O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 82 de 119

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O Conde de Monte Cristo

3. A acusação

Ao atingir esta última cor, nela fixou-se, por assim dizer. O teste não deixava dúvidas.

— O infeliz Barrois foi envenenado com falsa-angustura e fava-de-

santo-inácio1 — declarou d’Avrigny. — Agora posso sustentar isso perante os homens e perante Deus.

Villefort não disse nada, mas levantou os braços, abriu olhos perplexos e caiu fulminado numa poltrona.

1 “falsa-angustura e fava-de-santo-inácio”: Strychnos nux-vomica, também conhecida como noz-vômica, noz-vomitória ou fava-de-santo-inácio é uma planta medicinal que contém alcalóides (estricnina, brucina, vomicina, colubrina), ácido sulfúrico e taninos.

3. A acusação

Sem demora, o sr. d’Avrigny reanimou o magistrado, que parecia um segundo cadáver naquela câmara funerária.

— Oh, a morte ronda a minha casa! — exclamou Villefort.

— O senhor quer dizer o crime — respondeu o médico.

— Sr. d’Avrigny! — exclamou Villefort. — É impossível exprimir tudo que sinto agora; é terror, é dor, é loucura.

— Sim — concordou d’Avrigny, com uma calma imponente. — Mas penso ser hora de agirmos; penso ser hora de opormos um dique a essa torrente de mortalidade. Da minha parte, vejo-me na impossibilidade de guardar tais segredos por mais tempo, sem poder esperar que a vingança da sociedade e das vítimas seja logo feita.

Villefort lançou um olhar lúgubre à sua volta.

— Na minha casa! — murmurou. — Na minha casa!

— Vamos, magistrado — disse d’Avrigny —, seja homem; intérprete da lei, faça jus à sua honra, por meio de uma imolação completa.

— O senhor me faz tremer, doutor. Uma imolação!

— A palavra é esta.

— Então suspeita de alguém?

— Não suspeito de ninguém. A morte bate à sua porta, entra, vai, não cega, mas inteligente que é, de quarto em quarto. Pois bem! Eu, por minha vez, estou no seu rastro, percebo sua passagem. Adoto a sabedoria dos antigos: tateio; pois minha amizade por sua família, meu respeito pelo senhor, são duas vendas aplicadas nos meus olhos. Pois bem...!

— Oh, fale, fale, doutor, terei coragem!

— Pois bem! Cavalheiro, o senhor tem em sua casa, no seio de sua casa, de sua família talvez, um desses terríveis fenômenos que

acontecem uma vez em cada século. Locusta e Agripina1, contemporâneas uma da outra, são uma exceção que atesta a fúria da Providência ao levar à perdição o Império Romano, manchado

por tantos crimes. Brunhilda e Fredegunda2

são resultados do penoso trabalho de uma civilização em gênese, na qual o homem aprendia a dominar o espírito, ainda que por intermédio do emissário das trevas. Pois bem! Todas essas mulheres haviam sido ou ainda eram jovens e belas. Vira-se florir em sua fronte, ou em sua fronte ainda floria, a mesma flor de inocência que também encontramos na fronte do culpado que está em sua casa.

Villefort deu um grito, juntou as mãos e olhou para o médico com um gesto suplicante.

Mas este prosseguiu sem piedade:

— Procure aquele a quem o crime beneficia, afirma um axioma da jurisprudência.

— Doutor! — exclamou Villefort. — Ai de mim, doutor, quantas vezes a justiça dos homens não foi enganada por essas funestas palavras! Não sei, mas me parece que esse crime...

— Ah! Então finalmente admite que o crime existe?

— Sim, admito. Que mais posso fazer? Não há escapatória. Mas deixeme continuar. Parece-me, eu ia dizendo, que esse crime recai apenas sobre mim e não sobre as vítimas. Suspeito, sob todos esses estranhos desastres, de algum desastre programado para mim.

— Oh! — murmurou d’Avrigny. — O homem, o mais egoísta de todos os animais, a mais personalista de todas as criaturas, que continua a acreditar que a terra gira, que o sol brilha, que a morte ceifa apenas para ele; formiga que amaldiçoa Deus do alto de uma haste de capim! E os que perderam a vida não perderam nada? O sr. de Saint-Méran, a sra. de Saint-Méran, o sr. Noirtier...

— Como? O sr. Noirtier!

— Claro! Acredita, realmente, que o alvo era esse desafortunado criado?

Não, não: como o Polônio3 de Shakespeare, ele morreu no lugar de outro. Era Noirtier que devia beber a limonada; foi Noirtier que a bebeu segundo a ordem lógica das coisas. O outro a bebeu por mero acidente. E

embora seja Barrois que esteja morto, era Noirtier que devia morrer.

— Mas então por que o meu pai não sucumbiu?

— Já lhe expliquei isso, uma noite, no jardim, logo após a morte da sra.

de Saint-Méran: porque seu corpo está acostumado exatamente a esse veneno; porque a dose, insignificante para ele, era mortal para qualquer outro; porque, enfim, ninguém sabe, nem mesmo o assassino, que há três meses eu venho tratando a paralisia do sr. de Noirtier com brucina, ao passo que o assassino não ignora, e certificou-se disso pela experiência, que a brucina é um veneno violento.

— Meu Deus, meu Deus! — murmurou Villefort, contorcendo os braços.

— Siga o percurso do criminoso: ele mata o sr. de Saint-Méran.

— Oh, doutor!

— Eu posso jurar que foi isso; o que me disseram acerca dos sintomas combina muito bem com o que vi com meus olhos.

Villefort desistiu de lutar e soltou um gemido.

— Ele mata o sr. de Saint-Méran — repetiu o médico —, mata a sra. de Saint-Méran: dupla herança a recolher.

Villefort enxugou o suor que corria em sua testa.

— Escute bem.

— Ai de mim! — balbuciou Villefort. — Não perco uma palavra, nenhuma.

— Um pouco antes, o sr. Noirtier — retomou o sr. d’Avrigny, com sua voz impiedosa — havia testado contra o senhor, contra sua família, em favor dos pobres; enfim, o sr. Noirtier é poupado, nada se espera dele. Mas bastou ele destruir seu primeiro testamento, bastou fazer o segundo para que, temendo que possivelmente fizesse um terceiro, o atingissem. O

testamento é de ontem, creio; como vê, não perderam tempo.

— Oh, misericórdia, sr. d’Avrigny!

— Não há misericórdia, cavalheiro. O médico tem uma missão sagrada na terra, foi para cumpri-la que ele remontou às fontes da vida e desceu às misteriosas trevas da morte. Quando um crime é cometido e Deus, talvez com medo, desvia seu olhar do criminoso, é ao médico que cabe dizer:

“Ei-lo.”

— Misericórdia para a minha filha, senhor! — murmurou Villefort.

— Vê que é o senhor que pronuncia seu nome, o senhor, o pai!

— Misericórdia para Valentine! Escute, isso é impossível. Eu prefereria acusar a mim mesmo! Valentine, um coração de diamante, um lírio de inocência!

— Não existe misericórdia, sr. procurador do rei; o crime é flagrante: foi a própria srta. de Villefort que embalou os remédios que despachamos para o sr. de Saint-Méran, e o sr. de Saint-Méran está morto.

“A srta. de Villefort preparou as tisanas da sra. de Saint-Méran, e a sra.

de Saint-Méran está morta.

“A srta. de Villefort pegou das mãos de Barrois, a quem ordenaram que saísse, a garrafa de limonada que o ancião esvazia habitualmente pela manhã, e o ancião só escapou por milagre.

“A srta. de Villefort é a culpada! É a envenenadora! Senhor procurador do rei, denuncio a srta. de Villefort, cumpra o seu dever!”

— Doutor, não resisto mais, não me defendo mais, acredito no senhor; mas, por piedade, poupe minha vida, minha honra!

— Sr. de Villefort — retorquiu o médico com uma força crescente —, há circunstâncias em que ultrapasso todos os limites da tola circunspecção humana. Se sua filha tivesse cometido apenas um primeiro crime, e eu a visse planejar um segundo, eu diria ao senhor: “Advirta-a, castigue-a, que ela passe o resto da vida em algum claustro, em algum convento, a chorar, a rezar.” Se tivesse cometido um segundo crime, eu lhe diria: “Veja, sr. de Villefort, aqui está um veneno que não tem antídoto conhecido, ágil como o pensamento, rápido como um raio, mortal como o relâmpago, dê-lhe este veneno recomendando sua alma a Deus e salve assim sua honra e seus dias, pois é ao senhor que ela odeia.” E a vejo aproximar-se de sua cabeceira com aqueles sorrisos hipócritas e doces exortações! Desgraçado do senhor, meu caro Villefort, se não tiver pressa em golpear antes! Eis o que eu lhe diria se ela tivesse matado apenas duas pessoas; mas ela viu três agonias, contemplou três moribundos, ajoelhou-se ao pé de três cadáveres; ao carrasco, a envenenadora! Ao carrasco! O senhor invoca sua honra, faça o que lhe digo, e é a imortalidade que o espera!

Villefort caiu de joelhos.

— Escute — disse ele —, não tenho essa força que o senhor tem, aliás, que o senhor não teria se, em vez da minha filha Valentine, se tratasse da sua filha Madeleine.

O médico empalideceu.

— Doutor, todo filho da mulher nasceu para sofrer e morrer. Doutor, sofrerei à espera da morte.

— Tome cuidado — disse o sr. d’Avrigny —, ela será lenta... esta morte.

O senhor a verá aproximar-se depois de ela ter golpeado seu pai, sua mulher, talvez seu filho.

Villefort, sem ar, apertava o braço do médico.

— Escute! — exasperou-se ele. — Tenha pena de mim, ajude-me! Não, minha filha não é culpada. Arraste-me a um tribunal, continuarei a dizer:

“Não, minha filha não é culpada...” Não existe crime em minha casa... Não quero, ouça, que haja um crime na minha casa; pois, quando o crime entra em algum lugar, é como a morte, não entra sozinho. Escute, que lhe importa que eu morra assassinado...? O senhor é meu amigo? É um homem? Tem um coração...? Não, o senhor é médico! Pois bem! Afirmo-lhe: “Não, não entregarei minha filha às mãos do carrasco!” Ah! Eis uma

 

idéia que me devora, que me impele como um insano a escalavrar meu peito com as unhas! E se o senhor estivesse enganado, doutor! Se fosse um outro que não a minha filha! Se um dia eu viesse, pálido como um espectro, dizer-lhe: “Assassino! Você matou minha filha!” Veja, se isso viesse a acontecer, embora eu seja cristão, sr. d’Avrigny, eu me mataria!

Villefort caiu de joelhos.

— Está certo — disse o médico, após um instante de silêncio —, vou esperar.

Villefort olhou para ele como se ainda duvidasse de suas palavras.

— Porém — continuou o sr. d’Avrigny, com uma voz arrastada e solene

—, se alguém da sua casa cair doente, ainda que seja o senhor, não me chame, pois não voltarei aqui. Aceito dividir esse segredo terrível com o senhor, mas não quero que a vergonha e o remorso invadam o meu lar, frutificando e desabrochando em minha consciência assim como o crime e o infortúnio irão desabrochar e frutificar na sua casa.

— Então me abandona, doutor?

— Sim, não posso seguir adiante com o senhor, pois eu iria me deter somente ao pé do cadafalso. Alguma outra revelação surgirá, provocando o desenlace dessa terrível tragédia. Adeus.

— Doutor, eu lhe suplico!

— Todos os horrores que conspurcam meu pensamento tornam sua casa odiosa e fatal. Adeus, cavalheiro.

— Uma palavra, só mais uma palavra, doutor! O senhor vai se retirar deixando para trás todo o horror da situação, horror que aumentou com o que me revelou. Mas, da morte instantânea, súbita, desse pobre e velho serviçal, o que irão dizer?

— Está certo — disse o sr. d’Avrigny —, acompanhe-me.

O médico saiu na frente, o sr. de Villefort o seguiu. Os criados, inquietos, espalhavam-se pelos corredores e escadas por onde o médico devia passar.

— Senhor — disse d’Avrigny a Villefort, falando alto de maneira a que todos o ouvissem —, o pobre Barrois andava muito sedentário de uns anos para cá. Ele, que gostava tanto de correr a cavalo, com seu patrão, ou de coche, os quatro cantos da Europa, matou-se com esse serviço monótono em volta de uma cadeira. O sangue estagnou. Andava inchado, tinha o pescoço grosso e curto, foi vítima de uma apoplexia fulminante, e fui avisado tarde demais.

“A propósito — acrescentou baixinho —, não deixe de jogar essa xícara de violeta nas cinzas.”

E o médico, sem tocar a mão de Villefort, sem voltar um instante ao que havia dito, saiu escoltado pelas lágrimas e as lamentações de todo o pessoal da casa.

Naquela mesma noite, todos os criados de Villefort, que se haviam reunido na cozinha e conversado longamente, vieram pedir à sra. de Villefort permissão para se demitir. Nenhuma concessão, nenhuma oferta de aumento de salário foi capaz de retê-los; a todas as palavras, respondiam:

— Queremos ir embora porque a morte ronda esta casa.

Partiram então, apesar das súplicas que lhes foram feitas, afirmando sentir grandes remorsos por deixar patrões tão bons, e sobretudo a srta.

Valentine, tão boa, tão generosa e tão doce.

Villefort, a essas palavras, voltou o olhar para a filha. Ela chorava.

Coisa estranha! Em meio à emoção que lhe provocaram essas lágrimas, ele também fitou a sra. de Villefort, e pareceu-lhe que um sorriso fugaz e soturno atravessara seus lábios finos, como esses meteoros que vemos insinuar-se, sinistros, por entre duas nuvens, no fundo de um céu tempestuoso.