O Conde de Monte Cristo
10. A provocação
2 Porta: ou Sublime Porta, nome dado ao governo turco na época dos sultões.
3 “no ano de 1247 da Hégira”: Hégira é a era muçulmana, que tem início em 622 d.C., com a fuga de Maomé de Meca para Medina; o ano mencionado corresponde ao ano de 1831.
4 Ver parte IV, cap.20, nota 81.
5 “edifício florentino”: o palácio de Luxemburgo, construído entre 1615 e 1625 para Catarina de Medici, assemelhava-se a seu Palácio Pitti, em Florença.
6 “Virgílio via caminhar as deusas”: citação da Eneida, v.405: “E seus passos revelavam uma verdadeira deusa.”
10. A provocação
Nesse momento — continuou Beauchamp —, aproveitei-me do silêncio e da escuridão da sala para sair furtivamente. O meirinho que me introduzira esperava à porta. Acompanhou-me, através das galerias, até uma pequena saída que dava para a rua de Vaugirard. Deixei o prédio arrasado e atordoado ao mesmo tempo, perdoe a expressão, Albert.
Arrasado por sua causa, atordoado com a nobreza daquela jovem em busca da vingança paterna. Sim, juro, Albert, seja qual for a origem dessa revelação, digo comigo que ela pode até vir de um inimigo, mas que esse inimigo não passa de um agente da Providência.
Albert, que segurava a cabeça entre as mãos, ergueu o rosto, vermelho de vergonha e banhado em lágrimas, agarrando o braço de Beauchamp:
— Amigo — disse-lhe —, minha vida está acabada. Resta-me, não dizer como você que a Providência me desferiu um golpe, mas procurar o homem que me persegue com sua inimizade. Depois, quando souber de quem se trata, matarei este homem ou ele me matará. Ora, conto com sua amizade para me ajudar, Beauchamp, se é que o desprezo não a matou em seu coração.
— O desprezo, meu amigo? E em que essa desgraça o atinge? Não!
Graças a Deus, não estamos mais na época em que um preconceito injusto tornava os filhos responsáveis pelas ações dos pais. Repasse sua vida inteira, Albert; ela data de ontem, é verdade, mas nunca aurora de um belo dia foi mais pura que o seu Oriente! Não, Albert, creia-me, você é jovem, rico, saia da França. Tudo é rapidamente esquecido nessa grande Babilônia de vida agitada e gostos fugazes. Você voltará daqui a três ou quatro anos, terá se casado com alguma princesa russa e ninguém pensará mais no que aconteceu ontem, ainda menos no que aconteceu há dezesseis anos.
— Obrigado, meu caro Beauchamp, obrigado pela excelente intenção que dita suas palavras, mas isso não pode ser assim. Manifestei-lhe meu desejo, e agora, se for preciso, troco a palavra desejo por vontade. Você compreende que, envolvido como estou nesse caso, não posso ver a coisa do seu ponto de vista. O que lhe parece vir de uma fonte celeste, pareceme vir de uma fonte menos pura. A Providência, admito, não me parece ter qualquer relação com tudo isso, e felizmente, pois em vez da invisível e impalpável mensageira das recompensas e punições celestes, encontrarei uma criatura palpável e visível, sobre a qual me vingarei, oh, sim!, juro, de
tudo que venho sofrendo de um mês para cá. Agora, Beauchamp, repito, preciso retornar à vida humana e material. Se você ainda é meu amigo como diz, ajude-me a descobrir a mão que desferiu o golpe.
— Pois seja! — disse Beauchamp. — E, se faz questão absoluta de que eu desça à Terra, eu o farei; se faz questão de ir no encalço do seu inimigo, irei com você. E o descobrirei, pois minha honra tem quase tanto interesse quanto a sua em agarrá-lo.
— Que bom! E já que você entendeu, Beauchamp, comecemos então nossas investigações neste exato momento, sem mais delongas. Cada minuto perdido é uma eternidade para mim. O delator ainda não foi punido, deve estar achando que não o será, e, pela minha honra, se acha isso, está enganado!
— Então escute, Morcerf.
— Ah, Beauchamp, vejo que você sabe alguma coisa. Pronto, vai me devolver a vida!
— Não digo que seja realidade, Albert, mas pelo menos é uma luz na escuridão: pode ser que, seguindo essa luz, cheguemos ao nosso alvo.
— Fale! Está vendo que transpiro de impaciência.
— Pois bem! Vou contar o que não quis contar ao voltar de Janina.
— Fale.
— Eis o que aconteceu, Albert. Ao chegar, naturalmente, dirigi-me ao primeiro banqueiro da cidade para tomar informações. À minha primeira palavra sobre o caso, antes mesmo que o nome do seu pai tivesse sido pronunciado, ele disse:
“— Ah! Pois bem, presumo o que o traz aqui. “— Como assim, e por quê?
“— Porque há cerca de quinze dias fui interrogado sobre o mesmo assunto.
“— Por quem?
“— Por um banqueiro de Paris, meu correspondente. “— Cujo nome é...
“— Sr. Danglars.”
— Ele! — exclamou Albert. — Mas claro! Ele, que há tanto tempo persegue meu pai com seu ódio invejoso; ele, o pretenso homem do povo, que não pode perdoar ao conde de Morcerf o fato de ser um par de França.
E, veja, o distrato do casamento sem motivos; sim, só pode ser isso.
— Informe-se, Albert, mas não se exalte antecipadamente. Informe-se, estou lhe dizendo, e se a coisa for verdade...
— Oh, sim, é verdade! — exclamou o rapaz. — Ele irá me pagar por tudo que sofri.
— Cuidado, Morcerf, é um homem já velho.
— Terei tanta consideração pela sua idade quanto ele teve pela honra da minha família. Se odiava meu pai, por que não se bateu com ele? Oh, não, teve medo de ficar cara a cara com um homem!
— Albert, não o condeno, apenas o refreio; aja com prudência.
— Oh, não receie. Aliás, você irá me acompanhar, Beauchamp, pois assuntos solenes devem ser resolvidos perante testemunhas. Antes do fim do dia, se o sr. Danglars for o culpado, ele deixará de viver ou eu serei morto. Por Deus, Beauchamp, quero ser homenageado com um belo funeral!
— Pois bem, quando decisões como esta são tomadas, temos que implementá-las imediatamente. Quer ir até a casa do sr. Danglars? Pois vamos.
Mandaram chamar um fiacre. Ao entrarem no palacete do banqueiro, perceberam o faeton e o criado do sr. Andrea Cavalcanti na porta.
— Ora essa! Eis o que vem a calhar — disse Albert, com uma voz melancólica. — Se o sr. Danglars não quiser duelar comigo, matarei seu genro. Este deve ser capaz de duelar, um Cavalcanti!
Anunciaram o rapaz ao banqueiro, que, ao ouvir o nome de Albert e sabendo o que acontecera na véspera, proibiu-lhe a entrada. Mas era tarde demais, Albert seguira o lacaio, ouviu a ordem dada, forçou a porta e entrou, seguido por Beauchamp, no gabinete do banqueiro.
— Mas, cavalheiro! — exclamou este. — Não cabe mais ao dono da casa a decisão de receber ou não quem ele quer? Estranhamente, o senhor parece esquecer disso.
— Não, senhor — respondeu Albert friamente —, há circunstâncias, e o senhor se acha numa delas, em que é preciso, salvo por covardia, ofereço-lhe essa desculpa, estar em casa, pelo menos para certas pessoas.
— Pois então, que deseja de mim, cavalheiro?
— Desejo — disse Morcerf, aproximando-se sem parecer prestar atenção a Cavalcanti, que encontrava-se recostado na lareira — propor-lhe um encontro num recanto afastado, onde ninguém nos perturbe durante dez minutos, não lhe peço mais que isso; onde, de dois homens que se encontraram, um permaneça sob as folhas.
Danglars empalideceu, Cavalcanti esboçou um gesto. Albert voltou-se para o rapaz:
— Oh, meu Deus — disse ele —, venha também, sr. conde, o senhor tem o direito de estar presente, já é quase da família. A propósito, marco esse tipo de encontro com qualquer um que se disponha a aceitar.
Cavalcanti olhou estupefato para Danglars, o qual, fazendo um esforço, levantou-se e avançou entre os dois rapazes. O ataque de Albert a Andrea acabava de o instalar num outro terreno, e ele esperava que a visita de Albert tivesse outra causa afora a que ele supôs inicialmente.
— Ah, é isso! — disse ele a Albert. — Meu caro, se vem aqui procurar confusão com o cavalheiro por que eu o preferi ao senhor, farei disso um caso para o procurador do rei.
— Está enganado, senhor — disse Morcerf, com um sorriso ameaçador
—, meu assunto não tem qualquer relação com casamento, e dirijo-me ao sr. Cavalcanti porque por um instante me pareceu que ele pretendia interferir na nossa conversa. Mas, tenho que admitir, o senhor não deixa de ter razão — disse ele —, pois hoje estou procurando briga com todo mundo. Fique tranqüilo, sr. Danglars, a prioridade é toda sua.
— Não cabe mais ao dono da casa a decisão de receber ou não quem ele quer?
— Cavalheiro — respondeu Danglars, pálido de cólera e medo —, aviso-lhe que, quando tenho a desventura de deparar no meu caminho um buldogue raivoso, eu o mato, e que, longe de me julgar culpado, penso ter prestado um serviço à sociedade. Ora, se está com raiva e pretende me morder, isto é um aviso, mato-o sem piedade! Que coisa! É culpa minha se o seu pai está desonrado?
— Sim, miserável? — exclamou Morcerf. — É culpa sua! Danglars deu um passo para trás.
— É culpa minha? O senhor só pode estar louco! Que sei eu de história grega? Teria eu viajado a esses países? Fui eu quem aconselhou seu pai a vender os castelos de Janina? A trair...
— Cale-se! — comandou Albert, com uma voz surda. — Não, não foi o senhor quem causou diretamente esse escândalo e essa desgraça, mas foi o senhor quem, hipocritamente, os provocou.
— Eu?
— Sim, o senhor! De onde saiu a revelação?
— Mas me parece que o jornal o informou: de Janina, caramba!
— Quem escreveu para Janina?
— Para Janina?
— Sim. Quem escreveu para pedir informações a respeito do meu pai?
— Parece-me que qualquer um pode escrever para Janina.
— Entretanto, apenas uma pessoa o fez.
— Apenas uma?
— Sim! E essa pessoa foi o senhor.
— Escrevi, de fato. Parece-me que, quando alguém casa sua filha com um rapaz, esse alguém pode tomar informações sobre a família do rapaz.
Isso é não apenas um direito, mas um dever.
— O senhor escreveu, cavalheiro — disse Albert —, sabendo perfeitamente a resposta que receberia.
— Eu? Ah, de minha parte, garanto-lhe — exclamou Danglars, com uma confiança e segurança que talvez resultassem menos do seu medo que do interesse que no fundo sentia pelo infeliz rapaz —, juro que nunca teria pensado em escrever para Janina. Por acaso eu conhecia a catástrofe de Ali Paxá?
— Então alguém o estimulou a escrever?
— Claro.
— Foi estimulado por alguém?
— Sim.
— Quem foi? Termine... fale...
— Ora, nada mais simples; eu estava conversando a respeito do passado do seu pai, dizia que a fonte de sua fortuna permanecia obscura. A pessoa me perguntou onde seu pai fizera essa fortuna. Respondi: “Na Grécia.”
Então ela me disse: “Pois bem! Escreva para Janina.”
— E quem lhe deu esse conselho?
— Ora bolas! O conde de Monte Cristo, seu amigo.
— O conde de Monte Cristo disse-lhe para escrever para Janina?
— Sim, e escrevi. Quer ver a minha correspondência? Posso mostrar-lhe. Albert e Beauchamp entreolharam-se.
— Cavalheiro — disse então Beauchamp, que ainda não tomara a palavra —, o senhor realmente deseja acusar o conde, que está ausente de Paris e não pode justificar-se neste momento?
— Não acuso ninguém, cavalheiro — disse Danglars —, estou conversando, e repetiria diante do sr. conde de Monte Cristo o que acabo de lhe dizer.
— E o conde tem ciência da resposta que o senhor recebeu?
— Eu lhe mostrei.
— Ele sabia que o nome de batismo do meu pai era Fernand, e que seu nome de família era Mondego?
— Sim, eu lhe havia contado isso há muito tempo. Além do mais, nesse aspecto, fiz apenas o que qualquer um teria feito em meu lugar, e inclusive talvez muito menos. Quando, no dia seguinte a essa resposta, encorajado pelo sr. de Monte Cristo, seu pai veio me pedir minha filha oficialmente, como fazemos quando queremos dar um basta, recusei, recusei taxativamente, é verdade, mas sem explicação, sem escândalo. Com efeito, por que teria eu promovido um escândalo? Em que a honra ou a desonra do sr. de Morcerf me interessam? Isso não faz os juros nem caírem nem subirem.
Albert sentiu o rubor invadir sua fronte. Não havia mais dúvida, Danglars defendia-se com baixeza, mas com a segurança de um homem que diz, se não toda a verdade, pelo menos parte dela, certamente não por uma questão de consciência, é verdade, mas de terror. Aliás, que procurava Morcerf? Não era saber quem tinha mais culpa, Danglars ou Monte Cristo,
mas um homem que respondesse por uma ofensa leve ou grave, um homem que se batesse, e era evidente que Danglars não se bateria.
E depois, cada uma das coisas esquecidas ou não percebidas voltava a se fazer visível aos seus olhos ou presente na sua lembrança. Monte Cristo sabia de tudo, uma vez que comprara a filha de Ali Paxá; ora, sabendo de tudo, aconselhara Danglars a escrever para Janina. Conhecida essa resposta, ele acedera ao desejo manifestado por Albert de ser apresentado a Haydée; uma vez diante dela, deixara a conversa recair na morte de Ali, não se opondo ao relato de Haydée, mas tendo provavelmente dado à moça, nas poucas palavras romaicas que pronunciara, instruções que não haviam permitido a Morcerf identificar o pai; aliás, não pedira a Morcerf para não pronunciar o nome do seu pai perante Haydée? Por fim, levara Albert à Normandia no momento em que sabia que o grande escândalo seria deflagrado. Não havia do que duvidar, tudo aquilo era calculado.
Monte Cristo, sem dúvida nenhuma, entendia-se com os inimigos de seu pai.
Albert puxou Beauchamp para um canto e comunicou-lhe todas as suas idéias.
— Você tem razão — concordou este. — A participação do sr. Danglars é apenas bruta e material. É ao sr. de Monte Cristo que você deve pedir uma explicação.