O Conde de Monte Cristo
13. Os Cem Dias
Avançou então para os objetos abandonados por ele.
1 Arcoli: nome da batalha vencida por Napoleão na comuna homônima, da região do Vêneto.
Episódio importante da vitoriosa campanha da Itália (1796-97), travada contra os exércitos austríacos, então ocupando algumas províncias do atual território italiano.
13. Os Cem Dias
O sr.Noirtier era um exímio profeta, e as coisas caminharam aceleradamente, como ele dissera. Todos conhecem o retorno da ilha de Elba, retorno estranho, milagroso, que, sem exemplo no passado, provavelmente permanecerá sem imitação no futuro. Luís XVIII não tentou senão debilmente aparar tão rude estocada. Sua falta de confiança nos homens minava sua confiança nos fatos. A realeza, ou melhor, a monarquia recém-reconstituída por ele, tremeu em suas bases ainda instáveis, bastando um único gesto do imperador para fazer ruir todo aquele edifício, mistura informe de velhos preconceitos e idéias novas.
Villefort, portanto, ganhou de seu rei um reconhecimento não apenas inútil no momento, mas até perigoso: aquela cruz de oficial da Legião de Honra, que ele teve a prudência de não mostrar, a despeito de o sr. de Blacas, como lho recomendara o rei, haver mandado emitir o respectivo diploma.
Napoleão decerto teria exonerado Villefort sem a proteção de Noirtier, agora todo-poderoso na corte dos Cem Dias, tanto pelos perigos que enfrentara como pelos serviços que prestara. Assim,
como lhe prometera, o girondino de 93 e o senador de 18061 protegeu aquele que o protegera na véspera.
Todo o poder de Villefort limitou-se então, durante essa evocação do império, cuja segunda queda, de resto, era bem fácil de prever, a abafar o segredo que Dantès estivera a ponto de divulgar.
Apenas o procurador do rei foi demitido, suspeito de um bonapartismo um tanto frouxo.
Entretanto, mal o poder imperial foi restabelecido, isto é, mal o imperador voltou a residir nas Tulherias que Luís XVIII acabara de deixar, disparando ordens numerosas e divergentes, a partir daquele pequeno gabinete aonde, sucedidos por Villefort, introduzimos nossos leitores, e em cuja mesa de nogueira seu novo ocupante encontrou, ainda toda aberta e cheia pela metade, a tabaqueira de Luís XVIII, e Marselha, apesar da atitude de seus magistrados, começou a sentir fermentar em si aqueles estopins de guerra civil ainda mal debelados no Midi. Faltou pouco então para que as represálias extrapolassem o âmbito de meros tumultos, quando realistas foram confinados em casa, e de enfrentamentos públicos, quando os que se atreviam a sair foram perseguidos.
Por uma inversão perfeitamente natural, o digno armador, que apontamos como pertencente ao partido popular, viu-se por sua vez, naquele momento, não diremos todo-poderoso, pois o sr. Morrel era um homem prudente e ligeiramente tímido, como todos os que fizeram uma lenta e laboriosa fortuna comercial, mas em condições, por mais superado que estivesse pelos exigentes bonapartistas, que o tratavam como moderado, em condições, eu dizia, de erguer a voz para fazer uma reivindicação; essa reivindicação, como é facilmente presumível, dizia respeito a Dantès.
Villefort permanecera firme, a despeito da queda de seu superior, e seu casamento, já decidido, fora entretanto adiado para dias mais felizes. Se o imperador mantivesse o trono, era outra aliança que convinha a Gérard, e seu pai se encarregaria de lha proporcionar; se uma segunda Restauração trouxesse Luís XVIII de volta à França, a influência do sr. de Saint-Méran redobrava, assim como a sua, e a união voltava a ser mais conveniente que nunca.
Sendo assim, o substituto do procurador do rei era momentaneamente o primeiro magistrado de Marselha, quando, numa certa manhã, sua porta se abriu e lhe anunciaram o sr. Morrel.
Outro qualquer teria corrido para o armador e, com essa pressa, revelado sua fraqueza; mas Villefort era um homem superior, que tinha, se não a prática, pelo menos o instinto de todas as coisas. Deu um chá-de-cadeira em Morrel, como teria feito sob a Restauração, embora não estivesse com ninguém, mas pela simples razão de que é praxe um substituto do procurador do rei dar chá-de-cadeira nas pessoas. Passados quinze minutos, que empregou lendo dois ou três jornais de tendências diferentes, ordenou que o armador fosse introduzido.
O sr. Morrel esperava encontrar Villefort abatido, encontrou-o como o vira seis semanas antes, isto é, calmo, seguro e exalando aquela fria polidez, a mais intransponível de todas as barreiras, que separa o homem refinado do homem vulgar.
Ele entrara no gabinete de Villefort convencido de que o magistrado tremeria à sua vista, e era ele, ao contrário, quem se via todo arrepiado e perturbado diante daquele personagem inquisidor, que o esperava com o cotovelo apoiado na escrivaninha.
Morrel parou à porta. Villefort olhou para ele como se mal o reconhecesse. Finalmente, após alguns segundos de estudo e silêncio,
durante os quais o digno armador não parava de rodopiar seu chapéu entre as mãos, Villefort disse:
— Sr. Morrel, eu presumo...
— Sim, senhor, eu mesmo — respondeu o armador.
— Aproxime-se então — continuou o magistrado, fazendo com a mão um sinal protetor — e diga-me a que circunstância devo a honra desta visita.
— Não desconfia, senhor? — perguntou Morrel.
— Não faço a mínima idéia; o que não me impede de estar nas melhores disposições para lhe ser agradável, se a coisa estiver ao meu alcance.
— A coisa depende inteiramente de sua vontade, senhor — disse Morrel.
— Explique-se, então.
— Senhor — continuou o armador, recuperando a segurança à medida que falava e apoiado tanto na justiça de sua causa como na clareza de sua posição —, lembra-se que, alguns dias antes de sabermos do desembarque de Sua Majestade o imperador, eu viera pedir sua indulgência para um infeliz rapaz, um marinheiro, imediato a bordo do meu paquete; ele era acusado, caso se lembre, de ter relações com a ilha de Elba: tais relações, que eram um crime na época, hoje são títulos que o recomendam. Na época o senhor servia a Luís XVIII e não o poupou, senhor; era seu dever.
Hoje serve Napoleão e deve protegê-lo; também é seu dever. Venho então perguntar por seu paradeiro.
Villefort teve que fazer um esforço violento para não perder a calma.
— O nome desse homem? — perguntou. — Tenha a bondade de me dizer seu nome.
— Edmond Dantès.
Evidentemente, para Villefort, ouvir aquele nome pronunciado à queima-roupa era como ser atingido num duelo pelo fogo de seu adversário a vinte e cinco passos. Entretanto, sequer pestanejou.
Villefort olhou para ele como se mal o reconhecesse.
“Dessa forma” — pensou Villefort —, “não poderão me acusar de ter transformado a detenção desse homem num caso puramente pessoal.”
— Dantès? — repetiu. — Edmond Dantès, é isso?
— Sim, cavalheiro.
Villefort abriu então um grosso livro de registro guardado num escaninho próximo, recorreu a um índice, do índice passou para alguns dossiês e, voltando-se para o armador:
— Tem certeza de que não está enganado, senhor? — perguntou-lhe com desfaçatez.
Se Morrel fosse um homem mais refinado ou mais bem esclarecido sobre o caso, teria achado estranho o substituto do procurador do rei dignar-se a lhe responder sobre assuntos completamente alheios à sua competência e se teria perguntado por que Villefort não o encaminhava aos autos processuais, aos diretores de prisão, ao governador do departamento.
Mas Morrel, procurando em vão o temor em Villefort, não viu outra coisa
senão, na medida em que todo temor parecia ausente, condescendência: Villefort achara o tom.
— Não, senhor — disse Morrel —, não estou enganado; aliás conheço-o há dez anos, ele está em meu serviço há quatro. Vim, lembra-se?, seis semanas atrás pedir-lhe para ser clemente como hoje venho pedir para ser justo com o infeliz rapaz; o senhor inclusive me recebeu muito mal e me respondeu como homem contrariado. Ah! Era porque os realistas eram duros com os bonapartistas naqueles tempos!
— Senhor — respondeu Villefort, encontrando uma saída com a presteza e o sangue-frio de costume —, eu era realista quando julgava os Bourbon não só os herdeiros legítimos do trono, como também os eleitos pela nação; mas o retorno milagroso de que acabamos de ser testemunhas me provou que eu estava enganado. O gênio de Napoleão venceu: o monarca legítimo é o monarca amado.
— Já não era sem tempo! — exclamou Morrel, com sua boa e rude franqueza. — O senhor me deixa alegre ao falar assim, e prevejo alguma coisa boa para Edmond.
— Espere — disse Villefort, folheando um novo registro —, aqui está: é um marinheiro, não é?, que estava para se casar com uma catalã? Sim, sim... Oh, lembro-me agora: a coisa era gravíssima.
— Como assim?
— Saiba que ao sair da minha casa ele foi levado para as prisões do Palácio de Justiça.
— E daí?
— E daí que fiz meu relatório para Paris; enviei os papéis encontrados com ele. Era meu dever, que remédio... e uma semana após sua prisão o prisioneiro foi levado.
— Levado! — exclamou Morrel. — Mas o que fizeram com o pobre rapaz?
— Oh, tranqüilize-se! Deve ter sido transferido para Fenestrelle,
para Pignerol, para as ilhas Sainte-Marguerite2, o que chamamos de jubilado, em termos administrativos; uma bela manhã o senhor o verá voltar para assumir o comando do seu navio.
— Que ele venha quando quiser, seu lugar está reservado. Mas por que ele ainda não voltou? Parece-me que a primeira providência da justiça bonapartista devia ter sido libertar os encarcerados pela justiça realista.
— Não acuse levianamente, meu caro sr. Morrel — respondeu Villefort.
— Convém, em todas as coisas, proceder legalmente. A ordem de prisão veio de cima, é preciso que a ordem de soltura também venha de cima.
Ora, Napoleão voltou há quinze dias, se tanto; os alvarás de soltura devem estar sendo expedidos.
— Mas não há um jeito de apressar as formalidades, agora que triunfamos? — perguntou Morrel. — Tenho alguns amigos, alguma influência, posso obter o relaxamento da prisão.
— Não houve prisão.
— Do processo, então.
— Não protocolamos processos políticos; às vezes os governos têm interesse em dar sumiço a alguém sem deixar rastro de sua passagem, e notas processuais guiariam as investigações.
— Talvez fosse assim sob os Bourbon, mas agora...
— É assim em todos os tempos, meu caro sr. Morrel; os governos se sucedem e assemelham; a máquina penitenciária montada sob Luís XIV
ainda funciona nos dias de hoje, com exceção da Bastilha. O imperador sempre foi mais rigoroso com o regulamento de suas prisões do que o próprio grande rei; e o número de encarcerados cujos registros não deixaram rastro é incalculável.
Tanta benevolência teria derrubado certezas, e Morrel não tinha sequer suspeitas.
— Mas, enfim, sr. de Villefort — disse ele —, que conselho me daria para apressar o retorno do infeliz Dantès?
— Um único, senhor: faça uma petição ao ministro da Justiça.
— Oh, senhor, sabemos o que é uma petição: o ministro recebe duzentas por dia e não chega a ler quatro!
— Sim — replicou Villefort —, mas ele lerá uma petição enviada por mim, recomendada por mim, encaminhada diretamente por mim.
— E o senhor se encarregaria de lhe fazer chegar essa petição?
— Com o maior prazer. Dantès podia ser culpado na época; mas hoje é inocente, e é meu dever devolver a liberdade àquele a quem um dia foi meu dever colocar na prisão.
Villefort assim se resguardava do perigo de um inquérito pouco provável, mas possível, inquérito que o destruiria inapelavelmente.
— Mas como se escreve ao ministro?
— Sente-se aqui, sr. Morrel — disse Villefort, cedendo o lugar ao armador —, vou ditar.
— Faria essa gentileza?
— Claro. Não percamos tempo; já o perdemos em demasiado.
— Sim, senhor, pensemos que o pobre rapaz espera, sofre e talvez se desespere.
Villefort sentiu um calafrio diante da visão daquele prisioneiro amaldiçoando-o no silêncio e na escuridão, mas estava comprometido demais para recuar. Dantès tinha de ser esmigalhado pelas engrenagens de sua ambição.
— Às suas ordens, senhor — disse o armador, sentado na poltrona de Villefort e com a pena na mão.
Villefort então ditou uma requisição na qual — com um fim louvável, não havia do que desconfiar — exagerou o patriotismo de Dantès e os serviços por ele prestados à causa bonapartista. Nesta requisição, Dantès era transformado num dos agentes mais atuantes no regresso de Napoleão.
Era evidente que, ao ver um papel daqueles, o ministro faria justiça prontamente, se é que justiça ainda não fora feita.
Terminada a petição, Villefort releu-a em voz alta.
— É isto — disse ele —, e agora deixe tudo por minha conta.
— E a petição será logo despachada, senhor?
— Hoje mesmo.
— Recomendada pelo senhor?
— A melhor recomendação possível, senhor, é atestar como verdade tudo que o senhor diz nesta petição.
E Villefort sentou-se por sua vez e, num canto da petição, aplicou seu carimbo.
— Que devemos fazer agora, senhor?
— Esperar — disse Villefort. — Respondo por tudo.
Aquela convicção devolveu a esperança a Morrel. Encantado, ele se despediu do substituto do procurador do rei e foi anunciar ao velho pai de Dantès que não demoraria a rever o filho.
Quanto a Villefort, em vez de despachar a requisição para Paris, conservou-a ciosamente em suas mãos. Tal documento, para salvar Dantès no presente, comprometia-o terrivelmente no futuro, a supor-se algo que o aspecto da Europa e a evolução dos fatos já permitiam supor, isto é, uma segunda Restauração.
Dantès permaneceu então prisioneiro. Perdido nas profundezas de sua masmorra, não ouviu o estrépito formidável da queda do trono de Luís
XVIII e, ainda mais terrível, o do desmoronamento do império.
Villefort, porém, acompanhara tudo com olho vigilante e ouvidos aguçados. Por duas vezes, durante aquela curta aparição imperial que ficou conhecida como os Cem Dias, Morrel voltara à carga, cobrando a liberdade de Dantès, e em ambas Villefort o acalmara
com promessas e esperanças; finalmente, chegou Waterloo3. Morrel não voltou à casa de Villefort; o armador fizera pelo jovem amigo tudo que era humanamente possível fazer; empreender novas tentativas sob aquela segunda Restauração era comprometer-se inutilmente.
Luís XVIII voltou ao trono. Villefort, para quem Marselha estava cheia de recordações que haviam se tornado remorsos, pediu e obteve o posto de procurador do rei vago em Nêmer; quinze dias após sua instalação na nova residência, casou-se com a srta. Renée de Saint-Méran, cujo pai estava mais que nunca em alta na corte.
Foi assim que Dantès, durante os Cem Dias e após Waterloo, permaneceu aferrolhado e esquecido, se não dos homens, pelo menos de Deus.
Danglars, ao assistir ao retorno de Napoleão à França, compreendeu todo o alcance do golpe que infligira a Dantès; sua denúncia acertara o alvo e, como todos os homens com certa inclinação para o crime e mediana inteligência para a vida comum, considerou aquela estranha coincidência um desígnio da Providência.
Mas quando Napoleão voltou a Paris e sua voz reverberou novamente, imperiosa e possante, Danglars teve medo; esperava a reaparição de Dantès a qualquer momento, Dantès onisciente, Dantès ameaçador e forte para todas as vinganças. Manifestou então ao sr. Morrel o desejo de abandonar o serviço do mar e solicitou uma recomendação a um negociante espanhol, no estabelecimento do qual entrou como amanuense perto do fim de março, isto é, dez ou doze dias após a volta de Napoleão às Tulherias; partiu então para Madri, e não se ouviu falar mais dele.
Fernand, por sua vez, não entendeu nada. Dantès estava ausente, era tudo de que precisava. Qual era o seu paradeiro? Não procurava saber. Porém, durante toda a trégua que lhe proporcionava sua ausência, maquinou, ora espezinhando Mercedes acerca dos motivos daquela ausência, ora arquitetando planos de emigração e rapto. De tempos em tempos, e eram as horas sombrias de sua vida, sentava-se na ponta do cabo do Farol, naquele ponto do qual distinguimos ao mesmo tempo Marselha e a aldeia
dos catalães, observando, triste e imóvel como uma ave de rapina, para se certificar de que o formoso rapaz não voltava por um daqueles dois caminhos, livre, de cabeça erguida, portador de uma drástica vingança contra ele. Nesses momentos, Fernand se decidia: arrebentava a cabeça de Dantès com um tiro de fuzil e se matava depois, dizia consigo, para mascarar o assassinato. Mas Fernand se iludia: aquele homem nunca se mataria, pois continuava com esperanças.
Enquanto isso, e em meio a tantas reviravoltas dolorosas, o império promoveu um derradeiro alistamento, e tudo que havia de homens em condições de empunhar armas lançou-se para fora da França à voz retumbante do imperador. Fernand partiu como os outros, abandonando sua cabana e Mercedes, corroído por aquela idéia terrível e soturna de que talvez seu rival voltasse e se casasse com sua bem-amada.
Se Fernand tivesse um dia que se matar, era deixando Mercedes que o teria feito. Suas atenções para com Mercedes, a piedade que simulava em relação ao seu infortúnio, o cuidado para antecipar seus menores desejos, tudo isso havia produzido o efeito que sempre produzem as aparências do devotamento sobre os corações generosos: Mercedes sempre gostara de Fernand como amiga; essa amizade foi acrescida de um novo sentimento por ele: gratidão. — Meu irmão — disse ela, afivelando a mochila do recruta nos ombros do catalão —, meu único amigo, não se deixe matar, não me deixe sozinha neste mundo, onde choro e onde ficarei só assim que o senhor não estiver mais nele.
Tais palavras, ditas no momento da partida, devolveram alguma esperança a Fernand. Se Dantès não voltasse, um dia Mercedes poderia ser dele.
Mercedes ficou sozinha naquela terra agreste, que nunca lhe parecera tão árida, e com o mar imenso como horizonte. Banhada em lágrimas, como aquela louca cuja triste história nos contam, era vista vagando incessantemente em torno do vilarejo dos catalães: ora detendo-se sob o sol inclemente do Midi, de pé, imóvel, muda como uma estátua e contemplando Marselha; ora sentada na praia, escutando o gemido do mar, eterno como seu sofrimento, e se perguntando incansavelmente se não seria melhor precipitar-se, abandonar-se ao seu próprio peso, abrir o abismo e ser tragada por ele, do que sofrer daquela forma todas as cruéis alternativas de uma espera sem perspectiva.
Não foi coragem que faltou a Mercedes para realizar esse plano, foi a religião que lhe veio em socorro e a salvou do suicídio.
Caderousse foi convocado como Fernand; porém, como tinha seis anos a mais que o catalão e era casado, fez parte apenas da terceira leva, tendo sido enviado para o litoral.
O velho Dantès, a quem apenas a esperança amparava, perdeu-a com a queda do imperador. Cinco meses, dia após dia, depois ter sido separado do filho, deu o último suspiro nos braços de Mercedes.
O sr. Morrel pagou todos os custos de seu sepultamento e quitou as pequenas dívidas que o velho fizera durante sua doença. Havia mais do que caridade nessa ação, havia coragem. O Midi estava em polvorosa, e era um crime socorrer, mesmo em seu leito de morte, o pai de um bonapartista tão perigoso quanto Dantès.