O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 62 de 119

Páginas do PDF

O Conde de Monte Cristo

3. O telégrafo

E Villefort retirou-se com a esposa, deixando seu pai livre para testar como bem entendesse.

O testamento foi elaborado no mesmo dia; as testemunhas se apresentaram, ele foi ratificado pelo velho, fechado na presença de todos e depositado junto ao sr. Deschamps, advogado da família.

3. O telégrafo

Ao voltarem para seus aposentos, o sr. e a sra. de Villefort souberam que o conde de Monte Cristo, vindo fazer-lhes uma visita, fora introduzido no salão, onde os aguardava; a sra. de Villefort, por demais transtornada para entrar assim de repente, passou pelo quarto, enquanto o procurador do rei, mais seguro de si, dirigiu-se ao salão.

Entretanto, por mais senhor que estivesse de suas sensações, por mais que tivesse composto a fisionomia, o sr. de Villefort não dissipou tão bem a nuvem de sua fronte a ponto de o conde, cujo sorriso brilhava radiante, não notar aquela expressão sombria e preocupada.

— Oh, meu Deus — disse Monte Cristo, após os primeiros cumprimentos —, o que há, sr. de Villefort? Teria eu chegado no momento em que o senhor elabora alguma acusação capital?

Villefort tentou sorrir.

— Não, sr. conde — disse ele —, aqui não há outra vítima senão eu. Sou eu que perco o processo; e foram o acaso, a teimosia, a loucura que se dirigiram aos tribunais.

— Do que está falando? — perguntou Monte Cristo, com um interesse perfeitamente dissimulado. — Foi realmente vítima de algum infortúnio grave?

— Oh, sr. conde — disse Villefort com uma calma cheia de amargura

—, é melhor não falarmos nisso; é uma ninharia, mero prejuízo financeiro.

— Com efeito — respondeu Monte Cristo —, um prejuízo financeiro não é nada com a fortuna como a que o senhor possui e com um espírito filosófico e elevado como o seu!

— Justamente — respondeu Villefort —, não é em absoluto a questão do dinheiro que me preocupa, embora, no fim das contas, novecentos mil francos decerto mereçam uma lástima, ou pelo menos uma reação de desapontamento. O que mais me magoa é essa disposição do destino, do acaso, da fatalidade, não sei como denominar a força responsável pelo golpe que me atinge e que derruba minhas esperanças de fortuna, destruindo talvez o futuro da minha família pelo capricho de um velho infantilizado.

— Ora, meu Deus, do que está falando? — exclamou o conde. —

Novecentos mil francos, o senhor disse? É, concordo, a soma merece ser lastimada, até mesmo por um filósofo. E quem o magoa dessa forma?

— Meu pai, de quem lhe falei.

— O sr. Noirtier! É verdade? Mas o senhor, salvo engano, me contou que ele estava completamente paralítico e que todas as suas faculdades estavam destroçadas...

— Sim, suas faculdades físicas, pois ele não consegue mais se mexer, não consegue falar, e, com tudo isso, no entanto, pensa, quer, age, como pode ver. Deixei-o há cinco minutos e, neste momento, ele está ocupado ditando um testamento para dois notários.

— Mas então ele falou?

— Fez melhor, fez-se compreender.

— Como assim?

— Com a ajuda do olhar; seus olhos continuaram a viver e, como pode perceber, matam.

— Ora, meu caro — disse a sra. de Villefort, a qual, por sua vez, acabava de entrar —, não estaria exagerando?

— Senhora... — saudou o conde, inclinando-se.

A sra. de Villefort cumprimentou-o com seu mais gracioso sorriso.

— Mas que coisa estou a ouvir da boca do sr. de Villefort! — exclamou Monte Cristo — E que aborrecimento incompreensível...!

— Incompreensível, é esta a palavra! — reagiu o procurador do rei, sacudindo os ombros. — Um capricho de velho!

— E não há como fazê-lo voltar atrás em sua decisão?

— Impossível — disse a sra. de Villefort —, e inclusive depende do meu marido que esse testamento, em vez de ser feito em detrimento de Valentine, seja feito, ao contrário, em seu benefício.

O conde, percebendo que os dois esposos começavam a falar por parábolas, assumiu um ar distraído. Com a atenção mais profunda e a aprovação mais enfática, ficou a observar Édouard, que despejava tinta no bebedouro das aves.

— Minha cara — disse Villefort, respondendo à mulher —, sabe que detesto me fazer de patriarca em minha casa; nunca julguei que o destino do universo dependesse de um sinal da minha cabeça. Por outro lado, é importante que minhas decisões sejam respeitadas na família e que a loucura de um velho e o capricho de uma criança não derrubem um projeto há longos anos enraizado em meu espírito. O barão d’Épinay era meu amigo, o senhor sabe, e uma aliança com seu filho seria das mais convenientes.

... ficou a observar Édouard, que despejava tinta no bebedouro das aves.

 

— Acha — disse a sra. de Villefort — que Valentine concorda com ele?

É verdade... ela sempre se opôs a esse casamento, e não me surpreenderia que tudo que acabamos de ver e ouvir fosse a execução de um plano tramado pelos dois.

— Senhora — disse Villefort —, ninguém renuncia assim, creia-me, a uma fortuna de novecentos mil francos.

— Ela renunciaria ao mundo, pois se um ano atrás queria entrar para um convento.

— Não interessa — replicou Villefort —, afirmo que esse casamento deve realizar-se, senhora!

— A despeito da vontade de seu pai? — perguntou a sra. de Villefort, argumentando de outro jeito. — Isso é gravíssimo!

Monte Cristo fingia não escutar, sem perder uma palavra do que era dito.

— Senhora — continuou Villefort —, posso dizer que sempre respeitei o meu pai, já que, ao sentimento natural da descendência, somava-se em

mim a consciência de sua superioridade moral; afinal, um pai é sagrado por duas razões: como nosso criador e como nosso senhor; mas hoje vejo-me obrigado a negar um juízo sadio no ancião que, a uma simples lembrança de ódio pelo pai, assim persegue o filho. Seria ridículo, portanto, se eu pautasse minha conduta pelos seus caprichos. Conservo o maior respeito pelo sr. de Noirtier; sofro sem me queixar a punição pecuniária que ele me inflige; mas permaneço inflexível em minha vontade; a sociedade apreciará de que lado está a razão. Por conseguinte, casarei minha filha com o barão Franz d’Épinay porque esse casamento é, a meu ver, correto, honroso, e porque, definitivamente, quero casar minha filha com quem bem me aprouver.

— Quem diria! — reagiu o conde, cuja bem-educada aprovação do olhar o procurador do rei constantemente solicitara. — Quem diria! O sr.

Noirtier deserda, nas suas palavras, a srta. Valentine porque ela vai se casar com o sr. Franz d’Épinay?

— Pela minha fé, sim, senhor, isso mesmo, a razão é essa — lastimou Villefort, sacudindo os ombros.

— A razão visível, pelo menos — acrescentou a sra. de Villefort.

— A razão real, senhora. Acredite, conheço meu pai.

— Isso é concebível? — respondeu a jovem senhora. — Em quê, eu pergunto, o sr. d’Épinay desagrada mais que qualquer outro ao sr. Noirtier?

— Com efeito — disse o conde —, conheci o sr. Franz d’Épinay, filho do general de Quesnel, não é mesmo?, feito barão d’Épinay pelo rei Luís XVIII.

— Exatamente — respondeu Villefort.

— Ora, mas me parece um rapaz encantador!

— Como vê, isso é apenas um pretexto, tenho certeza — disse a sra. de Villefort. — Os velhos tiranizam suas afeições; o sr. Noirtier não quer que sua neta se case.

— Mas — disse Monte Cristo —, não sabem de alguma causa para esse ódio?

— Oh, meu Deus, quem pode saber?

— Alguma antipatia política talvez?

— Com efeito, meu pai e o pai do sr. d’Épinay viveram tempos tempestuosos, de que só vi os últimos dias — disse Villefort.

— Seu pai não era bonapartista? — perguntou Monte Cristo. — Creio me lembrar que o senhor disse alguma coisa parecida.

— Meu pai foi acima de tudo um jacobino — respondeu Villefort, arrebatado pela emoção além dos limites da prudência —, e a toga de senador que Napoleão lançara em seus ombros apenas disfarçava o velho homem, mas sem modificá-lo. Quando meu pai conspirava, não era pelo imperador, era contra os Bourbon; pois meu pai tinha isso de terrível, nunca lutou pelas utopias irrealizáveis, mas pelas coisas possíveis, e aplicou ao êxito dessas coisas

possíveis aquelas terríveis teorias da Montanha1, que não recuavam diante de nada.

— Ora! — disse Monte Cristo. — Então é isso. O sr. Noirtier e o sr.

d’Épinay devem ter se chocado no terreno da política. Não teria o sr.

general d’Épinay, embora tendo servido sob Napoleão, conservado no fundo do coração sentimentos monarquistas? Não foi ele que terminou assassinado uma noite, ao sair de um clube bonapartista, onde o haviam atraído na esperança de conquistar mais um adepto?

Villefort fitou o conde quase com terror.

— Estou enganado? — disse Monte Cristo.

— Não, senhor — disse a sra. de Villefort —, ao contrário, foi assim mesmo; e foi justamente em virtude do que acaba de dizer que o sr. de Villefort, para ver extintos os velhos ódios, teve a idéia de promover a paixão entre dois filhos cujos pais haviam se odiado.

— Idéia sublime! — aprovou Monte Cristo. — Idéia pródiga em caridade e a qual a sociedade deveria aplaudir. Não há como negar, seria bonito ver a srta. Noirtier passar a se chamar sra. Franz d’Épinay.

Villefort estremeceu e perscrutou Monte Cristo como se quisesse ler no fundo de seu coração a intenção ditada pelas palavras que ele acabava de pronunciar.

Mas o conde conservou o benevolente sorriso estereotipado nos lábios e, mais uma vez, apesar da profundidade de seu olhar, o procurador do rei não enxergou além da epiderme.

— Dessa forma — continuou Villefort —, embora seja uma grande lástima para Valentine perder a fortuna do avô, não creio que o casamento se frustre devido a isso; não creio que o sr. d’Épinay recue diante desse revés pecuniário; ele verá que eu valho mais que a soma, eu, que a sacrifico em nome do desejo de cumprir com a minha palavra; ele calculará, inclusive, que Valentine é rica graças ao patrimônio da mãe, administrado pelo sr. e a sra. de Saint-Méran, seus avós maternos, que adoram a neta.

— E que merecem ser amados e tratados por Valentine como o sr.

Noirtier — disse a sra. de Villefort. — A propósito, eles estarão em Paris no mais tardar daqui a um mês, e Valentine, depois dessa afronta, não precisará mais se enterrar com o sr. Noirtier como fez até agora.

O conde escutava com complacência a voz discordante daqueles amorespróprios feridos e daqueles interesses aniquilados.

— Mas me parece — disse Monte Cristo, após um instante de silêncio

—, e me desculpo antecipadamente pelo que vou dizer; parece-me que, se o sr. Noirtier deserda a srta. de Villefort, culpada por querer desposar um rapaz cujo pai ele detestou, pelo mesmo erro não pode punir esse amável Édouard.

— Não é verdade, senhor? — exclamou a sra. de Villefort com uma entonação impossível de descrever. — Não é injusto isso, odiosamente injusto? O pobrezinho do Édouard é tão neto do sr. Noirtier quanto Valentine, e, se porventura Valentine não tivesse que se casar com o sr.

Franz, o sr. Noirtier deixaria tudo para ela; além disso, enfim, Édouard carrega o nome da família, o que não impede, mesmo supondo-a efetivamente deserdada pelo avô, que Valentine seja ainda assim três vezes mais rica do que ele.

Desferida essa estocada, o conde escutou e não falou mais.

— Muito bem — recomeçou Villefort —, muito bem, sr. conde, cessemos, eu lhe peço, de nos distrair com essas bagatelas familiares. Sim, é verdade, minha fortuna vai engrossar os rendimentos dos pobres, que hoje em dia são os verdadeiros ricos. Sim, meu pai terá me frustrado uma esperança legítima, e sem motivo; da minha parte, porém, terei agido como homem de bom senso, como homem de coração. O sr. d’Épinay, a quem eu prometera o rendimento dessa soma, o receberá, ainda que eu tenha que me impor as mais cruéis provações.

— Entretanto — interveio a sra. de Villefort, voltando à idéia obsessiva que murmurava incessantemente no fundo do seu coração —, talvez seja preferível relatar essa desventura ao sr. d’Épinay e ver qual será sua reação.

— Oh, seria uma grande desgraça! — exclamou Villefort.

— Uma grande desgraça? — repetiu Monte Cristo.

— Sem dúvida — emendou Villefort, baixando o tom. — Um casamento desfeito, mesmo por razões de dinheiro, lança opróbrio sobre uma moça.

Além disso, velhos rumores a que eu pretendia dar um basta voltariam a

ganhar corpo. Mas não, não vai acontecer nada disso. O sr. d’Épinay, se for homem honesto, se julgará ainda mais comprometido que antes pelo deserdamento de Valentine; caso contrário, estaria agindo com um simples interesse pecuniário. Não, isso é impossível.

— Penso como o sr. de Villefort — disse Monte Cristo, pregando seu olhar na sra. de Villefort —, e, se fosse suficientemente íntimo para me permitir um conselho, eu lhe diria, uma vez que o sr. d’Épinay está para chegar, pelo menos é o boato que corre, para amarrar esse assunto de maneira a que não pudesse ser desamarrado. Eu travaria essa luta, cujo desfecho deve ser tão honroso para o sr. de Villefort.

Este último levantou-se, exaltado por uma alegria visível, enquanto sua mulher empalidecia ligeiramente.

— Bem, era tudo que eu pedia, e farei valer a opinião de um conselheiro como o senhor — declarou ele, estendendo a mão para Monte Cristo. —

Dito isto, que todo mundo considere o que ocorreu hoje como não acontecido; nada mudou em nossos planos.

— Senhor — disse o conde —, a sociedade, por mais injusta que seja, lhe será grata por sua decisão, eu garanto. Seus amigos ficarão orgulhosos e o sr. d’Épinay, ainda que precise aceitar a srta. de Villefort sem o dote, ficará encantado por entrar numa família capaz de elevar-se à altura desses sacrifícios para manter sua palavra e cumprir seu dever.

Ao dizer essas palavras, o conde havia levantado e preparava-se para sair.

— Está se despedindo, sr. conde? — perguntou a sra. de Villefort.

— Vejo-me obrigado, senhora, vim apenas lembrar sua promessa para sábado.

— Acha que a esqueceríamos?

— É muito bondosa, senhora; mas o sr. de Villefort tem ocupações tão graves e às vezes tão urgentes...

— Meu marido deu-lhe sua palavra — disse a sra. de Villefort —, o senhor acaba de constatar que, se ele a mantém quando está tudo perdido, com mais forte razão o faz quando tem tudo a ganhar.

— E — perguntou Villefort — a reunião será em sua casa dos ChampsÉlysées?

— Não — disse Monte Cristo —, e é o que torna seu devotamento ainda mais meritório: é fora de Paris.

— Fora de Paris?

— Sim.

— E onde isso, perto da cidade, não é?

— Na entrada, a meia hora da barreira, em Auteuil.

— Em Auteuil! — exclamou Villefort. — Ah, é verdade, minha esposa me contou que o senhor estava passando uma temporada em Auteuil, uma vez que foi para sua casa que ela foi transportada. E em que lugar de Auteuil?

— Na rua de la Fontaine.

— Na rua de la Fontaine! — repetiu Villefort com uma voz estrangulada.

— E qual é o número?

— O 28.

— Mas — exclamou Villefort —, foi então ao senhor que venderam a casa do sr. de Saint-Méran?

— Do sr. de Saint-Méran? — perguntou Monte Cristo. — Essa casa então pertencia ao sr. de Saint-Méran?

— Sim — respondeu a sra. de Villefort —, e sabe de uma coisa, sr.

conde?

— O quê?

— Achou a casa bonita , não é mesmo?

— Encantadora.

— Pois bem, meu marido nunca quis morar lá!

— Oh — replicou Monte Cristo —, na realidade, cavalheiro, é uma prevenção que não consigo entender.

— Não gosto de Auteuil, senhor — respondeu o procurador do rei, quase sem se conter.

— Mas não serei tão desafortunado, espero — disse Monte Cristo, preocupado —, para que essa antipatia me prive da felicidade de recebêlos...

— Não, sr. conde... é o que espero... creia que farei tudo que puder —

balbuciou Villefort.

— Oh — respondeu Monte Cristo —, não admito desculpas. Sábado, às seis horas, estarei à sua espera e, se não forem, eu acharia, sabe-se lá?, que há alguma lúgubre tradição, alguma lenda sangrenta naquela casa desabitada há mais de vinte anos.

— Irei, sr. conde, irei — disse Villefort com vivacidade.

— Obrigado — disse Monte Cristo. — Agora preciso despedir-me dos senhores.

— Com efeito, o senhor disse que era obrigado a nos deixar, meu caro conde — disse a sra. de Villefort —, e ia inclusive, creio, dizer-nos o motivo, quando foi interrompido por outro assunto.

— Na realidade, senhora — disse Monte Cristo —, ainda não sei se me atrevo a lhe dizer aonde vou.

— Ora, não se acanhe!

— Vou, como autêntico basbaque que sou, visitar uma coisa que muitas vezes me fez sonhar horas inteiras.

— O quê?

— Um telégrafo. Ah, minha nossa, tanto pior, eis a palavra pronunciada.

— Um telégrafo! — repetiu a sra. de Villefort.

— Sim, meu Deus, um telégrafo. Vi às vezes num trecho de estrada, numa colina, sob um belo sol, erguerem-se os braços escuros e dobráveis feito as patas de um imenso coleóptero, e não foi nunca sem emoção, juro-lhes, pois pensava que esses sinais bizarros cortando o ar com precisão, levando a milhares de quilômetros de distância a vontade desconhecida de um homem sentado diante de uma mesa até outro homem, sentado na extremidade da linha diante de outra mesa, desenhavam-se sobre o cinzento da nuvem ou sobre o azul do céu, em virtude da força exclusiva da vontade desse chefe todo-poderoso. E eu então acreditava em gênios, sílfides, gnomos, poderes ocultos enfim, e ria. Ora, nunca senti vontade de ver de perto esses gordos insetos de barriga branca, patas pretas e magras, pois temia encontrar sob suas asas de pedra o medíocre gênio humano, presunçoso, pedante, recheado de ciência, de cabala ou de feitiçaria. Mas eis que uma bela manhã soube que o motor de cada telégrafo era um pobre-diabo empregado a mil e duzentos francos por ano, ocupado o dia inteiro em observar não o céu como o astrônomo, não a água como o pescador, não a paisagem como um cérebro vazio, mas efetivamente o inseto de barriga branca, de patas pretas, seu análogo, instalado a cerca de quatro ou cinco léguas de si. Senti-me então tomado pela curiosidade de ver de perto essa crisálida viva, e assistir à comédia que, do fundo de sua casca, ela oferece a essa outra crisálida, puxando uns depois dos outros alguns fios de barbante.

— E vai até lá?

— Estou de partida.

— A que telégrafo? Ao do Ministério do Interior ou o do Observatório?

— Oh, não, lá eu encontraria pessoas que iriam me obrigar a compreender coisas que desejo ignorar e que me explicariam, à minha revelia, um mistério que elas não conhecem. Malditas sejam! Quero conservar as ilusões que ainda alimento sobre os insetos; já basta ter perdido as que alimentava em relação aos homens. Portanto, não irei nem ao telégrafo do Ministério do Interior nem ao telégrafo do Observatório. O

que preciso é do telégrafo em pleno campo, para lá encontrar o homem puro petrificado em sua torre.

— O senhor é um fidalgo singular — disse Villefort.

— Que linha me aconselha a estudar?

— Ora, a mais ocupada no momento.

— Ótimo! A da Espanha, então?

— Exatamente. Quer uma carta do ministro para que lhe expliquem...

— Em absoluto — disse Monte Cristo —, estou lhe dizendo, ao contrário, que não quero que nada me seja explicado. A partir do momento que eu compreender alguma coisa, não haverá mais telégrafo, haverá apenas um sinal do sr. Duchâtel, ou do sr. de

Montalivet2, transmitido ao governador de Bayone e travestido em duas palavras gregas: Τηλε

γραφειν3. É a besta de patas pretas e a palavra aterradora que quero conservar em toda a sua pureza e em toda a minha veneração.

— Vá então, pois daqui a duas horas será noite e não verá mais nada.

— Diabos, o senhor me assusta! Qual é o mais próximo?

— Na estrada de Bayonne?