O Conde de Monte Cristo
16. A promessa
O tabelião descia; foram avisar a Valentine que sua avó estava sozinha.
— Pode subir — ela disse ao médico.
— E a senhorita?
— Oh, não me atrevo, ela tinha me proibido de chamá-lo. Além disso, como viu, também estou agitada, febril, indisposta, darei uma volta no jardim para me recuperar.
O médico apertou a mão de Valentine e, enquanto subia aos aposentos da velha, a moça descia a escada da entrada.
Não vemos necessidade de indicar a área do jardim que constituía o passeio favorito de Valentine. Após ter dado duas ou três voltas pelos canteiros que rodeavam a casa, após ter colhido uma rosa para pôr no cinto ou nos cabelos, ela se enfiou sob a aléia assombreada que conduzia a um banco; então, do banco, dirigiu-se para a cerca.
Dessa vez, como de costume, Valentine deu duas ou três voltas em meio às suas flores, mas sem colhê-las; o luto do seu coração, que ainda não tivera tempo de se espalhar pela sua pessoa, repelia o simples ornamento.
Em seguida encaminhou-se na direção da aléia. À medida que avançava, parecia-lhe ouvir uma voz chamando seu nome. Parou, assustada.
Então essa voz chegou mais distinta aos seus ouvidos, e ela reconheceu a voz de Maximilien.
1 “como diz Hamlet”: paráfrase da fala: “a vilania/ Mesmo oculta, há de vir à luz do dia”, ato I, cena 2.
2 “Mene Tequel Peres”: ver Parte I, cap.15, nota 69.
16. A promessa Era com efeito Morrel, que não vivia mais desde a véspera. Com o instinto típico dos amantes e das mães, adivinhara que, na esteira do retorno da sra. de Saint-Méran e da morte do marquês, aconteceria alguma coisa na casa dos Villefort que envolveria seu amor por Valentine.
Como sabemos, seus pressentimentos concretizaram-se, e não era mais uma simples preocupação que o deixava tão ensimesmado e trêmulo junto à cerca das castanheiras.
Porém, Valentine não fora avisada da presença de Morrel, não era a hora em que ele vinha habitualmente, e foi um puro acaso, ou, caso prefiram, um feliz sortilégio, que a impeliu para o jardim. Quando ela apareceu, Morrel a chamou; ela correu para a cerca.
— Você, a esta hora! — exclamou Valentine.
— Sim, minha pobre querida — respondeu Morrel —, venho buscar e trazer más notícias.
— Então esta é a casa da dor — disse Valentine. — Fale, Maximilien.
Mas, a bem da verdade, a soma dos sofrimentos já é mais que suficiente.
— Querida Valentine — disse Morrel, tentando recobrar-se de sua própria emoção para falar apropriadamente —, ouça bem, por favor, pois tudo que vou lhe dizer é solene. Quando pretendem casá-la?
— Escute — disse, por sua vez, Valentine —, não quero lhe esconder nada, Maximilien. Esta manhã falaram sobre o meu casamento, e minha avó, com quem eu contava como um apoio garantido, não apenas declarou-se a favor do casamento, como o deseja a tal ponto que apenas o atraso do sr. d’Épinay o retarda, e no dia seguinte à sua chegada o contrato será assinado.
Um suspiro doloroso abriu o peito do rapaz. Ele fitou longa e tristemente a moça.
— Ai de mim! — ele murmurou. — É terrível ouvir a mulher a quem se ama dizer, tranqüilamente: “O momento do seu suplício está marcado: será daqui a algumas horas; mas, não importa, tem que ser assim, e da minha parte não farei nenhuma objeção.” Pois bem! Se você me diz que esperam apenas o sr. d’Épinay para assinar o contrato, se você pertencerá a ele no dia seguinte à sua chegada, amanhã mesmo estará comprometida com o sr. d’Épinay, pois ele chegou a Paris no início do dia de hoje.
Valentine deixou escapar um grito.
— Eu estava na casa do conde de Monte Cristo, uma hora atrás — disse Morrel. — Comentávamos, sobre o sofrimento da família Villefort e eu o seu sofrimento, quando de repente um coche deslizou no pátio. Ouça. Até então eu não acreditava em pressentimentos, Valentine, mas agora preciso acreditar. Ao som desse coche, fiquei arrepiado; não demorei a ouvir passos na
escada. Os passos reverberantes do comendador1 não aterrorizaram tanto don Juan quanto esses passos a mim. Finalmente a porta se abre; Albert de Morcerf entra na frente, e eu estava prestes a desconfiar de mim mesmo, a achar que estava enganado, quando atrás dele avança outro rapaz, e o conde exclama: “Ah! Sr. barão Franz d’Épinay!”
Recorri a tudo que tenho de força e de coragem no meu coração para me conter. Talvez tenha empalidecido, quem sabe tremido, mas com certeza mantive o sorriso nos lábios. Porém, cinco minutos depois, saí sem ter ouvido uma palavra do que se disse durante aqueles cinco minutos; fiquei aniquilado.
— Pobre Maximilien! — murmurou Valentine.
— Isso, quanto a mim, Valentine. Vamos, agora me responda, como a um homem cuja vida ou morte depende de sua resposta. Que pretende fazer?
Valentine abaixou a cabeça; estava arrasada.
— Escute — disse Morrel —, esta não é a primeira vez que você reflete na situação a que chegamos. Ela é grave, é opressiva, suprema. Não penso que este seja o momento para se entregar a uma aflição estéril; isso é bom para os inclinados a se remoer por dentro e a beber lágrimas copiosas.
Gente assim existe, e Deus provavelmente levará em conta essa resignação na Terra; mas qualquer um disposto a lutar não perde esse tempo precioso e devolve imediatamente ao destino o golpe que acaba de receber. Está disposta a lutar contra o destino, Valentine? Fale, pois é isso que venho perguntar.
Valentine estremeceu e olhou para Morrel com os olhos arregalados e perplexos. Aquela idéia de resistir a seu pai, a sua avó, a toda sua família, enfim, sequer lhe ocorrera.
— Que está dizendo, Maximilien? — perguntou Valentine. — E o que chama de luta? Oh, seria um sacrilégio! O quê!? Acha que eu lutaria contra a ordem do meu pai, contra o desejo da minha avó moribunda! Isso é impossível!
Morrel esboçou um gesto.
— Você tem o coração muito nobre para não me compreender, e tão bem me compreende, querido Maximilien, que o vejo reduzido ao silêncio.
Lutar, eu! Deus me livre! Não, não; guardo todas as minhas forças para lutar contra mim mesma e beber minhas lágrimas, como você diz. Quanto a afligir meu pai, quanto a perturbar os últimos momentos de minha avó, jamais!
— Tem toda a razão — admitiu Morrel, fleugmaticamente.
— Que maneira de dizer isso, meu Deus! — exclamou Valentine, magoada.
— Digo-lhe isso como homem que a admira, senhorita — replicou Maximilien.
— Senhorita! — exclamou Valentine. — Senhorita! Oh, egoísta! Vê o meu desespero e finge não compreender.
— Está enganada; ao contrário, compreendo-a perfeitamente. A senhorita não quer contrariar o sr. de Villefort, não quer desobedecer à marquesa e amanhã assinará o contrato que deverá uni-la a seu marido.
— Mas, meu Deus! Posso agir de outra maneira?
— Não deve perguntar a mim, senhorita, pois não sou um bom juiz para essa causa, e meu egoísmo me cegará — respondeu Morrel, cuja irritação crescente era anunciada pela voz abafada e os punhos fechados.
— O que teria me proposto, Morrel, se eu me encontrasse disposta a aceitar sua sugestão? Vamos, responda. Não basta dizer “está agindo erradamente”, precisa dar um conselho.
— Está falando sério, Valentine, posso lhe dar esse conselho? Diga.
— Claro, querido Maximilien, se ele for bom, conte comigo; sabe muito bem que sou devotada ao seu amor.
— Valentine — disse Morrel, terminando de mover uma tábua já solta
—, dê-me a sua mão como prova de que perdoa minha raiva. Estou com a cabeça confusa, faz uma hora que as idéias mais loucas atravessam sucessivamente o meu espírito. Oh, se recusasse o meu conselho...!
— Muito bem! Que conselho é esse?
— Ei-lo, Valentine.
A moça ergueu os olhos para o céu e soltou um suspiro.
— Sou livre — declarou Maximilien —, sou suficientemente rico para nós dois; juro que você será minha mulher antes que meus lábios pousem em sua fronte.
— Você me faz tremer — disse a moça.
— Venha comigo — continuou Morrel —, levo-a para a casa da minha irmã, que é digna de ser sua irmã; embarcaremos para a Argélia, depois para a Inglaterra ou os Estados Unidos, caso não prefira que nos refugiemos em alguma província, onde esperaremos, para voltar a Paris, nossos amigos vencerem a resistência de sua família.
Valentine abaixou a cabeça.
— Já esperava por isso, Maximilien — disse ela. — É um conselho louco, e eu seria ainda mais louca que você se não o interrompesse neste mesmo instante com uma única palavra: impossível, Morrel, impossível.
— Irá então se curvar ao seu destino, tal como a sorte o dispuser, e sem sequer tentar combatê-lo? — disse Morrel decepcionado.
— Sim, ainda que isso me custe a vida.
— Pois bem, Valentine — continuou Maximilien —, novamente admito que você tem razão. De fato, sou eu que estou sem juízo, e você apenas me prova que a paixão cega os espíritos mais lúcidos. Portanto, agradeço-lhe por raciocinar sem paixão. Que seja: amanhã você estará inevitavelmente prometida ao sr. Franz d’Épinay, não em virtude de uma formalidade teatral criada para dar desfecho a uma comédia, a qual denominamos
“assinatura do contrato”, mas por livre e espontânea vontade.
— Você está novamente me levando ao desespero, Maximilien! — disse Valentine. — Novamente está enfiando ainda mais o punhal na ferida! O
que faria, me diga, se a sua irmã desse ouvidos a um conselho como esse?
— Senhorita — respondeu Morrel, com um sorriso amargo —, sou egoísta, como afirmou, e na minha condição de egoísta não penso no que fariam os outros numa situação como a minha, mas sim no que pretendo fazer. Julgo conhecê-la depois de um ano ter se passado; investi, desde que a conheci, todas as minhas chances de felicidade no seu amor; chegou o dia em que a senhorita declarou seu amor por mim, e a partir desse dia coloquei todas as minhas chances de futuro em seu poder: isso era a minha vida. Agora não penso mais nada; apenas me digo que a sorte virou, que eu acreditara ter conquistado o céu e o perdi. Todos os dias acontece de um jogador perder não apenas o que possui, mas também o que não possui.
Morrel pronunciou essas palavras com absoluta calma; Valentine olhou-o por um instante, com seus grandes olhos perscrutadores, tentando não permitir que os de Morrel vasculhassem a incerteza que já se agitava no fundo do seu coração.
— Mas, enfim, o que vai fazer? — perguntou Valentine.
— Vou ter a honra de me despedir da senhorita; Deus, que ouve minhas palavras e lê no fundo do meu coração, é testemunha de que lhe desejo uma vida suficientemente serena, feliz e pródiga, de modo a que não haja lugar para se lembrar de mim.
— Oh! — murmurou Valentine.
— Adeus, Valentine, adeus! — disse Morrel, fazendo uma cortesia.
— Aonde vai? — gritou a moça, esticando a mão através da cerca e agarrando Maximilien pela roupa, pois compreendia, por sua própria agitação interior, que a calma de seu bem-amado não podia ser real. —
Aonde vai?
— Vou fazer de tudo para não importunar mais a sua família, dando um exemplo a ser seguido por todos os homens honestos e fiéis que se virem na minha situação.
— Antes de ir embora, conte-me o que irá fazer, Maximilien... O rapaz sorriu tristemente.
— Oh, fale, fale! — suplicou Valentine. — Por favor!
— Está revendo sua decisão, Valentine?
— Ela não pode mudar, infeliz! Sabe muito bem! — desesperou-se a moça.
— Então, adeus, Valentine!
Valentine sacudiu a cerca com uma força de que não a julgaríamos capaz; e, enquanto Morrel se afastava, passou as duas mãos através dela e, juntando-as e contorcendo os braços:
— O que vai fazer? Quero saber! — gritava. — Aonde vai?
— Oh, fique sossegada — respondeu Maximilien, detendo-se a três passos da cerca. — Não é minha intenção responsabilizar outro homem pelos rigores que o destino me reserva. Qualquer outro a ameaçaria, dizendo ir procurar o sr. Franz, a fim de provocá-lo e enfrentá-lo em duelo, o que não teria o menor cabimento. O que o sr. Franz tem a ver com tudo isso? Ele me conheceu esta manhã, já se esqueceu de mim. Não sabia sequer que eu existia quando arranjos maquinados por suas respectivas famílias determinaram que vocês seriam um do outro. Logo, não tenho nada a dizer ao sr. Franz e, eu juro, não vou culpá-lo por isso.
— Mas a quem vai culpar? A mim?
— A você, Valentine! Oh, Deus me livre! A mulher é sagrada; a mulher amada é uma santa.
— A si mesmo então, infeliz, a si mesmo?
— Sou eu o culpado, não é mesmo? — torturou-se Morrel.
— Maximilien — disse Valentine —, venha até aqui, isto é uma ordem!
Maximilien aproximou-se com seu sorriso meigo e, não fosse pela palidez, poder-se-ia dizer que tinha sua expressão habitual.
— Escute, minha querida, minha adorada Valentine —, ele disse, com sua voz melodiosa e grave —, pessoas como nós, que jamais esboçaram um pensamento que as fizesse corar perante a sociedade, perante seus pais e perante Deus, pessoas como nós podem ler no coração um do outro como num livro aberto. Não estou fazendo romance, não sou um herói melancólico, não me arvoro nem a Manfred nem a Antony: mas, sem palavras, sem clamores, sem juras, apostei minha vida em você. Você me decepciona e tem razões para agir dessa forma, já lhe disse e repito; mas a verdade é que essa decepção arruína a minha vida. No momento em que se afasta de mim, Valentine, fico só no mundo. Minha irmã é feliz junto ao marido; esse marido é somente meu cunhado, isto é, um homem que apenas as convenções sociais vinculam a mim; ninguém na Terra, portanto, sentirá falta da minha existência, doravante inútil. Eis o que farei: vou esperar até o último segundo o seu casamento, pois não quero perder uma sombra que seja dessas chances inesperadas que às vezes o acaso nos proporciona, pois, daqui até lá, o sr. Franz d’Épinay pode morrer; no instante em que vocês dois se aproximarem, um raio pode cair sobre o altar. Tudo parece crível ao condenado à morte; para ele, os milagres classificam-se na ordem do possível desde que se trate da salvação de sua vida. Então, como eu dizia, esperarei até o último instante; quando o meu infortúnio se impuser como um fato irremediável, sem esperanças, escreverei uma carta confidencial ao meu cunhado, uma carta ao chefe de polícia para preveni-lo acerca dos meus desígnios e, no canto de um bosque qualquer, no fundo de uma vala qualquer, às margens de um rio qualquer, arrebentarei o meu crânio, palavra do filho do homem mais honesto que já viveu na França.
Um tremor convulsivo agitou os membros de Valentine; ela largou a cerca que segurava com as duas mãos, seus braços penderam e duas grandes lágrimas rolaram em sua face.
O rapaz permaneceu diante dela, taciturno e decidido.
— Oh, por piedade, por piedade — ela disse —, viverá, não é mesmo?
— Não, pela minha honra — disse Maximilien. — Mas que lhe importa isso? Terá cumprido o seu dever e estará com a consciência tranqüila.
Valentine caiu de joelhos, juntando os cacos do seu coração.
— Maximilien — ela disse —, Maximilien, meu amigo, meu irmão na Terra, meu verdadeiro esposo nos céus, eu lhe peço, faça como eu, viva com o sofrimento. Talvez um dia voltemos a nos reunir.
— Adeus, Valentine! — repetiu Morrel.
— Meu Deus! — exclamou a jovem, erguendo as duas mãos para o céu com uma expressão sublime. — Vê que fiz tudo que pude para permanecer mulher submissa: pedi, supliquei, implorei; ele não escutou nem meus pedidos, nem minhas súplicas, nem minhas lágrimas. Pois bem! —
continuou ela, ainda enxugando as lágrimas e recuperando a firmeza. —
Pois bem! Não quero morrer de remorsos, prefiro morrer de vergonha.
Você vai viver, Maximilien, e não serei de ninguém, apenas sua. A que horas? Quando? Imediatamente? Fale, ordene, estou pronta.
Morrel, que dera novamente alguns passos para se afastar, voltara e, pálido de alegria, o coração em júbilo, estendendo através da cerca as duas mãos para Valentine:
— Valentine — disse ele —, minha querida, não fale assim, caso contrário é melhor me deixar morrer. Ora, por que eu recorreria à violência, se nós dois nos amamos? Quer me obrigar a viver por senso de humanidade, só isso? Nesse caso, prefiro morrer.
— Oh, Senhor — murmurou Valentine, ainda conversando com Deus —, quem me ama no mundo? Ele. Quem me consolou de todos os meus sofrimentos? Ele. Em quem repousam minhas esperanças, em quem se detém minha vista enevoada, em quem se abriga meu coração ferido?
Nele, ele, sempre ele. Pois bem! É sua vez de ter razão; Maximilien, irei com você, abandonarei a casa do meu pai, tudo. Oh, como sou ingrata! —
gritou Valentine, soluçando. — Com todos! Até com o meu bondoso avô, de quem eu já me esquecia!
— Não — disse Maximilien —, você não irá abandoná-lo. Você me disse que o sr. Noirtier nutriu certa simpatia por mim. Pois bem! Antes de fugir, você lhe contará tudo; do consentimento que ele lhe der você fará um escudo perante Deus; depois, assim que nos casarmos, ele virá juntar-se a nós; em vez de um neto, terá dois. Você me contou como se comunicam; aprenderei rapidamente essa comovente língua dos sinais, concorde, Valentine. Oh, juro, em vez do desespero que nos espera, é a felicidade que lhe prometo!
— Oh, veja, Maximilien, veja como é grande seu poder sobre mim, você quase me faz acreditar no que está dizendo, e no entanto o que está dizendo não faz o menor sentido, já que o meu pai irá me amaldiçoar.
Conheço seu coração inflexível, nunca me perdoará. Portanto, ouça, Maximilien, se por artifício, oração ou acidente, ainda não sei, se, enfim, eu der um jeito de conseguir atrasar o casamento, estará à minha espera?
— Sim, juro, se você, por sua vez, jurar que esse casamento hediondo nunca virá a se realizar e que, mesmo sendo arrastada até o juiz, até o padre, dirá não!
— Juro, Maximilien, pelo que tenho de mais sagrado no mundo: minha mãe!
— Então, esperemos — concordou Morrel.
— Sim, esperemos — repetiu Valentine, que a esta palavra voltou a respirar. — Muitos fatores podem ser a solução para desgraçados como nós.
— Confio em você, Valentine — disse Morrel —, tudo que fizer estará bem-feito. Entretanto, se suas preces forem ignoradas, se o seu pai, se a sra. de Saint-Méran exigirem que o sr. d’Épinay seja convocado amanhã para assinar o contrato...
— Tem a minha palavra, Morrel...
— Em vez de assiná-lo...
— Irei ao seu encontro e fugiremos; mas daqui até lá, não desafiemos a Deus, Morrel; não nos encontremos mais: é um milagre, uma providência, que ainda não nos tenham surpreendido. Se fôssemos surpreendidos, se soubessem como nos encontramos, estaríamos perdidos.
— Tem razão, Valentine; mas como vou saber....
— Pelo tabelião, o sr. Deschamps.
— Conheço-o.
— E por mim mesma. Eu lhe escreverei, acredite em mim. Meu Deus!
Esse casamento é tão odioso para mim quanto para você, Maximilien!
— Excelente! Obrigado, minha adorada Valentine — exclamou Morrel.
— Então está tudo dito; quando me der o sinal, você transporá estes muros em meus braços. Nada será difícil para você: um coche estará à sua espera no portãozinho do cercado, você entrará nele comigo, eu a levarei para a casa da minha irmã. Lá, incógnitos se preferir, exibindo-nos se desejar, teremos consciência da nossa força e da nossa vontade, e não nos deixaremos degolar como o cordeiro, cuja única defesa são os suspiros.
— Combinado — disse Valentine. — De sua parte, Maximilien, eu sei, o que fizer, estará bem-feito.
— Oh!
— E então? Está contente com sua mulher? — perguntou a moça tristemente.
— Minha adorada Valentine, dizer que sim é pouco.
— Diga sempre.
Valentine aproximara-se, ou melhor, aproximara os lábios da cerca, e suas palavras insinuavam-se, com seu hálito perfumado, até os lábios de Morrel, que colava sua boca no outro lado da barreira fria e inexorável.
— Até logo — disse Valentine, desvencilhando-se dessa felicidade —, até logo!
— Receberei uma carta sua?
— Sim.
— Obrigado, querida esposa! Até breve.
O estalo de um beijo inocente e perdido ressoou; Valentine foi embora sob as tílias.
Morrel, ao escutar o último ruído de seu vestido roçando no arvoredo, de seus pés sobre o cascalho, ergueu os olhos para o céu com um sorriso inefável de gratidão por lhe permitir ser amado daquela forma, e também se afastou dali.
O rapaz voltou para casa e esperou o resto da noite e o dia seguinte inteiro sem nada receber. Finalmente, dois dias depois, por volta das dez da manhã, quando se preparava para procurar o sr. Deschamps, o tabelião, recebeu pelo correio um bilhetinho, que reconheceu como sendo de Valentine, embora nunca tivesse visto sua letra.
Era concebido nestes termos:
Lágrimas, súplicas e preces de nada adiantaram. Ontem, durante duas horas, estive na igreja Saint Philippe du Roule e, durante duas horas, rezei a Deus do fundo da minha alma; Deus é insensível como os homens, e a assinatura do contrato está marcada para esta noite, às nove horas.
Tenho apenas uma palavra, assim como um só coração, Morrel, e esta palavra está comprometida: meu coração é seu!
Esta noite, portanto, às quinze para as nove, na cerca. Sua esposa, valentine de villefort PS: Minha infeliz avó está cada vez pior; ontem, sua exaltação transformou-se em delírio; hoje, seu delírio beira a loucura.
Você me amará muito, não é, Morrel, para me fazer esquecer que a terei deixado nessas condições...?
Creio que estão escondendo do vovô Noirtier que a assinatura do contrato deve acontecer esta noite.
Morrel não se limitou às informações fornecidas por Valentine; foi até o tabelião, que lhe confirmou a notícia: a assinatura do contrato estava marcada para as nove da noite.
Em seguida, passou na casa de Monte Cristo; foi ali que soube mais: Franz já viera lhe anunciar a novidade; por sua vez, a sra. de Villefort escrevera ao conde para que tivesse a bondade de desculpá-la se não o convidava, mas a morte do sr. de Saint-Méran e o estado da viúva lançavam sobre essa reunião um véu de tristeza com o qual ela não queria assombrear a fronte do conde, a quem desejava todas as felicidades.
Na véspera, Franz fora apresentado à sra. de Saint-Méran, que saíra da cama para essa apresentação e para lá voltou imediatamente.
Morrel, como não é difícil compreender, achava-se num estado de agitação que não podia escapar a um olhar tão penetrante como o do conde. Assim, Monte Cristo foi mais afetuoso que nunca com ele; tão afetuoso que por duas ou três vezes Maximilien esteve a ponto de lhe contar tudo. Mas lembrou-se da promessa formal feita a Valentine, e o segredo permaneceu no fundo de seu coração.
O rapaz releu a carta de Valentine vinte vezes ao longo do dia. Era a primeira vez que ela lhe escrevia, e em que ocasião! Cada vez que lia essa carta, Maximilien renovava para si mesmo o juramento de fazer Valentine feliz. Com efeito, que autoridade não detém a mulher que toma decisão tão corajosa! Que devotamento não merece daquele por quem tudo sacrificou!
Como não ser ela, para o bem-amado, o primeiro e mais digno objeto de culto! É ao mesmo tempo rainha e esposa, e não existe alma suficiente para lhe agradecer e amá-la.
Morrel divagava com uma agitação inexprimível sobre aquele momento em que Valentine chegaria dizendo:
— Aqui estou, Maximilien; tome-me em seus braços.
Ele organizara minuciosamente a fuga; duas escadas haviam sido escondidas na cerca; um cabriolé, a ser conduzido pelo próprio Maximilien, esperava; nenhum criado, nenhuma luz; na curva da primeira rua, acenderiam lanternas, pois não convinha, por excesso de precaução, cair nas mãos da polícia.
De tempos em tempos, calafrios atravessavam o corpo de Morrel. Ele pensava no momento em que, do topo daquele muro, protegeria a descida
de Valentine e sentiria, trêmula e abandonada em seus braços, aquela de quem apertara apenas a mão e beijara apenas a ponta dos dedos.
No cair da tarde, porém, quando Morrel sentiu a hora se aproximando, ele experimentou a necessidade de ficar sozinho. Seu sangue fervia, as perguntas mais simples, a mera voz de um amigo o teriam irritado.
Fechou-se em casa, tentando ler, mas seu olhar deslizou sobre as páginas, sem nada compreender, e acabou por deixar o livro de lado, a fim de esboçar, pela segunda vez, seu plano, com suas escadas e sua cerca.
Finalmente a hora chegou.
O homem apaixonado nunca permite que os relógios façam serenamente o seu percurso; Morrel atormentou tanto os seus que eles acabaram por soar oito e meia às seis horas. Disse consigo que era hora de partir, que nove horas era efetivamente a hora da assinatura do contrato, mas que, segundo toda probabilidade, Valentine não esperaria aquela assinatura inútil. Por conseguinte, Morrel, depois de ter saído da rua Meslay às oito e meia, segundo o seu carrilhão, entrava no cercado quando oito horas soaram em Saint-Philippe du Roule.
O cavalo e o cabriolé foram escondidos atrás de um pequeno casebre em ruínas, no qual Morrel costumava se esconder.
O dia foi morrendo aos poucos, e as folhagens do jardim amontoaram-se em grandes tufos de um escuro opaco.
Com o coração palpitante, Morrel saiu do esconderijo e foi olhar pelo buraco da cerca; ainda não havia ninguém.
Deu oito e meia.
Morrel já esperava há meia hora, andando de um lado para o outro; depois, em intervalos cada vez mais próximos, grudando seu olho nas tábuas. O jardim escurecia cada vez mais, contudo era em vão que ele procurava um vestido branco nessa escuridão, era em vão que buscava ouvir o ruído de passos naquele silêncio.
A casa, avistada através das folhagens, permanecia em sombras, não apresentando nenhum sinal de uma residência que se abre para um acontecimento tão importante quanto a assinatura de um contrato de casamento.
Morrel consultou seu relógio, que marcava nove e quinze, mas quase imediatamente a voz de um carrilhão, já ouvido por duas ou três vezes, retificou o erro de seu relógio, dando as nove e meia.
Já era meia hora de espera a mais do que a própria Valentine fixara. Ela dissera nove horas, ou mais provavelmente antes do que depois.
Este foi o momento mais terrível para o coração do rapaz, sobre o qual cada segundo caía como um martelo de chumbo.
O menor rumor da folhagem, o menor assobio do vento atiçava seus ouvidos e fazia o suor aflorar em sua testa. Então, todo arrepiado, ele prendeu sua escada e, para não perder tempo, apoiou o pé no primeiro degrau.
Em meio a essas alternâncias de medo e esperança, em meio a essas dilatações e apertos do coração, as dez horas soaram na igreja.
— Oh — murmurou Maximilien com terror —, é impossível a assinatura do contrato durar tanto tempo, a menos que tenha ocorrido algum imprevisto; considerei todas as possibilidades, calculei o tempo que duram todas as formalidades, aconteceu alguma coisa.
Então, ora ele andava agitado de um lado para o outro em frente ao portão, ora voltava para apoiar a testa febril no ferro gelado. Será que Valentine desmaiara após a assinatura do contrato, ou fora detida em sua fuga? Estas eram as duas únicas hipóteses conjeturadas pelo rapaz, ambas desesperadoras.
O que ele achou mais plausível foi terem faltado forças a Valentine durante a fuga, e ela ter caído sem sentidos pelo caminho.
— Oh, se for assim — exclamou ele, lançando-se para o topo da escada
—, irei perdê-la, e por minha culpa!
O demônio que lhe inoculara esse pensamento não o abandonou mais, zumbindo em seu ouvido com aquela persistência que faz determinadas dúvidas, no fim de um instante, em virtude do raciocínio, tornarem-se convicções. Seus olhos, que procuravam atravessar a escuridão crescente, julgaram perceber alguma coisa caída na aléia escura; Morrel atreveu-se a chamar, e pareceu-lhe que o vento lhe devolvia um lamento desarticulado.
A meia hora acabava de soar; era impossível conter-se por mais tempo, suas suposições eram infinitas. As têmporas de Morrel latejavam com força, nuvens passavam diante de seus olhos. Ele passou uma perna por sobre o muro e pulou para o outro lado.
Estava na casa dos Villefort, acabava de entrar ali pulando o muro; pensou nas conseqüências de uma atitude como aquela, mas não chegara até ali para recuar.
Durante um tempo, esgueirou-se pelo muro. Do lugar onde estava, descortinava-se a casa.
Morrel então certificou-se de uma coisa de que já suspeitara ao tentar insinuar seu olhar através das árvores: em vez das luzes que esperava ver brilhar em todas as janelas, como seria natural nos dias de cerimônia, não viu nada a não ser a massa cinzenta e ainda velada por uma grande cortina de sombra projetada por uma imensa nuvem, que se esparramava sobre a lua.
De tempos em tempos uma luz atravessava, como que desgarrada, as três janelas do primeiro andar. Estas três janelas eram as dos aposentos da sra. de Saint-Méran.
Uma outra luz permanecia imóvel por trás das cortinas vermelhas. Essas cortinas eram as do quarto da sra. de Villefort.
Morrel adivinhou tudo isso. Tantas vezes, para acompanhar Valentine em pensamento em todas as horas do dia, tantas vezes, como íamos dizendo, desenhara a planta daquela casa que, sem tê-la visto, já a conhecia.
... passou uma perna por sobre o muro e pulou para o outro lado.
Aquela escuridão e aquele silêncio deixaram o rapaz ainda mais angustiado do que havia ficado com a ausência de Valentine.
Transtornado, louco de dor, decidido a enfrentar qualquer coisa para rever Valentine e se certificar da tragédia que pressentia, fosse qual fosse, Morrel dirigiu-se até a orla do arvoredo e já se preparava para atravessar o mais rapidamente possível o canteiro, expondo-se completamente, quando um som de voz ainda bem distante, mas que o vento carregava, chegou até ele.
A esse barulho, deu um passo atrás; quando tinha metade do corpo fora da folhagem, enfiou-se nela completamente e permaneceu imóvel e mudo, enfurnado na penumbra.
Sua decisão estava tomada: se fosse Valentine sozinha, ele a avisaria com uma palavra quando passasse; se Valentine estivesse acompanhada, pelo menos a veria e se certificaria de que nada de ruim lhe acontecera; se fossem estranhos, captaria palavras de sua conversa e conseguiria compreender aquele mistério até então incompreensível.
Quando a lua saiu da nuvem que a ocultava, Morrel viu surgir, na porta da escadaria, o vulto de Villefort, seguido por um homem vestido de preto.
Eles desceram os degraus e avançaram na direção do arvoredo. Ainda não haviam dado quatro passos quando, naquele homem vestido de preto, Morrel reconheceu o doutor d’Avrigny.
O rapaz, ao vê-los caminhar em sua direção, recuou mecanicamente até dar com o tronco do sicômoro que compunha o centro do arvoredo; ali foi obrigado a se deter.
Pouco depois o cascalho parou de ranger sob os passos daqueles homens.
— Ah, caro doutor — disse o procurador do rei —, eis o céu que se declara frontalmente contra a nossa casa. Que morte horrível, fulminante!
Não tente me consolar, ai de mim! A dor é recente e profunda demais!
Morta, morta!
Um suor frio gelou a fronte do rapaz e fez seus dentes baterem. Quem então morrera naquela casa que o próprio Villefort julgava amaldiçoada?
— Meu caro sr. de Villefort — respondeu o médico, num tom que redobrou o terror de Maximilien —, não o trouxe aqui para consolá-lo, muito pelo contrário.
— Que quer dizer? — perguntou o procurador do rei, assustado.
— Quero dizer que, por trás da infelicidade que acaba de lhe atingir, talvez haja outra maior ainda.
— Oh, meu Deus! — murmurou Villefort, juntando as mãos em desespero. — Que mais tem a me dizer?
— Não há ninguém nos arredores, meu amigo?
— Oh, estamos completamente a sós. Mas que significam todas essas precauções?
— Significam que tenho uma confidência terrível a lhe fazer — disse o médico. — Vamos nos sentar.
Seria mais exato dizer que Villefort deixou-se cair num banco. O médico permaneceu de pé à sua frente, com uma das mãos em seu ombro. Morrel, gelado de medo, apoiava a testa numa das mãos e com a outra apertava o coração, cuja palpitação temia que ouvissem.
— Morta, morta! — repetia, em pensamento, com a voz do seu coração.
E ele mesmo sentia-se moribundo.
— Fale, doutor, sou todo ouvidos — disse Villefort. — Adiante, estou preparado para tudo.
— A sra. de Saint-Méran era muito idosa, sem dúvida, mas gozava de excelente saúde.
Morrel respirou pela primeira vez em dez minutos.
— O sofrimento a matou — disse Villefort —, sim, o sofrimento, doutor! O hábito de viver há mais de quarenta anos ao lado do marquês...!
— Não foi o sofrimento, meu caro Villefort — disse o médico. — O
sofrimento pode matar, embora sejam raros os casos, mas não mata num dia, não mata numa hora, não mata em dez minutos.
Villefort não respondeu nada; apenas levantou a cabeça, que mantivera baixa até aquele instante, e olhou para o médico com olhos estupefatos.
— O senhor ficou com ela durante a agonia? — perguntou d’Avrigny.
— Naturalmente — respondeu o procurador do rei. — O senhor discretamente pediu que eu não me afastasse.
— Observou os sintomas do mal a que a sra. de Saint-Méran sucumbiu?
— Certamente. A sra. de Saint-Méran teve três ataques sucessivos, com o intervalo de alguns minutos entre um e outro, gradativamente mais próximos e mais graves. Quando o senhor chegou, a sra. de Saint-Méran já estava ofegante havia alguns minutos. Teve então uma crise que tomei por um simples ataque de nervos; porém comecei realmente a me assustar quando a vi soerguer-se na cama, membros e pescoço hirtos. Então, pela
fisionomia do senhor, percebi que a coisa era mais grave do que eu pensava. Passada a crise, procurei seus olhos, não os encontrei. O senhor tomava o pulso, contava as batidas do coração. Quando a segunda crise irrompeu, o senhor ainda não se voltara para mim. Essa segunda crise foi mais terrível que a primeira; repetiram-se os mesmos movimentos nervosos, a boca se contraiu e ficou roxa. No terceiro, ela expirou. Desde o primeiro, eu sugeri que poderia ser tétano; o senhor confirmou minha opinião.
— Sim, na frente de todos — respondeu o médico —, mas agora estamos a sós.
— O que vai me dizer, meu Deus?
— Que os sintomas de tétano e envenenamento por substâncias vegetais são absolutamente idênticos.
O sr. de Villefort pôs-se de pé; em seguida, após um instante de imobilidade e silêncio, deixou-se cair novamente no banco.
— Oh, meu Deus! Doutor — disse —, tem consciência de suas palavras?
Morrel não sabia se estava sonhando ou se estava acordado.
— Escute — disse o médico —, conheço bem a gravidade da minha declaração e o caráter do homem ao qual ela está sendo feita.
— É ao magistrado ou ao amigo que se dirige? — perguntou Villefort.
— Ao amigo, neste momento apenas ao amigo. As relações entre os sintomas do tétano e os sintomas de envenenamento por substâncias vegetais são de tal modo similares que, se eu precisasse assinar embaixo do que estou lhe dizendo agora, declaro que hesitaria. Portanto, repito, não é ao magistrado que me dirijo, é ao amigo. Pois bem! Ao amigo, eu declaro: ao longo de seus quarenta e cinco minutos de duração, estudei a agonia, as convulsões e a morte da sra. de Saint-Méran. Na minha convicção, não apenas a sra.
de Saint-Méran morreu envenenada, como eu também diria, sim, diria qual veneno que a matou.
— Cavalheiro! Cavalheiro!
— Estava tudo ali, veja: sonolência interrompida por crises nervosas, superexcitação do cérebro, torpor dos centros. A sra. de Saint-Méran sucumbiu a uma dose violenta de brucina ou estricnina, a ela ministrada provavelmente por acaso, talvez por engano.
Villefort agarrou a mão do médico.
— Oh, isso é impossível! — exclamou. — Estou sonhando! Estou sonhando! É terrível ouvir uma coisa dessas de um homem como o senhor!
Em nome dos céus, eu lhe suplico, caro doutor, admita que pode estar enganado.
— Claro que posso, mas...
— Mas...?
— Mas não creio que esteja.
Villefort agarrou a mão do médico.
— Doutor, tenha pena de mim; de uns dias para cá vêm me acontecendo tantas coisas insólitas que penso na possibilidade de estar louco.
— Alguém mais além de mim esteve com a sra. de Saint-Méran?
— Ninguém.
— Despacharam para a farmácia alguma receita que não me tenha sido submetida?
— Nenhuma.
— A sra. de Saint-Méran tinha inimigos?
— Não que eu soubesse.
— Alguém tinha interesse em sua morte?
— Claro que não, meu Deus, claro que não! Minha filha é sua única herdeira. Apenas Valentine... Oh, se tal hipótese me ocorresse eu me apunhalaria para punir meu coração por ter abrigado tal pensamento um segundo que fosse.
— Oh! — exclamou por sua vez o sr. d’Avrigny. — Caro amigo, Deus não permite que eu acuse alguém, falo apenas de um acidente, compreenda bem, de um engano. Entretanto, acidente ou engano, o fato aí está, sussurrando à minha consciência, e pedindo à minha consciência que fale alto. Informe-se.
— Com quem? Como? De quê?
— Vejamos: Barrois, o velho criado, não teria se enganado e dado à sra.
de Saint-Méran alguma poção preparada para seu patrão?
— Para o meu pai?
— Sim.
— Mas como uma poção preparada para o sr. de Noirtier pode envenenar a sra. de Saint-Méran?
— Nada mais simples: sabe que os venenos funcionam como remédios para certas doenças; a paralisia é uma delas. Há aproximadamente três meses, após ter feito de tudo para devolver o movimento e a fala ao sr.
Noirtier, decidi tentar um último recurso; há três meses, como eu dizia, venho tratando-o com brucina; assim, na última poção que encomendei para ele, entravam seis centigramas; seis centigramas inócuos para os órgãos paralisados do sr. Noirtier e aos quais, por sinal, ele se acostumou mediante doses sucessivas, seriam seis centigramas suficientes para matar qualquer outro que não ele.
— Meu caro doutor, não existe nenhuma comunicação entre os aposentos do sr. Noirtier e os da sra. de Saint-Méran, e Barrois nunca entrou no quarto da minha sogra. Enfim, digo-lhe, doutor, embora saiba que é o homem mais experiente e sobretudo mais consciencioso do mundo, embora em qualquer circunstância sua palavra seja para mim uma tocha que me orienta como a luz do sol, ainda assim, doutor, ainda assim, preciso, a despeito dessa
convicção, me apoiar neste axioma: Errare humanum est2.
— Escute, Villefort — disse o médico —, haveria dentre meus colegas algum em quem depositaria tanta confiança quanto em mim?
— Por que pergunta isso? Aonde pretende chegar?
— Chame-o, eu lhe direi o que vi, o que observei, faremos a autópsia.
— E encontrará vestígios do veneno?
— Não, do veneno não, não disse isso, mas constataremos a exasperação do sistema nervoso, reconheceremos a asfixia patente, incontestável, e lhe diremos: “Caro Villefort, se foi por negligência que a coisa se deu, vigie seus criados; se foi por ódio, vigie seus inimigos.”
— Oh, meu Deus! O que está me propondo, d’Avrigny? — respondeu Villefort, abatido. — A partir do momento em que houver mais alguém de posse deste segredo, uma investigação se fará necessária, e uma investigação na minha casa. Impossível! Entretanto — continuou o procurador do rei, recompondo-se e, ao mesmo tempo, fitando o médico com inquietude —, se quiser, se exigir absolutamente, farei isso. Com efeito, talvez eu devesse investigar esse caso: minha consciência assim me ordena. Mas, doutor, o senhor me vê antecipadamente invadido pela tristeza. Introduzir na minha casa tanto escândalo, depois de tanta dor! Oh, minha mulher e minha filha vão morrer com isso; e eu, eu, doutor, o senhor sabe, um homem não chega aonde cheguei, um homem não foi procurador do rei durante vinte e cinco anos sem ser acossado por uma horda de inimigos; os meus são numerosos. Esse caso ruidoso será para eles um triunfo que os fará estremecer de alegria, enquanto eu serei coberto pela vergonha. Doutor, perdoe-me essas idéias mesquinhas. Se o senhor fosse padre, eu não me atreveria a emiti-las; mas o senhor é um homem, conhece os outros homens. Doutor, doutor, o senhor não me disse nada, não é mesmo?
— Caro sr. de Villefort — respondeu o médico, abalado —, meu primeiro dever é a humanidade. Eu teria salvado a sra. de Saint-Méran se a ciência tivesse o poder de fazê-lo, mas ela está morta, eu me dedico aos vivos. Enterremos no fundo dos nossos corações esse terrível segredo.
Permitirei, se os olhos de alguns atentarem para esse fato, que imputem à minha ignorância o silêncio que mantive. Enquanto isso, senhor, continue a investigar, investigue diligentemente, pois talvez a coisa não pare aí... E
quando tiver descoberto o culpado, serei eu quem lhe dirá: “O senhor é o magistrado, faça o que bem entender!”
— Oh, obrigado, obrigado, doutor! — agradeceu Villefort, com uma alegria indizível. — Nunca tive amigo melhor que o senhor.
Como se temesse que o doutor d’Avrigny recuasse nessa concessão, ele se levantou e puxou o doutor na direção da casa.
Afastaram-se.
Morrel, como se tivesse necessidade de respirar, pôs a cabeça para fora do arvoredo, e o luar iluminou aquele rosto tão pálido que parecia o de um fantasma.
— Deus me protege de forma evidente, porém terrível — disse. — Mas, e Valentine, e Valentine, pobre amiga? Resistirá ela a tanto sofrimento?
Ao dizer essas palavras, olhou alternadamente para a janela de cortinas vermelhas e para as três janelas de cortinas brancas.
A luz extinguira-se quase completamente na janela de cortinas vermelhas. Provavelmente a sra. de Villefort acabava de apagar sua lamparina, e apenas o abajur enviava seu reflexo às vidraças.
Na ponta da casa, ao contrário, viu abrir-se uma das três janelas com cortinas brancas. Uma vela colocada na lareira lançou alguns feixes pálidos de luz para o lado de fora, e uma sombra veio por um instante debruçar-se na sacada.
Morrel sentiu um calafrio; pareceu-lhe ter ouvido um soluço.
Não surpreendia que aquela alma habitualmente tão corajosa e forte, agora perturbada e exaltada pelas duas paixões humanas mais intensas, o amor e o medo, se visse enfraquecida a ponto de sofrer alucinações supersticiosas.
Embora fosse impossível, escondido como estava, que Valentine o avistasse, julgou ser chamado pela sombra da janela. Seu espírito perturbado dizia-lhe isso, seu coração ardente o repetia. Esse duplo equívoco tornou-se uma realidade irresistível, quando então ele, por um desses incompreensíveis impulsos da juventude, saiu de seu esconderijo e, com duas passadas, sob o risco de dar o alerta por algum grito involuntário escapado da moça, atravessou o canteiro que o luar tornava amplo e branco como um lago, alcançando o renque de laranjeiras que se estendia em frente à casa, alcançou os degraus da escada da entrada, que subiu rapidamente, e empurrou a porta, que se abriu sem resistência à sua frente.
Valentine não o tinha visto; seus olhos dirigidos para o céu acompanhavam uma nuvem prateada que deslizava pela abóbada, cuja forma era a de uma sombra subindo ao céu; seu espírito poético e exaltado dizia-lhe que era a alma da avó.
Enquanto isso, Morrel atravessara o vestíbulo e encontrara o corrimão da escada. Tapetes estendidos nos degraus abafavam seus passos; aliás, Morrel chegara a tal ponto de exaltação que nem a presença do sr. de Villefort o teria assustado. Se o sr. de Villefort se apresentasse à sua vista, sua decisão estava tomada: iria abordá-lo e confessar tudo, suplicando-lhe que desculpasse e aprovasse o amor que o unia à sua filha, e sua filha a ele. Morrel estava louco.
Por sorte, não encontrou com ninguém.
Foi principalmente nesse instante que o conhecimento da planta da casa, adquirido por intermédio de Valentine, lhe foi útil. Chegou sem incidentes ao topo da escada, e quando, ao chegar ali, parou para se orientar, um soluço cuja entonação reconheceu indicou-lhe o caminho a seguir; voltou-se; uma porta entreaberta deixava o reflexo de uma luz e o som de uma voz chorosa chegarem até ele. Empurrou essa porta e entrou.
No fundo de uma alcova, sob o lençol branco que cobria sua cabeça e desenhava sua forma, jazia a defunta, mais terrível ainda aos olhos de Morrel após a revelação do segredo que o acaso colocara em sua posse.
Ao lado da cama, de joelhos, a cabeça enterrada nas almofadas de um amplo sofá, Valentine, arrepiada e sacudida pelos soluços, estendia acima da cabeça, que não se via, suas duas mãos juntas e hirtas.
Ela saíra da janela ainda aberta e rezava bem alto com ênfases que teriam comovido o coração mais insensível. A palavra escapava de seus lábios, rápida, incoerente, ininteligível, tanto a dor apertava sua garganta com tenazes incandescentes.
A lua, deslizando através do vão das janelas, empalidecia a luz da vela e azulava, com seus matizes fúnebres, esse quadro de desolação.
Morrel não pôde resistir a tal espetáculo. Não era de uma devoção exemplar, ou fácil de se deixar impressionar, mas Valentine sofrendo, chorando, retorcendo os braços diante dele, era mais do que podia suportar em silêncio. Maximilien soltou um suspiro, murmurou um nome, e a cabeça afogada nas lágrimas e marmorizada no veludo da poltrona, uma cabeça de Madalena de
Correggio3, ergueu-se e permaneceu voltada para ele.
Valentine o viu e não demonstrou qualquer espanto. Já não existem emoções intermediárias num coração invadido pelo desespero supremo.
Morrel estendeu sua mão para a namorada. Valentine, como desculpas por ter faltado ao encontro, apenas apontou o cadáver que jazia sob a
mortalha e recomeçou a soluçar.
Nem um nem outro ousava falar naquele quarto. Ambos hesitavam em romper um silêncio que parecia ordenado pela morte, de pé em algum canto e com o dedo nos lábios.
Finalmente, Valentine foi a primeira a ousar.
— Querido — disse ela —, como pode estar aqui? Ai de mim! Eu lhe daria as boas-vindas, se a morte já não houvesse aberto para você a porta dessa casa.
— Valentine — disse Morrel, com voz trêmula e as mãos unidas —, eu a esperei desde as oito e meia. Não via você chegar, fiquei preocupado, pulei o muro, penetrei no jardim; então, vozes comentando esse incidente fatal...
— Vozes de quem? — perguntou Valentine.
Morrel estremeceu, pois toda a conversa do médico e do sr. de Villefort voltou-lhe à mente e, através da mortalha, ele examinou aqueles braços retorcidos, aquele pescoço duro, aqueles lábios roxos.
— As vozes dos seus criados — respondeu — me disseram tudo.
— Mas vir até aqui significa nossa perdição, querido — disse Valentine, sem terror e sem raiva.
Valentine apenas apontou o cadáver que jazia sob a mortalha.
— Perdoe-me — respondeu Morrel no mesmo tom —, vou me retirar.
— Não — disse Valentine —, você seria descoberto, fique.
— Mas, e se vier alguém?
A moça balançou a cabeça.
— Não virá ninguém — disse. — Fique tranqüilo, eis a nossa salvaguarda. E mostrou a silhueta do cadáver desenhada pela mortalha.
— Mas o que aconteceu com o sr. d’Épinay? Fale, eu lhe suplico —
volveu Morrel.
— O sr. Franz chegou para assinar o contrato no exato instante em que minha avó dava o último suspiro.
— Que infelicidade! — exclamou Morrel, com uma sensação de alegria egoísta, pois pensava consigo mesmo que aquela morte retardaria indefinidamente a data do casamento de Valentine.
— Mas o que duplica minha dor — continuou a moça, como se aquela reação devesse receber prontamente um castigo — é que essa desventurada e querida avó, ao morrer, ordenou que concluíssemos o casamento o mais cedo possível. Ela também, meu Deus, julgando me proteger, agia contra mim!
— Ouça! — disse Morrel.
Os dois jovens fizeram silêncio.
Ouviram uma porta se abrindo e passos estalando no assoalho do corredor e nos degraus da escada.
— É o meu pai saindo de seu gabinete — explicou Valentine.
— E se despedindo do médico — acrescentou Morrel.
— Como sabe que é o médico? — perguntou Valentine, perplexa.
— Presumo — disse Morrel. Valentine fitou o rapaz.
Enquanto isso, ouviram a porta da rua se fechando. O sr. de Villefort fora passar a chave no portão do jardim e subia novamente a escada.
Ao chegar ao vestíbulo, parou por um instante, como se hesitasse entre ir para seus aposentos ou dirigir-se ao quarto da sra. de Saint-Méran.
Morrel precipitou-se para trás de uma portinhola. Valentine não fez qualquer movimento; dir-se-ia que uma dor suprema a colocava acima dos temores comuns.
O sr. de Villefort foi para o seu quarto.
— Agora — disse Valentine —, você não pode mais sair nem pelo portão do jardim nem pela porta da rua.
Morrel olhou a rapariga com espanto.
— Agora — disse ela —, só há uma saída autorizada e segura, é a do quarto do meu avô.
Valentine se levantou.
— Venha — disse ela.
— Para onde? — perguntou Maximilien.
— Ao quarto do meu avô.
— Eu, no quarto do sr. Noirtier?
— Sim.
— Tem certeza?
— Tenho, e há muito tempo. É o único amigo que tenho no mundo, e nós dois precisamos dele... Venha.
— Atenção, Valentine — disse Morrel, hesitando em fazer o que a moça lhe ordenava —, atenção, a venda caiu dos meus olhos: ao vir aqui, cometi um ato irracional. E quanto a você, está raciocinando com clareza, querida?
— Sim — disse Valentine —, e tenho apenas um escrúpulo no mundo, é o de abandonar os despojos da minha infeliz avó, os quais fui encarregada de velar.
— Valentine — disse Morrel —, a morte é sagrada por si mesma.
— Sim — respondeu a moça. — Aliás, será por pouco tempo, venha.
Valentine atravessou a galeria e desceu uma escadinha que levava até o quarto de Noirtier. Morrel a seguia na ponta dos pés. Ao chegarem ao corredor do quarto, encontraram o velho criado.
— Barrois — disse Valentine —, feche a porta e não deixe ninguém entrar. Ela foi a primeira a entrar.
Noirtier, ainda em sua poltrona, atento ao menor ruído, instruído pelo seu velho criado de tudo que acontecia, encarava com olhares ávidos a porta do quarto; viu Valentine, e seus olhos faiscaram.
Havia nos procedimentos e na atitude da moça alguma coisa de grave e solene que impressionou o velho. Seu olho, até ali faiscante, tornou-se indagador.
— Querido avô — disse ela com uma voz pausada —, ouça bem: sabe que a bondosa vovó Saint-Méran morreu há uma hora e que agora, exceto o senhor, não tenho mais ninguém que me ame no mundo?
Uma expressão de ternura infinita passou pelos olhos do velho.
— Portanto, não é apenas ao senhor que devo confidenciar minhas mágoas ou minhas esperanças?
O paralítico fez sinal de que sim. Valentine pegou Maximilien pela mão.
— Então — disse —, olhe bem para esse cavalheiro.
O velho fixou em Morrel seu olhar penetrante e ligeiramente perplexo.
— É o sr. Maximilien Morrel — disse ela —, filho daquele honesto negociante de Marselha de quem provavelmente já ouviu falar...
— Sim — fez o velho.
— É um nome limpo, que Maximilien está em vias de tornar glorioso, pois, aos trinta anos, é capitão dos spahis, oficial da Legião de Honra.
O velho fez sinal de que se lembrava.
— Pois bem, vovô — continuou Valentine, pondo-se de joelhos diante do velho e apontando para Maximilien com uma das mãos —, amo-o e serei apenas dele! Se me obrigarem a casar com outro, vou me consumir ou me matar.
Os olhos do velho exprimiam todo um mundo de pensamentos tumultuosos.
— O senhor gosta do sr. Maximilien Morrel, não é, vovô? — perguntou a moça.
— Sim — fez o velho imóvel.
— Pode então nos proteger, nós que somos também seus filhos, contra a vontade do meu pai?
Noirtier pespegou seu olhar inteligente em Morrel, como para lhe dizer:
— Depende.
Maximilien compreendeu.
— A senhorita — disse ele a Valentine — tem um dever a cumprir no quarto de sua avó; pode me dar licença de ter a honra de conversar um instante com o sr. Noirtier?
— Pois bem, vovô, amo-o e serei apenas dele.
— Sim, sim, é isso — fez o olho do velho.
Em seguida, olhou para Valentine com preocupação.
— Está perguntando como ele fará para compreendê-lo, vovô?
— Sim.
— Oh, não se preocupe! Falamos tanto de você que ele sabe como nos comunicamos.
Então, voltando-se para Maximilien com um sorriso adorável, não obstante velado por uma profunda tristeza, ela disse:
— Ele sabe tudo que eu sei.
Valentine levantou-se, aproximou uma cadeira para Morrel recomendou a Barrois que não deixasse ninguém entrar. Depois de beijar carinhosamente o avô e se despedir tristemente de Morrel, ela saiu.
Então Morrel, para provar a Noirtier que tinha a confiança de Valentine e conhecia bem todos os seus segredos, pegou o dicionário, a pena e o papel, e colocou-os sobre a mesa onde havia uma lamparina.
— Mas em primeiro lugar — disse Morrel —, permita-me, senhor, dizer-lhe quem sou, como amo a srta. Valentine e quais são minhas
pretensões a seu respeito.
— Estou ouvindo — fez Noirtier.
Era um espetáculo bastante imponente ver aquele velho, aparentemente um fardo inútil, tornar-se o único protetor, o único amparo, o único juiz de dois amantes jovens, belos, fortes e entrando na vida.
Sua fisionomia, marcada por uma nobreza e austeridade notáveis, impunha-se a Morrel, que, tremendo, começou seu relato.
Contou então como conhecera, como se apaixonara por Valentine e como a moça, em seu isolamento e infelicidade, acolhera a oferta do seu devotamento. Revelou sua origem, sua posição, sua fortuna; e, mais de uma vez, ao interrogar o olhar do paralítico, este olhar respondeu:
— Muito bem, continue.
— Agora — disse Morrel, terminando esta parte do relato —, senhor, que lhe falei do meu amor e das minhas esperanças, posso lhe falar dos meus planos?
— Sim — fez o velho.
— Pois bem! Eis o que havíamos planejado.
E então contou tudo a Noirtier: como um cabriolé esperava no cercado, como pretendia abduzir Valentine, levá-la para a casa de sua irmã, desposá-la e, numa respeitosa espera, aguardar o perdão do sr. de Villefort.
— Não — disse Noirtier.
— Não? — surpreendeu-se Morrel. — Não é assim que devemos fazer?
— Não.
— Quer dizer que esse plano não tem o seu assentimento?
— Não.
— Como quiser! Mas há um outro jeito — disse Morrel. O olhar indagador do velho perguntou:
— Qual?
Maximilien continuou:
— Irei falar com sr. Franz d’Épinay, fico satisfeito em poder lhe dizer isso na ausência da srta. de Villefort, e me comportarei com ele de maneira a obrigá-lo a ser um homem galante.
O olhar de Noirter continuou a interrogar.
— O que farei?
— Sim.
— Pois bem. Como eu dizia, irei falar com ele e contar acerca dos laços que me unem à srta. Valentine. Se for um homem delicado, provará sua delicadeza renunciando espontaneamente à mão da noiva, o que lhe granjeará minha amizade e meu devotamento eternos; se recusar, seja porque o interesse o leve a isso, seja porque um ridículo orgulho o faça persistir, depois de lhe ter provado que ele constrangeria minha mulher, que Valentine me ama e não amará a ninguém senão a mim, duelarei com ele dando-lhe todas as vantagens, e ou o matarei ou ele me matará. Se eu o matar, ele não se casará com Valentine; se ele me matar, terei certeza absoluta de que Valentine não se casará com ele.
Noirtier considerava com imenso prazer aquela nobre e sincera fisionomia, na qual se reproduziam todos os sentimentos que a língua francesa pode exprimir, somando a ela, com a expressividade de um belo rosto, tudo que a cor acrescenta a um desenho sólido e verdadeiro.
Entretanto, quando Morrel terminou de falar, Noirtier fechou os olhos diversas vezes, o que era, como sabemos, sua maneira de dizer não.
— Não? — disse Morrel. — Então desaprova o segundo plano assim como desaprovou o primeiro?
— Sim, desaprovo — fez o velho.
— Mas o que fazer então, senhor? — perguntou Morrel. — As últimas palavras da sra. de Saint-Méran foram para que o casamento de sua neta não tardasse a se realizar. Devo deixar as coisas se consumarem?
Noirtier permaneceu imóvel.
— Sim, compreendo — disse Morrel —, devo esperar.
— Sim.
— Mas qualquer delonga nos prejudicará, senhor — replicou o rapaz. —
Sozinha, Valentine não terá forças, irão dominá-la como a uma criança.
Tendo milagrosamente entrado aqui para saber o que estava acontecendo, e após ser milagrosamente admitido perante o senhor, não me parece razoável esperar que essa boa sorte se repita. As alternativas limitam-se às duas que lhe expus, acredite, perdoando-me a audácia em nome de minha juventude. Diga-me qual das duas prefere: autoriza a srta. Valentine a se confiar à minha honra?
— Não.
— Prefere que eu vá falar com o sr. d’Épinay?
— Não.
— Mas, meu Deus! De quem nos virá o socorro que esperamos do céu?
O velho sorriu com os olhos como se tivesse o hábito de sorrir quando lhe
falavam do céu. Ainda restavam resíduos de ateísmo nas idéias do velho jacobino.
— Do acaso? — perguntou Morrel.
— Não.
— Do senhor?
— Sim.
— Do senhor?
— Sim — repetiu o velho.
— O senhor compreende o que estou lhe perguntando? Desculpe-me a insistência, mas minha vida depende de sua resposta: nossa salvação virá do senhor?
— Sim.
— O senhor tem certeza?
— Sim.
— Responde por ela?
— Sim.
Reinava no olhar que fazia essa afirmação uma segurança tal que não havia meio de duvidar de sua vontade, quando não de sua força.
— Oh, obrigado, mil vezes obrigado! Mas como, a menos que um milagre de Deus lhe devolva a fala, o gesto, o movimento, como poderá o senhor, mudo e imóvel, se opor a esse casamento?
Um sorriso iluminou o rosto do velho, sorriso estranho este, de olhos sobre um rosto imóvel.
— Quer dizer que devo esperar? — perguntou o rapaz.
— Sim.
— Mas, e o contrato?
O mesmo sorriso reapareceu.
— Está me dizendo que ele não será assinado?
— Sim — confirmou Noirtier.
— Quer dizer que o contrato sequer será assinado! — exclamou Morrel.
— Oh, perdoe-me, senhor! Ao anúncio de uma grande felicidade, temos todo o direito de desconfiar. O contrato não será assinado?
— Não — disse o paralítico.
Apesar dessa garantia, Morrel hesitava em acreditar. Aquela promessa de um velho impotente era tão estranha que, em vez de provir de uma força de vontade, podia emanar de uma debilitação dos órgãos. Não é natural um alienado que ignora a loucura pretender realizar coisas fora de
seu alcance? O fraco alardeia os fardos que levanta, o tímido, os gigantes que enfrenta, o pobre, os tesouros que manipula, o mais humilde camponês, em virtude do seu orgulho, chama-se Júpiter.
Fosse porque Noirtier houvesse percebido a indecisão do rapaz, fosse porque não desse inteiramente fé à docilidade que este demonstrara, ele o encarou fixamente.
— Que deseja, senhor? — perguntou Morrel. — Que eu renove minha promessa de não fazer nada?
O olhar de Noirtier permaneceu fixo e firme, como para dizer que uma promessa não lhe bastava; depois passou do rosto para a mão.
— Quer que eu jure, senhor? — perguntou Maximilien — Sim, quero —
fez o paralítico, com a mesma solenidade.
Morrel compreendeu que o velho atribuía grande importância àquele juramento.
Estendeu a mão.
— Pela minha honra — disse —, juro esperar sua decisão para agir contra o sr. d’Épinay.
— Ótimo — fizeram os olhos do velho.
— Agora, senhor — perguntou Morrel —, ordena que eu me retire?
— Sim.
— Sem rever a srta. Valentine?
— Sim.
Morrel fez sinal de que estava disposto a obedecer.
— Agora — disse Morrel —, permita, senhor, que seu filho o beije como, ainda há pouco, fez sua filha.
Não havia do que duvidar na expressão dos olhos de Noirtier.
O rapaz pousou seus lábios na testa do ancião, no mesmo lugar onde a moça pousara os seus.
Em seguida, cumprimentou-o mais uma vez e saiu.
Do lado de fora do quarto, encontrou o velho criado. Avisado por Valentine, este esperava Morrel, a quem guiou, por uma galeria sinuosa e escura, até uma portinha dando para o jardim.
Dali Morrel encaminhou-se para o portão. Pelo arvoredo, subiu num instante no alto do muro e, com sua escada, num segundo estava no cercado de alfafa onde seu cabriolé continuava à espera.
Entrou no coche despedaçado por tantas emoções, porém com o coração mais sereno, e chegou por volta da meia-noite à rua Meslay. Atirando-se
na cama, dormiu como se mergulhado numa profunda embriaguez.
1 “os passos reverberantes do comendador”: assim como na lenda, na peça Don Juan, de Molière, estreada em 1665, o pai de d. Ana, uma das mulheres assediadas pelo protagonista, é morto por este em duelo. Mais tarde, volta, como um fantasma de pedra, para vingar-se.