papéis amarrados, com uma fita vermelha.

— É isso que deseja, senhor? — perguntou Barrois.

— Sim — fez Noirtier.

— A quem devo entregar esses papéis? Ao sr. de Villefort?

— Não.

— À srta. Valentine.

— Não.

— Ao sr. Franz d’Épinay?

— Sim.

Franz recebeu os papéis das mãos de Barrois e, lançando os olhos na capa, leu:

Para ser depositado, após a minha morte, junto ao meu amigo general Durand, que, por sua vez, ao morrer, legará esse pacote a seu filho, com a ordem de conservá-lo, pois encerra um documento da mais alta relevância.

— Pois não, senhor! — perguntou Franz. — O que quer que eu faça com esse papel?

— Possivelmente que o conserve lacrado como está — interveio o procurador do rei.

— Não, não — respondeu energicamente Noirtier.

— Talvez deseje que o cavalheiro o leia — sugeriu Valentine.

— Sim — respondeu o velho.

— Está ouvindo, sr. barão, meu avô lhe pede que leia este papel — disse Valentine.

— Nesse caso, sentemo-nos — disse Villefort com impaciência —, pois isso vai levar algum tempo.

— Sentem-se — fez o olho do velho.

Villefort sentou-se, mas Valentine permaneceu de pé ao lado do avô, apoiada em sua poltrona, e Franz de pé diante dele.

Segurava o misterioso papel na mão.

— Leia — disseram os olhos do velho.

Franz desfez o envelope e um grande silêncio instalou-se no quarto. Em meio a esse silêncio, ele leu:

Excerto da ata de uma sessão do clube bonapartista da rua Saint-Jacques, realizada em 5 de fevereiro de 1815.

Franz interrompeu a leitura.

— 5 de fevereiro de 1815! O dia em que meu pai foi assassinado! Valentine e Villefort quedaram-se mudos; apenas o olho do velho dizia claramente: “Continue.”

— Mas foi ao sair desse clube — emendou Franz — que o meu pai morreu!

O olhar de Noirtier continuou a dizer: “Leia.” Ele prosseguiu.

Os abaixo-assinados Louis-Jacques Beaurepaire, tenente-coronel de artilharia, Étienne Duchampy, general-de-brigada, e Claude Lecharpal, diretor das águas e florestas, Declaram que, em 4 de fevereiro de 1815, uma carta proveniente da ilha de Elba recomendava à benevolência e à confiança dos membros do clube bonapartista o general Flavien de Quesnel, que, tendo servido ao imperador de 1804 a 1814, parecia devotadíssimo à dinastia napoleônica, a despeito do título de baronato que Luís XVIII acabava de atribuir à sua propriedade de Épinay.

Por conseguinte, foi enviado um bilhete ao general de Quesnel, convidando-o a comparecer à sessão do dia 5 seguinte. O bilhete não indicava nem a rua nem o número da casa onde a reunião deveria se realizar; não trazia assinatura, mas anunciava ao general que, se ele desejasse estar pronto, poderiam pegá-lo às nove horas da noite.

As sessões aconteciam entre nove e meia-noite.

Às nove horas, o presidente do clube apresentou-se na casa do generel; o general estava pronto; o presidente disse-lhe que uma das condições para aquela visita era a de ignorar eternamente o local da reunião e permitir que lhe vendassem os olhos, jurando não tentar erguer a venda.

O general Quesnel aceitou a condição, prometendo, pela sua honra, não procurar saber para onde estava sendo levado.

O general mandara preparar o seu coche, mas o presidente disse-lhe que era impossível utilizá-lo, considerando que seria inútil vendar os olhos do patrão se o cocheiro permanecesse de olhos abertos e reconhecesse as ruas pelas quais passassem.

— Como faremos então? — perguntou o general.

— Tenho o meu coche — respondeu o presidente.

— Quer dizer que tem tanta confiança no seu cocheiro que lhe conta um segredo que julga imprudente contar ao meu?

— Nosso cocheiro é membro do clube — atalhou o presidente. — Seremos conduzidos por um conselheiro de Estado.

— Então — disse o general, rindo —, estamos correndo outro risco, o de capotar.

Registramos tal gracejo como prova de que o general não foi absolutamente obrigado a assistir à sessão, vindo por espontânea vontade.

Já dentro do coche, o presidente lembrou ao general a promessa de permitir vendar-se. O

general não opôs nenhuma objeção a essa formalidade. Um lenço, deixado para esse fim no coche, cumpriu seu papel.

No caminho, o presidente julgou perceber que o general procurava enxergar através da venda: lembrou seu juramento.

— Ah, é verdade! — disse o general.

O coche parou diante de um beco da rua Saint-Jacques. O general desceu, apoiando-se no braço do presidente, cuja dignidade ignorava e que tomava por um simples membro do clube. Atravessaram o beco, subiram um andar e entraram na câmara de deliberações.

A sessão teve início. Os membros do clube, prevenidos da espécie de apresentação que se daria aquela noite, achavam-se em trajes de gala. Ao chegar ao centro da sala, o general foi convidado a retirar a venda. Aceitou imediatamente o convite e pareceu bastante surpreso ao encontrar tantos rostos conhecidos numa sociedade de cuja existência sequer suspeitara até o momento.

Quiseram saber de que lado estava, mas ele se contentou em responder que as cartas da ilha de Elba deveriam bastar para saberem que...

 

“Ao chegar ao centro da sala, o general foi convidado a retirar a venda.”

Franz interrompeu a leitura.

— Meu pai era monarquista — ele disse. — Não havia necessidade de interrogá-lo sobre seus pontos de vista, eles eram conhecidos.

— E daí — disse Villefort — vem minha relação com seu pai, meu caro sr. Franz; as ligações surgem naturalmente quando se partilha o mesmo ponto de vista.

— Leia — continuou a dizer o olho do velho. Franz continuou:

Em seguida, o presidente tomou a palavra e pediu ao general que fosse mais explícito; porém o sr. de Quesnel respondeu que, antes de qualquer coisa, queria saber o que desejavam dele.

Foi então entregue ao general a mesma carta da ilha de Elba que o recomendava ao clube como um homem com cuja colaboração poderiam contar. Um parágrafo inteiro expunha o provável retorno da ilha de Elba e prometia uma nova carta e detalhes mais amplos à chegada do Pharaon, paquete pertencente ao armador Morrel, de Marselha, cujo capitão era inteiramente devotado ao imperador.

Durante essa leitura, o general, com quem haviam julgado poder contar como um irmão, deu, ao contrário, visíveis sinais de descontentamento e repulsa.

Terminada a leitura, ele permaneceu silencioso, com o cenho franzido.

— Muito bem — perguntou o presidente —, o que me diz dessa carta, sr.

general?

— Digo — respondeu ele — que prestamos juramento ao rei Luís XVIII muito recentemente, para violá-lo agora em benefício do ex-imperador.

Dessa vez a resposta era clara demais para que se enganassem a respeito de suas convicções.

— General — disse o presidente —, para nós não mais existe nem rei Luís XVIII nem ex-imperador. Existe apenas Sua Majestade imperador e rei, afastado há dez meses da França, seu Estado, por meio da violência e da traição.

— Perdão, cavalheiros — contestou o general —, pode ser que não exista rei Luís XVIII para os senhores, mas, para mim, existe, considerando que ele me fez barão e marechal-de-campo. Nunca esquecerei que ao seu auspicioso retorno à França devo esses dois títulos.

— Cavalheiro — disse o presidente, num tom mais grave e se levantando —, cuidado com o que diz. Suas palavras nos demonstram claramente que enganaram-se a seu respeito na ilha de Elba e que nos enganaram. A comunicação que lhe foi feita deve-se à confiança de que o senhor era depositário e por conseguinte a um sentimento que o honra.

Mas estávamos errados: um título e uma patente fizeram-no reatar com o novo governo que pretendemos derrubar. Não iremos obrigá-lo a colaborar; não recrutamos ninguém contra sua vontade ou consciência; mas o compeliremos a agir como um homem galante, ainda que não esteja disposto a isso.

— O senhor chama ser um homem galante saber da sua conspiração e não revelá-la! Quanto a mim, chamo isso de cumplicidade. Vê que ainda sou mais franco que o senhor...

— Ah, meu pai — disse Franz, interrompendo-se —, agora entendo por que o assassinaram!

Valentine não se conteve e olhou para Franz. O rapaz estava realmente formoso em seu entusiasmo filial.

Villefort andava de um lado para o outro atrás dele.

Noirtier acompanhava com os olhos a expressão de cada um e mantinha sua atitude digna e severa.

Franz voltou ao manuscrito e prosseguiu:

— Cavalheiro — disse o presidente —, o senhor foi solicitado a comparecer ao seio da assembléia, não foi trazido à força; sugerimos que vendasse os olhos, o senhor aceitou.

Quando acedeu a esse duplo pedido sabia perfeitamente que nosso ofício não era consolidar o trono de Luís XVIII, caso contrário não estaríamos tão preocupados em nos esconder da polícia. No entanto, compreenda, seria muito cômodo colocar uma máscara, com sua ajuda surpreender o segredo das pessoas e, em seguida, simplesmente retirar essa máscara para prejudicar aqueles que confiaram em si. Não, não, primeiro o senhor vai dizer francamente se é a favor do rei fortuito que reina neste momento ou a favor de Sua Majestade o imperador.

— Sou monarquista — respondeu o general —, prestei juramento a Luís XVIII, serei fiel ao meu juramento.

Essas palavras foram seguidas de um murmúrio generalizado, sendo possível perceber, pelos olhares de um grande número dos membros do clube, que eles discutiam a possibilidade de obrigar o sr. d’Épinay a se arrepender dessas imprudentes palavras.

O presidente levantou-se de novo e impôs silêncio.

— Cavalheiro — disse-lhe —, o senhor é um homem suficientemente sério e sensato para compreender as conseqüências da situação em que nos achamos uns diante dos outros, e sua própria franqueza nos dita as condições que somos obrigados a lhe impor: o senhor vai jurar pela sua honra nada revelar do que ouviu.

O general levou a mão à espada e exclamou:

— Se menciona a honra, comece por não ignorar as leis e não imponha nada pela violência.

— E o senhor — continuou o presidente, com uma calma talvez mais terrível que a cólera do general —, não toque em sua espada, é um conselho que lhe dou.

O general olhou à sua volta e percebeu um começo de agitação. Ainda assim, não se dobrou; ao contrário, invocando toda a sua força, desafiou:

— Não vou jurar.

— Então, cavalheiro, morrerá — respondeu tranqüilamente o presidente.

O sr. d’Epinay empalideceu. Olhou outra vez à sua volta; vários membros do clube sussurravam e procuravam armas sob seus casacos.

— General — disse o presidente —, fique tranqüilo, está entre pessoas de honra que tentarão por todos os meios convencê-lo antes de chegar a tais extremos contra o senhor.

Por outro lado, como o senhor disse, está no meio de conspiradores, conhece nosso segredo, precisa devolvê-lo a nós.

Um silêncio muito significativo seguiu-se a essas palavras. Como o general não respondia nada, o presidente ordenou aos guardas:

— Fechem as portas.

O mesmo silêncio mortal sucedeu essas palavras.

Então o general avançou e, fazendo um grande esforço sobre si mesmo, disse:

— Tenho um filho e, no meio de assassinos, tenho de pensar nele.

— General — disse com nobreza o líder do grupo —, um homem sozinho tem sempre o direito de insultar cinqüenta: é privilégio da fraqueza. Entretanto, é um erro usar desse

direito. Acredite em mim, general, jure e não nos insulte.

O general, mais uma vez domado por essa superioridade do líder do grupo, hesitou por um instante; mas finalmente, avançando até a mesa do presidente, perguntou:

— Qual é a fórmula deste juramento?

— Ei-la:

“Juro pela minha honra nunca revelar a quem quer seja no mundo o que vi e ouvi em 5

de fevereiro de 1815, entre nove e dez horas da noite, e declaro merecer a morte caso viole este juramento.”

O general pareceu sentir um frêmito nervoso que o impediu de responder durante alguns segundos. Finalmente, superando uma repugnância explícita, pronunciou o juramento exigido, mas com uma voz tão baixa que mal se ouvia; isso fez com que vários membros exigissem que ele repetisse aquilo em voz mais alta e clara, o que foi feito.

— Agora, desejo retirar-me — disse o general. — Estou finalmente livre?

O presidente levantou-se, designou três membros do grupo para acompanhá-lo, e entrou no coche com o general, depois de lhe haver vendado os olhos. Um desses três membros era o cocheiro que os levara.

Os outros membros do clube despediram-se em silêncio.

— Para onde gostaria que o conduzíssemos? — perguntou o presidente.

— Para qualquer lugar em que me vir livre da sua presença — respondeu o sr. d’Epinay.

— Cavalheiro — replicou então o presidente —, seja sensato, o senhor não está mais em uma assembléia, está lidando com homens isolados. Não os insulte, se não quiser responsabilizar-se pelo insulto.

Porém, ao invés de compreender essa linguagem, o sr. d’Épinay respondeu:

— Continua tão corajoso em seu coche quanto no seu clube apenas porque, cavalheiro, quatro homens continuam sendo mais fortes que um.

O presidente mandou parar o coche.

Estavam exatamente na entrada do Quai des Ormes, onde se acha a escada que desce até o rio.

— Por que mandou parar aqui? — perguntou o sr. d’Épinay.

— Porque — disse o presidente — o senhor insultou um homem e este homem não quer dar um passo a mais sem lealmente lhe pedir uma reparação.

— Outro método de assassinar — disse o general, dando de ombros.

— Cale a boca, cavalheiro — respondeu o presidente —, se não quiser que eu o veja como um daqueles homens que ainda há pouco o senhor designava, isto é, um covarde que usa a fraqueza como escudo. O senhor está sozinho, apenas um lhe responderá; o senhor tem uma espada na cinta, tenho uma nesse estojo; o senhor não tem testemunha, um desses cavalheiros será a sua. Agora, se lhe convém, pode tirar a venda.

O general arrancou prontamente o lenço que tinha sobre os olhos.

— Vou finalmente saber com quem estou lidando. Abriram o coche: os quatro homens desceram.

Franz parou novamente. Enxugou um suor frio que escorria por sua testa. Havia alguma coisa de terrível em ver o filho, trêmulo e pálido, lendo em voz alta os detalhes, até então ignorados, da morte do pai.

Valentine juntava as mãos como se estivesse rezando.

Noirtier olhava para Villefort com uma expressão sublime de desprezo e orgulho.

Franz prosseguiu:

Estávamos, como dissemos, em 5 de fevereiro. Havia três dias que geava e a temperatura era de cinco ou seis graus; a escada estava coberta de gelo; o general era gordo e alto; o presidente ofereceu-lhe o lado do corrimão para descer.

As duas testemunhas seguiam atrás.

A noite era escura, o terreno da escada até o rio estava úmido de neve e granizo, via-se a água correr, negra, profunda e carregando alguns blocos de gelo.

Uma das testemunhas foi até uma barcaça de carvão buscar uma lamparina, à luz da qual as armas foram vistoriadas.

A espada do presidente, que era simplesmente, como dissemos, uma espada que ele carregava num estojo, era mais curta que a do seu adversário e não tinha copo.

O general d’Épinay propôs tirar a espada na sorte, mas o presidente respondeu que fora ele quem provocara e que, ao provocar, já decidira que cada um usaria suas respectivas armas.

As testemunhas tentaram insistir; o presidente lhes impôs silêncio.

Pousaram a lamparina no chão. Os dois adversários instalaram-se um de cada lado; o combate começou.

A luz transformava as duas espadas em dois raios. Quanto aos homens, mal podiam ser vistos, tão densa a escuridão.

O sr. general passava por uma das melhores lâminas do exército. Mas foi tão energicamente pressionado desde as primeiras estocadas que recuou; ao recuar, caiu.

As testemunhas julgaram-no morto; mas seu adversário, que sabia não tê-lo tocado, ofereceu-lhe a mão para ajudá-lo a se levantar. Essa circunstância, em vez de acalmar, irritou o general, que investiu por sua vez sobre o adversário.

Mas seu adversário não recuou um centímetro, recebendo-o com sua espada. Por três vezes o general retrocedeu, achando-se acuado, e voltou à carga.

Na terceira vez, caiu novamente.

Julgou-se que ele escorregara como da primeira vez; entretanto as testemunhas, ao perceberem que ele não se levantava, aproximaram-se dele e tentaram pô-lo de pé; mas aquele que o pegara pelo meio do corpo sentiu sob sua mão um calor úmido. Era sangue.

O general, que estava meio desmaiado, voltou a si.

— Ah! — disse ele. — Enviaram algum espadachim, algum mestre-de-armas do regimento.

O presidente, sem responder, aproximou-se da testemunha que segurava a lamparina e, erguendo a manga da camisa, mostrou seu braço perfurado por duas estocadas; depois, abrindo o casaco e desabotoando o colete, expôs seu flanco lanhado por um terceiro ferimento.

Apesar disso, não soltara sequer um suspiro.

O general d’Épinay entrou em agonia e expirou cinco minutos depois...

Franz leu essas últimas palavras com uma voz tão embargada que mal foi possível entendê-las. Ao terminar de lê-las, parou, passando a mão nos olhos, como se para expulsar uma nuvem.

 

“... e desabotoando o colete, expôs seu flanco lanhado por um terceiro ferimento.”

Porém, após um minuto de silêncio, prosseguiu:

O presidente subiu a escada novamente, após ter guardado a espada em seu estojo. Um rastro de sangue marcava seu percurso na neve. Ainda não chegara ao topo da escada quando ouviu um marulho na água: era o corpo do general, que as testemunhas acabavam de jogar no rio, após haverem constatado sua morte.

O general, portanto, sucumbiu num duelo leal, e não em uma emboscada, como foi ventilado.

Para dar fé a isto, assinamos a presente para estabelecer a verdade dos fatos, com receio de que intempestivamente um ator ou algum dos atores dessa cena terrível venha a ser acusado de assassinato premeditado ou infração às leis da honra.

assinado: BEAUREPAIRE, DUCHAMPY E LECHARPAL

Quando Franz terminou essa leitura tão terrível para um filho, quando Valentine, pálida de emoção, enxugou uma lágrima, quando Villefort, trêmulo e encolhido num canto, tentou conjurar a tempestade com olhares suplicantes dirigidos ao implacável ancião, d’Épinay disse a Noirtier:

— Senhor, uma vez que conhece essa terrível história em todos os seus detalhes, uma vez que a fez atestar por assinaturas honradas, uma vez que, em suma, parece interessar-se por mim, embora até agora seu interesse tenha-se revelado apenas pela dor, não me recuse uma última satisfação, diga-me o nome do presidente do clube para que eu finalmente conheça aquele que matou meu desafortunado pai.

Villefort, desvairado, procurou a maçaneta da porta. Valentine, que previra antes de todo mundo a resposta do velho e que freqüentemente observara em seu antebraço a marca de dois golpes de espada, recuou um passo.

— Em nome dos céus, senhorita — disse Franz, dirigindo-se à sua noiva

—, ajude-me, para que eu saiba o nome do homem que me fez órfão aos dois anos!

Valentine permaneceu imóvel e muda.

— Vamos, cavalheiro — disse Villefort —, confie em mim, não prolongue essa cena nefasta. Os nomes, aliás, foram ocultados de propósito. Meu pai mesmo não conhece esse presidente e, se o conhecesse, não poderia dizê-lo: o dicionário não tem nomes próprios.

— Oh, maldição! — exclamou Franz. — A única esperança que me sustentou durante toda essa leitura e me deu forças para ir até o fim era a de pelo menos conhecer o nome daquele que matou meu pai! Senhor, senhor! — gritou ele, voltando-se para Noirtier. — Em nome dos céus!

Faça o que puder... por favor, eu lhe peço, indique, sugira...

— Sim — respondeu Noirtier.

— Oh, senhorita, senhorita! — exclamou Franz. — Seu avô fez sinal de que podia me apontar... esse homem... Ajude-me... a senhorita o compreende... colabore comigo.

Noirtier olhou para o dicionário.

Franz pegou-o com um tremor nervoso e pronunciou sucessivamente as letras do alfabeto até E.

A esta letra, o velho fez sinal de que sim.

— E! — repetiu Franz.

O dedo do rapaz deslizou sobre as palavras, mas a todas as palavras Noirtier respondia com um sinal negativo.

Valentine escondia a cabeça nas mãos. Finalmente, Franz chegou à palavra EU.

— Sim — fez o velho.

— O senhor! — exclamou Franz, com os cabelos em pé. — O sr.

Noirtier! Foi o senhor que matou o meu pai?