O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 27 de 119

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O Conde de Monte Cristo

4. O desconhecido

Buzento desaparecera por completo numa imensa fratura do solo, o leito estava novamente seco.

Parei num albergue chamado ‘Repouso do Alarico’, e, da janela, observei um multidão revolvendo a terra nua para encontrar o túmulo de Alarico, que continha um cadáver embalsamado com riquezas suficientes para enriquecer um povo inteiro”, Dumas, Memórias gastronômicas de todos os tempos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2005.

4. O desconhecido

Amanheceu. Dantès, de olhos abertos, já esperava o dia havia tempo.

Aos primeiros raios de sol, ele se pôs de pé e subiu, como na véspera, na rocha mais elevada da ilha, a fim de explorar os arredores; como na véspera, tudo estava deserto.

Edmond desceu,levantou a pedra,encheu os bolsos com pedrarias, recolocou o melhor que pôde as tábuas e as ferragens do baú, cobriu-o com terra, pisoteou essa terra, jogou areia em cima a fim de tornar o lugar recém-revolvido, semelhante ao resto do solo; saiu da caverna, recolocou a laje, juntou sobre a laje pedras de diferentes tamanhos, introduziu terra nos interstícios, plantou nesses interstícios mirtos e urzes, regou a nova vegetação a fim de que parecesse antiga, apagou os rastros acumulados de seus passos em torno do local e esperou com impaciência o retorno de seus companheiros. Com efeito, não se tratava mais agora de passar o tempo a contemplar aquele ouro e aqueles diamantes, ficando em Monte Cristo como um dragão que vigia tesouros inúteis. Agora precisava voltar à vida, junto aos homens, e assumir na sociedade o status, a influência e o poder concedidos neste mundo pela riqueza, a primeira e a maior das forças de que pode dispor a criatura humana.

Os contrabandistas voltaram no sexto dia. Dantès reconheceu de longe o perfil e a cadência da Jeune-Amélie; então se arrastou até o

local de fundeação, como Filocteto1 ferido, e, quando seus companheiros alcançaram a margem, anunciou-lhes, ainda se queixando de dores, uma melhora sensível. Em seguida, por sua vez, escutou o relato dos aventureiros. Haviam sido bem-sucedidos, é verdade; porém, mal haviam entregue a carga, receberam um alerta acerca de um brigue que vigiava Toulon e acabava de sair do porto, dirigindo-se para o lado deles. Haviam então fugido a todo pano, lamentando que Dantès, capaz de imprimir uma velocidade tão superior à embarcação, não estivesse lá para pilotá-la. Com efeito, não demoraram a avistar a embarcação caçadora; mas, com a ajuda da noite e dobrando o cabo Corso, haviam escapado.

Em suma, a viagem não fora ruim, e todos, especialmente Jacopo, lamentavam que Dantès não estivesse presente, a fim de auferir sua parcela dos lucros que haviam trazido, parcela que montava a cinqüenta piastras.

Edmond permaneceu impenetrável; sequer sorriu à enumeração das vantagens a partilhar se tivesse tido condições de deixar a ilha; e, como a Jeune-Amélie não viera a Monte Cristo senão para buscá-lo, embarcou aquela noite mesma e acompanhou o capitão até Livorno.

Em Livorno dirigiu-se à casa de um judeu e vendeu quatro de seus menores diamantes por cinco mil francos cada um. O judeu poderia ter indagado como era possível um marinheiro ver-se detentor daquelas pedras; mas não fez nada disso, estava ganhando mil francos em cima de cada uma.

No dia seguinte, comprou um barco novinho que deu a Jacopo, acrescentando a esse presente cem piastras para que ele pudesse contratar uma tripulação; e isto, sob a condição de que Jacopo fosse a Marselha pedir notícias de um velho chamado Louis Dantès, que morava na rua das Allées de Meilhan, e de uma moça que morava na aldeia dos catalães e se chamava Mercedes.

Foi a vez de Jacopo acreditar que estava sonhando. Edmond então lhe contou que se tornara marinheiro num arroubo intempestivo e porque sua família lhe recusava o dinheiro necessário à sua subsistência; mas, ao chegar a Livorno, recebera a herança de um tio que o nomeara seu único herdeiro. A educação refinada de Dantès dava a esse relato tamanha veracidade que Jacopo não duvidou por um instante que seu companheiro lhe dizia a verdade.

Por outro lado, como o contrato de Edmond com a Jeune-Amélie havia expirado, ele se despediu do capitão, que a princípio tentou retê-lo, mas, como Jacopo, ao saber da história da herança, renunciou a toda esperança de vencer a decisão de seu antigo marujo.

No dia seguinte, Jacopo desfraldou as velas rumo a Marselha; devia reencontrar Edmond em Monte Cristo.

... dirigiu-se à casa de um judeu e vendeu quatro de seus menores diamantes por cinco mil francos cada um.

No mesmo dia, Dantès partiu sem dizer aonde ia, despedindo-se da tripulação da Jeune-Amélie com uma gratificação esplêndida, e do capitão com a promessa de lhe dar notícias mais cedo ou mais tarde.

Dantès foi para Gênova.

Concomitante à sua chegada, estava para acontecer o teste de um pequeno iate encomendado por certo inglês que, tendo ouvido falar da fama dos genoveses como os melhores armadores do Mediterrâneo, quis ter um barco construído em Gênova. O inglês estimara seu preço em quarenta mil francos; Dantès ofereceu sessenta mil, sob a condição de que o iate fosse entregue no mesmo dia. O inglês saíra em viagem à Suíça enquanto aguardava que sua embarcação ficasse pronta. Só voltaria dentro de três semanas ou um mês; o armador julgou que teria tempo de colocar outro barco no estaleiro. Dantès levou o armador até um judeu, passou com ele para os fundos da loja, e o judeu contou-lhe os sessenta mil.

O armador ofereceu a Dantès seus serviços para recrutar uma tripulação, mas Dantès agradeceu-lhe dizendo que estava acostumado a navegar sozinho e desejava somente que confeccionassem, na cabine, na cabeceira da cama, um armário secreto, com três compartimentos também secretos.

Deu a medida desses compartimentos, que foram confeccionados no dia seguinte.

Duas horas depois, Dantès saía do porto de Gênova escoltado pelos olhares de uma multidão de curiosos, ansiosa por ver o senhor espanhol que tinha o hábito de navegar sozinho.

Dantès saiu-se às mil maravilhas; com a ajuda do leme e sem precisar de mais nada, fez a sua embarcação realizar todas as evoluções necessárias; ela parecia uma criatura inteligente, pronta a obedecer ao menor estímulo, e o próprio Dantès admitiu para si mesmo que os genoveses mereciam a reputação de melhores armadores do mundo.

Os curiosos seguiram a pequena embarcação com os olhos até perderem-na de vista, e então começaram as discussões para saber seu destino. Uns inclinaram-se pela Córsega, outros pela ilha de Elba; outros quiseram apostar que ia para a Espanha, havendo quem sustentasse que ia para a África; não passou pela cabeça de ninguém mencionar a ilha de Monte Cristo.

Entretanto, era para Monte Cristo que ia Dantès.

Chegou lá no fim do segundo dia; o barco era um excelente veleiro e tinha percorrido a distância em trinta e cinco horas. Dantès reconhecera perfeitamente o desenho da costa e, em vez de fundear no local de costume, lançou âncora na pequena enseada.

A ilha estava deserta; ninguém parecia ter aportado ali desde que Dantès partira. Ele se dirigiu para o seu tesouro; tudo estava do mesmo jeito que deixara.

No dia seguinte, sua imensa fortuna foi levada a bordo do iate e trancada nos três compartimentos do armário secreto.

Dantès esperou mais uma semana. Durante sete dias manobrou seu iate em torno da ilha, estudando-o como um jóquei estuda um cavalo. No fim desse tempo, conhecia todas as suas qualidades e os seus defeitos. Dantès prometeu a si mesmo melhorar as primeiras e corrigir os últimos.

No oitavo dia, viu uma pequena embarcação que se aproximava da ilha a todo pano e reconheceu o barco de Jacopo; fez um sinal ao qual Jacopo respondeu e duas horas depois o barco estava ao lado do iate.

Havia uma triste resposta para cada uma das perguntas feitas por Edmond.

O velho Dantès morrera. Mercedes desaparecera.

Edmond escutou essas duas notícias com uma expressão de calma; mas logo foi para a terra firme, proibindo quem quer que fosse de o seguir.

Duas horas depois, voltou; dois homens do barco de Jacopo passaram para o seu iate, a fim de ajudá-lo na manobra, e ele deu ordens para que apontassem a proa na direção de Marselha. Previa a morte do pai; mas Mercedes, qual seria o seu paradeiro?

Sem divulgar seu segredo, Edmond não podia dar instruções suficientes a um investigador; aliás, ainda precisava de outras informações, para as quais contava apenas consigo mesmo. Em Livorno, seu espelho lhe dissera que não corria perigo de ser reconhecido; a propósito, tinha agora à sua disposição todos os meios de se disfarçar. Logo, certa manhã, o iate, seguido pela pequena embarcação, entrou briosamente no porto de Marselha, detendo-se justamente em frente ao local onde, naquela tarde de fatal memória, ele fora embarcado para o castelo de If.

Não foi sem um certo frêmito que, no bote do departamento sanitário, Dantès viu um policial chegando até ele. Mas Dantès, com o perfeito autocontrole que adquirira, apresentou-lhe um passaporte inglês que comprara em Livorno e, mediante esse salvo-conduto estrangeiro, muito mais respeitado na França que o nosso, desceu sem dificuldade à terra.

A primeira coisa que chamou a atenção de Dantès, ao colocar o pé na Canebière, foi um dos marujos do Pharaon. Aquele homem servira sob suas ordens, e estava ali como que para tranqüilizá-lo em relação às mudanças que se haviam operado em seu rosto. Foi diretamente até esse homem e fez-lhe diversas perguntas, às quais ele respondeu, sem deixá-lo sequer suspeitar, nem por suas palavras, nem por sua fisionomia, de que um dia vira quem então lhe dirigia a palavra.

Dantès deu ao marujo uma moeda como agradecimento por suas informações; um instante depois, ouviu o bom homem correndo atrás dele.

Dantès se voltou.

— Perdão, cavalheiro — disse o marujo —, mas o senhor provavelmente se enganou; julgou ter me dado uma moeda de quarenta sous, e me deu um napoleão duplo.

— Realmente, meu amigo — disse Dantès —, eu tinha me enganado; mas, como sua honestidade merece uma recompensa, eis aqui um segundo;

peço-lhe que o aceite para beber à minha saúde com seus colegas. O marujo olhou para Edmond com tanto espanto que sequer pensou em lhe agradecer enquanto o via se afastar, concluiu:

— É algum nababo chegando da Índia.

Dantès seguiu adiante; cada passo que dava oprimia seu coração com uma nova emoção. Todas aquelas lembranças de infância, lembranças indeléveis, eternamente presentes no pensamento, estavam lá, afloravam em cada canto de praça, em cada esquina de rua, em cada cruzamento.

Chegando ao fim da rua de Noailles, ao avistar a rua das Allées de Meilhan, sentiu os joelhos bambearem e quase caiu sob as rodas de um coche. Finalmente chegou ao prédio em que seu pai morava. As trepadeiras e capuchinhas haviam desaparecido da mansarda, onde antigamente a mão do bom homem as amarrava com tanta dedicação.

Dantès apoiou-se numa árvore e ficou um tempo pensativo, olhando para os últimos andares daquele modesto prédio; então avançou para a porta, transpôs a soleira, perguntou se não havia um apartamento vago e, embora este se encontrasse ocupado, insistiu tanto para visitar o do quinto andar que o zelador subiu e pediu a seus ocupantes permissão, da parte de um estrangeiro, para que pudesse visitar os dois cômodos de que era composto. As pessoas que moravam nesse pequeno apartamento eram um rapaz e uma moça que acabavam de se casar fazia apenas uma semana.

Ao ver aqueles dois jovens, Dantès soltou um profundo suspiro.

De toda forma, nada mais o lembrava do apartamento de seu pai: não era mais o mesmo papel de parede; todos os velhos móveis, amigos de infância de Edmond, presentes em sua lembrança em todos os detalhes, haviam desaparecido. Apenas as paredes eram as mesmas.

Dantès observou a cama, que ocupava o mesmo lugar da do ex-locatário; sem querer, os olhos de Edmond ficaram úmidos: era naquele lugar que o velho devia ter expirado com o nome do filho nos lábios.

Os dois moços olhavam com espanto aquele homem de fronte severa, por cujas faces corriam duas grandes lágrimas sem que seu rosto pestanejasse. Porém, como toda dor traz sua religião consigo, não fizeram nenhuma pergunta ao desconhecido; apenas se retiraram até os fundos para deixá-lo chorar mais à vontade, e, quando ele se foi, acompanharam-no dizendo que podia voltar quando quisesse e que sua humilde casa lhe seria sempre hospitaleira.

Ao passar pelo andar de baixo, Edmond parou diante de outra porta e perguntou se o alfaiate Caderousse continuava morando ali. Mas o zelador lhe respondeu que o homem de quem ele falava fizera maus negócios e agora possuía uma pequena estalagem na estrada que ia de Bellegarde a Beaucaire.

Dantès desceu, perguntou o endereço do proprietário do pequeno prédio das Allées de Meilhan, foi até a casa dele, fez-se anunciar como lorde Wilmore (era o nome e título que constavam em seu passaporte), e comprou o edifício pela soma de vinte e cinco mil francos. Era pelo menos dez mil francos a mais do que ele valia. Mas Dantès, se lhe tivessem pedido meio milhão, teria pago.

No mesmo dia, os jovens do quinto andar foram avisados pelo tabelião que fizera o contrato de que o novo proprietário lhes dava a opção de um apartamento no prédio, sem aumentar em nada o aluguel, sob a condição de que cedessem os dois quartos que ocupavam.

Esse fato estranho entreteve durante mais de uma semana todos os freqüentadores das Allées de Meilhan, que engendraram mil conjecturas, das quais nenhuma se revelou exata.

No entanto, o que mais confundiu todos os cérebros e perturbou todos os espíritos foi que à noite viram o mesmo homem que tinham visto no edifício da rua das Allées de Meilhan passear pela pequena aldeia dos catalães e entrar numa singela casinha de pescadores, onde permaneceu mais de uma hora pedindo notícia de várias pessoas que estavam mortas ou que haviam desaparecido fazia mais de quinze ou dezesseis anos.