O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 43 de 119

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O Conde de Monte Cristo

3. A apresentação

6 Chimborazzo e Grande Deserto: respectivamente, uma montanha vulcânica da cordilheira dos Andes e o deserto de Gobi, chamado de Grande Deserto pelo viajante Marco Polo (1254-1324), em seu Livro das maravilhas: A descrição do mundo, I, LVIII.

7 Corsaire e Charivari: jornais satíricos da época, fundados em 1822 e 1832, respectivamente.

8 Pompadour: estilo decorativo variante do rococó, batizado em referência a Jeanne-Antoinette Poisson (1721-14), mais conhecida como Madame de Pompadour, amante e conselheira do rei

Luís XV (1710-74), uma das mulheres mais poderosas de sua época.

3. A apresentação

Quando Albert se viu a sós com Monte Cristo:

— Prezado conde — disse-lhe —, permita que eu comece meu ofício de cicerone mostrando-lhe um modelo de apartamento de solteiro. Habituado aos palácios da Itália, será para o senhor um estudo calcular em quantos metros quadrados consegue viver um dos rapazes de Paris que não é conhecido por ser o pior alojado. À medida que formos passando de um aposento para o outro, abriremos as janelas para que o senhor possa respirar.

Monte Cristo já conhecia a sala de refeições e o salão do térreo. Albert levou-o primeiro ao seu ateliê; era, como se lembram, seu cômodo favorito.

Monte Cristo era um apreciador de todas as coisas que Albert amontoara por lá: velhos baús, porcelanas japonesas, tapetes orientais, pedrarias de Veneza, armas de todos os países do mundo, tudo lhe era familiar e, ao primeiro relance, identificava o século, o país e a origem. Morcerf julgara ser o explicador, e era ele, ao contrário, que fazia, sob a direção do conde, um curso de arqueologia, de mineralogia e de história natural. Desceram para o rés-do-chão. Albert introduziu seu hóspede no salão. Lá ficavam em

exibição obras dos pintores modernos; havia paisagens de Dupré1, com bambus compridos, árvores esguias, vacas mugindo e céus maravilhosos; havia cavaleiros árabes de Delacroix, com longos albornozes brancos, cinturões reluzentes, armas tauxiadas, cujos cavalos mordiam-se furiosamente, enquanto os homens se dilaceravam com maças de ferro; aquarelas de Boulanger, ilustrando

todo o Nossa Senhora de Paris2 com esse vigor que faz do pintor um êmulo do poeta; havia telas de Díaz, que faz as flores mais belas que as flores, o sol mais brilhante que o sol; desenhos de Decamps, tão coloridos quanto os de Salvator Rosa, porém mais poéticos; pastéis de Giraud e de Müller, representando crianças com cabeças de anjo, mulheres com traços de virgem; croquis

arrancados do álbum de viagem ao Oriente de Dauzats3, que haviam sido rabiscados em alguns segundos sobre a sela de um camelo ou sob o domo de uma mesquita; enfim, tudo que a arte moderna pode oferecer em retribuição e indenização pela arte perdida e desaparecida com os séculos precedentes.

Albert esperava, pelo menos dessa vez, mostrar alguma coisa diferente ao estrangeiro recém-chegado; porém, para seu grande espanto, este, sem

precisar examinar as assinaturas, entre as quais, por sinal, algumas revelavam-se apenas pelas iniciais, atribuiu instantaneamente o nome dos respectivos autores às suas obras, de maneira que era fácil ver que ele não apenas conhecia cada um daqueles nomes, como também apreciara e estudara cada um daqueles talentos.

Do salão passaram ao quarto. Era ao mesmo tempo um modelo de elegância e gosto severo; ali, um único retrato, mas assinado por

Léopold Robert4, resplandecia em sua moldura de ouro fosco.

Esse retrato atraiu imediatamente os olhares do conde de Monte Cristo, que deu três passos rápidos pelo quarto e parou subitamente diante dele.

Era o de uma jovem entre vinte e cinco e vinte e seis anos5, de pele morena, olhar de fogo disfarçado sob uma pálpebra lânguida; usava a roupa típica das pescadoras catalãs, com sua blusa vermelha e preta, suas agulhas de ouro enfiadas nos cabelos; ela contemplava o mar, com uma silhueta elegante destacando-se contra o duplo azul das ondas e do céu.

O quarto estava na penumbra, o que impediu Albert de ver a palidez lívida que se espalhava pelas faces do conde e de surpreender o calafrio nervoso que percorreu seus ombros e seu peito.

Fez-se um instante de silêncio, durante o qual Monte Cristo continuou com o olho obstinadamente grudado naquela pintura.

— Tem aqui uma bela amante, visconde — disse Monte Cristo, com uma voz perfeitamente calma —, e essa roupa, roupa de baile provavelmente, combina muito bem com ela.

— Ah, sr. conde — disse Albert —, eis um equívoco que eu não lhe perdoaria se, ao lado desse retrato, o senhor tivesse visto algum outro. O

senhor não conhece minha mãe; é ela que vê dentro dessa moldura; quis ser pintada assim, há uns seis ou oito anos. Essa roupa é uma fantasia, ao que parece, e a semelhança é tão grande que acredito ver minha mãe tal como era em 1830. A condessa mandou fazer esse retrato numa ausência do conde. Sem dúvida tinha intenção de preparar uma agradável surpresa para quando ele retornasse; mas, coisa estranha, esse retrato não agradou ao meu pai; e o valor da pintura, que é, como pode ver, um dos mais belos quadros de Léopold Robert, não conseguiu demovê-lo de sua antipatia. Cá entre nós, meu caro sr. conde, o sr. de Morcerf é um dos pares mais assíduos no Luxemburgo, um general famoso pela teoria, mas um amante das artes dos mais medíocres; não se dá o mesmo com a minha mãe, que pinta notavelmente e que, estimando muito essa obra para dela separar-se

definitivamente, presenteou-a a mim, para que, na minha casa, ela ficasse menos sujeita a contrariar o sr. de Morcerf, cujo retrato

pintado por Gros6

ainda vou lhe mostrar. Perdoe se falo assim de assuntos familiares e íntimos; mas, como terei a honra de levá-lo até os aposentos do conde, digo-lhe isso para que não elogie esse retrato na frente dele. Além disso, o quadro tem uma influência funesta, pois é muito raro minha mãe vir aqui sem olhar para ele, e mais raro ainda que o contemple sem chorar. A nuvem que o aparecimento dessa pintura trouxe para a casa foi, de resto, a única a se formar entre o conde e a condessa, que, embora casados há mais de vinte anos, permanecem unidos como no primeiro dia.

Monte Cristo lançou um olhar fugaz para Albert, como se a procurar uma intenção oculta em suas palavras; mas era evidente que o rapaz as dissera com toda a simplicidade da alma.

— Agora que viu todas as minhas riquezas, sr. conde — disse Albert —, permita que lhas ofereça, por mais indignas que sejam; considere-se em casa. Para colocá-lo ainda mais à vontade, queira me acompanhar até os aposentos do sr. Morcerf, a quem escrevi de Roma acerca do favor que me prestou e a quem anunciei a visita que o senhor me prometera; posso inclusive dizêlo, o conde e a condessa esperavam com impaciência que lhes fosse permitido prestar seus agradecimentos. Sei que não liga para essas coisas, sr. conde, e que as cenas de família não impressionam muito Simbad, o marujo: o senhor viu cenas tão diferentes! Aceite entretanto o que lhe ofereço como iniciação à vida parisiense, uma vida de cerimônias, visitas e apresentações.

Monte Cristo inclinou-se para responder; aceitava a proposta sem entusiasmo e sem remorso, como uma das conveniências sociais que todo homem decente aceita como dever. Albert chamou seu criado de quarto e ordenoulhe que fosse avisar o sr. e a sra. de Morcerf de que o conde de Monte Cristo iria ter com eles.

Albert seguiu-o, tendo o conde atrás de si.

Ao chegar ao vestíbulo do sr. de Morcerf, via-se em cima da porta que dava para o salão um escudo que, por seus ornatos suntuosos e sua harmonia com a decoração do aposento, indicava a importância que o dono da casa atribuía àquele brasão.

Monte Cristo deteve-se diante do brasão, o qual examinou com atenção.

— Anil com sete merletas de ouro dispostas em banda. Seria o escudo de sua família, meu caro? — perguntou. — Afora o conhecimento das

peças do brasão, o que me permite decifrá-lo, sou muito ignorante em matéria heráldica, eu, conde por acaso, fabricado na Toscana

com a ajuda de uma comenda de Santo Estêvão7, e que teria prescindido de bancar o grão-senhor se não me houvessem repetido que isso é coisa absolutamente necessária quando se viaja muito. Pois, enfim, convém de fato, ainda que seja para que a alfândega não nos inspecione, ter alguma coisa pintada nos painéis laterais de nosso coche. Desculpe-me, portanto, se lhe faço essa pergunta.

— Ela não é de forma alguma indiscreta, senhor — disse Morcerf, com a simplicidade da convicção —, e o senhor adivinhou: são nossas armas, isto é, as do lado de meu pai; mas estão, como pode ver, recostadas num escudo que é de goles com torre de prata, e que é a do lado de minha mãe; pela linhagem das mulheres, sou espanhol, mas a casa de Morcerf é francesa e, pelo que sei, uma das mas antigas do Sul da França.

— Sim — respondeu Monte Cristo —, é o que as merletas simbolizam.

Quase todos os peregrinos armados que tentaram ou fizeram a conquista da Terra Santa usaram, em seus brasões, ou cruzes, sinal da missão à qual se haviam dedicado, ou pássaros migratórios, símbolo da longa viagem que iam empreender e que esperavam realizar sob as asas da fé. Um de seus ancestrais paternos deve ter participado de algumas das cruzadas de vocês e, supondo que seja

pelo menos a de são Luís8, isso nos faz remontar ao século XIII, o que já é uma beleza.

— É possível — disse Morcerf. — Em algum canto no gabinete de meu pai há uma árvore genealógica que nos informará a respeito e acerca da qual antigamente eu tecia comentários que teriam

edificado muito d’Hozier e Jaucourt9. Agora, não penso mais nisso; por outro lado, vou lhe dizer, sr. conde, e isto é do âmbito das minhas atribuições de cicerone, que estão começando a dar muita atenção a essas coisas sob o nosso governo popular.

— Pois bem! Então o seu governo deveria ter escolhido em seu

passado alguma coisa melhor que esses dois cartazes10 que observei nos monumentos de vocês e que não têm nenhum senso heráldico. Quanto ao senhor, visconde — continuou Monte Cristo, voltando-se para Morcerf —, o senhor é mais feliz que o seu governo, pois suas armas são de fato belas e falam à imaginação. Sim, não resta dúvida, o senhor é ao mesmo tempo da Provença e da Espanha; é o que explica, se o retrato que me mostrou é fiel, essa bela cor morena que eu tanto admirava no rosto da nobre catalã.

Seria preciso ser Édipo ou a própria esfinge para adivinhar a ironia que o conde imprimiu a essas palavras, aparentemente sublinhadas por uma grande polidez; assim sendo, Morcerf agradeceu-lhe com um sorriso e, passando à sua frente para lhe mostrar o caminho, empurrou a porta que se abria embaixo das armas e que, como dissemos, dava para o salão.

No lugar mais visível desse salão via-se outro retrato; era o de um homem de trinta e cinco a trinta e oito anos, vestindo um uniforme de oficialgeneral, com o duplo galão espiralado, sinal das patentes superiores, a fita da Legião de Honra no pescoço, no grau de comendador, e no peito, à direita, a medalha de grão-oficial da ordem do Salvador, e à esquerda, a da grã-cruz de Carlos III, que indicava que a pessoa representada naquele retrato devia ter combatido na Grécia e na Espanha ou, o que dá absolutamente no mesmo em matéria de honrarias, cumprido alguma missão diplomática nos dois países.

Monte Cristo estava a esmiuçar aquele retrato com não menos atenção que dera ao outro quando uma porta lateral se abriu e ele ficou diante do conde de Morcerf em pessoa.

Era um homem entre quarenta e quarenta e cinco anos, mas que parecia ter pelo menos cinqüenta, cujo bigode e sobrancelhas negras contrastavam estranhamente com cabelos quase brancos, cortados bem rente no estilo militar; vestia-se à paisana e usava em sua lapela uma fita cujos diferentes debruns evocavam as diferentes ordens com que havia sido condecorado.

Esse homem entrou com um passo bastante nobre e com uma espécie de precipitação. Monte Cristo observou-o vindo em sua direção sem dar um único passo; parecia que seus pés estavam pregados no assoalho como seus olhos no rosto do conde de Morcerf.

— Meu pai — disse o rapaz —, tenho a honra de lhe apresentar o sr.

conde de Monte Cristo, esse generoso amigo que tive a felicidade de conhecer nas circunstâncias difíceis que são de seu conhecimento.

— O cavalheiro é bem-vindo — disse o conde de Morcerf, cumprimentando o conde de Monte Cristo com um sorriso — e prestou à nossa casa, ao lhe conservar seu único herdeiro, um favor que solicitará eternamente a nossa gratidão.

E, dizendo estas palavras, o conde de Morcerf apontava uma poltrona para Monte Cristo, enquanto ele próprio sentava-se de frente para a janela.

Monte Cristo, ao ocupar a poltrona indicada pelo conde de Morcerf, acomodou-se de maneira a permanecer protegido pela sombra das grandes

cortinas de veludo e a poder ler, dali, nos traços do conde, marcados pelo cansaço e pela preocupação, toda uma história de dores secretas, escritas em cada uma das rugas que o tempo lhe dera.

— A sra. condessa — disse Morcerf — estava fazendo sua toalete quando o visconde a mandou avisar da visita que iria ter a felicidade de receber; ela descerá, daqui a dez minutos estará no salão.

— É muita honra para mim — disse Monte Cristo — ser apresentado, logo no dia de minha chegada a Paris, a um homem cujo mérito corresponde à reputação e com quem o destino, pelo menos uma vez, não foi injusto; mas será que o destino ainda não

tem, nas planícies do Mitidja ou nas montanhas do Atlas11, um bastão de marechal a lhe oferecer?

— Oh — replicou Morcerf, corando um pouco —, deixei o serviço militar, cavalheiro. Nomeado par sob a Restauração, fiz a primeira

campanha12 e servi sob as ordens do marechal de Bourmont; por conseguinte, podia pretender a um comando superior, e quem sabe o que teria acontecido se o ramo primogênito houvesse permanecido no trono!

Mas a Revolução de Julho13 era, ao que parece, suficientemente gloriosa para se permitir ser ingrata, e o foi com todo o contingente que não datava do período imperial; em virtude disso, pedi minha exoneração, uma vez que, depois de conquistarmos nossas insígnias no campo de batalha, esquecemos como manobrar no terreno escorregadio dos salões; abandonei a espada, lancei-me na política, dedico-me à indústria, estudo as artes úteis. Durante meus vinte anos de serviço, nunca deixei de desejar isso, mas não tinha tempo.

— São coisas assim que alicerçam a superioridade de sua nação sobre os outros países, cavalheiro — respondeu Monte Cristo. — Fidalgo originário de casa ilustre, dono de bela fortuna, primeiro o senhor aceitou conquistar as patentes menores como soldado obscuro, o que é raríssimo; depois, uma vez feito general, par de França e comendador da Legião de Honra, dignou-se a recomeçar um segundo aprendizado, sem outra esperança, sem outra recompensa senão a de um dia vir a ser útil a seus semelhantes... Ah, cavalheiro, eis o que é belo; eu diria até mais, eis o que é sublime.

Albert olhava e escutava Monte Cristo com perplexidade; não estava habituado a vê-lo entregue àqueles arroubos de entusiasmo.

— Infelizmente — continuou o visitante, sem dúvida para dissipar a imperceptível nuvem que suas palavras acabavam de fazer passar sobre a fronte de Morcerf —, não fazemos assim na Itália; crescemos segundo

nossa raça e nossa espécie, conservando a mesma folhagem, o mesmo porte e, freqüentemente, a mesma inutilidade por toda a nossa vida.

— Mas, senhor — respondeu o conde de Morcerf —, a Itália não é pátria para um homem do seu mérito, e a França talvez não seja ingrata com todo mundo; ela trata mal seus filhos, mas em geral acolhe generosamente os estrangeiros.

— Ora, meu pai! — disse Albert com um sorriso. — Vê-se bem que o senhor não conhece o conde de Monte Cristo. Seus deleites não são deste mundo; ele não aspira às honras, delas extraindo tão-somente o que cabe num passaporte.

— Eis a expressão mais apropriada que já ouvi a meu respeito —

comentou o estrangeiro.

— O cavalheiro foi soberano do próprio futuro — disse o conde de Morcerf com um suspiro —, e escolheu o caminho das flores.

— Precisamente, senhor — replicou Monte Cristo, com um desses sorrisos que um pintor jamais será capaz de reproduzir e que levaria um fisiologista à loucura se o tentasse analisar.

— Se eu não receasse fatigar o sr. conde — disse o general, evidentemente encantado com as maneiras de Monte Cristo —, eu o teria levado à Câmara; haverá hoje uma sessão curiosa para qualquer um que não conheça nossos senadores modernos.

— Eu lhe seria muito grato, cavalheiro, se o senhor se dispusesse a renovar tal oferta em outra ocasião; mas hoje fui agraciado com a esperança de ser apresentado à sra. condessa, e vou esperar.

— Ah, aqui está minha mãe! — exclamou o visconde.

Com efeito, Monte Cristo, virando-se subitamente, viu a sra. de Morcerf na entrada do salão, no umbral da porta oposta àquela pela qual entrara seu marido: imóvel e pálida, deixou, quando Monte Cristo voltou-se para ela, cair o braço que, não se sabe por quê, apoiara-se no portal dourado; estava ali havia alguns segundos e ouvira as últimas palavras pronunciadas pelo visitante ultramontano.

Este se levantou e saudou profundamente a condessa, que, por sua vez, inclinou-se muda e cerimoniosa.

— Deus do céu, senhora — perguntou o conde de Morcerf —, sente-se bem? Seria por acaso o calor desse salão que lhe faz mal?

— Está doente, mamãe? — exclamou o visconde, precipitando-se para Mercedes.

Ela agradeceu a ambos com um sorriso.

— Não — disse ela —, mas sinto-me comovida ao ver pela primeira vez aquele sem a intervenção do qual estaríamos agora em prantos e de luto.

Senhor — continuou a condessa, avançando com a majestade de uma rainha —, devo-lhe a vida de meu filho e, por essa boa ação, o abençôo.

Agora sou grata pelo prazer que me proporciona com a oportunidade de agradecer, assim como o abençoei, isto é, do fundo do coração.

O conde inclinou-se de novo, ainda mais profundamente que da primeira vez. Estava ainda mais pálido que Mercedes.

— Madame — disse —, o sr. conde e a senhora me recompensam com excessiva generosidade por uma ação muito simples. Salvar um homem, poupar um tormento a um pai, proteger a sensibilidade de uma mulher, isto não é praticar uma boa ação, é praticar um ato de humanidade.

A essas palavras, pronunciadas com uma delicadeza e cortesia refinadas, a sra. de Morcerf respondeu num tom profundo:

— É muito auspicioso para o meu filho, senhor, tê-lo como amigo, e agradeço a Deus que tenha feito as coisas assim.

E Mercedes ergueu seus belos olhos ao céu com uma gratidão tão infinita que neles o conde julgou perceber o tremor de duas lágrimas.

O sr. de Morcerf aproximou-se dela.

— Senhora — disse ele —, já pedi minhas desculpas ao sr. conde por verme obrigado a deixá-los, e peço-lhe que as renove junto a ele. A sessão abre às duas horas, são três, e tenho que falar.

— Vá, senhor, tentarei fazer com que o nosso hóspede esqueça sua ausência — disse a condessa no mesmo tom suscetível. — Sr. conde —

continuou, virando-se para Monte Cristo —, pode nos dar a honra de passar o resto do dia conosco?

— Agradeço, senhora, e creia-me penhorado pelo convite, mas desembarquei esta manhã na sua porta diretamente do meu coche de viagem. Como estou instalado em Paris, ignoro-o; onde o estou, também mal o sei. É uma preocupação ligeira, sei disso, mas não obstante considerável.

— Mas vai nos prometer que teremos esse prazer uma outra vez, não é mesmo? — perguntou a condessa.

Monte Cristo inclinou-se sem responder, mas o gesto podia passar por um assentimento.

— Então não o retenho, senhor — disse a condessa, — pois não desejo que a minha gratidão seja vista como indiscrição ou inconveniência.

— Meu caro conde — disse Albert —, caso se disponha a aceitar, tentarei retribuir-lhe em Paris sua graciosa cortesia em Roma e colocar meu cupê à sua disposição até que tenha tido tempo de organizar os seus pertences.

— Mil vezes obrigado por sua gentileza, visconde — disse Monte Cristo. — Mas presumo que o sr. Bertuccio tenha empregado adequadamente as quatro horas e meia que acabo de lhe dar e eu encontre, aí em frente, um coche qualquer todo atrelado.

Albert estava acostumado com aquelas maneiras do conde; sabia que ele estava, como Nero, em busca do impossível, e não se surpreendia mais com nada; porém, quis julgar por si mesmo de que forma suas ordens haviam sido executadas; acompanhou-o, portanto, até a saída do palacete.

Monte Cristo não se enganara. Assim que apareceu no vestíbulo do conde de Morcerf, um lacaio, o mesmo que em Roma fora levar a carta do conde aos dois rapazes e lhes anunciar sua visita, projetara-se para fora do peristilo, de maneira que, ao chegar às escadas, o ilustre viajante encontrou efetivamente um coche à sua espera.

Era um cupê saído das oficinas de Keller14 e uma parelha pela qual Drake havia, com o conhecimento de todos os leões de Paris, recusado ainda na véspera a soma de dezoito mil francos.

— Senhor — disse o conde a Albert —, não lhe convido para me acompanhar até a minha casa, uma vez que só lhe poderia apresentar uma casa improvisada, e tenho, como sabe, no que se refere a improvisações, uma reputação a zelar. Conceda-me um dia e permita-me convidá-lo.

Estarei então mais convicto de não infringir as leis da hospitalidade.

— Se está me pedindo um dia, sr. conde, fico tranqüilo, não será uma casa que o senhor me apresentará, será um palácio. Definitivamente, o senhor tem um gênio à sua disposição.

— Que beleza, faça com que acreditem nisso — gracejou Monte Cristo, colocando o pé nos degraus forrados de veludo de seu esplêndido veículo

—, vai contar ponto para mim junto às damas.

E avançou para dentro do coche, que se fechou atrás dele e partiu a galope, mas não suficientemente rápido para que o conde deixasse de perceber o gesto imperceptível que fez balançar a cortina do salão onde ele deixara a sra. de Morcerf.

Quando Albert voltou aos aposentos de sua mãe, encontrou a condessa na alcova, afundada numa grande poltrona de veludo: o quarto inteiro, mergulhado na penumbra, permitia que se enxergasse apenas a lantejoula faiscante presa aqui e ali no corpo de algum objeto decorativo ou na quina de alguma moldura dourada.

Albert não pôde ver o rosto da condessa, perdido numa nuvem de gaze que ela enrolara em torno dos cabelos como uma auréola de vapor, mas teve a impressão de que sua voz estava alterada. Distinguiu também, em meio aos perfumes das rosas e dos girassóis da jardineira, o vestígio ácido e pungente dos sais de vinagre; num dos aparadores trabalhados da lareira, com efeito, o frasco da condessa, despontando de seu estojo de couro, atraiu a atenção preocupada do rapaz.

— Está doente, mãe? — exclamou ao entrar. — E teria se sentido mal durante a minha ausência?

— Eu? Não, Albert; mas, compreenda, essas rosas, esses tuberosos e essas flores-de-laranjeira exalam, durante os primeiros calores, para quem não está habituada, perfumes tão intensos...

— Sendo assim, minha mãe — disse Morcerf, levando a mão à campainha —, é preciso levá-los para o vestíbulo. A senhora está de fato indisposta; mesmo ainda há pouco, quando entrou, estava muito pálida.

— É mesmo? Eu estava pálida, Albert?

— De uma palidez que lhe vai muito bem, minha mãe, mas que nem por isso deixou de nos assustar menos, a mim e a meu pai.

— Seu pai comentou alguma coisa com você? — perguntou Mercedes, num impulso.

— Não, foi diretamente à senhora, lembra-se?, que ele fez essa observação.

— Não me lembro — respondeu a condessa.

Um criado entrou, atendendo ao som da campainha acionada por Albert.

— Leve essas flores para o vestíbulo ou para o gabinete de toalete —

disse o visconde —, elas fazem mal à condessa.

O criado obedeceu.

Houve um longo silêncio, que durou o tempo todo da mudança na decoração.

— Que nome é esse, Monte Cristo? — perguntou a condessa quando o criado saiu, levando o último vaso de flores. — Será um nome de família, um nome de domínio, um simples título?

— Acredito que seja um título, minha mãe, apenas isso. O conde comprou uma ilha no arquipélago toscano e, segundo o que ele mesmo dizia esta manhã, fundou uma comendadoria. A senhora sabe que é assim que se faz para Santo Estêvão de Florença, para

São Jorge Constantiniano de Parma15 e até para a ordem de Malta. Em todo caso, ele não tem nenhuma pretensão à nobreza, auto-intitulando-se um conde por acaso, embora a opinião geral em Roma seja a de que o conde é um grão-senhor.

— Ele é muito educado — comentou a condessa —, pelo menos até onde pude julgar durante os poucos instantes em que esteve aqui.

— Oh, muitíssimo, minha mãe! Seus modos são tão perfeitos que superam em muito tudo que conheci de mais aristocrático nas três nobrezas mais altivas da Europa, isto é, a inglesa, a espanhola e a alemã.

A condessa refletiu por um instante e prosseguiu, após essa breve hesitação:

— Você viu, meu querido Albert, esta é uma pergunta de mãe que lhe dirijo, preste atenção, você viu o sr. de Monte Cristo na intimidade; você tem a perspicácia, você tem o desembaraço social, mais tato do que em geral se tem na sua idade; acredita que o conde seja realmente o que parece ser?

— E o que ele parecer ser?

— Você próprio disse, agora mesmo, um grão-senhor.

— O que lhe disse, minha mãe, é que o consideravam como tal.

— Mas qual é a sua opinião, Albert?

— Não tenho, admito, opinião definitiva sobre ele; suponho que seja maltês.

— Não pergunto sobre sua origem; pergunto sobre sua pessoa.

— Ah, sobre sua pessoa é outra coisa; em relação a ele vi tantas coisas estranhas que, se quiser que lhe diga o que penso, responderei que sem dificuldade o veria como um dos homens de Byron, marcado com o sinete fatal do infortúnio; algum Manfred,

alguma Lara, algum Werner16; um remanescente, enfim, de alguma venerável família que, deserdado da fortuna paterna, encontrou uma substituta graças à força de seu gênio aventureiro, que o instalou acima das leis da sociedade.

— O que está dizendo...?

— Estou dizendo que Monte Cristo é uma ilha no meio do Mediterrâneo, sem habitantes, sem guarnição, antro de contrabandistas de

todas as nações, de piratas de todos os países. Quem sabe se esses dignos industriais não pagam um direito de asilo ao seu senhor?

— É possível — disse a condessa, pensativa.

— Mas não importa — emendou o rapaz —, contrabandista ou não, a senhora há de concordar, minha mãe, depois de tê-lo conhecido, que o sr.

conde de Monte Cristo é um homem notável e fará grande sucesso nos salões de Paris. Por exemplo, na manhã de hoje, na minha casa, ele fez sua estréia na sociedade deixando estupefato até mesmo Château-Renaud.

— E que idade pode ter o conde? — perguntou Mercedes, atribuindo visivelmente grande importância a essa pergunta.

— Entre trinta e cinco e trinta e seis anos, minha mãe.

— Tão moço, é impossível! — exclamou Mercedes, respondendo ao mesmo tempo ao que lhe dizia Albert e ao que lhe dizia seu próprio pensamento.

— Entretanto, é verdade. Por três ou quatro vezes ele me disse, e decerto sem premeditação, “em tal época eu tinha cinco anos”, “em tal outra eu tinha dez anos”, “em tal outra, doze”; como a minha curiosidade me mantinha atento a esses detalhes, eu aproximava as datas, e nunca o flagrei em erro. Logo, a idade desse homem singular, que não tem idade, é, tenho certeza disso, trinta e cinco anos. Além do mais, lembre-se, minha mãe, como seu olho é vivo, como seus cabelos são escuros e como sua fronte, embora pálida, não tem rugas; é uma natureza não apenas vigorosa, mas ainda jovem.

A condessa abaixou a cabeça como se estivesse sob um temporal de pensamentos amargos.

— E esse homem ficou seu amigo, Albert? — perguntou ela, com um arrepio nervoso.

— Creio que sim, senhora.

— E você... gosta dele também?

— Ele me agrada, senhora, a despeito do que diga Franz d’Épinay, que pretendia fazê-lo passar aos meus olhos como um homem que voltou do além.

A condessa fez um gesto de terror.

 

A condessa fez um gesto de terror.

— Albert — disse ela com uma voz alterada —, sempre o precavi contra novos conhecidos. Agora você é um homem, podendo, por sua vez, me dar conselhos. Apesar disso, repito: seja prudente, Albert.

— Eu precisaria antes, querida mãe, para que tal conselho me fosse útil, saber do que desconfiar. O conde nunca brinca, o conde só bebe água dourada com uma gota de vinho de Espanha; o conde anunciou-se tão rico que, sem cair no ridículo, nunca me pediria dinheiro emprestado; que tenho então a temer da parte do conde?

— Tem razão — diz a condessa —, e meus terrores são absurdos, ainda mais tendo como objeto o homem que salvou sua vida. A propósito, seu pai o recebeu bem, Albert? É importante nos desfazermos em gentilezas em relação ao conde. O sr. de Morcerf às vezes está ocupado, seus negócios deixam-no irritado, e ele poderia, sem querer...

— Meu pai foi perfeito, senhora — interrompeu Albert. — Eu diria mais: pareceu infinitamente lisonjeado com os dois ou três respeitosos cumprimentos que o conde lhe dirigiu não só com felicidade, mas com senso de oportunidade, como se o conhecesse há trinta anos. Cada uma

dessas pequenas flechas lisonjeiras devem ter mexido com meu pai —

acrescentou Albert, rindo —, de modo que se despediram como os melhores amigos do mundo, com o sr. Morcerf, inclusive, querendo levá-lo até a Câmara para que ouvisse seu discurso.

A condessa não respondeu; estava absorta num devaneio tão profundo que seus olhos foram se fechando pouco a pouco. O rapaz, de pé à sua frente, observava-a com o amor filial terno e afetuoso dos filhos cujas mães ainda são jovens e belas; então, após ter visto seus olhos se fecharem, escutou-a respirar por um instante naquela suave imobilidade, e, julgando-a adormecida, afastou-se na ponta dos pés, fechando com precaução a porta do quarto.

— Esse diabo de homem — murmurou ele, balançando a cabeça —, eu bem que lhe avisei que faria sensação em Paris. Posso avaliar o efeito por ele provocado num termômetro infalível. Minha mãe notou-o; logo, ele deve de fato ser notável.

E desceu às suas cavalariças, não sem um despeito secreto: embora sem qualquer intenção, o conde de Monte Cristo adquirira uma parelha que devolvia seus baios à uma categoria inferior na visão dos entendidos.

— Definitivamente — disse ele —, os homens não são iguais; preciso pedir ao meu pai que desenvolva essa teoria na Câmara Alta.

1 Dupré: Jules Dupré (1811-89), pintor francês da escola de Barbizon, cujos membros eram especialistas em paisagens. Dupré era conhecido pela atmosfera dramática e trágica de seus quadros.

2 Nossa Senhora de Paris: romance de Victor Hugo (1802-85), publicado em 1831 e também conhecido como O corcunda de Notre-Dame.

3 Diaz, Decamps, Salvator Rosa, Giraud, Müller, Dauzats: Narcisse Virgilio Díaz (1807- 76), pintor francês, de pais espanhóis, também da escola de Barbizon; Alexandre-Gabriel Decamps (1803-60), pintor francês especializado em imagens orientalistas; Salvator Rosa (1615-73) pintor italiano do período barroco; Pierre-François-Eugène Giraud (1806-81), pintor francês; Friedrich Müller (1749-1823), que também assinava Maler, pintor alemão conhecido por seu sentimentalismo e por idílicas paisagens campestres; Adrien Dauzats (1804-68), pintor acadêmico francês, também dado ao orientalismo.

4 Léopold Robert: Ver Parte II, cap.12, nota 87.

5 No momento da narrativa, Mercedes tem trinta e dois anos.

6 Gros: Antoine-Jean, ou barão de Gros (1771-1835), pintor francês, conhecido por seus retratos de personalidades políticas e batalhas históricas.

7 Comenda de Santo Estêvão: instituída em 1562, por Cosmo de Medicis (1380-1464), e oficializada pelo grão-duque Ferdinando (1610-70). Suas insígnias eram uma cruz de oito pontas vermelha, com bordas de ouro, ladeada por flores-de-lis e encimada por uma coroa real.

8 são Luís: ou Luís IX (1214-70), rei da França morto no Norte da África, durante a oitava cruzada.

9 Hozier e Jaucourt: Pierre d’Hozier (1592-1660), genealogista francês; Louis de Jaucourt (1704-79), homem de ciências, colaborador na Enciclopédia de Diderot.

10 “dois cartazes”: referência a um episódio no qual o brasão do rei francês Carlos V (1338- 80), tradicionalmente composto de três flores-de-lis, foi substituído por outro com duas tábuas da lei

11 Planície do Mitidja: planície localizada ao norte da África, aproximadamente a cinqüenta quilômetros ao sul de Argel; montanhas do Atlas: cordilheiras que separam as margens do oceano Atlântico e do mar Mediterrâneo do deserto do Saara.

12 Primeira campanha: primeira campanha na conquista da Argélia, que terminou com a tomada de Argel, em junho de 1830.

13 Revolução de Julho (de 1830): movimento que teve como pano de fundo a propagação do liberalismo e do nacionalismo, e como causas a crise econômica e o recrudescimento do regime absolutista pelo sucessor de Luís XVIII, Carlos X (1797-1836), que terminou sendo destronado.

14 Keller: Keller & Filhos, fabricante parisiense de coches e carroças de todos os tipos.

15 “é assim que se faz para Santo Estêvão de Florença, para São Jorge Constantiniano de Parma” : como a passagem demonstra, essas instâncias nobiliárquicas estavam ligadas a uma determinada cidade. A ordem de Santo Estêvão, já mencionada, ligava-se a Florença, a constantiniana de Parma, com sede territorial na cidade deste nome, era controlada pela família Farnese.

16 Para Manfred e Lara, ver notas da Parte II (182 e 72, respectivamente); Werner: personagem da peça homônima escrita por Byron, a última a ser concluída, em 1821.