O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 17 de 119

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O Conde de Monte Cristo

15. O número 34 e o número 27

Dantès passou por todos os níveis do infortúnio sofrido pelos prisioneiros esquecidos em uma prisão.

Começou pelo orgulho, que advém da esperança e de uma certeza da inocência; depois chegou a duvidar de sua inocência, o que não deixava de justificar as idéias do diretor sobre a alienação mental; enfim, caiu do alto do seu orgulho, implorou, não ainda a Deus, mas aos homens, Deus é o último recurso. O infeliz, que deveria ter começado pelo Senhor, esperava chegar a Ele apenas depois de esgotar todas as outras esperanças.

Dantès implorou então que o tirassem de sua masmorra e o pusessem em outra, mesmo mais escura e profunda. Uma mudança, ainda que desvantajosa, era sempre uma mudança, e proporcionaria a Dantès uma distração de alguns dias. Implorou para que lhe concedessem o passeio, o ar, livros, utensílios. Nada disso lhe foi concedido; porém, mesmo assim, continuava a pedir. Habituara-se a falar com seu novo carcereiro, embora este fosse, se isso é possível, mais mudo que o primeiro; mas falar com um homem, mesmo com um mudo, ainda era um prazer. Dantès falava para ouvir o som da própria voz; tentara falar quando estava sozinho, mas aí ficava com medo.

Freqüentemente, na época em que era livre, Dantès tivera uma péssima imagem daqueles dormitórios de prisioneiros, compostos de vagabundos, bandidos e assassinos, cuja alegria ignóbil inclui orgias ininteligíveis e amizades aterradoras. Ansiou então por ser lançado em algum desses antros, a fim de ver outros rostos que não o daquele carcereiro impassível que se recusava a falar; suspirava pela outra prisão com seu uniforme ultrajante, sua corrente no pé, sua marca no ombro. Pelo menos os galerianos estavam na companhia de semelhantes, respiravam o ar, viam o céu; os galerianos eram muito felizes.

Suplicou um dia ao carcereiro que lhe arranjasse um companheiro, qualquer um, podia até ser aquele abade louco de que ouvira falar. Sob a carapaça de um carcereiro, por mais rude que este seja, resta sempre um pouco de humanidade. Aquele havia freqüentemente, do fundo do coração e embora seu rosto nada dissesse, sentido pena do desvalido rapaz, para quem o cativeiro era tão penoso; transmitiu o pleito do número 34 ao diretor; mas este, prudente como se fosse um homem político, supôs que

Dantès quisesse amotinar os prisioneiros, tramar algum complô, contar com um amigo em alguma tentativa de evasão, e disse não.

Dantès esgotara o círculo dos recursos humanos. Como dissemos que devia acontecer, voltou-se então para Deus.

Todas as idéias devotas esparsas no mundo, e que recolhem os infelizes vergados pelo destino, vieram então confortar seu espírito; lembrou-se das orações que sua mãe lhe havia ensinado e nelas descobriu um sentido até então inédito para si; pois, para o homem feliz, a oração permanece um amálgama monótono e vazio de sentido, até o dia em que a dor vem explicar ao desafortunado aquela linguagem sublime, com a ajuda da qual ele fala a Deus.

Rezou então não com fervor, mas com raiva. Rezando bem alto, não se assustava mais com suas palavras e caía numa espécie de êxtase; via Deus brilhando em cada palavra que pronunciava; atribuía todas as ações de sua vida humilde e destruída àquele Deus todo-poderoso, tirava lições disso, propunha-se tarefas a cumprir e, no fim de cada prece, introduzia a demanda interesseira que os homens dirigem com muito mais freqüência a outros homens que a Deus: “E perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos aos que nos têm ofendido.”

Apesar de suas fervorosas preces, Dantès continuou prisioneiro. Então seu espírito tornou-se sombrio, uma nuvem adensava-se diante de seus olhos. Dantès era um homem simples e sem cultura; o passado permanecera para ele encoberto pelo véu escuro que a ciência levanta em parte. Não conseguia, na solidão de sua masmorra e no deserto de seu pensamento, reconstruir as eras passadas, reanimar os povos extintos, reconstruir as cidades antigas, que a imaginação amplia e poetiza, e que passam diante dos olhos, gigantescas e iluminadas pelo fogo do céu, como os

quadros babilônicos de Martin1; não dispunha senão do seu passado tão breve, do seu presente tão tenebroso, do seu futuro tão duvidoso; dezenove anos de luz para meditar talvez durante uma noite eterna! Nenhuma distração podia assim vir em seu socorro: o espírito enérgico, que almejava apenas alçar vôo através das eras, via-se obrigado a permanecer prisioneiro como uma águia na gaiola. Agarrava-se então a uma idéia, a de sua felicidade destruída sem causa aparente e por fatalidade inaudita; obstinava-se nessa idéia, girando-a, rodopiando-a em todos os ângulos e, por assim dizer, devorando-a com todos os dentes, como no inferno de Dante o

impiedoso Ugolino devora o crânio do arcebispo Roger2. Dantès

não tivera senão uma fé passageira, baseada no poder; perdeu-a como outros a perdem após o sucesso. Porém, não desfrutara dela.

Ao ascetismo sucedeu o furor. Edmond lançava blasfêmias que fazia o carcereiro recuar de horror: dilacerava seu corpo contra as paredes da prisão; atacava com furor tudo que o cercava, e sobretudo a si mesmo, a qualquer contrariedade que lhe opusesse um grão de areia, um fiapo de palha, uma lufada de ar. Então aquela carta incriminadora que ele vira, que lhe mostrara Villefort, que ele tocara, voltava-lhe ao espírito, cada linha flamejava sobre a muralha

como o Mene Tequel Peres3 de Baltazar. Ele dizia a si mesmo que fora o ódio dos homens, e não a vingança de Deus, que o mergulhara no abismo onde se achava; destinava aqueles homens desconhecidos a todos os suplícios concebidos por sua fértil imaginação, e sempre achava que os mais terríveis eram ainda brandos demais, e sobretudo curtos demais, para eles; pois, depois do suplício, vinha a morte; e na morte estava, se não o repouso, pelo menos a insensibilidade que com ele se parece.

De tanto se dizer, a propósito de seus inimigos, que a calma era a morte, e que para quem deseja punir cruelmente são necessários outros meios além da morte, caiu na imobilidade taciturna das idéias de suicídio; pobre daquele que, na ladeira da infelicidade, detém-se nessas idéias funestas! É

um desses mares mortos que se estendem como o azul das ondas cristalinas, mas nas quais o nadador sente cada vez mais seus pés grudarem-se numa vasa betuminosa que o atrai para ela, o aspira e o traga.

Imobilizado dessa forma, se a ajuda divina não lhe vem em socorro, está tudo terminado, e cada esforço que ele tenta o empurra mais para a morte.

Entretanto, esse estado de agonia é menos terrível que o sofrimento que o precedeu e que o castigo que talvez venha a seguir; é uma espécie de consolação vertiginosa que nos mostra o abismo escancarado e, no fundo do abismo, o nada. Lá chegando, Edmond encontrou certo consolo nessa idéia; todas as suas mágoas, todos os seus sofrimentos, com o cortejo de espectros que arrastam atrás de si, pareceram alçar vôo daquele canto de sua prisão onde o anjo da morte podia pousar seu pé silencioso. Dantès contemplou com calma sua vida passada, com terror sua vida futura e escolheu o meio-termo, que lhe parecia ser um local de asilo.

— Às vezes — dizia-se então —, em minhas longas viagens, quando eu ainda era um homem, e quando esse homem, livre e potente, lançava a outros homens ordens que eram executadas, eu vi o céu se cobrir, o mar

fremir e rugir, a tempestade nascer num canto do céu e, como uma águia gigantesca, unir os dois horizontes com suas asas; então eu percebia que meu navio não passava de um refúgio impotente, pois meu navio, leve como uma pluma na mão de um gigante, tremia e eriçava-se por si mesmo.

Logo em seguida, ao estrépito terrível das lâminas, o aspecto dos rochedos afiados me anunciava a morte, e a morte me apavorava; eu fazia todos os esforços para deles escapar e reunia todas as forças do homem e toda a inteligência do marinheiro para lutar contra Deus! Era porque então eu era feliz, era porque retornar à vida era retornar à felicidade; era porque eu não escolhera aquela morte, eu não a chamara; era porque o sono, enfim, me parecia penoso naquela cama de algas e pedras; era porque eu me indignava, eu que me julgava uma criatura feita à imagem de Deus, por servir, após a minha morte, de carniça para gaivotas e abutres. Mas hoje é diferente: perdi tudo que podia me fazer amar a vida, hoje a morte me sorri como uma ama-de-leite à criança que ela vai embalar; mas hoje morro de boa vontade e durmo cansado e alquebrado, como dormia depois de uma daquelas noites de desespero e de raiva, durante as quais contei três mil voltas no meu quarto, isto é, trinta mil passos, isto é, aproximadamente cinqüenta quilômetros.

Quando esse pensamento germinou no espírito do rapaz, ele se tornou mais suave, mais risonho; conformou-se com sua cama dura e seu pão preto, comeu menos, não dormiu mais e achou razoavelmente suportável aquele resto de existência que estava certo de poder abandonar quando quisesse, como deixamos uma roupa usada.

Havia duas formas de morrer: uma era simples, tratava-se de prender seu lençol em uma barra da janela e se enforcar; a outra consistia em fingir comer e se deixar morrer de fome. A primeira era por demais repugnante para Dantès. Fora criado em meio ao horror dos piratas, pessoas que são enforcadas nas vergas dos navios; o enforcamento era para ele, portanto, uma espécie de suplício infamante, o qual não pretendia aplicar a si mesmo; adotou portanto a segunda, e começou sua execução naquele mesmo dia.

Cerca de quatro anos haviam decorrido em meio às alternativas que relatamos. No fim do segundo, Dantès deixara de contar os dias e recaíra naquela ignorância do tempo de que outrora lhe tirara o inspetor.

Dantès havia dito: “Quero morrer”, e escolhera seu gênero de morte; então concentrara-se nele e, com medo de voltar atrás em sua decisão,

jurara para si mesmo morrer daquela maneira. “Quando me servirem a refeição da manhã e a refeição da noite”, pensava, “jogo a comida pelas grades e finjo ter comido.”

Fez como se prometera fazer. Duas vezes por dia, pelo pequeno vão gradeado que não lhe permitia vislumbrar senão o céu, atirava seus víveres, a princípio alegremente, depois mais refletidamente, depois arrependido. Foi obrigado a se lembrar do juramento que fizera de modo a ter forças para consumar seu terrível desígnio. Aquela comida, que outrora lhe repugnava, a fome, com dentes aguçados, fazia com que lhe parecesse apetitosa ao olho e requintada ao olfato; às vezes ficava segurando durante uma hora o prato que a continha, o olho parado naquele pedaço de carne apodrecida ou naquele peixe infecto e naquele pão preto e mofado. Eram os últimos instintos da vida que ainda lutavam dentro dele e que de tempos em tempos faziam sua resolução fraquejar. Então sua masmorra não lhe parecia mais tão escura, sua situação lhe parecia menos desesperadora.

Ainda era jovem; devia ter vinte e cinco ou vinte e seis anos, restavam-lhe cerca de cinqüenta anos para viver, isto é, duas vezes o que vivera.

Durante esse imenso lapso de tempo, quantos acontecimentos podiam arrombar as portas, derrubar as muralhas do castelo de If e devolvê-lo à liberdade! Então aproximava os dentes da refeição que,

Tântalo4

voluntário, afastava por vontade própria da boca; mas nesse instante o juramento voltava-lhe ao espírito, e aquela generosa natureza sentia um grande medo de se desprezar a si próprio para faltar com a promessa.

Portanto, corroeu, rigoroso e impiedoso, o pouco de existência que lhe restava, e o dia chegou em que não teve mais forças para se levantar e atirar pela lucarna a ceia que lhe traziam.

Duas vezes por dia, pelo pequeno vão gradeado que não lhe permitia vislumbrar senão o céu, atirava seus víveres...

No dia seguinte não via mais, mal ouvia. O carcereiro imaginou uma doença grave; Edmond aguardava uma morte próxima.

O dia transcorreu assim: Edmond percebia um vago torpor, que não deixava de ser um bem-estar, tomando seu corpo. Os tremores nervosos de seu estômago haviam se amenizado; os ardores da sede haviam se acalmado; quando fechava os olhos, via uma multiplicidade de luzes brilhantes parecidas com os fogos-fátuos que correm a noite sobre os terrenos pantanosos: era o crepúsculo desse país desconhecido que

denominamos morte. De repente, à noite, por volta das nove horas, ouviu um barulho surdo na superfície da parede contra a qual estava deitado.

Tantos animais imundos ressoavam naquela prisão que, com o tempo, Edmond exercitara o sono para não se incomodar com tão pouco; mas dessa vez, fosse porque seus sentidos estivessem exaltados pela abstinência, fosse porque realmente o barulho estivesse mais alto que de costume, fosse porque naquele momento supremo tudo adquirisse importância, Edmond ergueu a cabeça para melhor escutar.

Era um arranhar ritmado que parecia provir ou de uma garra enorme, ou de um dente poderoso, ou enfim da pressão de um instrumento qualquer sobre a pedra.

Embora enfraquecido, o cérebro do rapaz foi assomado por esta idéia banal constantemente presente no espírito dos prisioneiros: a liberdade. O

som chegava no momento em que todo barulho ia cessar para ele, e tão precisamente, que Deus lhe parecia enfim mostrar compaixão pelos seus sofrimentos, enviando-lhe aquele ruído como um aviso para que se detivesse na beira do túmulo, onde seu pé já vacilava. Quem sabe se um de seus amigos, ou uma daquelas criaturas amadas, nas quais pensara com tanta freqüência que desgastara seu pensamento, não se ocupava dele naquele momento e não buscava diminuir a distância que os separava?

Mas não, provavelmente Edmond se enganava, devia ser um daqueles sonhos que flutuam às portas da morte.

Entretanto Edmond continuava a escutar o barulho. Este durou mais ou menos três horas, em seguida Edmond ouviu uma espécie de desmoronamento, depois do que o barulho cessou.

Algumas horas mais tarde, voltou mais forte e mais próximo. Edmond começava a se interessar por aquele labor que lhe fazia companhia; de repente o carcereiro entrou.

Depois de uma semana desde que decidira morrer, e quatro dias desde que começara a executar aquele plano, Edmond não havia dirigido a palavra àquele homem, não lhe respondendo quando este lhe perguntava de que doença ele se julgava vítima e voltando-se para o lado da parede quando era olhado muito detidamente. Mas naquele dia o carcereiro poderia ouvir aquele ruído surdo, alarmar-se, pôr um fim naquilo e perturbar assim talvez não sei que grão de esperança, cuja idéia bastava para encantar os últimos momentos de Dantès.

O carcereiro trouxe o desjejum.

Dantès soergueu-se da cama e, enchendo a voz, começou a falar sobre todos os assuntos possíveis, sobre a má qualidade da comida que ele trazia, sobre o frio que fazia naquela masmorra, murmurando e resmungando para ter o direito de gritar mais forte, e cansando a paciência do carcereiro, que, justamente naquele dia, solicitara para o prisioneiro doente um caldo e pão fresco e lhe trazia o caldo e o pão.

Felizmente, ele julgou que Dantès estava delirando; colocou a comida na mesa ordinária e instável na qual tinha o costume de colocá-la e se retirou.

Livre então, Edmond recomeçou a escutar com alegria.

O barulho tornava-se tão distinto que agora o rapaz ouvia-o sem esforço.

“Não resta mais dúvida”, disse consigo, “uma vez que esse barulho continua, a despeito do dia, é porque algum infeliz prisioneiro deve estar trabalhando para sua libertação. Oh, como eu o ajudaria se estivesse perto!”

Em seguida, uma nuvem escura cobriu subitamente essa aurora de esperança naquele cérebro habituado à desgraça e desacostumado com as alegrias humanas; assim, não demorou a lhe ocorrer que aquele barulho podia ter como causa o trabalho de operários enviados pelo diretor para reparar uma cela vizinha.

Era fácil certificar-se disso; mas como arriscar uma pergunta? Decerto era muito simples esperar a chegada do carcereiro, fazê-lo escutar aquele barulho e ver a cara que faria ao escutá-lo; mas proporcionar-se tal prazer não era trair interesses preciosos demais para satisfação tão curta?

Infelizmente, a cabeça de Edmond, sino vazio, estava ensurdecida pelo zumbido de uma idéia; sentia-se tão fraco que seu espírito flutuava como um vapor, incapaz de se condensar em torno de um pensamento. Edmond não viu senão um meio de restituir nitidez à sua reflexão e lucidez ao seu juízo; voltou os olhos para o caldo ainda fumegante que o carcereiro acabava de deixar sobre a mesa, levantou-se, foi cambaleando até ele, pegou a xícara, levou-a aos lábios e engoliu a beberagem que ela continha com uma indescritível sensação de bem-estar.

Teve então a coragem de se refrear: ouvira dizer que infelizes náufragos recolhidos, extenuados pela fome, haviam morrido depois de haverem gulosamente devorado uma comida demasiado substancial. Edmond devolveu à mesa o pão que se aproximava de sua boca e voltou a se deitar.

Edmond não queria mais morrer.

Logo sentiu o dia voltando-lhe ao cérebro; todas as suas idéias, vagas e quase imponderáveis, reassumiam seu lugar naquele tabuleiro maravilhoso, em que uma casa a mais pode bastar para estabelecer a superioridade do homem sobre os animais. Conseguiu pensar e fortalecer seu pensamento com o raciocínio.

Então disse consigo:

“Preciso fazer um teste, mas sem comprometer ninguém. Se o trabalhador for um operário comum, basta eu bater na minha parede e ele logo interromperá sua tarefa para tentar adivinhar quem é que está batendo e com que objetivo bate. Mas, como seu trabalho deve ser não apenas lícito, mas também encomendado, ele logo retomará esse trabalho. Se, ao contrário, for um prisioneiro, o barulho que farei irá assustá-lo; ele temerá ser descoberto; interromperá o trabalho e não o retomará senão à noite, quando julgar todos deitados e dormindo.”

Sem demora, Edmond levantou-se outra vez. Agora, suas pernas não vacilavam mais e seus olhos não estavam mais ofuscados. Dirigiu-se a um canto de sua cela, puxou uma pedra afrouxada pela umidade, e voltou para bater no muro, bem sobre o ponto onde o barulho era mais nítido.

Deu três batidas.

Já à primeira, o barulho cessara como por mágica.

Edmond escutou com toda a sua alma. Uma hora se passou, duas horas se passaram, nenhum barulho novo se fez ouvir; Edmond gerara um silêncio absoluto do outro lado da muralha.

Cheio de esperança, Edmond comeu um pouco do pão, engoliu uns goles de água e, graças à constituição poderosa com que a natureza o dotara, viuse quase como antes.

O dia passou, o silêncio perdurava.

A noite chegou sem que o barulho houvesse recomeçado.

— É um prisioneiro — pensou Edmond, exultante.

A partir desse momento sentiu a cabeça pegando fogo e, com essa atividade, nele a vida voltou a fervilhar com violência.

A noite transcorreu sem que o menor rumor fosse ouvido. Edmond não fechou os olhos aquela noite.

O dia nasceu; o carcereiro entrou trazendo as provisões. Edmond já havia devorado as antigas; devorou as novas, escutando incessantemente aquele barulho que não voltava, tremendo só de pensar que ele se interrompera para sempre, fazendo cinqüenta ou sessenta quilômetros em

sua masmorra, sacudindo durante horas inteiras as barras de ferro do respiradouro, devolvendo a elasticidade e o vigor aos seus membros por meio de um exercício desaprendido havia muito tempo, dispondo-se finalmente a retomar a luta contra o destino, como faz, esticando os braços e esfregando óleo no corpo, o lutador prestes a entrar na arena. Nos intervalos dessa atividade febril, permanecia atento para verificar se o barulho não voltava, impacientando-se com a prudência daquele prisioneiro, que mal cogitava ter sido distraído em sua obra de liberdade por um outro prisioneiro, que tinha no mínimo a mesma urgência de liberdade. Três dias se passaram, setenta e duas horas fatídicas contadas minuto a minuto!

Finalmente, uma noite, quando o carcereiro acabava de fazer sua última visita, quando pela centésima vez Dantès colava seu ouvido na muralha, pareceu-lhe que um abalo imperceptível percutia surdamente em sua cabeça, contrastando com as pedras silenciosas.

Dantès recuou para sossegar bastante seu cérebro abalado, deu umas voltas na cela e voltou a instalar o ouvido no mesmo lugar.

Não restava mais dúvida, acontecia alguma coisa do outro lado; o prisioneiro reconhecera o perigo da manobra e adotara outra, provavelmente substituindo, para tocar sua obra com mais segurança, a alavanca pelo cinzel.

Animado com essa descoberta, Edmond resolveu ajudar o infatigável trabalhador. Começou por mover sua cama, atrás da qual lhe parecia que a obra de libertação se realizava, depois procurou com os olhos um objeto com que pudesse corroer a muralha, fazer cair a argamassa úmida, enfim, soltar uma pedra.

Nada se apresentou à sua vista. Não tinha nem faca nem instrumento cortante, apenas os ferros das barras, e tantas vezes se certificara de que estas estavam bem fixadas que sequer valia a pena tentar sacudi-las.

Seus móveis resumiam-se a uma cama, uma cadeira, uma mesa, um balde, uma jarra.

Nessa cama havia traves de ferro, mas estas eram fixadas nas madeiras com parafusos. Seria preciso uma chave de parafuso para tirá-los e arrancar aquelas traves.

Na cadeira e na mesa, nada; o balde já tivera uma alça, mas essa alça fora levada.

Não restava senão um recurso para Dantès, era quebrar a jarra e, com um caco pontiagudo de arenito, pôr-se ao trabalho.

Deixou a jarra cair sobre uma laje, e a jarra espatifou-se.

Dantès escolheu dois ou três cacos pontiagudos, escondeu em sua enxerga e deixou os outros espalhados no chão. O acidente com a jarra era corriqueiro demais para que alguém desconfiasse de alguma coisa.

Edmond tinha a noite inteira para trabalhar; mas no escuro o trabalho era mais complicado, pois precisava trabalhar às apalpadelas, logo percebendo que deteriorava o instrumento informe contra um arenito mais duro. Empurrou novamente a cama e esperou o dia. Com a esperança, recuperara a paciência.

A noite inteira escutou e ouviu o mineiro desconhecido levando adiante sua obra subterrânea.

Veio o dia, o carcereiro entrou. Dantès lhe disse que, ao beber na véspera diretamente na jarra, esta escapara de suas mãos e se quebrara ao cair. O

carcereiro foi resmungando buscar uma jarra nova, sem sequer se dar ao trabalho de levar os cacos da velha.

Voltou um instante depois, recomendou mais cuidado ao prisioneiro e saiu.

Dantès escutou com uma alegria indescritível o ranger dos ferrolhos que, antes, sempre que se fechavam trancavam o seu coração. Escutou o barulho dos passos se afastando; então, quando esse barulho se extinguiu, correu para sua enxerga, que removeu, e, à luz do tênue raio de dia que penetrava na masmorra, constatou a tarefa inútil que empreendera na noite precedente, ao se dirigir ao corpo da pedra em vez de ao reboco que cercava suas extremidades.

A umidade tornara aquele reboco quebradiço.

Dantès percebeu, com o coração acelerado e alegre, que o reboco soltava-se por fragmentos. Era bem verdade que aqueles fragmentos eram quase átomos; ainda assim, em meia hora, Dantès havia retirado um punhado. Um matemático teria sido capaz de calcular que, com cerca de dois anos de trabalho, supondo que não se encontrasse a rocha, seria possível abrir uma passagem de sessenta centímetros de largura por seis metros de profundidade.

O prisioneiro lamentou então não se haver dedicado àquele trabalho nas longas horas sucessivamente decorridas, cada vez mais lentas, que desperdiçara com a esperança, a prece e o desespero.

Havia quase seis anos que estava confinado naquela masmorra, quanto trabalho, por mais lento que fosse, não teria realizado!

E esta idéia deu-lhe um novo alento.

Em três dias conseguiu, com precauções inauditas, retirar toda a argamassa e deixar a pedra nua: a muralha era feita de pedras de alvenaria, no meio das quais, para reforçar a solidez, havia sido colocada uma ou outra pedra de corte. Tinha sido uma dessas pedras de corte que ele quase descalçara, e que agora precisava sacudir em seu alvéolo.

Dantès tentou com as unhas, mas suas unhas eram insuficientes para tal.

Os cacos da jarra introduzidos nas fendas quebravam-se quando ele tentava usá-los como alavanca.

Após uma hora de esforços inúteis, Dantès levantou-se, transpirando suor e angústia.

Quer dizer que ia desistir assim, logo no início, que precisaria esperar, inerte e inútil, seu vizinho, que a propósito devia estar esgotado, fazer tudo!

Ocorreu-lhe então uma idéia; conservou-se de pé, sorrindo; sua testa encharcada de suor secou por si só.

O carcereiro trazia todos os dias a sopa de Dantès numa panela de latão.

Essa panela continha sua sopa e a de um segundo prisioneiro, pois Dantès observara que a panela estava sempre ou completamente cheia ou vazia pela metade, segundo o carcereiro começasse a distribuição da comida por ele ou seu companheiro.

Essa panela tinha um cabo de ferro; era esse cabo que Dantès ambicionava e pelo qual teria dado, se alguém lhos houvesse pedido em troca, dez anos de sua vida.

O carcereiro derramava o conteúdo dessa panela no prato de Dantès.

Após tomar a sopa com uma colher de madeira, Dantès lavava seu prato, que assim era usado todos os dias.

À noite, Dantès colocou seu prato no chão, a meio-caminho entre a porta e a mesa; o carcereiro ao entrar pisou no prato, quebrando-o em mil pedaços.

Dessa vez nada havia a dizer contra Dantès: cometera o erro de deixar o prato no chão, é verdade, mas o carcereiro cometera o de não olhar para os próprios pés.

O carcereiro então contentou-se em resmungar.

Em seguida, procurou à sua volta aonde derramar a sopa; os utensílios de Dantès limitavam-se àquele prato, não havia escolha.

— Deixe a panela — disse Dantès —, o senhor a pega de volta quando trouxer meu desjejum amanhã.

Esta sugestão agradou a indolência do carcereiro, que assim não precisaria subir, descer outra vez e subir de novo.

Ele deixou a panela.

Dantès estremeceu de alegria.

Dessa vez tomou vigorosamente a sopa e comeu a carne, que, segundo os costumes das prisões, colocavam na sopa. Em seguida, depois de esperar uma hora, para ter certeza de que o carcereiro não se aperceberia, deslocou a cama, pegou a panela, introduziu a ponta do cabo entre a pedra de corte despida da argamassa e as traves próximas, e começou a fazer a alavanca.

Uma ligeira oscilação provou para Dantès que a coisa funcionava.

Com efeito, uma hora depois a pedra estava retirada da parede, na qual abrira um espaço de quase um metro de diâmetro.

Dantès recolheu com cuidado todo o reboco, levou-o para os cantos da cela, esfregou a terra acinzentada com um dos fragmentos de sua jarra e cobriu o reboco com terra.

Em seguida, querendo aproveitar aquela noite em que o acaso, ou melhor, que sua engenhosa trama lhe propiciara um instrumento tão precioso, continuou a cavar obstinadamente.

Já ao nascer do sol, recolocou a pedra em seu buraco, empurrou novamente a cama contra a muralha e se deitou.

O desjejum consistia de um pedaço de pão; o carcereiro entrou e colocou esse pedaço de pão sobre a mesa.

— Ora! Não vai me trazer outro prato? — perguntou Dantès.

— Não — disse o carcereiro. — O senhor é um desastrado, destruiu sua jarra e fez com que eu quebrasse seu prato; se todos os prisioneiros causassem tantos estragos, a direção não agüentaria. Vamos deixar a panela, despejaremos a sopa dentro; assim, quem sabe não destruirá suas coisas...

Dantès ergueu os olhos para o céu e juntou as mãos sob a coberta. Aquele pedaço de ferro que lhe restava fazia nascer em seu coração um sentimento de gratidão para com os céus mais vivo do que o suscitado no passado pelas grandes dádivas de que fora objeto.

Por outro lado, observara que, desde que começara a trabalhar, ele, o prisioneiro, não trabalhava mais.

Paciência, não era uma razão para interromper sua tarefa; se o vizinho não vinha até ele, ele iria até o vizinho.

Trabalhou sem descanso o dia inteiro; à noite, graças ao seu novo instrumento, havia retirado da muralha outros dez punhados de entulho de vigas, reboco e argamassa.

Quando a hora da visita chegou, endireitou o melhor que pôde o cabo retorcido de sua panela e colocou o recipiente em seu lugar de costume. O

carcereiro ali despejou a ração habitual de sopa e carne, ou melhor, de sopa e peixe, pois aquele era um dia magro, e três vezes por semana serviam comida magra aos prisioneiros. Esta teria sido outra maneira de calcular o tempo, se há muito Dantès não houvesse abandonado tal cálculo.

Despejada a sopa, o carcereiro se retirou.

Dessa vez Dantès quis se certificar de que o vizinho realmente parara de trabalhar.

Pôs-se à escuta.

Tudo estava tão silencioso quanto naqueles três dias durante os quais os trabalhos haviam sido interrompidos.

Dantès suspirou; era evidente que o vizinho desconfiava dele.

Entretanto não se desencorajou e continuou a trabalhar a noite inteira; porém, após duas ou três horas de labuta, topou com um obstáculo. O ferro não funcionava mais, escorregando sobre uma superfície plana.

Dantès apalpou o obstáculo e constatou que atingira uma viga.

Essa viga atravessava, ou melhor, obstruía completamente o buraco iniciado por Dantès.

Agora via-se obrigado a cavar por cima ou por baixo. O desafortunado rapaz não esperava aquele obstáculo.

— Oh, meu Deus, meu Deus! — exclamou. — Rezei tanto para vós que esperava haverdes me escutado. Meu Deus! Após ter confiscado a liberdade da minha vida, meu Deus! Após ter confiscado a calma da minha morte, meu Deus!, chamando-me de volta à vida, meu Deus!, tende piedade de mim, não me deixeis morrer no desespero!

— Quem fala de Deus e de desespero ao mesmo tempo? — articulou uma voz que parecia vir do subterrâneo e que, abafada pela opacidade, chegava ao rapaz num tom sepulcral.

Edmond sentiu um calafrio e recuou de joelhos.

— Ah! — murmurou. — Ouço um homem falar.

Havia quatro ou cinco anos que Edmond ouvia apenas o seu carcereiro, e um carcereiro nunca é um homem para um prisioneiro: é uma porta viva acrescentada à sua porta de carvalho; é uma barra de carne, acrescentada às suas barras de ferro.

— Em nome dos céus! — exclamou Dantès. — O senhor que falou, fale mais, embora sua voz tenha me assustado; quem é o senhor?

— Primeiro, quem é o senhor? — replicou a voz.

— Um infeliz prisioneiro — respondeu Dantès, que não opunha, por sua vez, nenhuma dificuldade para responder.

— De que país?

— Francês.

— Seu nome?

— Edmond Dantès.

— Sua profissão?

— Marinheiro.

— Há quanto tempo está aqui?

— Desde 28 de fevereiro de 1815.

— Seu crime?

— Sou inocente.

— Mas de que é acusado?

— De ter conspirado para o retorno do imperador.

— Como assim! Para o retorno do imperador! O imperador então não ocupa mais o trono?

— Abdicou em Fontainebleau em 1814 e foi deportado para a ilha de Elba. Mas há quanto tempo está aqui, o senhor, que ignora tudo isso?

— Desde 1811.

Um arrepio percorreu Dantès; aquele homem tinha quatro anos de prisão a mais que ele.

— Muito bem, não cave mais — disse a voz, falando bem rápido —, diga-me apenas em que altura se situa a escavação que fez.

— No nível do chão.

— Como a esconde?

— Com a minha cama.

— Já mudaram sua cama de lugar depois que entrou na prisão?

— Nunca.

— Para onde dá sua cela?

— Para uma galeria.

— E a galeria?

— Vai dar no pátio.

— Que lástima! — murmurou a voz.

— Oh, meu Deus! O que aconteceu? — exclamou Dantès.

— O que aconteceu foi que me enganei, que a imperfeição dos meus desenhos me iludiu, que o defeito num compasso me burlou, que uma linha errada no meu plano equivaleu a 4,9 metros na realidade e que tomei a parede que o senhor está escavando pela da cidadela!

— Mas então o senhor sairia no mar!

— Era o que eu pretendia.

— E se tivesse tido êxito?

— Teria começado a nadar, alcançaria uma das ilhas que cercam o castelo de If, fosse a ilha de Daume, fosse a ilha de Tiboulen, fosse mesmo a costa, e então estaria salvo.

— Teria conseguido nadar até lá?

— Deus teria me dado forças; mas tudo agora está perdido.

— Tudo?

— Sim. Por preucação, vede o túnel novamente, não trabalhe mais, não faça nada e não espere notícias minhas.

— Quem é o senhor pelo menos... diga-me quem é!

— Sou... sou... o no27.

— Então desconfia de mim? — perguntou Dantès.

Edmond julgou ouvir algo como uma risada amarga percorrer a abóbada e chegar aos seus ouvidos.

— Oh, sou um bom cristão! — exclamou, adivinhando instintivamente que aquele homem cogitava abandoná-lo. — Juro por Jesus Cristo que eu me faria matar antes de permitir que os seus verdugos e os meus tivessem uma pálida idéia da verdade; mas, em nome dos céus, não me prive de sua presença, não me prive de sua voz, ou, juro ao senhor, pois estou no fim das minhas forças, arrebento minha cabeça contra a muralha e o senhor carregará minha morte nas costas.

— Quantos anos tem? Sua voz me parece a de um rapaz.

— Não sei a minha idade, pois não calculo o tempo desde que estou aqui. O que sei é que ia completar dezenove anos quando fui preso em 28

de fevereiro de 1815.

— Vinte e seis anos incompletos — murmurou a voz. — Convenhamos, ninguém ainda é traidor nessa idade.

— Oh, não! Não! Juro que não — repetiu Dantès. — Já lhe disse e digo outra vez: antes ser retalhado em pedaços do que o trair.

— O senhor fez bem em falar comigo, fez bem em me implorar, pois eu ia elaborar um outro plano e me afastar do senhor. Mas sua idade me tranqüiliza, vou me juntar ao senhor, espere.

— Quando?

— Preciso calcular nossas possibilidades; aguarde um sinal da minha parte.

— Mas não vai me abandonar, não me deixará sozinho; ou virá até mim ou me permitirá ir até o senhor? Fugiremos juntos e, se não conseguirmos fugir, falaremos, o senhor, das pessoas que ama, eu, das pessoas que amo.

Deve amar alguém...

— Sou sozinho no mundo.

— Então amará a mim; se for jovem, serei seu colega; se for velho, serei seu filho. Tenho um pai que deve ter setenta anos, se ainda vive; eu não amava ninguém senão a ele e a uma moça chamada Mercedes. Meu pai não me esqueceu, tenho certeza disso; mas ela, sabe Deus se ainda pensa em mim. Vou amá-lo como amava meu pai.

— Gostei do que ouvi — disse o prisioneiro —, até amanhã.

Essas poucas palavras foram ditas num tom que convenceu Dantès; ele não perguntou mais nada, levantou-se, tomou as mesmas precauções com os detritos retirados do túnel e que já recolhera e empurrou a cama de volta para junto da parede.

A partir desse momento Dantès entregou-se de corpo e alma à sua felicidade; não iria mais ficar sozinho, tinha certeza, talvez inclusive alcançasse a liberdade; o trunfo, caso permanecesse prisioneiro, era ter um companheiro; ora, o cativeiro partilhado não passa de um semicativeiro.

Lamentações feitas em comum são quase preces; preces feitas a dois são quase graças concedidas.

Durante todo o dia, Dantès andou de um lado para o outro pela masmorra, com o coração disparado de alegria. De vez em quando, essa alegria o sufocava; sentava-se na cama, apertando o peito com as mãos.

Ao menor barulho que ouvia no corredor, precipitava-se para a porta. Uma ou duas vezes, o temor de que o separassem daquele homem totalmente desconhecido, e a quem no entanto já amava como a um amigo, atravessou

o seu cérebro. Então decidiu: se o carcereiro afastasse sua cama e abaixasse a cabeça para examinar o buraco, quebraria a cabeça dele com a laje na qual ficava a jarra.

Seria condenado à morte, sabia muito bem disso; mas não estava prestes a morrer de tédio e desespero quando aquele barulho milagroso o devolvera à vida?

À noite, o carcereiro veio; Dantès estava na cama, dali parecia-lhe proteger melhor o túnel inacabado. Provavelmente olhava o visitante importuno com um olhar estranho, pois este lhe disse:

— E então, vai enlouquecer de novo?

Dantès nada respondeu, temendo que a emoção de sua voz o traísse. O

carcereiro saiu, balançando a cabeça.

Anoiteceu, Dantès julgou que seu vizinho aproveitaria o silêncio e a escuridão para reatar a conversa com ele, mas estava enganado; a noite passou sem que nenhum barulho respondesse à sua espera febril. Mas no dia seguinte, após a visita da manhã, quando ele acabava de afastar a cama da muralha, ouviu três batidas em intervalos regulares; atirou-se de joelhos.

— É o senhor? — disse ele. — Estou aqui!

— Seu carcereiro já foi? — perguntou a voz.

— Já — respondeu Dantès —, só voltará à noite; temos doze horas de liberdade.

— Posso então agir?

— Oh, sim sim, agora mesmo, agora mesmo, por favor!

Sem demora, a superfície sobre a qual Dantès, enfiado pela metade na abertura, apoiava suas duas mãos pareceu ceder sob si; ele se jogou imediatamente para trás, enquanto uma massa de terra e de pedras soltas se precipitava por um buraco que acabava de se abrir abaixo da abertura que ele próprio fizera; então, no fundo daquele buraco escuro e cuja profundidade ele não conseguia avaliar, viu aparecer uma cabeça, ombros e, finalmente, um homem inteiro, que saiu com grande agilidade do túnel escavado.

1 “quadros babilônicos de Martin” : referência ao pintor John Martin (1789-1854), autor de obras de grandes proporções e forte dramaticidade, entre elas Josué, de 1815, A queda da Babilônia, de 1819, e O festim de Baltazar, de 1821.

2 Arcebispo Roger: referência à Divina comédia de Dante, “Inferno”, canto XXXII, v.124- 129.

3 “Mene Tequel Peres” : citação da Bíblia, em Daniel V, 26-28. O profeta Daniel é chamado à presença do rei da Babilônia, Baltazar, proveniente do povo caldeu, para desvendar o mistério destas palavras, que os sábios da corte haviam sido incapazes de entender. Daniel diz que tais palavras anunciavam o castigo que Deus enviara ao rei pecador. Disse ele: “Esta é a interpretação daquilo: MENE: Contou Deus o teu reino, e nele pôr um fim./ TEQUEL: Pesado foste na balança, e foste achado em falta./ PERES: Dividido foi o teu reino, e dado aos medos e aos persas.” Em seguida, o rei declara Daniel o terceiro na linha de sucessão. Naquela noite Baltazar é assassinado e sucede-o Dario, de origem meda. Mais tarde, tendo suas leis desafiadas por Daniel, manda que o joguem no covil dos leões.