O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 117 de 119

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O Conde de Monte Cristo

18. O cardápio de Luigi Vampa

1 “goddam” : citação de Beaumarchais, em As bodas de Fígaro, ato III, cena 5.

2 “descendentes de Mário e dos Gracos”: Mário (156-86 a.C.), cônsul romano em diversas ocasiões; os Gracos, no singular, Graco, sobrenome de uma família da antiga República romana, que se destacou nas lutas sociais travadas no séc.II a.C.

3 Morra: jogo no qual deve-se mostrar rapidamente os dedos de uma mão, uns esticados, outros dobrados, de modo a que se contem números que, após contados, determinam o vencedor. Uma espécie “porrinha”, portanto.

4 Facchini: ver Parte II, cap.15, nota 131.

5 Bajocco: ver Parte II, cap.15, nota 125.

6 Paul: ver Parte IV, cap.9, nota 35.

7 Non capisco: em italiano, “não entendo”.

8 Scendi: em italiano, “desça”.

9 Di quà: em italiano, “por aqui”.

10 Braçadeira: argola metálica que liga o cano à coronha de uma arma de fogo.

11 Ecco: em italiano, “aí está”.

18. O cardápio de Luigi Vampa

Para todo sono, afora aquele temido por Danglars, há um despertar.

Danglars despertou.

Para um parisiense acostumado aos cortinados de seda, às paredes forradas, ao perfume que sobe da lenha reluzente da lareira e desce das abóbadas de cetim, o despertar numa caverna de arenito deve ser como um sonho funesto.

Ao tocar em seus forros de pele de cabra, Danglars deve ter achado

que sonhava com samoedos ou lapões1.

Em tais circunstâncias, porém, basta um segundo para transformar a dúvida mais pertinente em certeza.

— Sim, sim — ele murmurou —, estou nas mãos dos bandidos de quem Albert de Morcerf falou.

Sua primeira atitude foi respirar, a fim de se certificar de que não

estava ferido. Era um método que descobrira em Dom Quixote2, único livro, não que houvesse lido, mas de que guardara alguma coisa.

— Não — disse ele —, não me mataram nem feriram, mas terão me roubado?

E levou ansiosamente as mãos aos bolsos. Estavam intactos. Os cem luíses que reservara para fazer sua viagem de Roma a Veneza continuavam no bolso de sua calça e a carteira em que se achava a carta de crédito de cinco milhões e cinqüenta mil francos continuava no bolso de seu redingote.

— Bandidos peculiares — pensou consigo mesmo —, que não tocaram nem em minha bolsa nem em minha carteira! Como eu dizia ontem ao me deitar, vão estipular um resgate. Ora vejam! Continuo com o relógio também! Vejamos que horas são.

O relógio de Danglars, obra-prima de Bréguet3, que ele acertara pontualmente na véspera antes da viagem, marcava cinco e meia da manhã. Sem ele, Danglars teria ficado completamente perdido em relação à hora, pois a luz do dia não penetrava em sua cela. Convinha pedir uma explicação aos bandidos? Convinha esperar pacientemente que a fornecessem? A última alternativa era a mais prudente. Danglars esperou.

Esperou até o meio-dia.

Durante todo esse tempo, uma sentinela vigiou à sua porta. Às oito da manhã, a sentinela fora rendida.

Danglars então sentiu vontade de saber por quem era vigiado.

Havia observado que raios luminosos, não do dia, mas de uma lamparina, atravessavam as tábuas da porta improvisada. Aproximou-se de um desses vãos exatamente no instante em que o bandido dava uns goles numa aguardente, os quais, graças ao odre de pele que as continha, espalhavam um cheiro que deu engulhos em Danglars.

— Puah! — fez ele, recuando até o fundo da cela.

Ao meio-dia, o homem da aguardente foi substituído por outra sentinela.

Danglars teve a curiosidade de ver quem era seu novo guardião, e aproximou-se novamente da fenda.

Este era um bandido atlético, um Golias de olhos grandes, lábios grossos, nariz achatado. Sua cabeleira ruiva caía sobre seus ombros em cachos sinuosos como serpentes.

— Oh, oh! — disse Danglars. — Este se parece mais com um ogro que com uma criatura humana. Em todo caso, estou velho e ranzinza, não se pode julgar um livro pela capa.

Como vemos, Danglars ainda tinha suficiente presença de espírito para fazer piada.

No mesmo instante, como para lhe provar que não era um ogro, seu guardião sentou-se diante da porta da cela e tirou de seu alforje pão preto, cebolas e queijo, que se pôs incontinenti a devorar.

— Que o diabo me carregue — disse Danglars, dando uma espiada na refeição do bandido através dos vãos da porta —, se compreendo como é possível comer um lixo desses.

E foi sentar-se sobre suas peles de bode, que lhe evocavam o cheiro da aguardente da primeira sentinela.

Mas isso não adiantou muita coisa. Os segredos da natureza são imponderáveis, e há grande eloqüência em certos convites materiais dirigidos pelas mais grosseiras substâncias aos estômagos em jejum.

Danglars, de repente, sentiu que o seu estômago era naquele momento um grande buraco. Então viu o vigia menos feio, o pão menos preto e o queijo mais fresco.

... seu guardião sentou-se diante da porta da cela.

Em suma, aquelas cebolas cruas, pavorosa alimentação do

selvagem, evocaram-lhe determinados molhos Robert4 e alguns guisados que seu cozinheiro executava de maneira superior, quando Danglars dizia-lhe:

“Senhor Deniseau, prepare para hoje um prato bem populacho.”

Ele se levantou e foi bater à porta. O bandido levantou a cabeça.

Danglars percebeu que o vigia estava deitado, e insistiu.

— Che cosa5? — perguntou o bandido.

— Apareça, apareça, amigo! — disse Danglars, tamborilando com seus dedos na porta. — Acho que é hora de pensarem em me alimentar também.

Porém, seja porque não compreendeu, seja porque não recebera ordens a respeito da alimentação de Danglars, o gigante voltou à sua comida.

Danglars sentiu seu orgulho ferido e, não querendo mais lidar com tal brutamontes, deitou-se novamente em suas peles de bode e não disse mais uma palavra.

Quatro horas se passaram. O gigante foi substituído por outro bandido.

Danglars, que sentia terríveis fisgadas no estômago, levantou-se lentamente, aplicou outra vez o olho nos vãos da porta e reconheceu o rosto inteligente de seu guia.

Era de fato Peppino que se preparava para montar a guarda mais tranqüila possível, sentando-se diante da porta e enfiando entre as pernas uma panela de barro, a qual continha, quentes e perfumados, grãos-de-bico ensopados com toucinho.

Perto desses grãos-de-bico, Peppino ainda colocou uma cestinha de uva de Velletri e uma garrafa de vinho de Orvietto.

Decididamente, Peppino era um gourmet.

Ao ver aqueles preparativos gastronômicos, Danglars ficou com água na boca.

— Ora, ora! — disse o prisioneiro. — Vamos ver se esse é mais sociável que o outro.

E bateu delicadamente na porta.

— Já vai — disse o bandido, que, por freqüentar o estabelecimento de mestre Pastrini, acabara por aprender até os idiomatismos do francês.

Com efeito, ele foi abrir.

Danglars reconheceu-o como o homem que lhe gritara furiosamente:

“Cabeça para dentro.” Mas aquela não era hora para recriminações.

Assumiu, ao contrário, as feições mais simpáticas e, com um sorriso gracioso, perguntou:

— Perdão, cavalheiro, mas serei servido também?

— Puxa vida! — exclamou Peppino. — Por acaso Vossa Excelência está com fome?

— Por acaso está simpático — murmurou consigo Danglars —, diferente de ontem. — E acrescentou, alteando a voz: — Sim, senhor estou com fome, muita fome até.

— E Vossa Excelência deseja comer?

— Agora mesmo, se for possível.

— Nada mais fácil — disse Peppino. — Aqui temos tudo que desejamos, pagando, naturalmente, como se faz em todas as casas cristãs.

— Nem precisava falar! — exclamou Danglars. — Embora, a bem da verdade, as pessoas que raptam alguém e aprisionam esse alguém devessem no mínimo alimentá-lo.

— Ah, Excelência — retrucou Peppino —, esta não é a norma.

— É uma péssima prática — retrucou Danglars, que esperava amaciar seu guarda com sua amabilidade —, mas obedeço. Pronto, sirvam-me.

— Agora mesmo, Excelência. Que deseja?

E Peppino colocou sua panela no chão, de tal maneira que a fumaça subiu diretamente até as narinas de Danglars.

— É só pedir — insistiu Peppino.

— Então vocês têm cozinhas por aqui? — perguntou o banqueiro.

— Como! Se temos cozinhas? Cozinhas completas!

— E cozinheiros?

— Excelentes!

— Pois bem! Frango, peixe, caça, qualquer coisa, contanto que eu coma.

— Como queira, Vossa Excelência. Digamos, um frango, está bem?

— Sim, um frango.

Peppino, levantando-se, gritou com todos os seus pulmões:

— Um frango para Sua Excelência!

A voz de Peppino ainda vibrava sob as abóbadas quando apareceu um rapaz, bonito, esbelto e seminu como os carregadores de peixe antigos.

Trazia o frango numa bandeja de prata, e o frango fora disposto de modo a firmar-se pela cabeça.

— É como se estivéssemos no Café de Paris — murmurou Danglars.

— Aqui está, Excelência — disse Peppino, pegando o frango das mãos do jovem bandido e colocando-o sobre uma mesa carcomida, que constituía, com o banquinho e a cama de peles de bode, a totalidade dos móveis da cela.

Danglars pediu uma faca e um garfo.

— Aqui está, Excelência! — disse Peppino, oferecendo uma faquinha com a ponta arredondada e um garfo de buxo.

Danglars pegou a faca com uma das mãos, o garfo com a outra, e fez menção de destrinchar a ave.

— Perdão, Excelência — disse Peppino, colocando a mão no ombro do banqueiro. — Aqui paga-se antes de comer. O senhor pode não gostar e depois...

— Ah, ah! — fez Danglars. — É diferente de Paris, sem contar que provavelmente serei escorchado, mas vamos agir com grandeza. Vejamos, sempre ouvi falar da vida barata na Itália; um frango deve custar doze sous em Roma.

— Aqui está — disse ele, arremessando um luís para Peppino. Peppino recolheu o luís, Danglars aproximou a faca do frango.

— Um momento, Excelência — disse Peppino, levantando-se. — Um momento, Vossa Excelência ainda me deve alguma coisa.

— Eu não disse que ia ser escorchado! — murmurou consigo Danglars.

Em seguida, decidido a resignar-se com aquela extorsão, perguntou:

— Vejamos, quanto quer por essa esquálida ave?

— Vossa Excelência deu um luís à guisa de adiantamento.

— Um luís de adiantamento por um frango?

— Isso mesmo, adiantamento.

— Bom... continue! Continue!

— Vossa Excelência deve-me ainda apenas quatro mil novecentos e noventa e nove luíses.

Danglars arregalou os olhos diante daquela gigantesca piada.

— Ah, realmente muito engraçado — murmurou.

Porém, ao fazer menção de voltar a destrinchar o frango, Peppino segurou a mão direita dele com a sua esquerda e esticou a outra mão.

— O quê! Não vai rir? — perguntou Danglars.

— Nós nunca rimos, Excelência — replicou Peppino, sério como um quaker.

— Que absurdo, cem mil francos por este frango!

— Excelência, é incrível a dificuldade que temos para criar aves nestas malditas cavernas.

— Vamos! Vamos! — disse Danglars. — Acho tudo isso muito engraçado, realmente muito divertido, porém, como estou com fome, deixe-me comer. Pronto, aqui está outro luís para você, amigo.

— Isso quer dizer que irão faltar apenas quatro mil novecentos e noventa e oito luíses — disse Peppino, conservando o mesmo sangue-frio.

— Com paciência, chegaremos lá.

— Oh, quanto a isso — disse Danglars, revoltado com aquela perseverança em zombarem dele —, quanto a isso, nunca. Vá para o inferno, sabe com quem está falando?

— Que absurdo, cem mil francos por este frango!

Peppino fez um sinal, o menino esticou as duas mãos e retirou rapidamente o frango. Danglars jogou-se em sua cama de pele de bode, Peppino fechou a porta e voltou a comer seu grão-de-bico com toucinho.

Danglars não conseguia ver o que Peppino fazia, mas o mastigar do bandido não lhe deixava dúvidas acerca do exercício ao qual ele se entregava.

Era óbvio que comia, ainda que comesse ruidosamente, como um maleducado.

— Grosseirão! — disse Danglars.

Peppino fingiu não ouvir. Sem mesmo voltar a cabeça, continuou a comer com ponderada lentidão.

Danglars tinha a impressão de que seu estômago estava furado

como o tonel das Danaides6, e achou que nunca mais viria a enchê-lo novamente.

Ainda assim, agüentou outra meia hora. Mas não é exagero dizer que essa meia hora pareceu-lhe um século.

Levantou-se e foi novamente até a porta.

— Por favor, senhor — disse ele —, não me deixe aqui a definhar e digame francamente: o que desejam de mim?

— Mas, Excelência, diga antes o que quer de nós... Dê suas ordens e as executaremos.

— Então abra esta porta primeiro. Peppino abriu.

— Quero — disse Danglars —, caramba! Quero comer!

— Está com fome?

— Sabe disso, suponho.

— O que Vossa Excelência deseja comer?

— Um pedaço de pão seco, uma vez que os frangos estão pela hora da morte nessas malditas cavernas.

— Pão! Muito bem! — disse Peppino, e gritou. — Ei! Pão! O menino trouxe um pãozinho.

— Pronto! — disse Peppino.

— Quanto? — perguntou Danglars.

— Quatro mil novecentos e noventa e oito luíses. Já temos dois luíses pagos adiantados.

— Como? Cem mil francos, um pão!

— Cem mil francos — disse Peppino.

— Mas o senhor pediu cem mil francos por um frango!

— Não servimos à la carte, mas a preço fixo. Coma-se pouco, coma-se muito, peçam-se dez pratos ou apenas um, a conta é sempre a mesma —

Novamente essa piada! Meu caro amigo, declaro que isso é um absurdo, é estúpido! Diga logo que deseja me matar de fome, é bem mais fácil!

— Imagine, Excelência, é o senhor que deseja suicidar-se. Pague e coma.

— Pagar com o quê, animal ao cubo? — exasperou-se Danglars. —

Acha por acaso que as pessoas andam com cem mil francos no bolso?

— O senhor tem cinco milhões e cinqüenta mil francos no seu, Excelência — disse Peppino —, isso dá cinqüenta frangos a cem mil francos, e meio frango a cinqüenta mil.

Danglars sentiu um calafrio, a venda caiu de seus olhos. Aquilo continuava a ser uma piada, mas pelo menos essa ele entendia.

É inclusive correto dizer que não a julgava tão insípida quanto antes.

— Vejamos — disse ele. — Se eu entregar esses cem mil francos, estaremos quites e poderei comer completamente à vontade?

— Sem dúvida — disse Peppino.

— Mas como fazer isso? — fez Danglars, respirando mais livremente.

— Nada mais fácil. O senhor tem um crédito aberto com os srs.

Thomson e French, rua dei Banchi, em Roma. Dê-me uma promissória de quatro mil novecentos e noventa e oito luíses, sacáveis junto a esses cavalheiros, e nosso banqueiro irá aceitá-la.

Danglars quis pelo menos atribuir-se o mérito da boa vontade. Pegou a pena e o papel que Peppino lhe apresentava, fez a promissória e a assinou.

— Pronto — disse ele —, aqui está sua promissória.

— E aqui está o seu frango.

Danglars destrinchou a ave, suspirando. Parecia-lhe muito magra para soma tão gorda.

Quanto a Peppino, leu atentamente o papel, enfiou-o no bolso e continuou a comer o seu grão-de-bico.

1 Samoedos: povo habitante da região norte da tundra siberiana, onde ela é banhada pelo oceano glacial Ártico; lapões: povo habitante da Lapônia, região ao norte da Escandinávia, abrangendo território de alguns países, entre eles Noruega, Suécia, e Finlândia.

2 Dom Quixote: no original castelhano, cuja primeira parte foi publicada em 1605, El ingenioso hidalgo Don Quixote de la Mancha. Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616) publicou a segunda parte de sua obra-prima em 1615.

3 Bréguet: Abraham-Louis Bréguet (1747-1823), famoso relojoeiro, de origem suíça.

4 Com a palavra, o autor: “O molho Robert é não só dos mais apetitosos, como dos mais refinados, e Rabelais ... considerava-o ‘mui salubre e necessário’. ... Vamos agora indicar a maneira de prepará-lo: ‘Corte em rodelas ou cubos seis cebolas grandes, ou mais, caso necessário; lave as cebolas para retirar a parte amarga; ponha na panela com manteiga na proporção; leve a um bom fogo; junte um pouco de farinha e faça com que esta doure um pouco as cebolas; quando estiverem douradas, regue com um caldo; deixe cozinhar, ponha sal e pimenta grosseiramente moída e, quando o molho estiver pronto, acrescente mostarda e sirva.’”