O Conde de Monte Cristo
9. O julgamento
Chama-se hoje sr. conde de Morcerf e é membro da Câmara dos Pares.
Dessa maneira, aquele segredo terrível, que Beauchamp sepultara com tanta generosidade, reaparecia como um fantasma armado, e um outro jornal, cruelmente informado, publicara, dois dias depois da partida de Albert para a Normandia, as poucas linhas que quase enlouqueceram o infeliz rapaz.
1 Deo ignoto: “Deus desconhecido” , citação bíblica; Atos dos Apóstolos, XVII, 22-23.
2 “considerado o senhor do universo como Augusto”: citação da peça Cina, ou A clemência de Augusto, ato V, cena 3, de 1641, de autoria de Pierre Corneille (1606-84).
3 Oceano e Anfitrite: divindades marítimas na mitologia grega.
4 Briska: coche ligeiro de origem russa.
5 Ilhas dos Borromeus: as quatro ilhas do lago Maior, na Suíça.
6 Francisco I e Shakespeare: “Freqüentemente varia a mulher/ bem louco é quem nela se fia”, paráfrase de Virgílio, na Eneida, v.599; em Otelo, o mouro de Veneza, “[Desdêmona] Era enganosa como uma onda”, ato IV, cena 2.
7 Manfred: ver Parte II, cap.12, nota 82.
8 “gênio do simum”: simum é o vento quente e forte do deserto.
9 “até a terceira e quarta gerações”: citação bíblica, do Deuteronômio, V, 9: “Não te encurvarás a elas, nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam.”
9. O julgamento As oito horas da manhã, Albert caiu como um raio na casa de Beauchamp. O camareiro, avisado, introduziu Morcerf no quarto de seu patrão, que acabava de entrar no banho.
— E então? — perguntou Albert.
— E então! Eu estava à sua espera, pobre amigo — respondeu Beauchamp.
— Aqui estou. Não preciso dizer, Beauchamp, que o considero suficientemente leal e generoso para não ter comentado isso com quem quer que seja; não, meu amigo. Aliás, a mensagem que você me enviou é um penhor da sua afeição. Portanto, não vamos perder tempo com preâmbulos: faz idéia de onde partiu o golpe?
— Num instante, com duas palavras, vou lhe dizer.
— Sim, mas antes, meu amigo, você me deve, em todos os detalhes, a história dessa abominável traição.
E Beauchamp contou ao rapaz, arrasado pela dor e o sofrimento, os fatos que repetiremos em toda sua simplicidade.
Na manhã da antevéspera, a notícia fora publicada num outro jornal sem ser L’Impartial, e, o que conferia ainda mais gravidade ao caso, num jornal bem conhecido por pertencer ao governo. Beauchamp estava almoçando quando a nota lhe saltou aos olhos. Mandou imediatamente que lhe providenciassem um fiacre; sem terminar a refeição, correu para o jornal. Embora professando idéias políticas completamente opostas às do editor do jornal acusador, Beauchamp, o que acontece às vezes, e diríamos até mesmo com muita freqüência, era seu amigo íntimo.
Quando se viu diante dele, o editor lia seu próprio jornal e parecia deleitar-se com um artigo de rodapé sobre o açúcar de beterraba, o qual, provavelmente, era de sua lavra.
— Ora, bolas! — exclamou Beauchamp. — Já que está com seu jornal nas mãos, meu caro, não preciso dizer-lhe o que me traz aqui.
— Você por acaso seria partidário da cana-de-açúcar? — perguntou o editor do jornal ministerial.
— Não — respondeu Beauchamp —, aliás, estou completamente alheio a essa questão; venho por outra coisa.
— E por quê, então?
— Pela matéria sobre o Morcerf.
— Ah, é verdade: não é curioso?
— Tão curioso que você pode ser acusado de difamação, me parece, e arcar com um processo muito arriscado.
— Tão curioso que você pode ser acusado de difamação.
— Absolutamente; recebemos com a notícia todas as peças documentais, e estamos plenamente convencidos de que o sr. de Morcerf ficará quieto no canto dele. A propósito, denunciar miseráveis indignos das honras que recebem é um serviço prestado ao país.
Beauchamp ficou perplexo.
— Mas quem pode ter sido sua fonte? — perguntou. — Pois meu jornal, que deu o furo, foi obrigado a abster-se, na falta de provas, e, não obstante, temos mais interesse que vocês em desmascarar o sr. de Morcerf, uma vez que ele é par de França e somos da oposição.
— Ah, meu Deus, quanto a isso, é muito simples. Não fomos nós que corremos atrás do escândalo, ele veio nos procurar. Um homem, que chegou de Janina ontem, veio até nós trazendo o formidável dossiê, e
como hesitássemos em nos lançar na trilha da acusação, ele nos anunciou que, se recusássemos a matéria, esta seria publicada em outro jornal. Puxa vida, Beauchamp, você sabe o que é uma notícia importante; não quisemos perdê-la. Agora a sorte está lançada. Isso é terrível, e irá repercutir nos confins da Europa.
Beauchamp percebeu que só lhe restava abaixar a cabeça, e saiu desesperado para enviar um mensageiro a Morcerf.
Mas o que ele não pudera escrever a Albert, pois os fatos que iremos narrar eram posteriores à partida do seu mensageiro, é que, no mesmo dia, na Câmara dos Pares, uma grande agitação eclodira e reinara nos grupos, em geral tão calmos, do Alto Parlamento. Quase todos haviam chegado antes da hora e comentavam o sinistro acontecimento que iria atrair a atenção pública e focá-la num dos membros mais conhecidos do ilustre corpo.
Eram leituras em voz baixa da notícia, comentários e trocas de recordações que jogavam ainda mais luz nos fatos. O conde de Morcerf não era benquisto pelos colegas. Como todos os arrivistas, fora obrigado, para manter o status conquistado, a observar um excesso de altivez. As grandes aristocracias riam-se dele; os talentos o repudiavam; as glórias puras desprezavam-no instintivamente. O conde achava-se no limite desagradável do bode expiatório. Uma vez apontado pelo dedo do Senhor para o sacrifício, todos já se preparavam para gritar: “Foi ele!”
Nesse ínterim, o conde de Morcerf não sabia de nada. Não recebia o jornal que estampava a notícia difamatória, e passara a manhã escrevendo cartas e testando um cavalo.
Portanto, chegou na sua hora de costume, cabeça altiva, olhar presunçoso, passo insolente. Desceu do coche, atravessou as galerias e entrou na sala, sem reparar nas hesitações dos contínuos e nos cumprimentos lacônicos dos colegas.
Quando Morcerf entrou, a sessão estava aberta já fazia mais de meia hora.
Embora o conde, alheio, como dissemos, a tudo que se passava, não houvesse alterado em nada nem seu semblante nem seu comportamento, seu semblante e seu comportamento pareceram a todos ainda mais arrogantes que de costume, e sua presença nessa ocasião soou de tal forma agressiva àquela assembléia, ciosa de sua honra, que todos viram nela uma falta de decoro, vários, uma bravata, alguns, um insulto.
Quando Morcerf entrou, a sessão estava aberta ...
Era evidente que a Câmara inteira ardia por dar início às discussões.
Via-se o jornal acusador nas mãos de todos, mas, como sempre, ninguém ousava assumir a responsabilidade pelo ataque. Finalmente, um dos ilustres pares, inimigo declarado do conde de Morcerf, subiu à tribuna com uma solenidade que anunciava a chegada do momento esperado.
Fez-se um silêncio assustador. Morcerf era o único a ignorar a causa da atenção profunda dedicada a um orador que em geral não gozava da boa vontade da assembléia.
O conde deixou passar tranqüilamente o preâmbulo, no qual o orador afirmava que falaria de uma coisa tão grave, sagrada e vital para a Câmara, que exigia a máxima atenção dos colegas.
Às primeiras palavras sobre Janina e o coronel Fernand, o conde de Morcerf empalideceu tão terrivelmente que um arrepio percorreu toda a assembléia, cujos olhares convergiam sem exceção para ele.
As feridas morais têm essa particularidade: elas se escondem, mas não se fecham. Sempre dolorosas, prontas a sangrar quando tocadas, elas permanecem vivas e abertas no coração.
Terminada a leitura da notícia em meio ao mesmo silêncio, perturbado então por um frêmito, que logo cessou quando o orador pareceu disposto a retomar a palavra, o acusador então expôs todo o seu escrúpulo, tentando demonstrar quão difícil considerava sua tarefa. Era a honra do sr. de Morcerf, era a honra de toda a Câmara que ele pretendia defender ao provocar uma discussão na qual deveria abordar questões pessoais, sempre tão espinhosas. Por fim, concluiu pedindo a instauração de um inquérito, suficientemente sumário para desmascarar, a calúnia antes que ela tivesse tempo de se propagar e para confirmar o sr. de Morcerf, vingando-o, na posição que a opinião pública há muito lhe concedera.
Morcerf ficou tão arrasado, tão trêmulo diante da imensa e inesperada calamidade, que mal conseguiu balbuciar algumas palavras, fitando seus colegas com um olhar esbugalhado. Essa timidez, que aliás podia dever-se tanto à perplexidade do inocente quanto à vergonha do culpado, angarioulhe algumas simpatias. Os homens autenticamente generosos estão sempre prontos a se compadecer quando a desgraça do inimigo supera os limites do seu ódio por ele.
O presidente pôs o inquérito em votação. Usaram o sistema de sentados e de pé, e foi decidido que o inquérito seria instaurado.
Perguntaram ao conde quanto tempo precisava para preparar sua defesa.
Morcerf recuperou a coragem assim que se sentiu ainda vivo depois de tão terrível golpe.
— Ilustres pares — respondeu —, não é em absoluto com tempo que se rechaça um ataque como este a mim agora dirigido por inimigos desconhecidos e certamente abrigados na penumbra de sua obscuridade; é aqui e agora, é com um raio que convém responder ao relâmpago que por um instante me ofuscou. Quem me dera, em vez de tal defesa, esvair-me em sangue para provar aos meus colegas que sou digno de caminhar a seu lado!
Essas palavras causaram uma impressão favorável ao acusado.
— Dessa forma — disse —, solicito que o inquérito seja instaurado o quanto antes, e fornecerei à Câmara dos Pares todas as provas necessárias a seu bom andamento.
— Deseja marcar para que dia? — perguntou o presidente.
— Ponho-me desde agora à disposição da Câmara — respondeu o conde.
O presidente balançou o sininho.
— A Câmara é a favor — perguntou — de que esse inquérito seja instaurado hoje mesmo?
— Sim! — foi a resposta unânime do plenário.
Uma comissão de doze membros foi nomeada para examinar as provas a serem fornecidas por Morcerf. A primeira sessão da comissão foi marcada para as oito horas da noite, nos escritórios da Câmara. Caso se fizessem necessárias outras sessões, seriam realizadas na mesma hora e no mesmo local.
Tomada essa decisão, Morcerf pediu permissão para se retirar. Tinha que reunir as provas coletadas ao longo do tempo para abrigá-lo naquela tempestade, prevista por seu temperamento cauteloso e inflexível.
Beauchamp contou ao rapaz tudo isso que acabamos de contar. Entretanto, seu relato teve sobre o nosso a vantagem do calor das coisas vivas, sobre a frieza das coisas mortas.
Albert escutou-o tremendo, ora de desespero, ora de raiva, às vezes de vergonha. Pela confidência de Beauchamp, sabia que seu pai era culpado, e perguntava-se como, sendo assim, poderia vir a provar inocência.
Chegando ao ponto em que nos encontramos, Beauchamp parou.
— E depois? — perguntou Albert.
— Depois? — repetiu Beauchamp.
— Sim.
— Essa palavra coloca-me num terrível aperto, amigo. Quer então saber a continuação?
— É imperioso que eu a saiba, meu amigo, e prefiro conhecê-la vinda de sua boca a ouvi-la de qualquer outra.
— Muito bem! — prosseguiu Beauchamp. — Reúna então sua coragem, Albert; nunca precisou tanto dela.
Assim como um homem prestes a lutar pela própria vida testa sua couraça enfiando-lhe a lâmina do punhal, Albert esfregou as têmporas para certificar-se de sua força.
Sentiu-se forte, pois considerava sua febre sinal de energia, e pediu.
— Fale!
— Anoiteceu. — continuou Beauchamp. — Paris inteira ficou na expectativa dos acontecimentos. Muitos sugeriam que bastava o comparecimento de seu pai para derrubar a acusação; outros diziam que o conde não se apresentaria; havia aqueles que garantiam tê-lo visto partir para Bruxelas, e alguns foram à polícia perguntar se era verdade, como corria, que o conde providenciara um passaporte. “Confesso que fiz de tudo — prosseguiu Beauchamp — para que um dos membros da comissão, jovem par e amigo meu, introduzisse-me numa espécie de galeria. Às sete horas ele veio me pegar e, antes que chegasse alguém, entregou-me aos cuidados de um meirinho, que me trancou numa espécie de camarote.
Absorvido pela penumbra, atrás de uma coluna, pus-me a esperar a terrível e iminente cena que iria se desenrolar.
“Às oito horas em ponto, todos haviam chegado.
“O sr. de Morcerf entrou na última badalada das oito horas. Tinha nas mãos alguns papéis, e seu aspecto sugeria calma. Contra seus hábitos, parecia humilde e trajava-se com apuro e severidade. Segundo a tradição dos militares veteranos, vestia sua casaca abotoada de cima a baixo.
“Seu comparecimento foi bem-visto, a comissão estava longe de lhe ser hostil, e diversos de seus membros foram até o conde para cumprimentá-lo.” Albert sentiu seu coração despedaçar-se ante todos aqueles detalhes.
Apesar disso, em meio à sua dor, insinuava-se um sentimento de gratidão.
Quis poder beijar aqueles homens que haviam dispensado a seu pai aquela marca de estima sob tão grande ameaça contra sua honra.
— Nesse momento um meirinho entrou e entregou uma carta ao presidente. “O conde deu início à sua defesa, e afirmo-lhe, Albert” —
prosseguiu Beauchamp —, “que foi de uma eloqüência e uma habilidade extraordinárias. Produziu provas que demonstravam que o vizir de Janina honrara-o com sua confiança até o último instante, uma vez que o encarregara de uma negociação de vida e morte
com o próprio imperador1.
Mostrou o anel, sinal de comando, o qual Ali Paxá usava como sinete em suas cartas e lhe dera para que pudesse, em seu retorno, a qualquer hora do dia ou da noite, e ainda que estivesse em seu harém, chegar até ele.
Infelizmente, admitiu, sua negociação fracassara e, quando voltara para defender seu benfeitor, este já se encontrava morto. Porém, disse o conde, ao morrer, Ali Paxá, tão grande era sua confiança, deixara sua favorita e sua filha aos cuidados dele.”
Albert estremeceu a essas palavras, pois, à medida que Beauchamp falava, todo o relato de Haydée voltava ao espírito do rapaz e ele se lembrava do que a bela grega dissera acerca dessa mensagem, desse anel, e da maneira como fora vendida e reduzida à escravidão.
— E qual foi o efeito do discurso do conde? — perguntou Albert com ansiedade.
— Admito que ele me desconcertou e, da mesma forma, desconcertou a comissão — disse Beauchamp.
“Enquanto isso, o presidente lançou displicentemente os olhos para a carta que acabavam de lhe trazer. Contudo, às primeiras linhas, sua atenção foi despertada; leu-a, releu-a e, encarando o sr. de Morcerf, disse:
“— Sr. conde, o senhor acaba de nos dizer que o vizir de Janina entregara-lhe sua mulher e sua filha?
“— Sim, senhor — respondeu Morcerf —, mas nisso, como em todo o resto, o infortúnio me perseguia. Na minha volta, Vasiliki e sua filha Haydée haviam desaparecido.
“— O senhor as conhecia?
“— Minha intimidade com o paxá e a suprema confiança que ele depositava na minha fidelidade haviam-me permitido vê-las mais de vinte vezes.
“— Faz idéia do paradeiro delas?
“— Sim, senhor. Ouvi dizer que haviam sucumbido ao sofrimento e talvez à miséria. Eu não era rico, minha vida corria grande perigo, não pude empreender buscas, para minha grande lástima.
“O presidente franziu o cenho imperceptivelmente.
“— Os senhores — ele disse — escutaram e acompanharam o conde de Morcerf em suas explicações. Sr. conde, poderia, em apoio ao relato que acaba de fazer, apresentar alguma testemunha?
“— Infelizmente, não. — respondeu o conde. — Todos aqueles que cercavam o vizir e que me conheceram em sua corte morreram ou se dispersaram. Acho que, dos meus compatriotas, fui o único a sobreviver a essa guerra terrível. Tenho apenas cartas de Ali Tebelin, e as pus diante de seus olhos; tenho apenas o anel, símbolo da sua vontade, e aqui está ele; tenho, enfim, a prova mais convincente que posso fornecer, isto é, após uma aleivosia anônima, a ausência de qualquer testemunho contra minha palavra de homem honesto e contra a retidão de toda uma vida militar.
“Um murmúrio de aprovação percorreu a assembléia. Nesse momento, Albert, se não houvesse acontecido nenhum incidente, a causa do seu pai estava ganha.
“Só restava partir para a votação, quando o presidente tomou a palavra.
“— Senhores — disse ele —, sr. conde, presumo que não se aborreceriam
se ouvíssemos uma testemunha muito importante, ao que ela assegura, e que acaba de se apresentar por vontade própria. Essa testemunha, é o que esperamos, segundo tudo que nos disse o conde, está convocada para provar a total inocência do nosso colega. Eis a carta que acabo de receber a esse respeito. Desejam que ela lhes seja lida ou acham melhor irmos em frente e não nos determos nesse incidente?
“O sr. de Morcerf empalideceu e crispou as mãos nos papéis que segurava e que gritaram entre seus dedos.
“A resposta da comissão foi pela leitura: quanto ao conde, estava pensativo e não tinha opinião a dar.
“Por conseguinte, o presidente leu a seguinte carta:
Senhor presidente, Posso fornecer à comissão de inquérito, encarregada de examinar a conduta, no Épiro e na Macedônia, do sr. tenente-general conde de Morcerf, as informações mais pertinentes.
“O presidente fez uma breve pausa.
“O conde de Morcerf empalideceu; o presidente interrogou os ouvintes com o olhar.
“— Continue! — exclamaram de todos os lados.
“O presidente continuou:
Eu estava no local da morte de Ali Paxá; assisti aos seus últimos momentos; conheço o paradeiro de Vasiliki e Haydée; coloco-me à disposição da comissão e, mais que isso, solicito a honra de me fazer ouvir. Estarei no saguão da Câmara quando lhe entregarem esta mensagem.
“— E quem é essa testemunha, ou melhor, esse inimigo? — perguntou o conde, com uma voz na qual era fácil notar uma profunda alteração.
“— Iremos saber, senhor — respondeu o presidente. — A comissão é a favor de ouvir essa testemunha?
“— Sim, sim! — disseram ao mesmo tempo todas as vozes. Chamaram o contínuo.
“— Meirinho — perguntou o presidente —, há alguém esperando lá fora?
“— Sim, sr. presidente. “— Quem é esse alguém?
“— Uma mulher acompanhada de um criado. “Todos se entreolharam.
“— Faça-a entrar — disse o presidente.
“Cinco minutos depois, o meirinho reapareceu. Todos os olhos estavam grudados na porta, e eu mesmo, disse Beauchamp, partilhava a espera e a ansiedade gerais.
“Atrás do meirinho caminhava uma mulher envolta num grande véu que a escondia por inteiro. Adivinhava-se claramente, pelas formas que esse véu traía e os perfumes que dele emanavam, a presença de uma mulher jovem e elegante, mas apenas isso.
“O presidente pediu à desconhecida que tirasse o véu, e todos puderam ver que a mulher vestia-se à maneira grega. Além disso, era de uma suprema beleza.”
— Ah! — disse Morcerf. — Era ela.
— Como, ela?
— Sim, Haydée.
— Quem lhe contou?
— Ai de mim! Estou adivinhando. Mas continue, Beauchamp, por favor.
Como vê, estou calmo e forte. Muito embora já devamos estar perto do desfecho.
— O sr. de Morcerf — continuou Beauchamp — olhava para aquela mulher com um misto de surpresa e pavor. Para ele, era a vida ou a morte que ia sair daquela boca encantadora. Para todos os demais, era uma aventura tão estranha e curiosa que a salvação ou a desgraça do sr. de Morcerf já não entrava mais no episódio senão como elemento secundário.
“O presidente, com um gesto, convidou-a a sentar, mas ela, com a cabeça, fez sinal de que permaneceria de pé. Quanto ao conde, afundara novamente em sua poltrona, e era evidente que suas pernas recusavam-se a sustentá-lo.
“— A senhora — disse o presidente — escreveu à comissão com o objetivo de dar informações sobre o caso de Janina e declarou que havia sido testemunha ocular dos acontecimentos.
“— Fui, realmente — respondeu a desconhecida, com uma voz cheia de tristeza sedutora e marcada por aquela sonoridade peculiar às vozes orientais.
“— Entretanto — replicou o presidente —, permita-me dizer-lhe que era bem jovem na época.
“— Eu tinha quatro anos; mas, como os acontecimentos tinham suprema importância para mim, nenhum detalhe fugiu do meu espírito, nenhuma particularidade escapou da minha memória.
“— Mas então que importância tinham tais acontecimentos para a senhora e quem é a senhora, para que essa grande catástrofe tenha produzido sobre si tão profunda impressão?
“— Tratava-se da vida ou da morte do meu pai — respondeu a moça —, e meu nome é Haydée, filha de Ali Tebelin, paxá de Janina, e de Vasilika, sua esposa bem-amada.
“O rubor ao mesmo tempo modesto e altivo que inflamou as faces da moça, o fogo do seu olhar e a majestade de sua revelação produziram um efeito inexprimível no plenário.
“Quanto ao conde, não teria ficado mais aniquilado se um raio, ao cair, houvesse cavado um abismo aos seus pés.
“— Senhora — continuou o presidente, após se ter inclinado com respeito —, permita-me uma simples pergunta que não é uma dúvida, e essa pergunta será a última: pode atestar a autenticidade do que diz?
“— Posso, cavalheiro — disse Haydée, retirando de sob o véu um saquinho de cetim perfumado —, pois aqui está a minha certidão de nascimento, redigida pelo meu pai e assinada pelos seus principais funcionários; pois aqui está, junto com a certidão de nascimento, minha certidão de batismo, meu pai tendo consentido em que eu fosse educada na religião de minha mãe, certidão que o grão-primaz da Macedônia e do Épiro revestiram com seu sinete; aqui está, enfim, e isto provavelmente é o mais importante, a escritura da venda que foi feita de minha pessoa e de minha mãe ao mercador armênio El Kobbir, pelo oficial francês que, em sua infame barganha
com a Porta2, reservara para si, como parte de seu butim, a filha e a mulher de seu benfeitor, as quais ele vendeu pela soma de mil escudos, isto é, aproximadamente quatrocentos mil francos.
“Uma palidez esverdeada invadiu as faces do conde de Morcerf, e seus olhos injetaram-se de sangue ao enunciado dessas terríveis acusações, que foram acolhidas pelo plenário com um silêncio lúgubre.
“Haydée, sempre calma, mas muito mais ameaçadora em sua calma que qualquer outro o teria sido em sua cólera, estendeu a escritura de venda redigida em árabe.
“Tendo presumido que algumas das provas apresentadas estariam redigidas em árabe, romaico ou turco, o intérprete da Câmara fora deixado de sobreaviso; mandaram chamá-lo. Um dos nobres pares para quem era familiar a língua árabe, aprendida durante a sublime campanha do Egito, acompanhou no pergaminho a leitura que o tradutor fez em voz alta: Eu, El Kobbir, mercador de escravos e fornecedor do harém de Sua Alteza, reconheço ter recebido, para entregá-la ao sublime imperador, do fidalgo francês conde de Monte Cristo, uma esmeralda avaliada em dois mil escudos, como pagamento por uma jovem
escrava cristã de treze anos, de nome Haydée, e filha reconhecida do finado grão-senhor Ali Tebelin, paxá de Janina, e de Vasiliki, sua favorita, a qual me fora vendida, há sete anos, com sua mãe, morta ao chegar a Constantinopla, por um coronel francês a serviço do vizir Ali Tebelin, de nome Fernand Mondego.
A mencionada venda me fora feita em nome de Sua Alteza, de quem eu tinha procuração, mediante a soma de mil escudos.
Firmado em Constantinopla, com autorização de Sua Alteza, no ano
de 1247 da Hégira3.
assinado: EL KOBBIR
A presente escritura, para lhe dar plena fé, crédito e autenticidade, será revestida pelo sinete imperial, que o vendedor obriga-se a apôr.
“Perto da assinatura do mercador via-se efetivamente o sinete do sublime imperador.
“A esta leitura e a esta visão, sucedeu um silêncio terrível. Ao sr. de Morcerf restava apenas o olhar, e esse olhar, pregado como que à sua revelia em Haydée, parecia de fogo e de sangue.
“— Senhora — disse o presidente —, não podemos interrogar o conde de Monte Cristo, que, pelo que me foi dado a saber, está em Paris em sua companhia?
“— Senhor — respondeu Haydée —, o conde de Monte Cristo, meu outro pai, viajou para a Normandia há dois dias.
“— Mas então, senhora — disse o presidente —, quem lhe aconselhou esta iniciativa, iniciativa pela qual a corte lhe agradece e que, a propósito, é mais que natural, tendo em vista seu nascimento e seus infortúnios?
“— Senhor — respondeu Haydée —, esta iniciativa foi-me aconselhada pelo meu respeito e pela minha dor. Embora cristã, nunca deixei de pensar, Deus me perdoe!, em vingar meu ilustre pai. Ora, quando pus os pés na França, quando soube que o traidor morava em Paris, meus olhos e ouvidos permaneceram constantemente abertos. Vivo retirada na casa de meu nobre protetor, mas permaneço assim porque gosto da sombra e do silêncio, que me permitem existir no pensamento e no recolhimento. Mas o sr. conde de Monte Cristo cerca-me de cuidados paternais, e nada do que constitui a vida social me é estranho. Ainda assim, não aceito senão seu rumor distante. Dessa forma, leio todos os jornais, assim como me enviam todos os álbuns, assim como recebo todas as melodias; e foi acompanhando, sem me dedicar a isso, a vida dos outros que soube do acontecido esta manhã na Câmara dos Pares, e do que deveria acontecer esta noite... Então, escrevi.
Vista de Constantinopla.
“— Quer dizer — perguntou o presidente — que o sr. conde de Monte Cristo não tem nada a ver com sua iniciativa?
“— Ele a ignora completamente, senhor, e inclusive tenho apenas um receio, é que ele a desaprove quando dela tiver conhecimento. Em contrapartida, que belo dia para mim — continuou a moça, levantando para os céus um olhar inflamado —, vejo-me finalmente diante da oportunidade de vingar o meu pai.
“Durante todo esse tempo, Morcerf não pronunciara uma única palavra; seus colegas observavam-no e sem dúvida lastimavam aquele destino rompido pelo sopro perfumado de uma mulher. A desgraça escrevia pouco a pouco seus traços sinistros naquele rosto.
“— Sr. de Morcerf — disse o presidente —, reconhece esta senhora como a filha de Ali Tebelin, paxá de Janina?
“— Não — disse Morcerf, fazendo um esforço para se levantar —, isto é uma trama urdida pelos meus inimigos.
“Haydée, que mantinha os olhos grudados na porta, como se esperasse alguém, voltou-se bruscamente e, vendo o conde de pé, soltou um grito terrível. “— Não me reconhece? — disse ela. — Pois bem! Felizmente, eu o reconheço! Você é Fernand Mondego, o oficial francês que instruía as tropas do meu nobre pai. Foi você que entregou os castelos de Janina! Foi você que, enviado por ele a Constantinopla para tratar diretamente com o imperador, acerca da
vida ou da morte do seu benfeitor, trouxe um falso firman4 que lhe concedia perdão total! Foi você que, com esse firman, obteve o anel do paxá que fazia com que Selim, o guardião do fogo, o obedecesse. Foi você que apun halou Selim! Foi você que nos vendeu, a minha mãe e a mim, ao mercador El Kobbir! Assassino! Assassino!
Assassino! Você ainda carrega na fronte o sangue do seu protetor! Vejam todos! “Essas palavras haviam sido pronunciadas com tamanho entusiasmo que todos os olhos voltaram-se para a testa do conde, e ele mesmo levou a mão até ela como se tivesse sentido, ainda quente, o sangue de Ali.
“— Reconhece então efetivamente o sr. de Morcerf como o mesmo oficial Fernand Mondego?
“— Sim, reconheço! — exclamou Haydée. — Oh! Minha mãe me disse:
‘Você era livre, você tinha um pai que a amava, você estava destinada a ser quase uma rainha! Olhe bem para este homem, foi ele quem lhe fez escrava, foi ele quem ergueu na ponta de uma vara a cabeça do seu pai, foi ele quem nos vendeu, foi ele quem nos entregou! Observe bem sua mão direita, a que tem uma grande cicatriz; se porventura esquecer o seu rosto, irá reconhecê-lo por essa mão na qual caíram uma a uma todas as moedas de ouro do mercador El Kobbir!’ Se o reconheço? Oh! Que agora ele próprio diga que não me reconhece.
“Cada palavra caía como um cutelo sobre Morcerf, consumindo uma parte de sua energia. Ao ouvir estas últimas palavras, ele escondeu no peito, instantaneamente e sem querer, a mão, de fato mutilada por um ferimento, e desabou na poltrona, presa de um desespero melancólico.
“Tal cena jogou num redemoinho os espíritos no plenário, que pareciam folhas soltas do tronco pelo vento poderoso do norte.
“— Sr. conde de Morcerf — disse o presidente —, não se deixe abater, responda: a justiça da corte, como a de Deus, é suprema e igual para todos.
Ela não permitirá que o senhor seja esmagado pelos seus inimigos sem lhe
dar recursos para combatê-los. Deseja novas investigações? Deseja que eu ordene uma viagem de dois membros da Câmara a Janina? Fale!
“Morcerf não respondeu.
“Então, todos os membros da comissão entreolharam-se com uma espécie de terror. O temperamento enérgico e violento do conde era conhecido. Era preciso uma terrível prostração para aniquilar a defesa daquele homem; era preciso, enfim, pensar que, àquele silêncio, semelhante a um sono, sucederia um despertar semelhante ao raio.
“— Muito bem — perguntou-lhe o presidente —, o que o senhor decide?
“— Nada! — disse o conde com uma voz surda, levantando-se.
“— Então a filha de Ali Tebelin — disse o presidente — declarou de fato a verdade? Ela é realmente a testemunha terrível a quem o culpado insiste em responder: NADA? Quer dizer que praticou realmente todos os atos de que é acusado?
“O conde lançou à sua volta um olhar cuja expressão desesperada teria comovido tigres, mas que era impotente para desarmar os juízes. Em seguida, ergueu os olhos para a abóbada e logo os desviou, como se temesse que aquela abóbada, abrindo-se, fizesse resplandecer esse segundo tribunal que se chama céu e esse outro juiz que se chama Deus.
“Então, com um movimento brusco, arrancou os botões daquela casaca fechada que o sufocava e saiu da sala como um demente sombrio. Num instante, seus passos ressoaram lugubremente sob a abóbada sonora, e logo o chacoalhar do coche, que o levava
embora a galope, abalou o pórtico do edifício florentino5.
“— Senhores — disse o presidente, quando o silêncio se restabeleceu
—, o sr. conde de Morcerf é culpado de felonia, traição e indignidade?
“— Sim! — responderam com uma voz unânime todos os membros da comissão de inquérito.
“Haydée presenciara a sessão até o fim. Ela ouviu a sentença do conde ser pronunciada sem que um único traço de seu rosto exprimisse alegria ou piedade.
“Então, recolocando o véu sobre o rosto, saudou majestosamente os conselheiros e saiu naquele passo com que Virgílio via caminhar
as deusas6. ”
1 “o próprio imperador”: Mahmut II (1808-39).