O Conde de Monte Cristo
7. O livro de registro das prisões
5 “Frailty, thy name is woman” : numa tradução livre, “Leviandade, teu nome é mulher”, citação do clássico shakespeariano Hamlet, ato I, cena 2. Nesta passagem, o príncipe dinamarquês queixa-se da mãe, que com menos de dois meses de viuvez contraiu novas núpcias com o irmão do falecido esposo, assim impedindo o filho de subir ao trono.
7. O livro de registro das prisões
No dia seguinte àquele em que acontecera, na estrada de Bellegarde para Beaucaire, a cena que acabamos de relatar, um homem de trinta a trinta e dois anos, vestindo um fraque azul-claro, uma calça de nanquim e um colete branco, tendo ao mesmo tempo aspecto e sotaque britânicos, apresentou-se ao prefeito de Marselha.
— Senhor — disse-lhe — sou o representante oficial da Casa Thomson
& French, de Roma. Há dez anos mantemos relações com a Casa Morrel & Filho, de Marselha. Temos cerca de cem mil francos investidos nessas relações e estamos um tanto preocupados, pois dizem que ela ameaça falência: venho, portanto, expressamente de Roma para pedir-lhe informações sobre essa instituição.
— Cavalheiro — respondeu o prefeito —, sei efetivamente que há quatro ou cinco anos a desgraça parece perseguir o sr. Morrel. Ele perdeu sucessivamente quatro ou cinco embarcações e sofreu três ou quatro bancarrotas; porém não cabe a mim, não obstante eu mesmo seja seu credor em dez mil francos, dar nenhuma informação sobre a situação de sua fortuna. Pergunte-me como prefeito o que acho do sr. Morrel e respondo-lhe que é um homem probo ao extremo e que até agora cumpriu todos os seus compromissos com absoluta exatidão. Eis tudo que posso lhe dizer, senhor; se quiser saber mais, dirija-se ao sr. Boville, inspetor das prisões, na rua de Noailles, no15; ele tem, creio eu, duzentos mil francos investidos na Casa Morrel; se houver realmente alguma coisa a temer nesse aspecto, como tal soma é mais significativa que a minha, provavelmente ele estará mais bem-informado que eu.
O inglês pareceu apreciar essa suprema delicadeza, fez uma saudação, saiu e encaminhou-se, naquele passo peculiar aos filhos da Grã-Bretanha, para a rua indicada.
O sr. de Boville estava em seu gabinete. Ao percebê-lo, o inglês teve um gesto de surpresa, demonstrando que aparentemente não era a primeira vez que se encontrava diante daquele a quem vinha visitar. Quanto ao sr. de Boville, estava tão desesperado que era evidente que todas as faculdades do seu espírito, absortas no pensamento que o ocupava no momento, não podiam se dar ao luxo de ter sua memória e sua imaginação vagando no passado.
O inglês, com a fleugma de sua nação, repetiu-lhe praticamente nos mesmos termos a pergunta que acabava de fazer ao prefeito de Marselha.
— Oh, cavalheiro! — exclamou o sr. de Boville. — Infelizmente seus temores são mais que fundados, e o senhor vê um homem desesperado. Eu tinha duzentos mil francos investidos na Casa Morrel: esses duzentos mil francos eram o dote da minha filha, que eu esperava casar em quinze dias; esses duzentos mil francos me deveriam ser restituídos, cem mil no dia 5
deste mês, cem mil no dia 5 do próximo. Eu comunicara ao sr. Morrel meu desejo de que o retorno desse investimento fosse feito pontualmente, e não é que ele veio aqui, cavalheiro, há cerca de meia hora, para me dizer que se a sua embarcação, o Pharaon, não estiver de volta aqui até o dia 5, ele se verá na impossibilidade de me fazer tal pagamento?
— Ora — disse o inglês —, isso me parece apenas um adiamento.
— Diga, cavalheiro, que se parece mais com uma bancarrota! — exclamou o sr. de Boville, desesperado.
O inglês pareceu refletir um instante, depois perguntou:
— Quer dizer, senhor, que essa dívida lhe inspira temores?
— Quero dizer que a vejo como perdida.
— Pois bem! Eu a resgato do senhor.
— O senhor?
— Sim, eu.
— Mas com um desconto enorme, provavelmente?
— Não, mediante duzentos mil francos; nossa financeira — acrescentou o inglês rindo — não pratica esse tipo de negócio.
— E o senhor paga...
— Em dinheiro.
E o inglês tirou do bolso um maço de títulos bancários que podia alcançar o dobro da soma que o sr. de Boville temia perder.
Um raio de alegria atravessou o semblante do sr. de Boville; porém, apesar disso, ele tentou se controlar e disse:
— Cavalheiro, devo avisar-lhe que, segundo toda probabilidade, o senhor não conseguirá nem seis por cento dessa soma.
— Isso não me importa — respondeu o inglês. — Isso diz respeito à Casa Thomson & French, em nome da qual atuo. Talvez ela tenha interesse em apressar a ruína de uma casa rival. Mas o que sei, senhor, é que estou disposto a descontar essa soma em pagamento pela transferência da dívida que o senhor fará para mim; solicitarei apenas um direito de corretagem.
— Imagine, cavalheiro, isso é mais que justo! — exclamou o sr. de Boville. — A comissão é em geral um e meio por cento: quer dois? Quer três? Quer cinco? Quer mais, caramba? Fale!
— Senhor — replicou o inglês rindo —, sou como a instituição para a qual trabalho, não faço esse tipo de negócio; não: meu direito de corretagem é de outra natureza.
— Fale, então, cavalheiro, estou ouvindo.
— O senhor é inspetor das prisões?
— Há mais de catorze anos.
— Mantém registros de entrada e saída?
— Sem dúvida.
— Nesses registros estão anexadas observações relativas aos prisioneiros?
— Cada prisioneiro tem sua ficha.
— Pois bem, senhor, fui criado em Roma por um abade, um pobre coitado que desapareceu de repente. Soube, mais tarde, que ele havia sido confinado no castelo de If, e gostaria de saber alguns detalhes sobre sua morte.
— Como ele se chamava?
— Abade Faria.
— Oh, lembro-me perfeitamente! — exclamou o sr. de Boville. — Era um louco.
— Assim o diziam.
— Oh, era com toda a certeza!
— É possível; e como sua loucura se manifestava?
— Ele dizia ter conhecimento de um imenso tesouro e oferecia somas loucas ao governo em troca de sua liberdade.
— Pobre coitado! E ele morreu?
— Sim, senhor, há cerca de cinco ou seis meses, em fevereiro passado.
— O senhor tem uma memória prodigiosa, cavalheiro, para lembrar assim das datas.
— Lembro-me desta porque a morte do pobre coitado foi acompanhada de um acontecimento singular.
— Pode-se saber que acontecimento foi esse? — perguntou o inglês, com uma expressão de curiosidade que um bom observador ficaria perplexo de vislumbrar em sua fleugmática fisionomia.
— Por Deus, sim, senhor: a masmorra do abade ficava a uma distância de quinze a dezesseis metros da ocupada por um ex-agente bonapartista, um dos que mais haviam contribuído para o retorno do usurpador em 1815, homem muito determinado e perigoso.
— É mesmo? — disse o inglês.
— Sim — respondeu o sr. de Boville. — Eu mesmo tive a oportunidade de estar com esse homem em 1816 ou 1817, e só se podia descer à sua masmorra com uma escolta de soldados: esse homem me causou uma profunda impressão e jamais esquecerei o seu rosto.
O inglês sorriu imperceptivelmente.
— O senhor então dizia — continuou ele — que as duas masmorras...
— Eram separadas por uma distância de dezesseis metros, mas parece que esse Edmond Dantès...
— Esse homem perigoso chamava-se...
— Edmond Dantès. Sim, senhor; parece que esse Edmond Dantès
arranjara algumas ferramentas, ou as fabricara, pois encontramos um túnel pelo qual os prisioneiros se comunicavam.
— Esse túnel teria sido aberto com o objetivo de evasão?
— Justamente; mas, infelizmente para os prisioneiros, o abade Faria mergulhou num estado cataléptico e morreu.
— Compreendo; isso deve ter interrompido os planos de evasão.
— Para o morto, sim — respondeu o sr. de Boville —, mas não para o vivo; ao contrário, esse Dantès viu nisso um meio de apressar sua fuga; provavelmente supunha que os prisioneiros mortos no castelo de If eram enterrados num cemitério comum; assim, ele transportou o defunto para a sua cela, ocupou o lugar dele no saco dentro do qual o haviam costurado e esperou a hora do enterro.
— Um método audacioso e que sugere certa coragem — comentou o inglês.
— Oh, como eu lhe disse, senhor, era um homem muito perigoso; por felicidade, ele próprio livrou o governo dos temores que este nutria a seu respeito.
— O que quer dizer?
— Ora, não compreende?
— Não.
— O castelo de If não possui cemitério; os mortos são simplesmente lançados ao mar, após terem uma bola de ferro de dezessete quilos acorrentada nos pés.
— E então? — indagou o inglês, como se compreendesse com
dificuldade.
— E então? Prenderam-lhe a bola de ferro de dezessete quilos nos pés e o lançaram ao mar.
— Verdade?
— Sim, meu caro — continuou o inspetor. — Imagine o espanto do fugitivo quando se percebeu jogado do alto dos rochedos. Gostaria de ter visto a cara dele nesse momento.
— Teria sido difícil fazê-lo.
— Não importa! — disse o sr. de Boville, a quem a certeza de recuperar duzentos mil francos deixava de bom humor. — Não importa! Posso imaginá-la.
E caiu na gargalhada.
— Eu também — disse o inglês.
E pôs-se a rir por sua vez, mas como riem os ingleses, isto é, com a ponta dos dentes.
— Isso significa — continuou o inglês, recuperando o sangue-frio —, que o fugitivo se afogou.
— Dos pés à cabeça.
— Quer dizer que o diretor do castelo ficou livre ao mesmo tempo do furioso e do louco?
— Exatamente.
— Mas alguma espécie de boletim de ocorrência deve ter sido feito a respeito desse incidente? — perguntou o inglês.
— Sim, sim, uma certidão de óbito. O senhor compreende, os pais de Dantès, se ele os tivesse, poderiam querer verificar se estava morto ou vivo.
— De maneira que agora eles podem ficar tranqüilos caso tenham alguma herança a receber. Ele está morto, definitivamente morto?
— Oh, meu Deus, sim! E lhes entregaremos a certidão quando quiserem.
— Assim seja — disse o inglês. — Mas voltemos aos registros das prisões.
— É verdade. Essa história nos desviou deles. Perdão.
— Perdão por quê? Pela história? Em absoluto, ela me pareceu curiosa.
— E de fato o é. Então o senhor deseja ver tudo que se relaciona ao seu infeliz abade, que era por sua vez a doçura em pessoa?
— Eu gostaria muito.
— Passe para o meu gabinete e lhe mostrarei.
E ambos passaram ao gabinete do sr. de Boville.
Tudo ali estava efetivamente numa ordem perfeita: cada registro tinha seu número, cada ficha, seu escaninho. O inspetor fez o inglês sentar-se em sua poltrona e colocou à sua frente o livro de registros do castelo de If, dando-lhe todo o tempo para que o folheasse, enquanto ele, por sua vez, sentado num canto, lia o jornal.
O inglês encontrou com facilidade a ficha relativa ao abade Faria; mas aparentemente a história que lhe contara o sr. de Boville o interessara bastante, pois, após ter tomado ciência daqueles primeiros documentos, continuou a folhear o livro até chegar ao dossiê de Edmond Dantès. Nele encontrou cada coisa em seu lugar: denúncia, interrogatório, petição de Morrel, anotação do sr. de Villefort. Dobrou cuidadosamente a denúncia, guardou-a no bolso, leu o interrogatório, viu que dele não constava o nome Noirtier, percorreu a petição, datada de 10 de abril de 1815, na qual Morrel, seguindo o conselho do substituto, exagerava, com a melhor das intenções, uma vez que Napoleão reinava na época, os serviços que Dantès prestara à causa imperial, serviços que o parecer de Villefort demonstrava incontestáveis. Então compreendeu tudo. Sob a segunda Restauração, aquele pleito dirigido a Napoleão, guardado por Villefort, tornara-se uma arma terrível nas mãos do procurador do rei. Por conseguinte, não se espantou mais, ao folhear o registro, com essa anotação posta numa chave diante do seu nome:
Edmond Dantès:Bonapartista radical, teve participação importante no retorno da ilha de Elba.
A ser mantido confinado sob grande sigilo e sob a mais rigorosa vigilância.
Abaixo destas linhas estava escrito com outra letra:
Considerando a anotação acima, nada a fazer.
Dobrou cuidadosamente a denúncia e guardou-a no bolso.
Ao comparar a caligrafia da chave com a do parecer colocado sob a petição de Morrel, o inglês adquiriu a certeza de que a anotação da chave exibia a mesma caligrafia do parecer, isto é, fora feita pela mão de Villefort.
Quanto à anotação que acompanhava a anotação na chave, o inglês compreendeu que devia ter sido consignada por algum inspetor que demonstrara um interesse passageiro pela situação de Dantès, mas que a informação que acabamos de fornecer colocara na impossibilidade de dar seqüência a tal interesse.
Como dissemos, o inspetor, por discrição e para não incomodar o aluno do abade Faria em suas pesquisas, afastara-se e lia o
Drapeau Blanc1.