O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 8 de 119

Páginas do PDF

O Conde de Monte Cristo

6. O substituto do procurador do rei

A essas palavras pulou para dentro de um bote, ordenando ao bateleiro que o conduzisse ao Pharaon, onde o armador, como sabemos, combinara de encontrar com ele.

1 Pedum: bastão em forma de cruz, tradicionalmente usado pelos adivinhos campestres.

2 Quios: a mais ocidental das ilhas Cíclades, arquipélago no mar Egeu, a sudeste da Grécia.

3 Midi ou Midi-Pyrénées (também conhecida pelas formas aportuguesadas Meio-Dia-Pirenéus ou Sul-Pirenéus): uma das vinte e seis regiões administrativas da França.

4 “num lago de fogo” : referência à Divina comédia, de Dante Alighieri (1265-1321), canto XII.

No inferno, aqueles que agrediam seus próximos eram jogados num rio de sangue fervente.

6. O substituto do procurador do rei

Na rua do Grand-Cours, diante da fonte das Medusas, numa daquelas velhas casas de arquitetura aristocrática construídas por

Puget1, festejava-se também no mesmo dia, à mesma hora, um almoço de noivado.

Só que, em vez de os atores dessa outra cena serem pessoas do povo, marujos e soldados, pertenciam à nata da sociedade marselhesa. Eram velhos magistrados que haviam se exonerado do cargo sob o usurpador; antigos oficiais que haviam desertado de

suas fileiras para ingressarem nas do exército de Condé2; pessoas jovens educadas pela família ainda intranqüila quanto à sua

subsistência apesar dos quatro ou cinco remplaçants3 que pagara, no ódio por aquele homem cujos cinco anos de exílio deviam transformar num mártir e os quinze de Restauração, num deus.

Estava-se à mesa e a conversa fluía, borbulhante de todas as paixões, as paixões da época, paixões ainda mais terríveis, intensas e encarniçadas no Midi, na medida em que, depois de quinhentos

anos, os ódios religiosos4

vinham acirrar os ódios políticos.

O imperador, rei da ilha de Elba após ter sido soberano de uma parte do mundo, reinando sobre uma população de cinco a seis mil almas depois de ouvir o grito de “Viva Napoleão!” dado por cento e vinte milhões de súditos e em dez línguas diferentes, era tratado ali como um homem definitivamente perdido para a França e para o trono. Os magistrados traziam à tona os equívocos políticos; os

militares falavam de Moscou e de Leipzig5; as mulheres, de seu divórcio de Josefina. Parecia a esse mundo monarquista, jubiloso e triunfante não só pela queda do homem, mas pela destruição do princípio, que a vida recomeçava e que todos saíam de um pesadelo.

Um velho, condecorado com a cruz de São Luís, levantou-se e propôs aos seus convidados um brinde à saúde do rei Luís XVIII; era o marquês de Saint-Méran.

A esse toast, que lembrava ao mesmo tempo o exilado de Hartwell6 e o rei pacificador da França, o rumor foi grande, as taças ergueram-se à maneira inglesa, as mulheres desvencilharam-se de seus buquês e abarrotaram a toalha. Foi um entusiasmo quase poético.

— Se aqui estivessem — disse a marquesa de Saint-Méran, mulher de olho seco, lábios finos, aspecto aristocrático e ainda elegante malgrado

seus quarenta e três anos —, todos aqueles revolucionários que nos caçaram e que, de nossa parte, deixamos conspirando tranqüilamente nos nossos velhos castelos que eles compraram por um pedaço de pão sob o Terror; eles haveriam de convir que a verdadeira fidelidade estava do nosso lado, uma vez que nós, pelo menos, não abandonamos a monarquia em ocaso, ao passo que eles, ao contrário, saudavam o sol nascente e enchiam os bolsos, enquanto nós esvaziávamos os nossos; eles haveriam de convir que nosso rei, o nosso, era realmente Luís o Bem-Amado, ao passo que o usurpador deles nunca passou de Napoleão, o Maldito: não acha, Villefort?

— Refere-se a quê, sra. marquesa? Perdão, eu não estava na conversa.

— Ora, deixe essas crianças, marquesa! — interveio o velho que erguera o toast. Elas vão se casar e muito naturalmente querem falar de outras coisas sem ser política.

— Peço-lhe perdão, mamãe — disse uma jovem e bela pessoa de cabelos louros, olhos de veludo embebidos num fluido de madrepérola —, e devolvolhe o sr. de Villefort, que seqüestrei por um instante. Sr. de Villefort, minha mãe lhe dirige a palavra.

— Estou pronto a responder à marquesa caso ela se disponha a repetir a pergunta, que mal ouvi — disse o sr. de Villefort.

— Nós a perdoamos, Renée — disse a marquesa com um sorriso carinhoso, que deixava a todos admirados por florescer naquele rosto ressequido —, mas o coração da mulher é de tal maneira forjado que, por mais árido que se torne ao sopro dos preconceitos e às exigências da etiqueta, guarda sempre um recanto fértil e risonho: aquele que Deus dedicou ao amor materno. Nós a perdoamos... Agora, eu dizia, Villefort, que os bonapartistas não tinham nem a nossa convicção, nem o nosso entusiasmo, nem o nosso devotamento.

— Oh, marquesa, mas eles têm uma coisa que substitui tudo isso: é o fanatismo. Napoleão é o Maomé do Ocidente; para todos esses homens vulgares mas de ambições supremas, é não apenas um legislador e um senhor, mas também um modelo, o modelo da igualdade.

— Da igualdade! — exclamou a marquesa. — Napoleão, o modelo da igualdade! E que faria o senhor com Robespierre? O senhor parece roubar o lugar dele para entregá-lo ao Corso; ora, isso me parece muito mais que uma usurpação.

— De forma alguma, marquesa — disse Villefort —, deixo cada um

no seu pedestal: Robespierre, na praça Luís XV7, em seu cadafalso;

Napoleão, na praça Vendôme8, sobre sua coluna; apenas faria a ressalva de que um promoveu a igualdade que degrada, ao passo que o outro, a igualdade que eleva; um puxou os reis para o nível da guilhotina, o outro elevou o povo ao nível do trono. Isso não quer dizer — acrescentou Villefort rindo — que ambos não sejam infames

revolucionários e que o 9 Termidor9 e o 4 de abril de 181410 não sejam ambos datas auspiciosas para a França e dignas de serem igualmente festejadas pelos amigos da ordem e da monarquia; mas isso também explica como, deposto como está para nunca mais se reerguer, espero, Napoleão conservou seus asseclas. Que quer, marquesa?

Cromwell, que não passava da metade de tudo que foi Napoleão, também tinha os dele!

— Você sabia que as suas palavras, Villefort, cheiram a revolução a uma légua de distância? Mas vou perdoá-lo: ninguém é filho de

girondino11

sem conservar relento do terreiro.

Uma vermelhidão forte atravessou o rosto de Villefort.

— Meu pai era girondino, marquesa — replicou —, é verdade; mas meu pai não votou pela morte do rei; meu pai foi proscrito por esse mesmo Terror que a proscrevia, e pouco faltou para que não pusesse a cabeça no mesmo cadafalso que viu cair a cabeça do seu pai.

— Pode ser — disse a marquesa, sem que essa evocação ofensiva provocasse a menor alteração em seus traços —, mas seria por princípios diametralmente opostos que os dois teriam ali subido, e a prova disso é que toda a minha família permaneceu fiel aos príncipes exilados, ao passo que seu pai correu para se juntar ao novo governo: se o cidadão Noirtier foi girondino, o conde Noirtier tornou-se senador.

— Mamãe, mamãe — advertiu Renée —, a senhora prometeu que não voltaríamos a evocar essas funestas lembranças.

— Senhora — respondeu Villefort —, junto-me à srta. de Saint-Méran para mui humildemente pedir-lhe o esquecimento do passado. Para que remoer coisas acerca das quais a vontade do próprio Deus é impotente?

Deus pode mudar o futuro, não pode modificar o passado. O que podemos, nós homens, é tão-somente renegá-lo ou pelo menos cobri-lo com um véu.

Pois bem! Eu, de minha parte, separei-me não apenas do ponto de vista, como do nome de meu pai. Meu pai foi ou talvez ainda seja, quem sabe, bonapartista e chama-se Noirtier; já eu, sou realista e chamo-me Villefort.

Deixe morrer no velho tronco um resto de seiva revolucionária e não veja, senhora, senão o broto que se afasta desse tronco, sem poder, e eu diria quase sem querer, dele desligar-se totalmente.

— Bravo, Villefort — disse o marquês —, bravo, boa resposta! Eu também sempre preguei à marquesa o esquecimento do passado, sem nunca obter sucesso; espero que seja mais feliz.

— Está bem — disse a marquesa —, esqueçamos o passado, não precisa pedir de novo, palavra; mas com a condição de Villefort ser inflexível daqui para a frente. Não esqueça, Villefort, que somos responsáveis pelo senhor perante Sua Majestade: que Sua Majestade, ela também, se dispôs a esquecer, por recomendação nossa — ela segurou a mão de Villefort —, como eu esqueço a seu pedido. Mas, se algum conspirador cair em suas mãos, pense que todos os olhares irão concentrar-se no senhor a partir do momento em que souberem que é de uma família talvez cúmplice desses conspiradores.

— Infelizmente, marquesa — disse Villefort —, minha profissão e, acima de tudo, a época em que vivemos me obrigam a ser severo. E o serei. Já tive que me defender de algumas acusações políticas, e, quanto a isso, apresentei minhas provas. Infelizmente ainda não terminamos o serviço.

— Acha?

— Receio. Napoleão na ilha de Elba está muito perto da França; sua presença quase à vista do nosso litoral alimenta a esperança dos rebeldes.

Marselha está tomada por oficiais a meio-soldo12 que, todos os dias, por um pretexto frívolo, provocam escaramuças com os monarquistas; ali, duelos entre pessoas de classes elevadas, acolá, assassinatos no povo.

— Sim — disse o conde de Salvieux, velho amigo do sr. de Saint-Méran e camarista do sr. conde de Artois —, sim, mas tem ciência

de que a Santa Aliança13 o está despejando?

— Sim, era o assunto quando saíamos de Paris — respondeu o sr. de Saint-Méran. — E para onde vão despachá-lo?

— Para Santa Helena.

— Santa Helena! Que é isso? — indagou a marquesa.

— Uma ilha situada a duas mil léguas daqui, do outro lado do equador

— respondeu o conde.

— Já era hora! Como diz Villefort, foi uma grande loucura ter deixado um homem como este entre nós e a Córsega, onde ele nasceu, entre nós e

 

Nápoles, onde o cunhado ainda reina14, e defronte da Itália, que ele queria transformar em reino para o filho.

— Para nossa infelicidade — disse Villefort —, temos os tratados de

181415, e não podemos tocar em Napoleão sem desrespeitar esses tratados.

— Pois bem! Vamos desrespeitá-los — disse o sr. de Salvieux. —

Porventura ele foi tão escrupuloso quando mandou fuzilar o duque

d’Enghien16?

O sr. de Villefort.

— Sim — disse a marquesa —, está combinado. A Santa Aliança liberta a Europa de Napoleão e Villefort liberta Marselha de seus partidários. Ou o rei reina ou não reina; se reina, seu governo deve ser forte e seus agentes, inflexíveis; é assim que se previne o mal.

— Infelizmente, marquesa — disse Villefort sorrindo —, um substituto do procurador do rei chega sempre depois de o mal já estar feito.

— Cabe então ao senhor repará-lo.

— Eu inclusive poderia lhe dizer, senhora, que não reparamos o mal, mas o vingamos, é simples.

— Oh, sr. de Villefort! — disse uma jovem e bonita pessoa, filha do conde de Salvieux e amiga da srta. de Saint-Méran. — Trate então de arranjar um belo processo enquanto estivermos em Marselha. Nunca assisti a um julgamento e dizem que é muito interessante.

— Muito interessante, com efeito, senhorita — disse o substituto —, pois não se trata de uma tragédia artificial, mas de um drama de verdade; não se trata de sofrimentos representados, são sofrimentos reais. Aquele homem que vemos ali, em vez de, ao cair do pano, voltar para casa, cear em família e dormir tranqüilamente para recomeçar no dia seguinte, volta para a prisão onde encontra o carrasco. Tenha em mente que, para pessoas ansiosas por emoções, não há espetáculo igual. Fique tranqüila, se as circunstâncias se apresentarem, será um prazer proporcioná-lo à senhorita.

— Ele nos dá arrepios... e ri! — comentou Renée, empalidecendo.

— Que remédio... é um duelo... Já pedi cinco ou seis vezes a pena de morte para acusados políticos e outros... Ora, quem sabe quantos punhais se afiam na sombra ou já estão dirigidos contra mim a esta hora?

— Oh, meu Deus — exclamou Renée, entristecendo cada vez mais —, está brincando conosco, sr. de Villefort?

— Não poderia estar falando mais sério, senhorita — prosseguiu o jovem magistrado, com um sorriso nos lábios. — E graças a esses magníficos processos com os quais a senhorita deseja satisfazer sua curiosidade, e os quais eu desejo, por minha vez, para satisfazer minha ambição, a situação não tende senão a se agravar. Todos os soldados de Napoleão, habituados a investir às cegas contra o inimigo, acha que eles pensam ao queimar um cartucho ou investir com a baioneta? Pois bem, será que vão pensar com mais cuidado antes de matar um homem que julgam seu inimigo pessoal do que para matar um russo, austríaco ou húngaro que nunca viram? Aliás, precisamos disso, veja bem; sem o quê, nossa profissão não teria nenhuma justificativa. Eu mesmo, quando vejo brilhar no olho do acusado o relâmpago luminoso da fúria, sinto-me encorajado, exalto-me: não é mais um processo, é uma batalha; luto contra ele, ele responde, ataco de novo e o combate termina, como todos os combates, com uma vitória ou uma derrota. Eis o que significa denunciar alguém! É o perigo da eloqüência! Um acusado que sorrisse para mim depois da minha réplica me faria crer que falei mal, que o que eu disse foi

pálido, sem vigor, insuficiente. Pense então na sensação de orgulho que experimenta um procurador do rei ao ver empalidecer e se inclinar seu culpado, sob o peso das provas e sob os trovões da sua eloqüência! Cabeça que se abaixa, cabeça que cairá.

Renée soltou um gritinho.

— Isso é que é falar — disse um dos convidados.

— Eis o homem de que precisamos nos dias de hoje! — disse um segundo.

— A propósito — disse um terceiro —, o senhor esteve soberbo no seu último caso, meu caro Villefort. Lembra-se, o daquele homem que tinha assassinado o pai; pois bem, o senhor literalmente quase o matou antes que o carrasco tocasse nele.

— Oh, os parricidas! — disse Renée. — Oh, pouco me importa, não existe suplício suficientemente grande para esses homens; mas para os infelizes acusados políticos...!

— Mas isso é pior ainda, Renée, pois o rei é o pai da nação; querer derrubar ou matar o rei é querer matar o pai de trinta e dois milhões de homens.

— Oh, dá no mesmo, sr. de Villefort! — disse Renée. — Promete ser indulgente com aqueles que eu recomendar?

— Fique tranqüila — disse Villefort, com seu sorriso mais encantador

—, faremos nossas defesas juntos.

— Minha querida — disse a marquesa —, cuide dos seus beija-flores, dos seus totós e dos seus panos, mas deixe seu futuro esposo trabalhar. Por enquanto as armas descansam e a toga prevalece; há sobre isso um ditado latino de grande profundidade.

— Cedant arma toga17 — disse Villefort, inclinando-se.

— Não está nos meus hábitos falar latim — respondeu a marquesa.

— Acho que preferia que o senhor fosse médico — disse Renée. — O

anjo exterminador, por mais anjo que seja, sempre me assustou muito.

— Bondosa Renée! — murmurou Villefort —, cobrindo a moça com um olhar amoroso.

— Minha filha — disse o marquês —, o sr. de Villefort será o médico moral e político desta província; acredite em mim, é um belo papel.

— E será um jeito de fazer esquecer o desempenhado pelo seu pai —

alfinetou a incorrigível marquesa.

— Senhora — replicou Villefort com um sorriso resignado —, tive a honra de lhe dizer que meu pai, pelo menos assim o espero, havia abjurado os erros do passado; que se tornara um amigo cioso da religião e da ordem, melhor monarquista que eu, talvez; pois ele o seria com arrependimento, enquanto não o sou senão com paixão.

E depois dessa frase redonda, Villefort, para julgar do efeito de sua eloqüência, observou os convidados, como, após uma frase equivalente, teria do palco observado a platéia.

— Pois bem, meu caro Villefort — disse o conde de Salvieux—, anteontem mesmo nas Tulherias eu respondia ao ministro da casa do rei, que pedia, digamos, uma certa satisfação quanto a essa singular aliança entre o filho de um girondino e a filha de um oficial do exército de Condé, e o ministro entendeu muito bem. Este é o sistema de fusão de Luís XVIII.

Como se isso não bastasse, o rei, que, sem que desconfiássemos, escutava nossa conversa, nos interrompeu dizendo: “Villefort” — observem que o rei não pronunciou o nome Noirtier, ao contrário, enfatizou o Villefort —,

“Villefort” — disse o rei então — “fará uma bela carreira; é um rapaz já amadurecido e que pertence ao meu universo. Soube com prazer que o marquês e a marquesa de Saint-Méran o tomaram como genro e eu lhes teria aconselhado essa aliança caso não tivessem se adiantado e pedido permissão para homologá-la.”

— O rei disse isso, conde? — exclamou Villefort, fascinado.

— Estou repetindo as próprias palavras dele e, se o marquês quiser ser franco, admitirá que o que eu lhes conto neste momento coincide exatamente com o que o próprio rei disse quando lhe falou, há seis meses, de um projeto de casamento entre a filha dele e o senhor.

— É verdade — disse o marquês.

— Oh, serei para sempre grato a esse digno príncipe! O que eu não faria para servi-lo! — exclamou Villefort.

— O momento se apresentará — disse a marquesa. — É assim que gosto de vê-lo; imagino a recepção que daria a um conspirador se um lhe aparecesse agora.

— Pois eu, minha mãe — disse Renée —, rezo a Deus para que Ele não a escute e mande para o sr. de Villefort somente pequenos ladrões, débeis falências e tímidos trapaceiros; só assim dormirei tranqüila.

— É como se a senhorita — disse Villefort rindo — desejasse para o médico enxaquecas, rubéolas e picadas de vespas, tudo coisa que não

compromete senão a epiderme. Se quiser me ver procurador do rei, ao contrário, deseje-me daquelas terríveis doenças cujo tratamento honram um médico.

Nesse momento, e como se o acaso houvesse esperado apenas a emissão do desejo de Villefort para que tal desejo fosse realizado, um criado entrou e disselhe algumas palavras ao ouvido. Villefort deixou então a mesa, desculpando-se, e voltou instantes depois, a fisionomia aberta e os lábios sorridentes.

Renée olhou para ele com amor; pois, visto assim, com seus olhos azuis, sua tez fosca e as suíças negras emoldurando-lhe o rosto, era de fato um elegante e formoso rapaz. Com isso, o espírito inteiro da moça pareceu em suspenso na expectativa de que ele explicasse a causa de sua saída momentânea.

— Ora veja — disse Villefort —, ainda há pouco a senhorita ambicionava ter um médico como marido; pelo menos tenho essa

semelhança com os discípulos de Esculápio18 (ainda se falava assim em 1815): a hora presente nunca me pertence e há sempre alguém para me importunar até mesmo quando estou em sua companhia, até mesmo no almoço do meu noivado.

— E qual é o motivo de o haverem importunado, senhor? — perguntou a bela jovem com uma ligeira inquietação.

— Infelizmente, se fosse um doente, a julgar pelo que me disseram, seria um caso extremo. Mas dessa vez é apenas um caso grave, e a doença diz respeito ao cadafalso.

— Oh, meu Deus! — exclamou Renée, empalidecendo.

— Verdade? — perguntou uma voz entre os convidados.

— Simplesmente parece que acabaram de descobrir um pequeno complô bonapartista.

— Será possível? — perguntou a marquesa.

— Eis a carta de denúncia. E Villefort leu:

O senhor procurador do rei fica avisado, por um amigo do trono e da religião, que o assim chamado Edmond Dantès, imediato do navio Pharaon, recém-chegado de Esmirna esta manhã, antes de fazer escalas em Nápoles e Porto Ferraio, foi encarregado, por Murat, de uma carta para o usurpador, e pelo usurpador, de uma carta para o comitê bonapartista de Paris.

A prova de seu crime pode ser obtida com sua detenção, pois a carta será encontrada com ele, ou na casa de seu pai, ou em sua cabine a bordo do Pharaon.

— Mas — disse Renée —, esta carta, que por sinal não passa de uma carta anônima, está endereçada ao sr. procurador do rei, e não ao senhor.

— Sim, mas o procurador do rei está ausente; em sua ausência a missiva chegou às mãos de seu secretário, que tinha como missão abrir as cartas; ele então abriu esta, mandou que me procurassem e, não me encontrando, deu ordens para a prisão.

— Ou seja, o culpado está preso — disse a marquesa.

— A senhora quer dizer o acusado — acudiu Renée.

— Sim, senhora — disse Villefort —, e, como eu tinha a honra de dizer ainda há pouco à srta. Renée, se a carta em questão for encontrada, o doente ficará muito doente.

— E onde está esse infeliz?

— Na minha casa.

— Vamos, meu amigo — disse o marquês —, não se exima de seus deveres para ficar conosco quando o serviço do rei o espera em outro lugar; portanto, vá aonde o serviço do rei o espera.

— Oh, sr. de Villefort — disse Renée, juntando as mãos em súplica —, seja indulgente; é o dia do seu noivado!

Villefort deu a volta na mesa, e, aproximando-se da cadeira da moça, em cujo espaldar se apoiou, disse:

— Para poupá-la de uma preocupação, farei tudo que puder, querida Renée; mas se os indícios forem incontestáveis, se a acusação for procedente, serei obrigado a cortar essa erva daninha bonapartista.

Renée arrepiou-se à palavra cortar, afinal aquela erva que se pretendia cortar tinha uma cabeça.

— Bobagens! — disse a marquesa. — Não escute essa mocinha, Villefort, ela vai entender.

E a marquesa estendeu a Villefort uma mão seca que ele beijou ao mesmo tempo que olhava para Renée, dizendo-lhe com os olhos: “É sua mão que beijo, ou pelo menos queria beijar, neste momento.”

— Tristes augúrios! — murmurou Renée.

— Na verdade — disse a marquesa —, a senhorita é de uma criancice desesperadora: pergunto-lhe simplesmente o que o destino do Estado pode ter a ver com seus caprichos sentimentais e as suscetibilidades do seu coração.

— Oh, mamãe! — suspirou Renée.

— Misericórdia para a monarquista desgarrada; sra. marquesa — disse Villefort —, prometo-lhe cumprir meu dever de substituto do procurador do rei conscienciosamente, isto é, sendo terrivelmente severo.

Porém, enquanto o magistrado dirigia estas palavras à marquesa, o noivo lançava um olhar furtivo para a noiva, e aquele olhar dizia: “Fique tranqüila, Renée: em nome do seu amor, serei indulgente.”

Renée respondeu a esse olhar com seu sorriso mais sedutor, e Villefort saiu com o paraíso no coração.

1 Puget: Pierre-Paul Puget (1620-94). Pintor, escultor, arquiteto e engenheiro francês.

2 Exército de Condé ou exército dos Emigrados: pequena força militar contrarevolucionária, formada pelos emigrados franceses na Alemanha, criada por LouisJoseph de Bourbon, o oitavo príncipe de Condé.

3 Remplaçants: taxa que, na França, até 1872, permitia a alguém eximir-se do serviço militar. No caso pagar um remplaçant (“substituto”) era uma forma de comprar segurança.

4 “... ódios religiosos” : em Os crimes célebres, tomos 5-6, Dumas evocou tais ódios em “Os massacres do Midi”: “De 1551 a 1815, tudo era, da terra e até onde as nossas vistas alcançavam, ação e reação, vinganças e represálias; os anais religiosos do Midi não passam de um registro duplamente mantido pelo fanatismo mortal, escrito de um lado com o sangue dos católicos e de outro com o dos protestantes.”

5 Moscou e Leipzig: a batalha de Borodino, também conhecida como de Moscou, ocorrida em 1812, foi a maior e mais sangrenta batalha de todas as Guerras Napoleônicas. Nela, apesar da vitória, as tropas francesas sofreram 58 mil baixas, entre elas quarenta e oito marechais. A batalha de Leipzig, ocorrida em 1813, também conhecida como batalha das Nações, travada entre franceses e um exército composto por várias nações aliadas, resultou em duro golpe à potência napoleônica.

6 Hartwell: castelo no condado de Buckinghamshire, na Inglaterra, onde o conde de Provence, no exílio, residiu de 1809 a 1814. Após a derrota de Napoleão, o conde restaurou a monarquia na França, sob o nome de Luís XVIII.

7 Praça Luís XV: destruída a estátua do rei Luís XV que havia no local, esta praça passou a se chamar praça da Revolução, tornando-se um centro de atividades revolucionárias, entre elas a decapitação na guilhotina dos membros da nobreza, pena ardorosamente defendida pelo líder revolucionário Maximilien de Robespierre (1758-94). Após o fim do Terror, nome dado a esta fase sangrenta da história francesa, foi rebatizada como praça da Concórdia (de la Concorde) em 1795.

8 Praça Vendôme: batizada com o nome de um hotel existente no local desde o séc.XVII, tem como principal característica a coluna homônima, erguida em 1810 para substituir uma estátua de Luís XIV, destruída pela Revolução. Esta coluna comporta um baixo-relevohelicoidal, no qual estão esculpidos os grandes eventos da campanha napoleônica de 1806, contra a Prússia. No topo da coluna, há uma estátua de Bonaparte. Retirada durante a Restauração da monarquia, a estátua voltou ao lugar em 1831.

9 9 Termidor: o décimo-primeiro mês do calendário republicano, que vigorou na França de 22 de setembro de 1792 a 31 de dezembro de 1805, correspondia geralmente ao período entre 19 de julho e 17 de agosto. Em 9 Termidor (27 de julho) do ano de 1794, a mais radical das facções revolucionárias, os jacobinos, sofreram um golpe duríssimo: o movimento popular entrou em franca decadência; foram extintas as prisões arbitrárias e os julgamentos sumários; todos os clubes políticos foram dissolvidos e os jacobinos passaram a ser perseguidos.

10 4 de abril de 1814: a queda de Napoleão foi decidida no dia 2 de abril, pelo Senado francês, e proclamada no dia seguinte. No dia 4 o imperador ordenou a seus principais aliados militares que buscassem refúgio junto ao czar russo, que se opunha à idéia de exilá-lo numa ilha remota. No dia 6, abdicou.

11 Girondino: nome derivado da região francesa da Gironda, de onde provinham os principais líderes de um grupo político pró-revolução, mas moderado, chefiado por Jacques-Pierre Brissot (1754-93). Constituído, grosso modo, pela alta burguesia, os girondinos perderam a luta contra os jacobinos, em 1793, com a instauração do Comitê de Salvação Pública e o início do chamado Terror — período de feroz perseguição política aos “inimigos da revolução”. Ao longo do romance o autor — por engano ou por opção posterior, pois não podemos esquecer que a obra foi publicada inicialmente em fascículos — vincula seu personagem a outra corrente política, a dos jacobinos. O chamado clube jacobino era formado por burgueses e intelectuais, mas eram apoiados pela classe média e por republicanos radicais, entre eles os sans-cullotes. Assumiu a liderança da Revolução após a execução de Luís XVI e permaneceu no poder até 1794.

12 Meio-soldo: expressão que designa aqueles que, embora servindo militarmente à monarquia recém-restaurada, continuavam simpatizantes de Napoleão.

13 Santa Aliança: união entre os soberanos europeus que pretendiam manter o absolutismo como filosofia do Estado e sistema político dominante na Europa. A Santa Aliança foi firmada em 26

de setembro de 1815, em Paris, por Francisco I, imperador da Áustria, por Frederico Guilherme III, rei da Prússia, e pelo czar Alexandre I da Rússia.

14 “cunhado ainda reina” : Joaquim Murat (1767-1815), marechal do império napoleônico, havia desposado Carolina Bonaparte, tornando-se rei de Nápoles a partir de 1808. Ao assinar um tratado de paz com a Áustria após a derrocada napoleônica, manteve-se no trono enquanto as potências estrangeiras deliberavam sobre seu destino. Governou até o ano de sua morte.

15 Tratados de 1814: em 1814 foram formalizados dois tratados relevantes. O primeiro, chamado de Fontainebleau e assinado em 11 de abril de 1814, consistia na renúncia forçada de Napoleão, enfraquecido no cenário político interno e derrotado militarmente pelas forças aliadas estrangeiras. Segundo os termos desse tratado, Napoleão permaneceria exilado na ilha de Elba, conservando o título de imperador e tendo direito a uma pensão de dois mil francos, além de uma escolta de quatrocentos militares (suas propriedades, entretanto, foram confiscadas pela Coroa).

Disporia ainda de três milhões de francos e da ajuda eventual de seus familiares. Em 4 de maio, desembarcou em Elba, recebido com entusiasmo por seus habitantes. Sem recursos, pois a

pensão não era paga, foi obrigado a se apropriar das modestas reservas de minério de ferro da ilha, cuja renda pertencia à Legião de Honra. O segundo tratado digno de nota foi o Tratado de Paris, assinado em 30 de maio de 1814, que estabelecia as indenizações a serem pagas pela França aos países vencedores.