O Conde de Monte Cristo
12. As informações
2 “vitrine de Marlé ou de Fossin”: Paul Marlé e Fossin pai e filho, todos fabricantes de jóias e bijuterias.
3 Cagliostro: ver Parte III, cap.5, nota 121.
4 Conde de Saint-Germain: figura histórica (1668-1751) que dizia conhecer a fórmula do elixir da juventude.
5 “o grande d’Aguessau”: provável referência a algum descendente de Henri-François d’Aguessau (1688-1751) chanceler de Luís XV, era um modelo de integridade e devotamento aos interesses públicos.
12. As informações
O sr. de Villefort fez o que prometera à sra. Danglars e a si mesmo, sobretudo, procurando saber de que forma o sr. conde de Monte Cristo tomara conhecimento da história da casa de Auteuil.
Escreveu naquele mesmo dia a um certo sr.
de Boville — que, após ter sido inspetor das prisões, havia ingressado, com uma patente superior, na polícia de segurança —, para obter as informações que desejava, e este pediu dois dias para saber com precisão junto a quem poderiam se informar.
Expirados os dois dias, o sr. de Villefort recebeu o seguinte bilhete: A pessoa designada como conde de Monte Cristo é amigo íntimo de lorde Wilmore, rico estrangeiro que às vezes vemos em Paris e aqui se encontra neste momento; também é amigo do abade Busoni, padre siciliano de grande reputação no Oriente, onde promoveu diversas obras de caridade.
O sr. de Villefort respondeu expedindo uma ordem para que tomassem as informações mais urgentes e precisas sobre esses dois estrangeiros. Na noite seguinte, sua ordem estava executada, e eis as informações por ele recebidas: o abade, que passava uma temporada de apenas um mês em Paris, morava num pequeno sobrado de apenas dois andares atrás do seminário de Saint-Sulpice; quatro cômodos, dois em cima e dois embaixo, compunham todo o alojamento, do qual era o único inquilino.
Os dois cômodos de baixo compunham-se de uma sala de jantar com mesa, cadeiras e um armário de carvalho, e ainda uma sala de madeira pintada de branco, sem ornamentos, sem tapetes e sem relógio. Via-se que, para si mesmo, o abade limitava-se aos objetos de primeira necessidade.
É verdade que o abade ficava mais na sala do primeiro andar. Esta sala, abarrotada de livros de teologia e pergaminhos, em meio aos quais ele ficava, por meses a fio, sepultado, como dizia seu criado de quarto, era na realidade menos uma sala que uma biblioteca.
Esse criado observava os visitantes através de uma espécie de gradil.
Quando um rosto lhe era desconhecido ou não lhe agradava, ele respondia que o sr. abade não estava em Paris, uma desculpa suficiente para muitos, pois sabiam que o abade viajava com freqüência, permanecendo muito tempo fora.
De toda forma, estivesse ou não no sobrado, estivesse em Paris ou no Cairo, o abade não interrompia suas doações, e o gradil servia de entreposto para as esmolas que o criado distribuía incessantemente em nome do patrão.
O outro cômodo, situado junto à biblioteca, era um dormitório. Uma cama sem cortinado, quatro poltronas e um sofá de veludo de Utrecht amarelo formavam, além de um genuflexório, toda a mobília.
Quanto a lorde Wilmore, morava na rua Fontaine Saint-Georges. Era um desses turistas ingleses que consumiam toda sua fortuna em viagens.
Alugava um apartamento mobiliado, onde passava apenas duas ou três horas por dia e onde raramente dormia. Uma de suas manias era negarse peremptoriamente a falar a língua francesa, que não obstante escrevia, diziam, com grande correção.
No dia seguinte àquele em que essas preciosas informações chegaram ao sr. procurador do rei, um homem, saltando de um coche na esquina da rua Férou, foi bater a uma porta verde-oliva e perguntou pelo abade Busoni.
— O sr. abade saiu pela manhã — respondeu o criado.
— Tenho o direito de não me contentar com essa resposta — disse o visitante —, pois venho da parte de uma pessoa para quem todos estão sempre em casa. Mas queira fazer a gentileza de entregar ao abade Busoni...
— Já lhe disse que ele não se encontra — atalhou o criado.
— Nesse caso, quando ele voltar, entregue-lhe essa carta e esse papel lacrado. O abade estará em casa hoje às oito horas?
— Oh, infalivelmente, cavalheiro, a menos que o sr. abade esteja trabalhando, e então é como se estivesse fora.
— Voltarei então esta noite à hora mencionada — rebateu o visitante. E
se retirou.
Com efeito, na hora indicada, o mesmo homem voltou no mesmo coche, o qual, dessa vez, em vez de parar na esquina da rua Férou, parou em frente à porta verde. O homem bateu, abriram a porta e ele entrou.
Pelos gestos de deferência que o criado lhe dedicou, compreendeu que sua carta causara o efeito desejado.
— O sr. abade está em casa? — perguntou ele.
— Sim, está trabalhando em sua biblioteca; mas aguarda o cavalheiro —
respondeu o criado.
O estranho subiu uma escada bastante rudimentar e, diante de uma mesa cuja superfície estava inundada pela concentração de luz de um amplo abajur, enquanto o resto do ambiente estava na penumbra, avistou o abade, em trajes eclesiásticos, com a cabeça coberta por um daqueles capelos sob os quais jazia o crânio dos latinistas eruditos da Idade Média.
— É ao sr. Busoni que tenho a honra de falar? — perguntou o visitante.
— Sim, senhor — respondeu o abade —, e o senhor é a pessoa que o sr.
de Boville, ex-intendente das prisões, me envia da parte do sr. chefe de polícia?
— Precisamente, senhor.
— Um dos agentes da Surêté de Paris1?
— Sim, senhor — respondeu o estranho com uma espécie de hesitação e, sobretudo, um pouco de rubor.
O abade endireitou as grandes lentes que lhe cobriam não apenas os olhos, mas as têmporas, e, sentando-se, fez sinal ao visitante para que o fizesse também.
— Sou todo ouvidos, cavalheiro — disse o abade, com um sotaque italiano dos mais pronunciados.
— A missão de que fui encarregado, senhor — principiou o visitante, pesando cada uma de suas palavras como se estas hesitassem em sair —, é uma missão confidencial para quem a executa e para aquele junto a quem ela é executada.
O abade assentiu.
— Sim — prosseguiu o estranho —, sua probidade, sr. abade, é tão conhecida do sr. chefe de polícia que ele quer saber do senhor, como magistrado, uma coisa que interessa à segurança pública em nome da qual fui enviado. Esperamos portanto, sr. abade, que não haja laços de amizade nem consideração humana que possam constrangê-lo a mascarar a verdade para a justiça.
— Contanto, cavalheiro, que as coisas que lhe interessem não arranhem os escrúpulos da minha consciência. Sou um sacerdote, cavalheiro, e os segredos da confissão, por exemplo, devem permanecer entre mim e a justiça de Deus, e não entre mim e a justiça humana.
— Oh, fique tranqüilo, sr. abade — disse o estranho —, sob nenhuma circunstância iremos deixar sua consciência desguarnecida.
A essas palavras, o abade, desviando a luz do abajur ao seu lado, ergueu esse mesmo foco luminoso em direção ao lado oposto, de maneira que, ao
mesmo tempo em que iluminava em cheio o rosto do estranho, o seu permanecia na penumbra.
— Perdão, sr. abade — disse o emissário do sr. chefe de polícia —, mas essa luz me cansa terrivelmente a vista.
O abade abaixou a cúpula de papelão verde.
— Agora, cavalheiro, sou todo ouvidos, fale.
— Vamos aos fatos. Conhece o sr. conde de Monte Cristo?
— Está querendo dizer o sr. Zaccone, presumo...
— Zaccone! Então ele não se chama Monte Cristo?
— Monte Cristo é um nome de domínio, ou melhor, nome de um rochedo, e não um nome de família.
— Muito bem, que seja; não vamos perder tempo com palavras; uma vez que o sr. de Monte Cristo e o sr. Zaccone são o mesmo homem...
— Absolutamente o mesmo.
— Falemos do sr. Zaccone.
— De acordo.
— Eu lhe perguntava se o conhece.
— Muito.
— Quem é ele?
— É filho de um rico armador de Malta.
— Sim, já sei, é o que dizem; mas, o senhor há de convir, a polícia não pode contentar-se com um dizem.
— Entretanto — replicou o abade, com um sorriso dos mais afáveis —, quando esse dizem é verdade, convém que todo mundo se contente com ele e que a polícia faça como todo mundo.
— Mas tem certeza do que diz?
— Ora, se tenho certeza!
— Observe, senhor, que não suspeito de forma alguma de sua boa-fé.
Apenas pergunto: tem certeza?
— Escute, conheci o sr. Zaccone pai.
— Ah, bom!
— Sim, e criancinha brinquei dez vezes com o filho dele nos canteiros de obras.
— Contudo, e o título de conde?
— Sabe como é, isso se compra.
— Na Itália?
— Em toda parte.
— Mas e essas riquezas, que são imensas, pelo que também dizem...
— Oh, quanto a isso — respondeu o abade —, imensa é a palavra certa.
— Quanto acha que ele possui, o senhor que o conhece?
— Oh, com certeza entre cinqüenta e duzentas mil libras de renda.
— Ah, isso parece mais razoável — disse o visitante —, no entanto falam de três, quatro milhões.
— Duzentas mil libras de renda, cavalheiro, dão exatamente quatro milhões de capital.
— Mas falavam de três ou quatro milhões de renda!
— Oh, isso não é verossímil.
— E conhece sua ilha de Monte Cristo?
— Claro; assim como todo homem que vem para a França, por mar, de Palermo, Nápoles ou Roma, pois passamos ao lado dela e a vemos ao passar.
— É um recanto encantador, pelo que afirmam.
— É um rochedo.
— E por que o conde comprou um rochedo?
— Justamente para ser conde. Na Itália, para ser conde, ainda é preciso um condado.
— Provavelmente ouviu falar das aventuras de juventude do sr. Zaccone.
— O pai?
— Não, o filho.
— Ah, eis onde começam minhas incertezas, pois não é que perdi meu jovem colega de vista?
— Ele fez serviço militar?
— Creio que sim.
— Em que arma?
— Na marinha.
— Vamos, não é seu confessor?
— Não, senhor; achava que ele era luterano.
— Como, luterano?
— Estou dizendo que achava; não estou afirmando. Aliás, julgava a liberdade de cultos em vigor na França.
— Sem dúvida, e não é das crenças dele que nos ocupamos neste momento, mas das atitudes; em nome do sr. chefe de polícia, intimo-o a dizer o que sabe.
— Passa por um homem muito caridoso. Nosso Santo Padre, o
papa, o fez cavaleiro de Cristo2, graça que só concede aos príncipes, pelos eminentes serviços prestados aos cristãos do Oriente. Ele possui cinco ou seis importantes condecorações conquistadas por serviços prestados dessa forma aos príncipes ou aos Estados.
— E ele as exibe?
— Não, mas tem orgulho delas; diz que prefere as recompensas concedidas aos benfeitores da humanidade que as concedidas aos destruidores de homens.
— Então esse homem seria um quaker3?
— Justamente, é um quaker, tirando o chapelão e o traje marrom, naturalmente.
— Sabe se tem amigos?
— Sim, pois transforma em amigos a todos que conhece.
— Mas, afinal, deve ter algum inimigo?
— Apenas um.
— Cujo nome é...
— Lorde Wilmore.
— Onde posso achá-lo?
— Neste exato momento, em Paris.
— E ele pode me dar informações?
— Preciosas. Estava na Índia quando Zaccone passou por lá.
— Sabe onde ele mora?
— Em algum lugar na zona de Chaussé d’Antin; mas ignoro a rua e o número.
— Não se dá bem com esse inglês?
— Gosto muito de Zaccone, mas ele o detesta; esfriamos por causa disso.
— Sr. abade, acha que o conde de Monte Cristo já havia estado na França antes da viagem que acaba de fazer a Paris?
— Ah, quanto a isso, posso lhe responder com segurança. Não, senhor, nunca veio aqui, uma vez que se dirigiu a mim, há seis meses, para obter as informações que desejava. De minha parte, como eu ignorava em que período eu mesmo estaria de volta a Paris, recomendei-lhe o sr.
Cavalcanti.
— Andrea?
— Não; Bartolomeo, o pai.
— Muito bem, senhor, tenho somente mais uma coisa a lhe perguntar, e o intimo, em nome da honra da humanidade e da religião, a me responder sem rodeios.
— Fale, cavalheiro.
— Sabe com que finalidade o conde de Monte Cristo comprou uma casa em Auteuil?
— Claro, pois ele me contou.
— Com que finalidade, então?
— A de transformá-la num hospício de alienados, semelhante ao fundado pelo barão de Pisani em Palermo. Conhece esse hospício?
— De nome, senhor.
— É uma instituição magnífica.
Dito isso, o abade cumprimentou o estranho como quem deseja sugerir que não se aborreceria em voltar ao trabalho interrompido.
O visitante, talvez porque houvesse compreendido o desejo do abade, ou porque chegara ao fim de suas perguntas, levantou-se por sua vez.
O abade acompanhou-o até a porta.
— Sabe com que finalidade o conde de Monte Cristo comprou uma casa em Auteuil?
— O senhor dá esmolas suntuosas — disse o visitante —, e, apesar de o dizerem rico, atrevo-me a oferecer alguma coisa aos pobres; da sua parte, dignar-se-ia a aceitar minha oferta?
— Obrigado, senhor, há apenas uma coisa de que sou cioso no mundo, é de que o bem que eu faça nasça de mim.
— Mas mesmo assim...
— É uma resolução imutável. Mas procure, senhor, e achará! Ai de mim! Há muita miséria pelo caminho de todo homem rico!
O abade cumprimentou pela última vez, abrindo a porta; o estranho o cumprimentou de volta e saiu.
O coche levou-o diretamente à casa do sr. de Villefort.
Uma hora depois, o coche saiu de novo e dessa vez dirigiu-se à rua Fontaine Saint-Georges. No no5, parou. Ali morava lorde Wilmore.
O estranho escrevera a lorde Wilmore para lhe solicitar um encontro, que este marcara para as dez horas. Assim, quando o emissário do sr. chefe de polícia chegou faltando dez minutos para o horário acertado, recebeu como resposta que lorde Wilmore, a precisão e a pontualidade em pessoa, ainda não voltara, mas estaria de volta infalivelmente às dez horas em ponto.
O visitante esperou no salão. Este nada tinha de notável, era como todos os salões de uma casa mobiliada.
Uma lareira com dois vasos de Sèvres modernos, um pêndulo com um Cupido retesando seu arco, um espelho dividido em dois; de cada lado desse espelho, uma gravura representando, a primeira,
Homero a arrastar seu guia, a segunda, Belisário a pedir esmola4; um papel de parede acinzentado, um móvel forrado de vermelho com estampas em preto: assim era o salão de lorde Wilmore.
Era também iluminado por globos de vidro fosco, que espalhavam apenas uma luminosidade tênue, a qual parecia expressamente disposta para os olhos cansados do emissário do sr. chefe de polícia.
Após dez minutos de espera, o carrilhão deu dez horas; na quinta badalada, a porta se abriu e lorde Wilmore apareceu.
Este era um homem antes alto que baixo, com suíças rarefeitas e ruivas, de tez branca e cabelos entre louros e grisalhos. Vestia-se com toda a excentricidade inglesa, isto é, usava um casaco azul com botões de ouro e a gola alta pespontada, como se usava em 1811; um colete de casimira
branca e uma calça de nanquim três polegadas mais curta, mas que presilhas do mesmo tecido impediam de subir até os joelhos.
Suas primeiras palavras ao entrar foram:
— O senhor sabe que não falo francês.
— Sei, pelo menos, que não gosta de falar nossa língua — respondeu o emissário do sr. chefe de polícia.
— Mas não se acanhe em fazer uso dela — retrucou lorde Wilmore —, pois, se não a falo, compreendo-a perfeitamente.
— E eu — respondeu o visitante, mudando de idioma —, falo inglês correntemente, o bastante para travar a conversa nessa língua. Portanto, não se incomode, senhor.
— Uau! — fez lorde Wilmore, com aquela entonação exclusiva dos nativos mais puros da Grã-Bretanha.
O emissário do chefe de polícia estendeu a lorde Wilmore sua carta de apresentação. Este leu-a com uma fleugma toda anglicana; em seguida, quando terminou a leitura, disse em inglês:
— Percebo, percebo muito bem. Começaram então as perguntas.
Foram aproximadamente as mesmas dirigidas ao abade Busoni. Mas como lorde Wilmore, em sua qualidade de inimigo do conde de Monte Cristo, não usava do mesmo comedimento que o abade, as respostas foram muito mais extensas, e ele contou a mocidade de Monte Cristo. Este, segundo suas palavras, aos dez anos, entrara na tropa de um desses reizinhos da Índia em guerra com os ingleses; fora lá que ele, Wilmore, o encontrara pela primeira vez, e que tinham lutado um contra o outro.
Nessa guerra, Zaccone fora feito prisioneiro e enviado para a Inglaterra, confinado num pontão, do qual fugiu a nado. Começaram então suas viagens, seus duelos, suas paixões; veio a insurreição da Grécia e ele servira nas fileiras dos gregos. Enquanto lhes servia como soldado, descobrira uma mina de prata nas montanhas da Tessália, mas tomara a precaução de guardar para si a descoberta.
Depois de Navarin5, e quando o governo grego se consolidou, ele pediu ao rei Oto uma concessão para explorar a mina; tal concessão foi-lhe outorgada. Daí a fortuna imensa, que podia, segundo lorde Wilmore, alcançar um ou dois milhões de renda, fortuna que, todavia, podia secar subitamente, no caso de a própria mina secar.
— Mas — perguntou o visitante —, sabe a razão de sua vinda à França?
— Especulação com ferrovias — disse lorde Wilmore. — Além do mais, como químico talentoso e físico não menos perspicaz, ele inventou um novo telégrafo, cuja aplicação pretende implementar.
— Quanto gasta aproximadamente por ano? — perguntou o emissário do sr. chefe de polícia.
— Oh, quinhentos ou seiscentos mil francos no máximo — respondeu lorde Wilmore. — Ele é avaro.
Era evidente que o ódio incitava o inglês a falar, e este, não sabendo o que recriminar ao conde, recriminava sua avareza.
— Sabe alguma coisa a respeito de sua casa de Auteuil?
— Claro que sim.
— Ótimo! E o que sabe?
— Pergunta com que finalidade ele a comprou?
— Sim.
— Pois bem! O conde é um especulador que certamente irá à falência com seus experimentos e utopias: enfiou na cabeça que, em Auteuil, nas cercanias da casa que ele acaba de comprar, há uma mina de água mineral que pode rivalizar com as águas de Bagnères-de-Luchon e Cauterets. Ele quer fazer de sua aquisição
uma Bad-haus6, como dizem os alemães. Ele já revirou duas ou três vezes todo o jardim em busca da maldita nascente; e, como não conseguiu descobri-la, o senhor irá vê-lo, daqui a não muito tempo, comprando as casas vizinhas. Ora, como eu o odeio, espero que, seja em sua ferrovia, em seu telégrafo elétrico ou em seu empreendimento de banhos, ele se arruíne; eu o sigo para saborear sua derrocada, que não pode deixar de acontecer mais dia menos dia.
— E por que o odeia? — perguntou o visitante.
— Eu o odeio — respondeu lorde Wimore — porquê, ao passar pela Inglaterra, ele seduziu a mulher de um dos meus amigos.
— Mas, se o odeia, por que não tenta se vingar dele?
— Já duelei três vezes com o conde — disse o inglês. — Na primeira vez, com a pistola, na segunda, com a espada, na terceira, com o sabre.
— E o resultado desses duelos foi?
— Na primeira vez, ele me quebrou o braço, na segunda, me perfurou o pulmão; e, na terceira, me fez esse ferimento.
O inglês levantou a gola da camisa que lhe subia até as orelhas, mostrando uma cicatriz cuja vermelhidão indicava data não muito antiga.
— De maneira que o odeio ainda mais — repetiu o inglês —, e espero que só morra pelas minhas mãos.
— Mas — estranhou o emissário da chefatura —, não pretende matá-lo, me parece.
— Uau! — fez o inglês. — Todos os dias pratico tiro e todos os dias
Grisier7 vem à minha casa.
Era o que o visitante queria saber, ou melhor, era tudo que o inglês parecia saber. O agente então se levantou e, após ter cumprimentado lorde Wilmore, que lhe respondeu com a rigidez e a polidez inglesas, retirou-se.
Lorde Wilmore, por sua vez, após ter ouvido a porta da rua se fechar atrás dele, entrou em seu dormitório, onde, num passe de mágica, perdeu seus cabelos louros, suas suíças ruivas, seu falso maxilar e sua cicatriz, readquirindo os cabelos pretos, a tez fosca e os dentes de pérola do conde de Monte Cristo.
É verdade que, por sua vez, foi o sr. de Villefort, e não o emissário do sr.
chefe de polícia, que entrou na casa do sr. de Villefort.
O procurador do rei estava um pouco mais calmo com aquela dupla visita, que, de resto, não lhe informara nada de tranqüilizador, mas tampouco de preocupante. Daí resultou que, pela primeira vez desde o jantar de Auteuil, dormiu à noite com certa serenidade.
1 Surêté: antigo nome de uma direção geral do Ministério do Interior, encarregada do policiamento, e que, em 1966, foi rebatizada como Polícia Nacional.
2 Cavaleiros de Cristo: ordem instituída pelo rei Denis de Portugal (1261-1325) em 1319 e no mesmo ano ratificada pelo papa João XXII (1249-1334).
3 Quakers: nome dado aos membros da Sociedade Religiosa dos Amigos, denominação fundada na Inglaterra no séc.XVII, como uma dissidência do cristianismo.
4 “Homero a arrastar ... esmola”: possível referência não a Homero, mas a Belisário, quadro do pintor neoclássico francês Barão Gérard (1770-1837), exposto em 1795 e hoje desaparecido, mas reproduzido numa gravura por Auguste Boucher (1779-1857). Já a segunda imagem mencionada é do pintor Jacques-Louis David, e foi gravada por Antoine-Alexandre Morel (1765-1829).
5 “Depois de Navarin”: quando a Grécia proclamou sua independência, em 25 de março de 1821, os turcos reagiram com massacres. O estopim de batalha da Navarin, vencida pela frota anglo-franco-russa, contra a frota egipto-turca, em 1827, foi o desrespeito da Turquia ao armistício com os gregos, imposto pelas potências estrangeiras. Frederico Luís da Baviera (1815-67), que assumiu o nome de Oto I, foi posto no trono da Grécia após a chamada Conferência de Londres, ocorrida em 1832.