O Conde de Monte Cristo
18. O pai e a filha
2 Sterne: tal pergunta não é encontrada nas obras de Lawrence Sterne. Contudo, em Vida e opiniões do cavalheiro Tristan Shandy, livro II, cap.17, lê-se uma citação da Epístola aos hebreus, XIII, 18, da Bíblia: “Pois ousamos dizer que a nossa consciência em nada nos reprova.”
3 Átridas: na mitologia grega, adjetivo que evoca os filhos de Atreu, rei de Micenas, Agamenon, Menelau e Anaxíbia, uma família conhecida pelas brigas e assassinatos entre seus próprios membros.
18. O pai e a filha
Vimos, no capítulo precedente, a sra. Danglars anunciar oficialmente à sra. de Villefort o casamento próximo da srta. Eugénie Danglars com o sr.
Andrea Cavalcanti.
Esse anúncio oficial, que indicava ou parecia indicar uma decisão tomada por todos os interessados nesse grande negócio, havia entretanto sido precedido por uma cena que ficamos devendo aos nossos leitores.
Pedimos a estes, portanto, que dêem um passo atrás e transportem-se para a mesma manhã daquele dia de grandes catástrofes, para aquele belo salão, tão bem dourado como o apresentamos a vocês, e que era o orgulho do seu proprietário, o sr. Danglars.
Nesse salão, com efeito, por volta das dez horas da manhã, andava de um lado para o outro, há alguns minutos pensativo e visivelmente preocupado, o próprio barão, espreitando a cada porta e detendo-se a cada barulho.
Quando seu manancial de paciência chegou ao fim, ele chamou seu criado de quarto.
— Étienne — disse-lhe —, verifique por que a srta. Eugénie me pediu para esperá-la no salão e informe-se por que me faz esperar tanto.
Exalado esse bafejo de mau humor, o barão recuperou um pouco a calma.
Com efeito, a srta. Danglars, depois de acordar, pedira uma audiência a seu pai e designara o salão dourado como local dessa audiência. A singularidade dessa iniciativa, seu caráter oficial sobretudo, surpreenderam sobremaneira o banqueiro, que havia imediatamente atendido ao desejo da filha, chegando primeiro ao salão.
Étienne logo voltou de sua missão diplomática.
— A camareira anunciou-me que a senhorita estava terminando sua toalete e não demoraria — disse ele.
Danglars fez um sinal com a cabeça indicando que estava satisfeito.
Diante da sociedade e mesmo de sua família, ele afetava o simplório e o pai fraco. Era uma face de seu papel autoimposto na comédia popularesca que representava, era uma fisionomia que adotara e que lhe parecia convir como convinha ao lado direito das máscaras dos pais do teatro antigo terem o lábio levantado e risonho, ao passo que o lado esquerdo tinha o lábio abaixado e antipático.
Apressemo-nos a dizer que, na intimidade, o lado levantado e risonho descia ao nível do lábio abaixado e antipático; de maneira que, na maior parte do tempo, o simplório desaparecia para dar lugar ao marido brutal e ao pai absoluto.
— Por que diabos essa louca quer falar comigo, o que será que pretende
— murmurava Danglars. — Por que não vai direto ao meu gabinete? —
pensava. — E o que será que tem para falar comigo?
Passava pela vigésima vez tal pensamento inquietante em seu cérebro, quando a porta se abriu e Eugénie apareceu, trajando um vestido de cetim preto bordado com flores foscas da mesma cor, penteada e enluvada como se fosse sentar em sua poltrona do Théâtre Italien.
— E então, Eugénie, o que está havendo? — exclamou o pai. — E por que o salão solene, quando ficamos tão confortáveis no meu gabinete particular?
— Tem toda razão, senhor — respondeu Eugénie, fazendo sinal para o pai sentar-se —, e acaba de fazer duas perguntas que resumem antecipadamente toda a conversa que iremos ter. Responderei então a ambas e, contra as leis de praxe, à segunda primeiro, por ser a menos complexa. Escolhi o salão, senhor, como local do encontro, a fim de evitar as impressões desagradáveis e as influências do escritório de um banqueiro. Aqueles livros-caixa, por mais dourados que sejam, aquelas gavetas fechadas como portas de fortalezas, aqueles maços de notas bancárias que vêm ninguém sabe de onde, e aquela profusão de cartas que chegam da Inglaterra, da Holanda, da Espanha, das Índias, da China e do Peru, atuam em geral estranhamente sobre o espírito de um pai e o fazem esquecer que há no mundo um interesse maior e mais sagrado que o da posição social e da opinião de seus parceiros nos negócios. Portanto, escolhi esse salão, onde pode ver, sorridente e feliz, em suas magníficas molduras, seu retrato, o meu, o da minha mãe e todo tipo de paisagens pastorais e bucolismos enternecedores. Confio muito no poder das impressões externas. Talvez, sobretudo para o senhor, isso seja um erro, mas, que quer? Eu não seria artista se não me restassem algumas ilusões.
— Muito bem — respondeu o sr. Danglars, que escutara a tirada com imperturbável sangue-frio, mas sem compreender uma palavra, absorto que estava, como todo homem cheio de segundas intenções, em procurar o fio de sua própria idéia nas idéias do interlocutor.
— Eis então o segundo ponto esclarecido, ou quase — disse Eugénie, sem a menor perturbação, com aquele aspecto masculino que caracterizava seu gestual e sua fala. — E o senhor me parece satisfeito com a explicação. Agora voltemos ao primeiro. O senhor me perguntava por que solicitei esta audiência. Vou dizer-lhe numa frase. — Ei-la, senhor: não quero me casar com o conde Andrea Cavalcanti.
Danglars deu um pulo em sua poltrona, e, com a sacudidela, ergueu ao mesmo tempo os olhos e os braços para o céu.
— Meu Deus, sim, senhor — continuou Eugénie, sempre calma. — O
senhor está espantado, pelo que vejo, pois, desde que esse pequeno negócio está em andamento, não manifestei a menor oposição, embora sempre decidida, chegado o momento, a opor francamente uma vontade livre e absoluta às pessoas que não me consultaram e às coisas que me desagradam. Entretanto, dessa vez essa tranqüilidade, essa passividade, como dizem os filósofos, vinha de outra fonte; vinha de que, filha submissa e dedicada... — um ligeiro sorriso se desenhou nos lábios púrpura da moça —, eu testava minha obediência.
— Não quero me casar com o sr. Andrea Cavalcanti.
— E então?
— E então, senhor — continuou Eugénie —, testei-a até o fim das minhas forças e agora, chegado o momento, apesar de todos os esforços que me impus, sinto-me incapaz de obedecer.
— Mas, enfim — disse Danglars, que, espírito grosseiro, parecia acima de tudo estupefato com o peso daquela lógica impiedosa, cuja fleugma acusava tanta premeditação e força de vontade —, qual a razão dessa recusa, Eugénie, a razão?
— A razão — replicou a moça —, oh, Deus, não é que o homem seja mais feio, mais tolo ou mais desagradável que outro qualquer, não. O sr.
Andrea Cavalcanti pode até ser considerado, para aqueles que privilegiam nos homens o rosto e a compleição, um modelo bastante correto.
Tampouco é porque meu coração ficou menos tocado por ele do que por outro qualquer. Esta seria uma razão de colegial, que considero de todo indigna de mim. Não amo absolutamente ninguém, senhor, sabe muito bem disso, não? Logo, não vejo por quê, sem necessidade alguma, estorvar minha vida com um eterno companheiro. Não teria dito o sábio em algum lugar: “Nada em
excesso” 1; e em outro lugar: “Carregue tudo consigo” 2?
Aprendi inclusive em latim e grego esses dois aforismos: um é, acho, de Fedro, o outro de Bias. Pois bem, querido pai, no naufrágio da vida, pois a vida é um eterno naufrágio de nossas esperanças, lanço ao mar minha bagagem inútil, apenas isso, e permaneço com a minha vontade, disposta a viver completamente sozinha e, por conseguinte, completamente livre.
— Infeliz! Infeliz! — murmurou Danglars empalidecendo, pois conhecia por experiência própria a solidez do obstáculo que tão repentinamente encontrava.
Danglars deu um pulo em sua poltrona.
— Infeliz — repetiu Eugénie —, infeliz! Foi o que disse, senhor? Em absoluto, e a exclamação parece-me inteiramente teatral e afetada. Feliz, ao contrário, pois, pergunto-lhe: o que me falta? A sociedade me julga bonita, é algo para ser acolhido favoravelmente. Gosto das boas acolhidas.
Elas abrem os semblantes e aqueles que me rodeiam parecem menos feios.
Sou dotada de certa inteligência e de relativa sensibilidade, o que me permite extrair da existência geral, para integrar à minha, o que nela encontro de bom, como faz o macaco quando quebra a noz verde para dela retirar seu conteúdo. Sou rica, pois o senhor possui uma das grandes fortunas da França. Sou sua filha única, e o senhor não é a tal ponto inflexível como o são os pais da Porte
Saint-Martin e do Gaîté3, que deserdam suas filhas porque estas não querem dar-lhes netos. Aliás, a lei, previdente, confiscou-lhe o direito de me deserdar, pelo menos completamente, assim como lhe confiscou o poder de me obrigar a casar com o senhor fulano ou sicrano. Dessa forma, bonita, inteligente, enfeitada com algum talento, como se diz nas óperas cômicas, e rica! Mas não será isso a felicidade, senhor? Por que então me chama de infeliz?
Danglars, vendo sua filha sorridente e altiva até a insolência, não conseguiu reprimir uma menção de brutalidade, que se traiu por um estilhaço de voz, mas foi o único. Sob o olhar interrogador da filha, diante daquela bela sobrancelha negra, franzida pela interrogação, ele se voltou com prudência e logo se acalmou, domado pela mão de ferro da circunspecção:
— Realmente, minha filha — respondeu com um sorriso —, você é tudo que se gaba de ser, menos uma coisa, minha filha, mas não quero dizer-lhe bruscamente qual, prefiro deixá-la adivinhar.
Eugénie olhou para Danglars, bastante surpresa que lhe viessem contestar um dos florões da coroa de orgulho que acabava de colocar tão soberbamente na cabeça.
— Minha filha — disse o banqueiro —, você me explicou perfeitamente quais eram os sentimentos que presidiam as decisões de uma moça como você quando decide não se casar. Agora cabe a mim lhe dizer quais são os motivos de um pai como eu ao decidir que sua filha irá se casar.
Eugénie inclinou-se, não como filha submissa, que escuta, que espera, mas como adversária disposta a argumentar.
— Minha filha — continuou Danglars —, quando um pai pede à sua filha para tomar um esposo, ele tem sempre uma razão qualquer para desejar seu casamento. Alguns são vítimas do capricho que você mencionava ainda há pouco, isto é, ver-se reviver nos netos. Não tenho essa fraqueza, digo-o desde já, as alegrias familiares são-me praticamente indiferentes. Posso admitir isso a uma filha que sei suficientemente filósofa para compreender essa indiferença e não considerá-la um crime.
— Ainda bem — disse Eugénie. — Falemos com franqueza, senhor, gosto disso.
— Oh! — disse Danglars. — Vê que, sem partilhar, em tese, sua simpatia pela franqueza, a ela me submeto quando creio que a circunstância me convida. Continuando, então: propus-lhe um marido, não por você, pois a bem da verdade naquele momento a coisa em que eu menos pensava no mundo era em você; já que gosta de franqueza, aí está; mas porque eu precisava que você tomasse esse esposo o mais cedo possível, em função de determinadas combinações comerciais que estou em vias de estabelecer no momento.
Eugénie esboçou uma reação.
— É como tenho a honra de lhe dizer, minha filha, e não deve me querer mal por isso, pois é você quem me obriga a fazê-lo. É a contragosto, veja bem, que entro nessas explicações aritméticas com uma artista como você, que teme freqüentar o gabinete de um banqueiro por nele sentir impressões ou sensações desagradáveis e antipoéticas.
“Mas, nesse gabinete de banqueiro, onde não obstante você não se negou a entrar anteontem para me pedir os mil francos que lhe dou todos os meses para seus caprichos, saiba, minha querida senhorita, que lá se aprendem muitas coisas, inclusive para uso das jovens que não desejam se casar. Aprende-se, por exemplo, e por consideração à sua suscetibilidade nervosa vou lhe dizer isso neste salão, aprende-se que o crédito de um banqueiro é sua vida física e moral, que o crédito sustenta o homem como a respiração anima o corpo, e um dia desses o sr. de Monte Cristo me fez um discurso sobre isso que nunca esqueci. Aprende-se que, à medida que o crédito se retrai, o corpo torna-se um cadáver, e isso deve atingir em pouquíssimo tempo o banqueiro que tem a honra de ser pai de uma filha tão lógica.
Eugénie, porém, em vez de curvar-se, reagiu ao golpe.
— Falido! — exclamou ela.
— Encontrou a palavra certa, minha filha, a palavra certa — disse Danglars, coçando o peito com as unhas, ao mesmo tempo em que conservava em seu rosto grosseiro o sorriso de um homem sem coração, mas não sem inteligência. — Falido! É isso.
— Ah! — suspirou Eugénie.
— Sim, falido! Muito bem! Pronto, ei-lo desvendado, esse segredo
cheio de horror, como diz o poeta trágico4.
“Agora, minha filha, saiba pela minha boca como essa infelicidade pode, com a sua ajuda, ser mitigada. Não direi para mim, mas para você.
— Oh — exclamou Eugénie —, o senhor é mau fisionomista, cavalheiro, se imagina que é por mim que deploro a catástrofe que me expõe.
“Eu, falida! Que me importa? Perco meu talento? Não posso, como
a Pasta, a Malibran ou a Grisi5 amealhar o que o senhor nunca teria me dado, fosse qual fosse sua fortuna, cem ou cento e cinqüenta mil libras de renda que deverei apenas a mim, e que, em vez de me chegarem como me chegavam esses míseros doze mil francos que o senhor me dava, com olhares ranzinzas e palavras de censura acerca da minha prodigalidade,
viriam acompanhadas de aclamações, bravos e flores? E quando eu não mais possuir esse talento de que seu sorriso me prova que duvida, não me restará ainda esse amor furioso pela independência, que compensará sempre todos os tesouros e que triunfa em mim até mesmo sobre o instinto de conservação?
“Não, não é por mim que entristeço, tenho mil recursos: meus livros, meus lápis, meu piano, todas as coisas que não custam caro, e que posso continuar a comprar, ficarão para sempre comigo. Talvez pense que me aflijo pela sra. Danglars, mas novamente, não se engane. Ou muito me equivoco, ou minha mãe tomou todas as precauções contra a catástrofe que o ameaça e pela qual ela passará incólume. Ela se pôs ao abrigo, espero, e não foi cuidando de mim que ela se distraiu de suas preocupações financeiras, pois, graças a Deus, concedeume toda a independência a pretexto de que eu gostava da minha liberdade.
“Oh não, senhor, desde a minha infância vi acontecerem muitas coisas à minha volta. Compreendi-as muito bem, para que o infortúnio cause sobre mim mais impressão do que o merece. Desde que me conheço, nunca fui amada por ninguém: tanto pior! Isso levou-me naturalmente a não amar ninguém: tanto melhor! Agora já sabe a minha profissão de fé.”
— Então — disse Danglars, pálido de uma fúria que não se originava em absoluto no amor paterno ofendido —, então, senhorita, insiste em querer consumar minha ruína?
— Sua ruína! Eu — espantou-se Eugénie —, consumar sua ruína! Que quer dizer com isso? Não compreendo.
— Ainda bem, isso me deixa um raio de esperança; escute.
— Escuto — disse Eugénie, olhando tão fixamente para o pai que este precisou de um esforço para não baixar os olhos sob o poderoso olhar da moça.
— O sr. Cavalcanti — continuou Danglars — casa-se com você e, ao se casar com você, traz-lhe três milhões de dote, que investe no meu banco.
— Ah, excelente! — fez com um soberano desprezo Eugénie, alisando suas luvas uma na outra.
— Acha que eu lhe privaria desses três milhões? — disse Danglars. —
De forma alguma, esses três milhões estão destinados a produzir dez.
Obtive com um banqueiro, meu colega, a concessão de uma ferrovia, única indústria em nossos dias que oferece as possibilidades fabulosas de sucesso imediato que em outros tempos
Law6 anunciou, atraindo os bons
parisienses, eternos basbaques da especulação, num Mississipi fantástico.
Pelos meus cálculos, eles devem possuir um milionésimo de trilho, como se possuía antigamente uma jeira de terra árida nas margens do Ohio. É
um investimento hipotecário, o que é um progresso, como vê, uma vez que teremos pelo menos dez, quinze, vinte, cem libras de ferro em troca do seu dinheiro. Pois bem! Daqui a uma semana tenho que depositar em meu nome quatro milhões! Esses quatro milhões, como lhe digo, produzirão dez ou doze.
— Ora, durante a visita que lhe fiz anteontem, senhor, e da qual fez tanta questão de se lembrar — respondeu Eugénie —, vi-o entesourar, é o termo, pois não?, cinco milhões e meio. O senhor mesmo me mostrou a coisa em dois títulos do governo e estava espantado que papel de tão grande valor não ofuscasse meus olhos como faria um relâmpago!
— Sim, mas esses cinco milhões e meio não são meus, são apenas uma prova da confiança que depositam em mim. Meu título de banqueiro do povo valeu-me a confiança dos hospitais, que são os donos daqueles cinco milhões e meio. Em qualquer outra época eu não hesitaria em me servir deles, mas hoje todos sabem das grandes perdas que sofri e, como lhe disse, o crédito começa a se retrair para mim. De uma hora para outra, a administração pode reclamar o depósito. Se eu o tiver empregado em outra coisa, serei obrigado a declarar uma bancarrota vergonhosa. Não desprezo as bancarrotas, acredite, mas as bancarrotas que enriquecem e não as que arruínam. Já se você se casar com o sr. Cavalcanti, e eu botar as mãos nos três milhões do dote, ou pelo menos se acreditarem que irei botar, meu crédito consolida-se, e minha fortuna, que, de um mês ou dois para cá, foi tragada por abismos cavados aos meus pés por uma fatalidade inconcebível, se restabelece. Compreende?
— Perfeitamente: o senhor me penhora por três milhões, é isso?
— Quanto mais alta a soma, maior o elogio. Ela lhe dá uma idéia do seu valor.
— Obrigada. Uma última palavra: promete usar da maneira que lhe aprouver a cifra desse dote que o sr. Cavalcanti deve proporcionar, mas não tocar no capital? Não é uma questão de egoísmo, é uma questão de delicadeza. Disponho-me a ajudar a reerguer sua fortuna, mas não quero ser sua cúmplice na ruína dos outros.
— Mas se estou lhe dizendo — exclamou Danglars — que com esses três milhões...
— Acha que pode se sair dessa, senhor, sem precisar tocar nesses três milhões?
— É o que espero, mas com a condição de que o casamento, ao se realizar, consolide meu crédito.
— Tem como pagar ao sr. Cavalcanti os quinhentos mil francos que está me oferecendo pelo meu contrato?
— Ao voltar da Prefeitura, ele os receberá.
— Ótimo!
— Como, ótimo? Que quer dizer com isso?
— Quero dizer que, pelo que entendo, ao pedir minha assinatura, o senhor me concede total liberdade?
— Absoluta.
— Então, ótimo. Como eu lhe dizia, senhor, estou disposta a me casar com o sr. Cavalcanti.
— Quais são os seus planos?
— Ah, segredo meu. Onde estaria minha superioridade sobre o senhor se, ciente do seu, eu lhe contasse o meu?
Danglars mordeu o beiço.
— Quer dizer — disse ele — que está disposta a fazer algumas visitas oficiais absolutamente indispensáveis?
— Sim — respondeu Eugénie.
— E assinar o contrato dentro de três dias?
— Sim.
— Então é a minha vez, sou eu quem lhe digo: ótimo!
E Danglars pegou a mão da filha e apertou-a entre as suas.
Mas, coisa extraordinária, durante esse aperto de mão, o pai não se atreveu a dizer: “Obrigado, minha filha”; a filha não deu um sorriso para o pai.
— A entrevista está terminada? — perguntou Eugénie, levantando-se.
Danglars, com a cabeça, fez sinal de que não tinha mais nada a dizer.
Cinco minutos depois, o piano ressoava sob os dedos da srta. d’Armilly, e a srta. Danglars cantava a maldição de Brabantio sobre
Desdêmona7.
Quando a peça chegou ao fim, Étienne entrou e anunciou a Eugénie que os cavalos estavam no coche e que a baronesa a esperava para fazer suas visitas.
Vimos as duas mulheres passarem na casa dos Villefort, de onde saíram para continuar seu roteiro.
... o piano ressoava sob os dedos da srta. d’Armilly, e a srta. Danglars cantava a maldição de Brabantio sobre Desdêmona.
1 “Nada em excesso”: paráfrase inspirada em Filebo, XXVIII, diálogo de Platão (428/27- 347
a.C.).
2 “Carregue tudo consigo”: Aristóteles e Diógenes Laércio citam esta frase de Bias de Priena, sábio grego sobre o qual pouco se sabe. O contexto em que a frase é dita diz respeito à fuga diante de um invasor.
3 Porte Saint-Martin e Gaîté: teatros de Paris. A frase parece indicar o caráter melodramático das peças neles encenadas.
4 “segredo cheio de horror”: citação de Voltaire, na peça Zaire, de 1732, ato IV, cena V: “Eis que é conhecido este segredo cheio de horror.”
5 “Como a Pasta, a Malibran ou a Grisi”: Giuditta Pasta (1797-1865), soprano italiana cujo estilo dramático de interpretação distinguiu-a entre suas contemporâneas; Maria Malibran (1808-36), mezzosoprano francesa que estreou substituindo justamente a Pasta, e que se tornou uma lenda no mundo da ópera devido a seu talento e sua morte precoce; Giuditta Grisi (1805-40), mezzosoprano italiana para quem Vincenzo Bellini (1801-35) compôs a ópera Capuletos e Montéquios.
6 Law: John Law de Lauriston (1671-1729), aventureiro, banqueiro e economista escocês, foi o criador da Companhia do Ocidente, fundada após ele haver obtido a concessão da Louisiania.
Esta companhia recebeu a concessão do monopólio do comércio com a América do Norte.
7 “maldição de Brabantio sobre Desdêmona”: alusão à ópera Otelo, o mouro de Veneza, de Verdi, tragédia lírica em três atos, estreada em, 1832.