O Conde de Monte Cristo
14. A mãe e o filho
— Sempre a Providência! — murmurou. — Ah! Só hoje tenho a certeza de ser o emissário de Deus!
1 “Brutus na véspera da batalha de Filipos”: referência à Vida de Marcus Brutus, LIX, de Plutarco: “Naquela noite dizia-se que o mesmo fantasma que já aparecera uma vez para Brutus apresentou-se novamente sob a mesma forma e depois desapareceu sem lhe dizer uma palavra.”
A batalha de Filipos foi travada em 42 a.C.
14. A mãe e o filho
O conde de Monte Cristo cumprimentou os cinco rapazes com um sorriso cheio de melancolia e dignidade. Em seguida, entrou no coche com Maximilien e Emmanuel.
Albert, Beauchamp e Château-Renaud permaneceram sozinhos no campo de batalha.
O moço dirigiu às suas duas testemunhas um olhar que, sem ser tímido, não obstante parecia indagar-lhes sua opinião sobre o que acabava de acontecer.
— Caramba! Permita-me felicitá-lo, caro amigo — disse Beauchamp antes de todos, ou porque tivesse mais sensibilidade ou porque fosse menos dissimulado. — Eis um desfecho bastante inesperado para um episódio bastante desagradável.
Albert permaneceu mudo e concentrado em seus pensamentos. ChâteauRenaud contentou-se em bater nas botas com sua bengala flexível.
— Vamos? — disse ele, após o embaraçoso silêncio.
— Quando quiser — respondeu Beauchamp. — Dê-me apenas um tempinho para cumprimentar o sr. de Morcerf. Ele hoje deu provas de uma generosidade tão cavalheiresca... tão rara!
— Oh, sim! — disse Château-Renaud.
— É magnífico — continuou Beauchamp —, conseguir um controle tão grande sobre si mesmo!
— Com certeza. Quanto a mim, teria sido incapaz de uma coisa dessas
— disse Château-Renaud, com uma frieza das mais significativas.
— Cavalheiros — interrompeu Albert —, creio que não compreenderam que se passou algo de muito grave entre mim e o sr. de Monte Cristo.
— Claro que sim, claro que sim — acorreu prontamente Beauchamp —, mas nem todos os nossos paspalhões teriam capacidade de compreender o seu heroísmo, e, cedo ou tarde, você acabaria sendo forçado a lhes explicar mais energicamente, o que não é bom para a saúde do corpo nem para a longevidade. Quer um conselho de amigo? Vá para Nápoles, Haia ou São Petersburgo, lugares calmos, onde se é mais inteligente do ponto de vista da honra do que o são nossos cérebros opacos de parisienses. Uma vez lá, pratique a pistola, e infinitamente contre-de-quarte e contre-de-
tierce1;
torne-se suficientemente esquecido para regressar com tranqüilidade à França daqui a alguns anos, ou suficientemente respeitável, no que se refere aos exercícios de autodefesa, para conquistar a tranqüilidade. Não acha que tenho razão, sr. de Château-Renaud?
— É exatamente a minha opinião — disse o fidalgo. — Nada suscita mais duelos sérios do que um duelo sem resultado.
— Obrigado, cavalheiros — respondeu Albert com um frio sorriso. —
Seguirei seu conselho, não porque vem dos senhores, mas porque minha intenção era mesmo deixar a França. Agradeço-lhes também por sua gentileza ao me servirem de testemunhas. Ela está profundamente gravada no meu coração, uma vez que, após as palavras que acabo de ouvir, não me lembro mais senão dela.
Château-Renaud e Beauchamp entreolharam-se. A impressão de ambos era a mesma: o tom com que Morcerf acabava de pronunciar seu agradecimento era tão determinado que todos se sentiriam embaraçados se a conversa fosse adiante.
— Adeus, Albert — disse Beauchamp subitamente, estendendo displicentemente a mão para o rapaz, sem que este parecesse sair da letargia.
Os lábios de Albert mal murmuraram: “Adeus!” Seu olhar era mais explícito; encerrava todo um poema de cóleras contidas, de altivos desdéns, de generosa indignação.
Após suas duas testemunhas entrarem no coche, ele manteve por algum tempo sua pose imóvel e melancólica. Então, de repente, soltando seu cavalo da pequena árvore em torno da qual seu criado amarrara o bridão, saltou agilmente para a sela e galopou rumo a Paris. Quinze minutos depois, entrava no palacete da rua du Helder.
Ao apear, pareceu-lhe, por trás da cortina do quarto do conde, perceber o rosto pálido de seu pai. Albert virou o rosto com um suspiro, e entrou no seu pequeno pavilhão.
Ali chegando, lançou um último olhar sobre todas aquelas preciosidades que lhe haviam feito a vida tão amena e feliz desde a infância. Olhou mais uma vez os quadros, cujas fisionomias pareciam sorrir e cujas paisagens pareciam animar-se de cores vivas.
Em seguida, soltou da moldura o retrato de sua mãe, que enrolou, deixando vazia e escura a armação dourada que o enquadrava.
Organizou então suas belas armas turcas, seus belos fuzis ingleses, suas porcelanas japonesas, suas taças trabalhadas, seus bronzes
artísticos, assinados Feuchère ou Barye2. Visitou os armários e fechou todos a chave.
Atirou numa gaveta da escrivaninha, que deixou aberta, todo o dinheiro miúdo que tinha consigo, juntou ali as mil bijuterias que povoavam suas taças, seus escrínios, seus aparadores. Fez um inventário exato e preciso de tudo, colocando-o no lugar mais visível de uma mesa, após dela ter removido os livros e papéis que a abarrotavam.
Quando iniciava essa tarefa, seu criado, apesar da ordem dada por Albert para deixá-lo sozinho, entrou em seu quarto.
— Que deseja? — perguntou Albert, num tom mais triste que ríspido.
— Desculpe — disse o criado —, o senhor havia me proibido de importuná-lo, é verdade, mas o sr. conde de Morcerf mandou me chamar.
— E daí? — perguntou Albert.
— Não quis apresentar-me a ele sem receber ordens do senhor.
— Por que isso?
— Porque o sr. conde deve saber que o acompanhei ao local do duelo.
— É provável.
— E, se está me chamando, é provavelmente para me interrogar sobre o que aconteceu lá. Que devo responder?
— A verdade.
— Então devo dizer que o embate não se deu — Diga que pedi desculpas ao sr. conde de Monte Cristo. Vá. O criado inclinou-se e saiu.
Albert voltou então ao seu inventário. Quando terminava esse trabalho, um barulho de cavalos entrando no pátio e de rodas abalando as vidraças chamou sua atenção. Aproximando-se da janela, viu seu pai entrar em uma caleche e partir.
Assim que o portão do palacete fechou-se atrás do conde, Albert dirigiuse até os aposentos de sua mãe. Como ninguém estava ali para anunciá-lo, avançou até o quarto de Mercedes e, com o coração apertado pelo que via e pressentia, deteve-se à porta.
Como se a mesma alma animasse aqueles dois corpos, Mercedes fazia em seus aposentos o que Albert acabava de fazer no seu. Estava tudo arrumado em seu lugar. As rendas, os atavios, as jóias, a roupa de cama e o dinheiro acomodavam-se no fundo das gavetas, cujas chaves a condessa juntava cuidadosamente.
Albert viu todos aqueles preparativos, compreendeu-os e, exclamando:
“Minha mãe!”, caiu nos braços de Mercedes.
O pintor que tivesse captado a expressão daquelas duas fisionomias teria decerto feito um belo quadro.
Com efeito, todas as iniciativas oriundas de uma resolução enérgica, que nenhum medo sucitaram em Albert, assustavam-no quando tomadas pela mãe.
— O que está fazendo? — perguntou o rapaz.
— O que você estava fazendo — respondeu ela.
— Oh, minha mãe! — exclamou Albert, comovido a ponto de não conseguir falar. — Não é a mesma coisa para a senhora e para mim! Não, não pode ter tomado a mesma decisão que eu, pois venho avisar-lhe que me despeço da sua casa e... da senhora.
— Eu também, Albert — respondeu Mercedes —, também estou de partida. Eu esperava, admito, que meu filho me acompanhasse; estou enganada?
— Mãe — disse Albert com firmeza —, não posso fazê-la partilhar o destino que me aguarda. Doravante preciso viver sem nome e sem fortuna; preciso, para começar o aprendizado dessa rude existência, pedir a um amigo o pão que comerei agora até o momento de pedir outro. Isso quer dizer, querida mãe, que estou indo agora mesmo até a casa de Franz para pedir emprestado a pequena soma que calculei necessária.
— Você, querido filho! — exclamou Mercedes. — Você, na miséria, passando fome! Oh, não diga isso, você destruiria todas as minhas resoluções.
— Oh, minha mãe.
— Mas não as minhas, mãe — respondeu Albert. — Sou jovem, sou forte, creio ser corajoso, e ontem aprendi o poder da vontade.
Infelizmente, há pessoas que sofreram muito, e que não apenas continuaram vivas, como ainda edificaram uma nova fortuna sobre a ruína de todas as promessas de felicidade que o céu lhes fizera, sobre os destroços de todas as esperanças que Deus lhes dera! Aprendi isso, mamãe, vi esses homens; sei que, do fundo do abismo onde os mergulhara seu inimigo, eles se reergueram com tanto vigor e glória que dominaram seu exvencedor e o derrubaram em troca. Não, mãe, não; a partir de hoje rompo com o passado, não aceito mais nada, sequer meu nome, porque, pode compreender, não é mesmo, mãe, seu filho não pode carregar o nome de um homem que se vê obrigado a corar perante outro homem!
— Albert, meu filho — disse Mercedes —, se eu tivesse o coração mais forte, seria este o conselho que lhe daria. Sua consciência falou quando minha voz extinta se calava; escute sua consciência, meu filho. Você tinha amigos, Albert, rompa momentaneamente com eles, mas não perca a esperança, em nome de sua mãe! A vida ainda é bela em sua idade, querido Albert, você mal completou vinte e dois anos; e, como para um coração tão puro quanto o seu convém um nome sem manchas, use o do
meu pai: ele se chamava Herrera. Conheço você, Albert: independentemente da profissão que escolha, em pouco tempo trará glória a esse nome. Quando isso acontecer, querido, reapareça na sociedade ainda mais brilhante do que antes de seu infortúnio. Se porventura não acontecer de tal maneira, a despeito de todas as minhas previsões, deixe-me pelo menos essa esperança, a mim, que doravante só terei este pensamento, a mim, que não tenho mais futuro e para quem o túmulo começa no umbral desta casa.
— Farei conforme seus desejos, minha mãe — disse o moço. — Sim, comungo da sua esperança. A cólera dos céus não nos perseguirá, a senhora, tão pura, eu, tão inocente. Mas, uma vez que estamos decididos, não percamos tempo. O sr. de Morcerf saiu de casa há mais ou menos meia hora. Como vê, a oportunidade é favorável para evitar o falatório e a explicação.
— Estou às suas ordens, meu filho — disse Mercedes.
Albert correu imediatamente até a rua, de onde trouxe um fiacre que devia conduzi-los para fora do palacete. Lembrou-se de uma casinha mobiliada na rua des Saints-Pères, onde sua mãe encontraria um alojamento modesto, porém decente; voltou então para buscar a condessa.
Quando o fiacre parou diante da porta, e quando Albert saía dele, um homem aproximou-se e entregou-lhe uma carta.
Albert reconheceu o intendente.
— Do conde — disse Bertuccio. Albert pegou a carta, abriu-a, leu-a. Depois de terminar, procurou Bertuccio, mas, enquanto lia, Bertuccio desaparecera.
Albert, então, com lágrimas nos olhos, o peito oprimido pela emoção, voltou aos aposentos de Mercedes e, sem pronunciar uma palavra, apresentou-lhe a carta.
Mercedes leu:
Albert, Ao lhe mostrar que descobri o plano que estão prestes a executar, creio igualmente mostrar-lhe que compreendo a delicadeza. Você está livre, vai abandonar a casa do conde, e vai recolher sua mãe, livre como você. Mas, reflita, Albert, você develhe mais do que tem para retribuir, pobre coração honrado que é. Reserve a luta para si, reivindique para si o sofrimento, mas poupe-lhe essa primeira miséria que inevitavelmente acompanhará suas primeiras empreitadas, pois ela não merece sequer o reflexo da tristeza que a golpeia hoje, e a Providência não quer que o inocente pague pelo culpado.
Sei que ambos irão deixar a casa da rua du Helder sem levar nada. Como soube disso, não tente descobrir. Sei: ponto final.
Escute, Albert.
Há vinte e quatro anos, eu retornava alegre e orgulhoso à minha pátria. Tinha uma noiva, Albert, uma santa donzela que eu adorava, e trazia-lhe cento e cinqüenta luíses penosamente acumulados com um trabalho sem descanso. Esse dinheiro era para ela, eu lhe destinava e, sabendo quão pérfido é o mar, tinha enterrado nosso tesouro no jardinzinho do prédio onde meu pai morava, em Marselha, na rua das Allées de Meilhan.
Sua mãe, Albert, conhece muito bem essa modesta e querida casa. Recentemente, a caminho de Paris, passei por Marselha. Fui visitar tal moradia de dolorosas lembranças. À
noite, com uma pá na mão, sondei o canto onde eu enterrara meu tesouro. A caixinha de ferro estava no mesmo lugar, ninguém tocara nela. Ela está no canto que uma bela figueira, plantada por meu pai no dia do meu nascimento, cobre com sua sombra.
Muito bem! Albert, esse dinheiro, que em outros tempos deveria ajudar a vida e a tranqüilidade dessa mulher que eu adorava, eis que hoje, por um estranho e doloroso acaso, encontrou a mesma utilidade. Oh, compreenda minha intenção, eu, que poderia oferecer milhões a essa infeliz mulher e que lhe dou apenas o pedaço do pão preto esquecido sob o meu humilde telhado desde o dia em que fui separado de minha bem-amada.
Você é um homem generoso, Albert, embora contudo talvez cego pelo orgulho ou pelo ressentimento. Se recusar, se pedir a outro o que tenho o direito de lhe oferecer, direi que é pouco generoso de sua parte recusar a vida de sua mãe oferecida por um homem cujo pai morreu pelas mãos do seu nos horrores da fome e do desespero.
Terminada a leitura, Albert permaneceu pálido e imóvel, esperando a decisão de Mercedes.
Ela ergueu aos céus um olhar de inefável expressão, e disse.
— Aceito, ele tem o direito de pagar o dote que levarei para um convento! Guardando a carta junto ao coração, pegou o braço do filho e, com um passo mais firme do que talvez esperasse de si mesma, encaminhou-se para a saída.
1 Contre-de-quarte: estocada ou cutilada com o punho voltado para fora (na esgrima); contre-de-tierce: esquiva circular (no sabre).
2 “Feuchère ou Barye”: Jean-Jaques Feuchère (1807-52) expôs esculturas no Salão de 1831; Antoine-Louis Barye (1796-1875) expôs bustos no Salão de 1827, antes de se tornar o pintor de animais mais famoso do século XIX.