O Conde de Monte Cristo
4. Locusta
Porém, voltando-se antes de a fechar atrás de si, o conde alertou-a:
— Não faça um gesto, não pronuncie uma palavra, a fim de que acreditem que está dormindo, caso contrário podem matá-la sem que eu tenha tempo de acorrer.
E, com essa terrível injunção, ele desapareceu atrás da porta, que se fechou silenciosamente em seguida.
4. Locusta
Valentine ficou sozinha. Dois outros relógios de parede, atrasados em relação ao de Saint-Philippe du Roule, voltaram a dar a meia-noite em intervalos diferentes.
Depois disso, afora o barulho distante de alguns coches, tudo recaiu no silêncio.
Então toda a atenção de Valentine concentrouse no relógio de seu quarto, cujo balancim marcava os segundos.
Pôs-se a contá-los e notou que eram duplamente mais lentos que as batidas do seu coração. E, entretanto, continuava a duvidar. A inofensiva Valentine não podia imaginar que alguém desejasse sua morte. Por quê?
Com que objetivo? Que mal ela fizera que tivesse podido angariar-lhe um inimigo?
Não havia o menor perigo de ela cair no sono.
Uma única idéia, uma idéia terrível mantinha seu espírito tenso: alguém nesse mundo tentara assassiná-la e iria tentar de novo.
E se, dessa vez, a pessoa, cansada de ver a ineficácia do veneno, recorresse, como dissera Monte Cristo, ao punhal?! E se o conde não tivesse tempo de acorrer?! E se ela estivesse prestes a morrer?! E se não pudesse mais rever Morrel?!
Diante desse pensamento, que a cobria ao mesmo tempo com uma palidez lívida e um suor gelado, Valentine esteve prestes a se pendurar no cordão da campainha e chamar por socorro.
Mas pareceu-lhe, através da porta da estante, ver cintilar o olho do conde, o olho que fustigava sua lembrança e que, quando ela pensava nele, atormentava-a com tal pejo que ela se perguntava se um dia a gratidão viria a apagar esse constrangedor efeito da indiscreta amizade do conde.
Vinte minutos, vinte eternidades assim se passaram, depois mais dez minutos. Finalmente, o pêndulo do relógio, gritando com um segundo de antecedência, acabou por percutir no gongo sonoro.
Nesse exato momento, um discreto arranhar de unha na madeira da estante indicou a Valentine que o conde estava atento e recomendava-lhe o mesmo.
Com efeito, do lado oposto, isto é, na direção do quarto de Édouard, Valentine pareceu perceber o assoalho estalar. Prestou atenção, segurando a respiração quase sufocada. A fechadura rangeu e a porta se abriu.
Valentine, que se apoiara sobre o cotovelo, só teve tempo de recolher-se e esconder os olhos sob o braço.
Em seguida, trêmula, agitada, o coração asfixiado por um pavor indizível, ficou à espera.
Alguém aproximou-se da cama e roçou nas cortinas.
Valentine reuniu todas as forças e produziu aquele murmúrio regular da respiração que anuncia um sono tranqüilo.
— Valentine! — sussurrou uma voz.
A moça ficou arrepiada até a medula, mas não respondeu.
— Valentine! — repetiu a mesma voz.
Mesmo silêncio: Valentine prometera não despertar. Tudo então ficou imóvel.
Entrementes, Valentine ouviu o barulho quase imperceptível de uma bebida caindo no copo que ela acabava de esvaziar.
Ousou então, sob a muralha do seu braço esticado, entreabrir a pálpebra.
Viu uma mulher de penhoar branco esvaziando em seu copo uma bebida previamente preparada num tubo de vidro.
Durante esse breve momento, Valentine deve ter prendido a respiração ou provavelmente fez algum movimento, pois a mulher, inquieta, interrompeu o que fazia e debruçou-se sobre sua cama para se certificar de que ela dormia realmente: era a sra. de Villefort.
Valentine, reconhecendo a madrasta, foi sacudida por um arrepio lancinante, que imprimiu um movimento na cama.
A sra. de Villefort eclipsou-se ao longo da parede, e ali, entrincheirada atrás da cortina da cama, muda, atenta, perscrutou até o menor movimento de Valentine.
Esta lembrou-se das terríveis palavras de Monte Cristo. Parecia-lhe ver brilhar, na mão que não segurava o tubo, uma espécie de faca comprida e pontiaguda. Então Valentine, recorrendo a toda a sua força de vontade, tentou fechar os olhos, mas essa função do mais amedrontado dos nossos sentidos, essa função em geral tão simples, tornava-se naquele momento quase impossível de ser exercida, de tal maneira a ávida curiosidade fazia esforços para repelir a pálpebra e captar a verdade.
Nesse ínterim, certificando-se pelo silêncio, no qual recomeçara a fazerse ouvir o arfar uniforme da respiração de Valentine, de que esta dormia, a sra. de Villefort estendeu novamente o braço e, ainda escondida pelo cortinado reunido na cabeceira da cama, terminou de esvaziar no copo de Valentine o conteúdo do tubo de vidro.
Em seguida retirou-se, sem que o menor ruído advertisse Valentine de que ela partira.
Valentine vira desaparecer o braço, foi tudo. Aquele braço tenro e sedutor de uma mulher de vinte e cinco anos, jovem e bela, e que aplicava a morte.
Impossível exprimir o que sentira durante aquele minuto e meio em que a sra. de Villefort permanecera no quarto.
O arranhar da unha na estante arrancou a moça daquele estado de torpor no qual se refugiara e que parecia uma dormência.
Ela ergueu a cabeça com esforço.
A porta, sempre silenciosa, abriu-se pela segunda vez e o conde de Monte Cristo reapareceu.
— E então?! — perguntou o conde. — Ainda duvida?
— Oh, meu Deus! — murmurou a moça.
— Viu?
— Ai de mim!
— Reconheceu?
Valentine soltou um gemido.
— Sim — disse ela —, mas não pude acreditar.
— Prefere então morrer, e causar a morte de Maximilien...?
— Meu Deus, meu Deus! — repetiu a moça, quase fora de si. — Mas não posso sair de casa, fugir...?
— Valentine, a mão que a persegue pode alcançá-la em qualquer lugar.
Seus criados serão comprados a peso de ouro, e a morte irá apresentar-se à sua frente disfarçada sob todas as máscaras, na água que a senhorita beber na fonte, no fruto que colher na árvore.
— Mas o senhor não falou que a precaução do vovô me protegeu contra o veneno?
— Contra um determinado veneno, e ainda não aplicado em doses elevadas; irão mudar o veneno ou aumentar a dose.
Pegou o copo e molhou os lábios nele.
— E veja — disse ele —, já fizeram isso. Não é mais com brucina que a envenenam, é com um simples narcótico. Reconheço o gosto do álcool no qual o diluíram. Se a senhorita tivesse bebido o que a sra. de Villefort
acaba de despejar neste copo, Valentine, Valentine, a senhorita estaria perdida!
— Mas meu Deus! — exclamou a moça. — Por que ela me persegue dessa forma?
— Como! A senhorita seria tão meiga, tão bondosa, tão incrédula diante do mal, que não compreende, Valentine?
— Não — disse a jovem —, nunca lhe fiz mal.
— Mas é rica, Valentine, tem duzentas mil libras de renda, e essas duzentas mil libras de renda, a senhorita as subtrai do filho dela.
— Como assim? Minha fortuna não é a dela, herdei dos meus pais.
— Sem dúvida, e eis porque o sr. e a sra. de Saint-Méran foram mortos.
Eis porque, no dia em que o fez sua herdeira, o sr. Noirtier havia sido condenado; eis porque, por sua vez, a senhorita deveria morrer, Valentine: porque seu pai herda da senhorita, e seu irmão, então filho único, herda do pai.
— Édouard! Pobre criança, e é por ele que todos esses crimes são cometidos?
— Ah, finalmente compreende!
— Ah, meu Deus, contanto que isso não recaia sobre ele!
— A senhorita é um anjo, Valentine.
— Quer dizer que desistiram de matar meu avô?
— Refletiram que, com a senhorita morta, a menos que houvesse uma deserdação, a fortuna caberia naturalmente a seu irmão, e julgaram que o crime, no fim das contas, sendo inútil, seria duplamente perigoso de ser cometido.
— E foi na mente de uma mulher que esse plano se originou! Oh, meu Deus, meu Deus!
— Lembra-se de Peruggia, no alpendre da estalagem da posta, o homem de sobretudo marrom que sua madrasta interrogava sobre a aquatofana?
Pois bem! Todo esse plano infernal fermentava no cérebro dela desde aquela época.
— Oh, cavalheiro — exclamou a meiga rapariga, desfazendo-se em lágrimas —, agora vejo que, se for assim, estou condenada a morrer.
— Não, Valentine, não, pois previ todos os complôs; não, pois nossa inimiga está vencida, uma vez que foi flagrada; não, a senhorita viverá, Valentine, viverá para amar e ser amada, viverá para ser feliz e fazer feliz um nobre coração; mas, para viver, Valentine, é preciso confiar em mim.
— Ordene, senhor, que devo fazer?
— Precisa ingerir cegamente tudo que eu lhe der.
— Oh, Deus é testemunha — exclamou Valentine — de que se eu estivesse sozinha teria preferido a morte.
— A senhorita não confiará em ninguém, nem no seu pai.
— Meu pai não faz parte desse terrível complô, não é? — disse Valentine, com as mãos em súplica.
— Não, e, não obstante, seu pai, homem habituado às acusações jurídicas, seu pai deve desconfiar que todas essas mortes que se abatem sobre sua casa não são naturais. Seu pai, era ele quem deveria zelar pela senhorita, era ele quem deveria estar agora no lugar que ocupo; era ele quem já deveria ter esvaziado este copo; era ele quem já deveria ter-se levantado contra o assassino. Espectro contra espectro — murmurou ele, terminando bem alto sua frase.
— Senhor — disse Valentine —, farei tudo para viver, pois existem duas criaturas no mundo que me amam de tal forma que morreriam se eu morresse: meu avô e Maximilien.
— Velarei por eles como velei pela senhorita.
— Muito bem, senhor, disponha de mim — disse Valentine. Depois, em voz baixa: — Oh, meu Deus, meu Deus! O que acontecerá comigo?
— Aconteça o que acontecer, Valentine, não se assuste. Se ficar doente, se perder a visão, a audição, o tato, nada tema. Se acordar sem saber onde está, não tenha medo, ainda que, ao despertar, a senhorita veja-se em alguma caverna sepulcral ou pregada em algum ataúde. Recorra à sua razão e diga: “Neste momento, um amigo, um pai, um homem que quer a minha felicidade e a de Maximilien, este homem vela por mim.”
— Ai de mim! Que situação terrível!
— Valentine, prefere denunciar sua madrasta?
— Prefiro mil vezes morrer! Oh, sim, morrer!
— Não, a senhorita não morrerá, e independentemente do que lhe aconteça, prometa-me que não irá queixar-se e manterá as esperanças, promete?
— Pensarei em Maximilien.
— A senhorita é minha filha bem-amada, Valentine. Só eu posso salvá-la, e a salvarei.
Valentine, no auge do terror, juntou as mãos para rezar, pois percebia que chegara o momento de pedir coragem a Deus, e levantou-se,
murmurando palavras atropeladas e esquecendo-se de que seus alvos ombros não tinham outra mantilha senão sua longa cabeleira e que se percebia seu coração a palpitar sob o delicado rendado do penhoar.
O conde apoiou suavemente a mão sobre o braço da moça, protegeu seu pescoço com a manta de veludo e, com um sorriso paternal, disse:
— Minha filha, acredite no meu devotamento como acredita na bondade de Deus e no amor de Maximilien.
Valentine fixou sobre ele um olhar cheio de gratidão, e ficou dócil como uma criança sob o cortinado.
O conde pegou então no bolso do seu colete o estojinho de esmeralda, ergueu sua tampa de ouro e deixou cair, em uma das mãos de Valentine, uma pílula redonda e do tamanho de uma ervilha.
Valentine pegou-a com a outra mão e fitou o conde atentamente. Havia nos traços daquele intrépido protetor um reflexo da majestade e da força divinas. Era evidente que Valentine interrogava-o com o olhar.
— Sim — este respondeu.
Valentine levou a pílula à boca e a engoliu.
— E agora, até breve, minha filha — ele disse —, vou tentar dormir, pois a senhorita está salva.
— Vá — disse Valentine —, aconteça o que acontecer, prometo não sentir medo.
Monte Cristo manteve longamente os olhos fitos na moça, que adormeceu pouco a pouco, vencida pela potência do narcótico que o conde acabara de lhe dar.
Ele então pegou o copo, despejou três quartos de seu conteúdo na lareira, para que acreditassem que Valentine havia bebido o que faltava e colocou-o na mesinha-de-cabeceira; em seguida, voltando a atravessar a porta camuflada pela estante de livros, desapareceu, após ter lançado um último olhar até Valentine, que dormia com a confiança e a candura de um anjo deitado aos pés do Senhor.