O Conde de Monte Cristo
14. Toxicologia
— Uma visita! — disse Valentine toda agitada. — E quem nos faz essa visita?
— Um grão-senhor, um príncipe, pelo que dizem, o conde de Monte Cristo.
— Estou indo — disse Valentine bem alto.
Esse nome fez estremecer do outro lado da cerca aquele para quem o estou indo de Valentine era destinado, como despedida ao fim de cada encontro.
— E essa agora! — disse consigo Maximilien, apoiando-se pensativo em seu ancinho. — Como o conde de Monte Cristo conhece o sr. de Villefort?
1 Píramo e Tisbe: Píramo e Tisbe namoravam separados por um muro. Combinaram então de fugir. Chegando ao local do encontro, Tisbe viu aproximar-se um leão, com a boca ensangüentada, e fugiu, deixando cair seu véu, que o animal destroçou e manchou de sangue.
Píramo, chegando ao local, julgou-a devorada pela fera, e matou-se com sua espada. Tisbe, de volta para o encontro, depara-se com o amante morto e suicida-se.
14. Toxicologia
Era de fato o sr. conde de Monte Cristo que acabava de entrar na casa dos Villefort, com a intenção de retribuir ao sr. procurador do rei a visita que este lhe fizera, e, a esse nome, toda a casa, como é muito compreensível, ficou em polvorosa.
A sra. de Villefort, que estava no salão quando o conde foi anunciado, mandou logo chamar o filho, para que a criança reiterasse os agradecimentos ao conde, e Édouard, que havia dois dias ouvia incessantemente o nome do grande personagem, apressou-se a comparecer, não por obediência à mãe, não para agradecer ao conde, mas por curiosidade e para fazer alguma observação que o levasse a introduzir uma das caretas que faziam sua mãe dizer: “Oh, menino mau! Mas sou obrigada a perdoá-lo, tem tanta presença de espírito!”
Feitas as primeiras cortesias de praxe, o conde informou-se acerca do sr.
de Villefort.
— Meu marido foi jantar na casa do sr. chanceler — respondeu a jovem mulher. — Saiu neste instante, e lamentará muito, tenho certeza, ter sido privado da felicidade de vê-lo.
Duas visitas que haviam precedido o conde no salão, e que o devoravam com os olhos, retiraram-se após o tempo razoável exigido pelo decoro e pela curiosidade.
— Aliás, onde está sua irmã Valentine? — perguntou a sra. de Villefort a Édouard. — Mande avisá-la, pois quero ter a honra de apresentá-la ao sr.
conde.
— Tem uma filha, senhora? — perguntou o conde. — Mas deve ser uma criança...
— É filha do sr. de Villefort — respondeu a jovem mulher —, filha de um primeiro casamento, uma moça alta e bonita.
— Mas melancólica — interrompeu o jovem Édouard, arrancando, para fazer um penacho no seu chapéu, as plumas da cauda de uma magnífica arara que gritava de dor em seu poleiro dourado.
A sra. de Villefort contentou-se em dizer:
— Silêncio, Édouard! Esse jovem inconseqüente não deixa de ter alguma razão, e está apenas repetindo o que já me ouviu dizer várias vezes com pesar; pois a srta. Villefort tem, a despeito de tudo que fazemos para distraí-la, um temperamento tristonho e um humor taciturno, que
prejudicam muito o efeito de sua beleza. Mas onde está ela que não aparece; Édouard, vá ver o motivo de sua demora.
— É porque estão procurando onde ela não está.
— E onde estão procurando?
— No quarto do vovô Noirtier.
— E você acha que ela não está lá?
— Não, não, não, não, não, ela não está lá — respondeu Édouard, cantarolando.
— E onde ela está? Se você sabe, diga de uma vez.
— Está embaixo da grande castanheira — continuou o cruel menino, enquanto oferecia, malgrado os gritos da mãe, moscas vivas ao periquito, que parecia adorar aquela espécie de caça.
A sra. de Villefort esticava a mão para tocar a campainha e informar à camareira o local onde encontraria Valentine, quando esta entrou. Parecia triste, com efeito, e, observando-a com atenção, era possível até discernir vestígios de lágrimas em seus olhos.
Valentine, a quem nós, arrebatados pela rapidez da narrativa, apresentamos ao leitor sem maiores detalhes, era uma jovem alta e esbelta, de dezenove anos, com cabelos castanho-claros, olhos azul-escuros, andar lânguido e marcada pela refinada distinção que caracterizara sua mãe. Suas mãos brancas, esguias, seu pescoço de madrepérola e suas faces marmorizadas por cores fugazes davam-lhe, à primeira vista, o aspecto dessas belas inglesas cujos meneios, muito poeticamente, eram comparados a cisnes se admirando.
Ela entrou, portanto, e, ao ver na companhia de sua mãe o estrangeiro do qual já tanto ouvira falar, cumprimentou-o sem nenhuma afetação de donzela e sem baixar os olhos, com uma graça que redobrou a atenção do conde.
Ele se levantou.
— Srta. de Villefort, minha enteada — disse a sra. de Villefort a Monte Cristo, desencostando-se do seu sofá e apontando Valentine com a mão.
— E o sr. de Monte Cristo, rei da China, imperador da Cochinchina —
acrescentou o jovem trocista, lançando um olhar furtivo para a irmã.
Dessa vez a sra. de Villefort empalideceu e esteve a ponto de se irritar com o flagelo doméstico que respondia pelo nome de Édouard; porém, contra todas as expectativas, o conde sorriu e pareceu observar a criança
com condescendência, o que levou ao auge a alegria e o entusiasmo da mãe.
— Mas, senhora — disse o conde, reatando a conversa e encarando alternadamente a sra. de Villefort e Valentine —, será que não tive a honra de encontrá-las em algum lugar, a senhora e a senhorita? Ainda há pouco eu já pensava nisso; e, quando a senhorita entrou, sua presença foi uma luz a mais posta sobre uma lembrança confusa, perdoem-me dizê-lo.
— Não é provável, senhor; a srta. de Villefort não gosta muito de reuniões sociais, e raramente saímos — disse a jovem mulher.
— Mas não foi em uma reunião social que vi a senhorita, bem como a senhora, madame, e esse adorável traquinas. Por sinal, não conheço absolutamente ninguém da sociedade parisiense, pois, creio ter tido a honra de lhe dizer, estou em Paris há poucos dias. Não, se me permitem lembrar... esperem...
O conde pôs a mão na testa como para concentrar todas as suas recordações:
— Não, foi ao ar livre... foi... não sei... mas me parece que essa lembrança é inseparável de um belo sol de uma espécie de festa religiosa...
a senhorita tinha flores na mão; a criança corria atrás de um belo pavão no jardim, e a senhora, por sua vez, estava sob um caramanchão... Ajude-me, senhora; será que as coisas que digo não lhe evocam nada?
— Não, nada — respondeu a sra. de Villefort. — Apesar disso, pareceme, cavalheiro, que se o tivesse visto em algum lugar, sua lembrança teria permanecido presente na minha memória.
— O sr. conde talvez nos tenha visto na Itália — arriscou timidamente Valentine.
— Com efeito, na Itália... é possível — disse Monte Cristo. — Já foi à Itália, senhorita?
— Minha madrasta e eu estivemos lá há dois anos. Os médicos temiam pelos meus pulmões e me haviam recomendado o ar de Nápoles. Passamos por Bolonha, Peruggia e Roma.
— Ah, é verdade, senhorita! — exclamou Monte Cristo, como se essa simples indicação bastasse para consolidar suas recordações. — Foi em Peruggia, no dia da Festa do Santo Sacramento, no jardim da hospedaria do Correio, onde por acaso nos reunimos, a senhora, a senhorita, seu filho e eu; lembro-me de ter tido a honra de vê-los.
— Lembro-me perfeitamente de Peruggia, cavalheiro, e da hospedaria do Correio, e da festa que menciona — disse a sra. de Villefort. — Mas em vão interrogo minhas lembranças. Tenho vergonha da minha memória fraca, pois não me recordo de ter tido a honra de vê-lo.
— É estranho, eu tampouco — disse Valentine, levantando seus belos olhos para Monte Cristo.
— Ah, mas eu me lembro! — disse Édouard.
— Vou ajudá-las senhora — continuou o conde. — O dia tinha sido escaldante; as senhoras esperavam cavalos que não chegavam, por causa da solenidade. A senhorita isolou-se nas profundezas do jardim, e o filho da senhora desapareceu, correndo atrás da ave.
— Eu a alcancei, mamãe, a senhora sabe — disse Édouard —, arranquei três penas de sua cauda.
— A senhora permaneceu sob o caramanchão da videira, não se lembra?
Estava sentada num banco de pedra e, enquanto, como lhe disse, a srta. de Villefort e o sr. seu filho estavam ausentes, conversou longamente com alguém...
— Sim, é verdade, sim — disse a jovem mulher, ruborizando —, estou lembrando, com um homem vestindo um sobretudo de lã... com um médico, acho.
— Exatamente, senhora; esse homem era eu; estava morando havia quinze dias naquela hospedaria, tinha curado a febre do meu criado e a difteria do meu hoteleiro, de maneira que me viam como um grande médico. Conversamos longamente, senhora, sobre
assuntos diversos, Peruggino, Rafael1, costumes, roupas, a famosa aqua tofana, cujo segredo, disseram-lhe, ainda era conservado por alguns em Veneza.
— Ah, é verdade — disse a sra. de Villefort, com vivacidade e uma certa preocupação —, agora me lembro.
— Não recordo mais em detalhe o que a senhora me disse — prosseguiu o conde, absolutamente tranqüilo —, mas lembro claramente que, partilhando a meu respeito o equívoco generalizado, consultou-me sobre a saúde da srta. de Villefort.
— Por outro lado, o senhor era efetivamente médico — disse a sra. de Villefort —, uma vez que curou doentes.
— Molière ou Beaumarchais2 lhe responderiam, senhora, que foi justamente por não ser médico que os curei, ou melhor, que meus doentes foram curado. De minha parte, contento-me em lhe dizer que estudei a
fundo química e ciências naturais, mas apenas como diletante, a senhora compreende.
Nesse momento soaram as seis horas.
— Pronto, seis horas — disse a sra. de Villefort, visivelmente agitada.
— Por que não vai ver se o seu avô está preparado para jantar, Valentine?
Valentine levantou-se e, saudando o conde, saiu sem pronunciar palavra.
— Oh, meu Deus, senhora, seria por minha causa que despacha a srta. de Villefort? — perguntou o conde, quando Valentine saiu.
— Imagine! — respondeu, perturbada, a jovem mulher. — Mas é a hora em que servimos ao sr. Noirtier a triste refeição que assegura sua triste existência. Está informado, cavalheiro, acerca do estado deplorável no qual se encontra o pai de meu marido?
— Sim, senhora, o sr. de Villefort me contou; uma paralisia, creio.
— Infelizmente, sim; esse desafortunado velho sofre da ausência completa de movimentos, apenas a alma subsiste naquela máquina humana, e ainda assim pálida e trêmula, como um lampião prestes a se apagar. Mas, perdão, cavalheiro, por aborrecê-lo com nossas mazelas domésticas; interrompi-o no momento em que me dizia ser um exímio químico.
— Oh, eu não dizia isso, senhora — respondeu o conde com um sorriso.
— Muito pelo contrário, estudei química porque, decidido a viver a maior parte do tempo no Oriente, quis seguir o exemplo do rei Mitridates.
— Mithridates, rex Ponticus3 — disse o estouvado, recortando silhuetas num magnífico álbum. — O mesmo cujo café-da-manhã era todos os dias acompanhado por uma xícara de veneno com creme.
— Édouard! Criança malvada! — exclamou a sra. de Villefort, arrancando o livro mutilado das mãos do filho. — Você é insuportável, não há quem agüente. Deixe-nos em paz e junte-se à sua irmã Valentine no quarto do seu querido vovô Noirtier.
— O álbum... — disse Édouard.
— Como assim, o álbum?
— Pois é: quero o álbum...
— Por que recortou esses desenhos?
— Por que é divertido.
— Saia daqui! Saia!
— Não saio se não me derem o álbum — disse a criança, instalando-se numa grande poltrona, fiel a seu hábito de jamais ceder.
— Pegue-o e deixe-nos em paz — arrematou a sra. de Villefort.
E entregou o álbum a Édouard, que foi saindo acompanhado pela mãe. O
conde seguiu a sra. de Villefort com os olhos.
— Édouard! Criança malvada!
— Vejamos se ela vai fechar a porta quando o menino sair — murmurou consigo Monte Cristo.
A sra. de Villefort fechou a porta com grande cuidado após a passagem do menino; o conde fingiu não dar importância ao fato. Em seguida, lançando um olhar à sua volta, a jovem mulher veio sentarse na conversadeira.
— Permita observar, senhora — disse o conde, com a desenvoltura já nossa conhecida —, que é muito severa com esse simpático diabinho.
— Sou obrigada a isso, cavalheiro — replicou a sra. de Villefort, com uma afetação toda maternal.
— O sr. Édouard recitava Cornélio Nepo4 discorrendo sobre o rei Mitridates — disse o conde —, e a senhora o interrompeu numa citação que prova que o preceptor não perdeu tempo com ele e que seu filho está bastante adiantado para a sua idade.
— O fato é, sr. conde — respondeu a mãe ligeiramente lisonjeada — que ele tem uma grande facilidade e aprende tudo o que deseja. Tem apenas um defeito, é ser muito voluntarioso; mas, a propósito do que ele dizia, acredita, por exemplo, sr. conde, que Mitridates fizesse uso dessas precauções e que essas precauções pudessem ser eficientes?
— Acredito tão piamente, senhora, que eu mesmo fiz uso delas para não ser envenenado em Nápoles, Palermo e Esmirna, isto é, em três ocasiões em que, sem essa precaução, corri o risco de deixar a vida.
— E o recurso foi bem-sucedido?
— Plenamente.
— De fato; lembro-me que o senhor já me contara alguma coisa parecida em Peruggia.
— Verdade?! — reagiu o conde, com uma surpresa admiravelmente representada. — Agora sou eu que não me lembro.
— Eu lhe perguntava se os venenos agiam da mesma forma e com a mesma virulência nos homens do Norte e nos homens do Mediterrâneo, e o senhor chegou a me responder que os temperamentos frios e linfáticos dos setentrionais não apresentavam as mesmas aptidões que a natureza exuberante e vigorosa dos indivíduos do Midi.
— O que é verdade — disse Monte Cristo. — Vi russos devorarem, sem serem incomodados, substâncias vegetais que infalivelmente teriam matado um napolitano ou um árabe.
— Acredita, então, que o resultado seria ainda mais fatal aqui do que no Oriente e que, em meio às nossas brumas e nossas chuvas, um homem se habituaria mais facilmente do que sob uma latitude mais quente a essa absorção progressiva do veneno?
— Sim; todavia, naturalmente, estaríamos tão-somente protegidos contra um veneno ao qual estivéssemos habituados.
— Compreendo; e como o senhor, por exemplo se habituaria, ou melhor, como se habituou?
— Foi muito fácil. Suponha que conheça antecipadamente o veneno que querem usar contra si... suponha que esse veneno seja a...
brucina5, por exemplo...
— A brucina é extraída da falsa-angustura, creio — disse a sra. de Villefort.
— Exatamente, senhora — respondeu Monte Cristo. — Mas creio que não tenho muito a lhe ensinar; receba minhas congratulações. Tais conhecimentos são raros nas mulheres.
— Oh, admito — disse a sra. de Villefort —, tenho uma forte paixão pelas ciências ocultas, que falam à imaginação como uma poesia e se resolvem em algarismos como uma equação algébrica; mas, por favor, continue, o assunto me interessa muito.
— Pois bem! — disse Monte Cristo. — Suponha que o veneno seja a brucina, por exemplo, e que a senhora tome um miligrama no primeiro dia, dois miligramas no segundo. Aí está! No fim de dez dias a senhora terá tomado um centigrama; no fim de vinte dias, aumentando a dose em outro miligrama, terá tomado três centigramas, isto é, uma quantidade que suportaria sem inconveniente, enquanto seria muito perigoso para outra pessoa que não tivesse tomado as mesmas precauções; enfim, um mês depois, bebendo água de uma única garrafa, a senhora mataria a pessoa que tivesse bebido dessa água ao mesmo tempo, e nem perceberia, a não ser por um singelo mal-estar, que nela havia uma substância venenosa qualquer misturada.
— Não conhece outro antídoto?
— Não.
— Eu lia muito esse episódio de Mitridates — disse a sra. de Villefort, pensativa —, e o tomava por uma fábula.
— Não, senhora; contrariando o hábito da história, é uma verdade. Mas o que acaba de dizer, o que me pede, não é fruto de uma pergunta caprichosa, uma vez que há dois anos a senhora já me fazia esse tipo de pergunta e agora me diz que o episódio de Mitridates a preocupava.
— É verdade, senhor, os dois estudos favoritos da minha juventude foram botânica e mineralogia, e depois, quando soube mais tarde que o uso das ervas explicava com freqüência toda a história dos povos e a vida dos indivíduos do Oriente, como as flores explicam todo o seu pensamento amoroso, lamentei não ser homem para me
tornar um Flamel, um Fontana, ou um Cabanis6.
— Ainda mais, senhora — disse Monte Cristo —, que os orientais não se limitam, como Mitridates, a fazer dos venenos uma couraça, transformamnos também num punhal; nas mãos deles, a ciência torna-se não apenas uma arma defensiva, mas também freqüentemente agressiva; uma é útil contra os sofrimentos físicos, a outra, contra os inimigos; com o ópio, a beladona, a falsa angustura, o pau-de-cobra, o louro-cereja, eles põem para dormir os que desejavam acordá-los. Não existe uma única mulher egípcia, turca ou grega, que aqui vocês chamam de curandeiras, que não saiba, em matéria de química, o suficiente para estarrecer um médico e, em matéria de psicologia, para aterrar um confessor.
— Jura?! — assustou-se a sra. de Villefort, cujos olhos irradiavam um estranho fulgor durante essa conversa.
— Ora, meu Deus, claro que sim — continuou Monte Cristo —, os dramas secretos do Oriente atam-se e desatam-se dessa forma, desde a erva que faz amar até a erva que faz morrer; desde a beberagem que abre as portas do céu até a que mergulha um homem no inferno. Há tantas nuances de todos os gêneros quanto caprichos e extravagâncias na natureza humana, física e moral; e, eu diria até mais, a arte desses químicos consegue adequar admiravelmente o remédio e o mal às suas necessidades de amor ou aos seus desejos de vingança.
— Mas, senhor — retrucou a jovem senhora —, quer dizer que essas sociedades orientais com que conviveu parte da sua vida são tão fantásticas quanto os contos que nos chegam de seus belos países? Um homem pode ser eliminado impunemente nessas regiões? Então é real a Bagdá ou a Bassorá do sr. Galland? Os sultões e vizires que regem essas sociedades, e que constituem o que na França chamamos de governo, são então autênticos Harun-
al-Raschid e Giafar7, que não apenas perdoam um envenenador, como ainda o fazem primeiro-ministro se o crime foi engenhoso, e que, nesse caso, mandam registrar a história em letras douradas para se divertirem em seus momentos de tédio?
— Não, senhora, o fantástico deixou de existir até mesmo no Oriente; lá também, disfarçados sob outros nomes e escondidos sob outros uniformes, há comissários de polícia, investigadores, procuradores do rei e peritos. Os criminosos são enforcados, decapitados e empalados com a maior tranqüilidade; mas estes, como exímios fraudadores, souberam despistar a justiça humana e garantir o sucesso de suas iniciativas por meio de hábeis estratagemas. Entre nós, um tolo possuído pelo demônio do ódio ou da cupidez, que tenha um inimigo para destruir ou um avô para aniquilar, vai até o mercador de ervas, dá um nome falso que o identifica muito mais que o autêntico, e compra, a pretexto de que os ratos não o deixam dormir,
cinco ou seis gramas de arsênico; se for um especialista, dirige-se a cinco ou seis herbanários, sendo reconhecido em todas as cinco ou seis ocasiões; depois, quando está de posse da sua poção, ministra a seu inimigo, a seu avô, uma dose de arsênico que arrebentaria com um mamute ou um mastodonte e que, sem mais nem menos, faz a vítima soltar berros que assustam todo o bairro. Chega então um punhado de agentes e policiais, mandam chamar um médico, que abre o morto e recolhe, com uma colher, o arsênico em seu estômago e vísceras. No dia seguinte, cem jornais noticiam o fato com o nome da vítima e do assassino. Na mesma noite o herbanário ou os herbanários vem ou vêm dizer: “Fui eu que vendi o arsênico para o cavalheiro.” E em vez de identificarem o comprador, identificarão vinte; afinal o tolo criminoso é capturado, aprisionado, interrogado, confrontado, confundido, condenado e guilhotinado; ou, sendo uma mulher com algum valor, é agraciada com a prisão perpétua.
Eis como os setentrionais entendem a química, senhora. Desrues8, porém, era melhor, devo admitir.
— Que se há de fazer, senhor! — disse rindo a jovem senhora. —
Fazemos o possível. Nem todo mundo detém o segredo dos Medici ou dos Bórgia.
— Agora — disse o conde, empertigando-se —, gostaria que eu lhe revelasse a causa de todas essas inépcias? É que nos teatros franceses, ao menos até onde pude julgar ao ler as peças em cartaz, vêem-se sempre pessoas engolindo o conteúdo de um tubo ou mordendo o castão de um anel e caindo mortas e secas: cinco minutos depois, baixa o pano; os espectadores se dispersam. Ignoram-se as conseqüências do assassinato; nunca se vê nem o comissário de polícia com seu cachecol, nem o major com seus quatro homens, e isso autoriza amplamente os cérebros simplórios a acreditar que as coisas acontecem dessa forma. Porém, saia um pouquinho da França, vá ou a Alep, ou ao Cairo, ou apenas a Nápoles e Roma, e verá passar na rua pessoas empertigadas,
frescas e róseas, acerca das quais o diabo coxo9, se a roçasse com seu manto, poderia lhe dizer:
“Esse cavalheiro está envenenado há três semanas e estará definitivamente morto daqui a um mês.”
— Mas, então — disse a sra. de Villefort —, eles descobriram o segredo daquela famosa aqua tofana, que me diziam perdido em Peruggia?
— Por Deus, minha senhora, será que alguma coisa se perde entre os homens? As artes deslocam-se e dão a volta ao mundo; as coisas mudam
de nome, só isso, e o vulgo é iludido; mas o resultado é sempre o mesmo; o veneno incide particularmente sobre este ou aquele órgão; um sobre o estômago, o outro sobre o cérebro, o outro sobre os intestinos. Pois bem!
O veneno determina uma tosse, essa tosse, uma congestão no peito ou qualquer outra doença catalogada no livro da ciência, o que não a impede de ser absolutamente mortífera, e, se não o for, de passar a sê-los graças aos remédios que lhe ministram os ingênuos médicos, em geral péssimos químicos, trabalhem eles a favor ou contra a doença, como preferir; e eis um homem morto com arte e dentro de todas as regras, sobre o qual a justiça nada tem a questionar, como dizia um horrível químico amigo meu, o excelente abade Adelmonte de Taormina, na Sicília, que estudara a fundo esses fenômenos nacionais.
— É assustador, mas é admirável — disse a jovem senhora, paralisada pela atenção. — Confesso que considerava essas histórias invencionices da Idade Média.
— Sim, provavelmente, mas que ainda são aperfeiçoadas em nossos dias. Para que serviriam o tempo, os estímulos, as
medalhas, as cruzes, os prêmios Montyon10, se não para conduzir a sociedade à sua mais elevada perfeição? Ora, o homem somente será perfeito quando for capaz de criar e destruir como Deus; destruir, ele já sabe, é meio caminho andado, realmente.
— De maneira — replicou a sra. de Villefort, voltando invariavelmente ao seu objetivo — que os venenos dos Bórgia, dos Medici, dos René, dos Ruggieri e, mais tarde provavelmente, do
barão de Trenk11, tão explorados pelo drama moderno e o romance...
— Eram objetos de arte, senhora, e não outra coisa — respondeu o conde.
— Acredita que o verdadeiro cientista dirige-se banal e diretamente ao indivíduo? Em absoluto. A ciência ama os ricochetes, as façanhas, a fantasia, se podemos dizer assim. O excelente abade Adelmonte, por exemplo, de quem eu lhe falava ainda há pouco, fez, sob esse aspecto, experimentos impressionantes.
— Conte mais!
— Vou lhe contar apenas um. Ele tinha um belo jardim cheio de legumes, flores e frutas; entre esses legumes, o abade escolhia o mais simples de todos, uma couve, por exemplo. Durante três dias regava essa couve com uma solução de arsênico; no terceiro dia, a couve caía doente e
amarelecia, era o momento de colhê-la; para todos, parecia madura e conservava sua aparência simples, apenas para o abade Adelmonte estava envenenada. Levando a couve para casa, ele então pegava um coelho — o abade Adelmonte tinha uma coleção de coelhos, gatos e porquinhos-da-índia que não ficava nada dever à sua coleção de legumes, flores e frutas
— e lhe dava uma folha de couve para comer: o coelho morria. Que investigador ousaria questionar isso e que procurador do rei já
cogitou de elaborar contra o sr. Magendie ou o sr. Flourens12 uma acusação a respeito dos coelhos, porquinhos-da-índia e gatos que eles mataram? Nenhum. Eis, portanto, o coelho morto sem a interferência da justiça. Morto esse coelho, o abade Adelmonte manda sua cozinheira limpá-lo e joga seus intestinos num monte de adubo. Sobre esse adubo, há uma galinha, que dá uma bicada nesses intestinos, cai doente por sua vez e morre no dia seguinte.
Enquanto ela se debate nas convulsões da agonia, passa um abutre, há muitos abutres onde Ademolnte mora, e o animal investe contra o cadáver, carrega-o para um rochedo e o janta. Três dias depois, o infeliz abutre, que, depois dessa refeição, viu-se constantemente indisposto, sente-se tomado por uma dormência no alto do pescoço; rola no vazio e vem cair pesadamente no seu aquário; o lúcio, a enguia e a moréia comem gulosamente, a senhora sabe, e mordem o abutre. Pois bem! Suponha que, no dia seguinte, sirvam em sua mesa essa enguia, esse lúcio ou essa moréia, envenenados até a quarta geração. Seu convidado, por conseguinte, será envenenado até a quinta, e morrerá ao cabo de oito ou dez dias de dor nas vísceras, enjôos, abscessos no piloro. Farão a autópsia, e os médicos dirão: “O indivíduo morreu de um tumor no fígado ou de uma febre tifóide.”
— Mas — disse timidamente a sra. de Villefort —, todas essas circunstâncias, que o senhor encadeia umas nas outras, podem ser dribladas pelo menor acidente; o abutre pode não passar a tempo ou cair a cem passos do aquário.
— Ah! É justamente nesse ponto que reside a arte: para ser um grande químico no Oriente, é preciso dirigir o acaso; isso é possível.
A sra. de Villefort devaneava e escutava.
— Mas — disse ela —, o arsênico é indelével; uma vez absorvido, estará no corpo do homem a partir do momento em que houver entrado em quantidade suficiente para matá-lo.
— Ótimo — exclamou Monte Cristo —, ótimo! Foi precisamente o que eu disse ao bom Adelmonte.
“Ele refletiu, sorriu e me respondeu com um provérbio siciliano, que é também, creio, um provérbio francês: ‘Meu filho, o mundo não foi feito em um dia, mas em sete: volte domingo.’
“No domingo seguinte, voltei; em vez de ter regado sua couve com arsênico, ele a regara com uma solução de sal à base de estricnina, strycnos colubrina, como dizem os cientistas. Dessa vez, a couve não tinha o aspecto nada doente, em absoluto; da mesma forma, o coelho não desconfiou de nada; da mesma forma, cinco minutos depois o coelho estava morto; a galinha comeu o coelho, no dia seguinte faleceu. Então fizemos o papel dos abutres, carregamos a galinha e a abrimos. Dessa vez todos os sintomas específicos haviam desaparecido, restando apenas os sintomas genéricos. Nenhuma indicação específica em nenhum órgão; exasperação do sistema nervoso, ponto final, e vestígios de congestão cerebral, não mais que isso; a galinha não tinha sido envenenada, morrera de apoplexia. É um caso raro entre as galinhas, sei muito bem, mas muito comum nos homens.
A sra. de Villefort parecia cada vez mais sonhadora.
— Ainda bem — disse ela — que essas substâncias só podem ser preparadas pelos químicos, pois, com certeza, metade do mundo envenenaria a outra.
— Pelos químicos ou por pessoas que lidam com química — respondeu Monte Cristo, displicentemente.
— E depois — disse a sra. de Villefort, esquivando-se a todo custo de seus próprios pensamentos —, por mais artisticamente preparado que seja, um crime é sempre um crime: e se ele escapa à investigação humana, não escapa ao olhar de Deus. Os orientais são mais fortes que nós nos casos de consciência e, prudentemente, suprimiram o inferno, nada mais que isso.
— Perdão, senhora, este é um escrúpulo que deve brotar espontaneamente numa alma honesta como a sua, mas que não demoraria a ser desenraizado pelo raciocínio. O lado mau do pensamento humano será sempre resumido por esse paradoxo de Jean-Jacques Rousseau, a senhora conhece: “O mandarim que matamos a cinco léguas de distância bastando erguer a ponta do
dedo.” 13 A vida do homem dá-se em meio a essas coisas e sua inteligência se esgota ao sonhá-las. A senhora encontraria pouquíssimas pessoas dispostas a fincar brutalmente uma faca
no coração do seu semelhante, ou que lhe ministrassem, para fazê-lo desaparecer da superfície do globo, essa quantidade de arsênico que mencionávamos ainda há pouco. Seria realmente ou uma excentricidade ou uma tolice. Para chegar a esse ponto, o sangue precisa esquentar até os trinta e seis graus, o pulso deve bater noventa vezes por minuto e a alma deve sair de seus limites normais; porém, se passar, como se faz em filologia, da palavra ao sinônimo amenizado, a senhora faz uma simples eliminação; em vez de cometer um ignóbil assassinato, se pura e simplesmente tirar do caminho aquele que a importuna, e isso sem choque, sem violência, sem o aparato desses sofrimentos que, ao se tornarem um suplício,
fazem da vítima um mártir e de quem age, um carnifex14 por excelência; se não houver nem sangue, nem berros, nem contorções, nem sobretudo essa horrível e comprometedora instantaneidade da consumação, então a senhora escapa ao cutelo da lei humana, que lhe diz:
“Não perturbe a sociedade!” Eis como procedem e têm êxito os orientais, personagens graves e fleugmáticos, que pouco se preocupam com questões de tempo nas conjecturas de certa relevância.
— Resta a consciência — disse a sra. de Villefort, num tom impressionado e com um suspiro abafado.
— Sim — disse Monte Cristo —, sim, felizmente resta a consciência, sem a qual estaríamos desgraçados. Depois de toda ação um pouco vigorosa, é a consciência que nos salva, pois nos fornece mil boas desculpas, cujos únicos juízes somos nós; e essas razões, excelentes que sejam para nos preservar o sono, talvez fossem insuficientes para nos preservar a vida, perante um tribunal. Ricardo III, por exemplo, deve ter sido maravilhosamente servido por sua consciência após a eliminação dos dois filhos de Eduardo IV; com efeito, ele podia dizer consigo mesmo:
“Esses dois filhos de um rei cruel e perseguidor haviam herdado os vícios do pai, apenas eu soube pressenti-los em suas inclinações juvenis; essas duas crianças me impediam de fazer a felicidade do
povo inglês, cujo infortúnio teriam inevitavelmente causado.” 15 Assim foi servida por sua consciência lady Macbeth, que queria, independentemente do que Shakespeare tenha dito, dar um trono não a seu marido, mas a seu filho.
Ah! O amor materno é uma virtude tão grande, uma motivação tão poderosa, que justifica muitas coisas; caso contrário, depois da morte de Duncan, lady Macbeth teria ficado muito infeliz sem a sua
consciência. 16
A sra. de Villefort absorvia com avidez essas assustadoras máximas e
esses horríveis paradoxos emitidos pelo conde com aquela ingênua ironia que lhe era peculiar.
Então, após um instante de silêncio:
— Sabia, sr. conde — disse ela —, que o senhor é um terrível argumentador e que vê o mundo sob um prisma bem funesto? Foi observando a humanidade através dos tubos de ensaio e das retortas que a avaliou dessa forma? Concordo, o senhor é um grande químico, e aquele elixir que o senhor deu para o meu filho e que o trouxe tão rapidamente à vida...
— Oh, não acredite nisso, senhora! — disse Monte Cristo. — Uma gota desse elixir bastou para trazer à vida essa criança que morria, mas três gotas teriam insuflado sangue em seus pulmões e lhe provocado uma taquicardia; seis lhe teriam cortado a respiração e causado uma nova síncope, muito mais grave do que a primeira; dez, enfim, o teriam fulminado. Percebeu como o afastei rapidamente daquelas garrafinhas que ele teve a imprudência de tocar?
— Então era um veneno terrível?
— Oh, meu Deus, não! Para começar, vamos admitir o seguinte, que a palavra veneno não existe, uma vez que em medicina nos servimos dos venenos mais violentos, os quais se tornam, dependendo de como são ministrados, remédios salutares.
— O que era então?
— Era uma engenhosa poção do meu amigo, o excelente abade Adelmonte, e que ele me ensinou a aplicar.
— Oh — disse a sra. de Villefort —, deve ser um excelente antiespasmódico.
— Insuperável. A sra. viu — respondeu o conde —, e dele faço uso freqüente, com toda a prudência possível, é claro — acrescentou num sorriso!
— Acredito — replicou no mesmo tom a sra. de Villefort. — Quanto a mim, tão nervosa e propensa ao desmaio, precisaria de um doutor Adelmonte que me sugerisse métodos para respirar livremente e me tranqüilizar com relação ao medo que sinto de um belo dia morrer sufocada. Enquanto isso, como a coisa é difícil de encontrar na França, e como provavelmente seu abade não está disposto a viajar a Paris por minha causa, fico com os antiespasmódicos do sr. Planche, e a menta e as
gotas de Hoffmann17 me são importantíssimas. Veja, tenho aqui pastilhas feitas sob medida para mim; a dose tem que ser dupla.
Monte Cristo abriu a caixinha de tartaruga apresentada pela jovem senhora e inalou o cheiro das pastilhas como um diletante digno de apreciar a fórmula.
— São sofisticadas — disse ele —, mas dependentes da deglutição, função freqüentemente impossível de realizar por parte da pessoa desmaiada. Prefiro a minha fórmula.
— Ora, com toda a certeza eu também preferiria, sobretudo tendo em vista os efeitos que eu mesma vi; mas, deve ser um segredo, e não sou suficientemente indiscreta para pedi-lo ao senhor.
— Mas eu, senhora — disse Monte Cristo levantando-se —, sou suficientemente galante para lho oferecer.
— Oh, cavalheiro!
— Lembre-se apenas de uma coisa: em doses pequenas, é um remédio, em doses cavalares, é um veneno. Uma gota dá a vida, como a senhora viu; cinco ou seis matariam inexoravelmente e de uma maneira terrível, ainda mais se imaginar que não alterariam em nada o sabor de uma taça de vinho. Mas paro por aqui, senhora, até parece que a estou incentivando.
Acabava de dar seis e meia, e anunciaram uma amiga da sra. de Villefort que vinha jantar com ela.
— Se eu tivesse a honra de estar na sua presença pela terceira ou quarta vez, sr. conde, em vez de na segunda — disse a sra. de Villefort —, se tivesse a honra de ser sua amiga, em vez de simplesmente ter a felicidade de ser sua devedora, eu insistiria em que ficasse para jantar e não capitularia ante uma primeira recusa.
— Mil perdões, senhora — respondeu Monte Cristo —, eu próprio tenho um compromisso inadiável. Prometi levar uma princesa grega ao teatro, uma amiga que ainda não conhece o Grand Opéra e que conta comigo para levá-la.
— Vá, cavalheiro, mas não se esqueça da minha receita.
— De que forma, senhora!? Para isso seria preciso esquecer uma hora de conversa, como acabamos de ter, o que é completamente impossível.
Monte Cristo cumprimentou e saiu.
A sra. de Villefort continuou sonhadora.
— Eis um homem estranho — disse consigo —, mas ele não me engana, seu nome de batismo deve ser Adelmonte.
Já para Monte Cristo, o resultado havia superado suas expectativas.
— Convenhamos — pensou ao sair —, essa é uma terra fértil; tenho certeza de que a semente que ali semeei não morrerá.
E no dia seguinte, fiel à sua promessa, enviou a receita.
1 “Peruggino, Rafael”: a passagem se refere aos pintores renascentistas italianos Pietro di Cristoforo Vanuci, ou Pietro Peruggino (1450-1523), e Rafael Sanzio (1483-1520).
2 “Molière ou Beaumarchais”: Jean-Baptiste Poquelin, dramaturgo mais conhecido como Molière (162273) e autor de O doente imaginário (1763), no qual o protagonista, um hipocondríaco, submete-se aos mais exóticos tratamentos de médicos inescrupulosos; Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais (1732-99) autor, entre outras, de As bodas de Fígaro (1784), e admirador ardoroso de Molière, cujas obras editou e zelou para que chegassem à posteridade.
3 Mithridates, rex Ponticus: bordão dos livros de latim elementar na França da época, significando “Mitridates, rei do Ponto”. O Ponto, região à beira do mar Negro, era governado por Mitridates, que durante o séc.I a.C. guerreou contra Roma.
4 Cornélio Nepo: medíocre historiador romano do séc.I a.C.
5 Brucina (Brucea ferruginea): a brucina (C23H26N2O4) pode ser extraída da casca da falsa.
angustura quando mergulhada em álcool; ela possui as mesmas propriedades fisiológicas da estricnina. [Nota do Autor.]
6 Flamel, Fontana, Cabanis: Nicolas Flamel (1330-1418), alquimista; Félix Fontana (1730-1805), fisiologista que estudou a ação dos venenos; Pierre-Jean-Georges Cabanis (1757-1808) médico famoso em sua época.
7 Galland, Harun-al-Raschid, Giafar: Antoine Galland (1646-1715), tradutor e adaptador das Mil e uma noites, publicando seu trabalho entre 1704 e 1711. Em sua versão, Harun-alRaschid, grande califa de Bagdá, é o vizir, enquanto Giafar, seu confidente e amigo íntimo, é o herói.
8 Desrues: merceeiro e herbanário parisiense enforcado em 1777 depois de haver envenenado a mulher e o filho.
9 “o diabo coxo”: referência ao livro deste nome, uma novela, publicada em 1707 pelo escritor e dramaturgo francês Alain-René Le Sage (1668-1747). Esta havia sido inspirada na novela do escritor espanhol Luis Vélez de Guevara (1579-1644), de 1641.
10 Ver Parte II, cap.17, nota 122.
11 René: René Bianchi, perfumista milanês que acompanhava Catarina de Medici (1519- 89), rainha consorte francesa de origem italiana, foi acusado de ser envenenador; Cosimo Ruggieri (séc.XVIII), astrólogo florentino agregado à corte francesa; barão Friedrick Trenk (séc.XVIII), espião austríaco que terminaria guilhotinado pela Revolução, na França.